ZIBIA GASPARETTO




      EM
NADA  POR ACASO
NADA  POR ACASO (dez/2005, 384 pginas)


Sinopse:
Romance Medinico ditado por Lucius


    Uma me estril, um menino indesejado, uma ligao de puro e
profundo amor, reunidos em trs histrias parecidas, porm com desfechos
surpreendentes. Nesta emocionante histria, aborda-se o tema de mulheres
que buscam mes de aluguel para terem seus filhos. Marina, j formada em
Direito, ao procurar emprego, encontra com Adele, mulher poderosa e
presidente de uma empresa, que lhe prope ter um filho com o marido de
sua filha estril, para que seu neto possa assumir seu imprio. Comeam
assim, as mudanas na vida de todos, e este plano, mesmo gerado na
ambio, traz no ventre de aluguel um canal de unio entre a me estril e
um filho do corao.




     CAPTULO 1


     Marina estugou o passo, esbarrando nos transeuntes para abrir
passagem. Estava atrasada. Ainda tinha de passar em dois bancos antes que
fechassem e entregar aqueles documentos no escritrio do Dr. Moura.
Eram sigilosos e fora-lhe recomendado o mximo cuidado com eles,
devendo ser entregues diretamente a ele.
     Consultou o relgio de pulso e suspirou cansada. Por que tinha de ser
tudo ela? No escritrio de advocacia em que trabalhava, havia outros
funcionrios, mas o Dr. Olavo, seu chefe, parecia s ter olhos para ela.
Sempre que havia algum documento importante ou transao mais
complicada no banco, era ela quem ia.
     -- Voc vai -- determinava ele. -- Sei que far tudo certo.
     Ela ia. Comeara a trabalhar naquele escritrio logo que entrara na
faculdade de Direito. Havia lutado muito para pagar seus estudos. Sua
famlia morava em Sorocaba, interior de So Paulo. Oflia, sua me, era
costureira, e seu irmo menor, Ccero, estava cursando o ginsio. Seu pai
deixara a famlia quando Oflia ainda estava grvida de Ccero, e nunca
mais os procurara.
     Quando Marina decidiu fazer faculdade em So Paulo, Oflia foi
contra:
     -- Somos apenas ns trs -- disse, triste. -- O que faremos se voc
tambm for embora?
     -- Eu no vou embora -- respondera Marina com voz firme. -- Estou
precisando ganhar mais para pagar os estudos.
     -- Voc podia continuar trabalhando na farmcia do Seu Jos e
estudar outra coisa.
     -- Eu quero progredir na vida, mame. Ser algum. No quero ficar
atrs de um balco a vida inteira. Vou continuar os estudos e me formar.
     -- Bobagem! Voc j est com vinte anos. Logo vai se casar e deixar
os estudos de lado.
     Marina apertou os lbios e disse com raiva:
     -- No eu! Vou cuidar de minha vida e no vou arranjar ningum que
venha atrapalhar. Pense bem, me: vou fazer carreira, ganhar muito
dinheiro e levar vocs para So Paulo. O Ccero tambm vai precisar
continuar os estudos.
     -- Eu ganho o suficiente para viver. Para que mais?
     -- Voc faz o que pode. Mas tem nos sustentado toda a vida. Chegou
a hora em que eu posso ajudar a manter a casa.
     Oflia sorriu.
     -- Boa inteno voc tem. Mas, at que possa colaborar com as
despesas, vai demorar. Quanto acha que pode ganhar em So Paulo?
Depois, ter que se sustentar. No vai ser fcil.
     -- Eu me arranjo. A Bete me escreveu. Ela est morando em uma
penso, e no  cara. Vou trabalhar na farmcia at receber o pagamento e
depois irei para a penso. As aulas s vo comear no ms que vem.
Enquanto isso, procuro um bom emprego.
     -- No me agrada voc ficar l sozinha. No conhece ningum.
     -- Posso tomar conta de mim.
     No houve argumentos que a fizessem mudar de idia. Recebeu o
salrio e instalou-se na mesma penso onde vivia sua amiga Bete.
Interessada em fazer carreira na advocacia, procurou emprego e conseguiu
ser contratada pelo escritrio do Dr. Olavo Augusto Resende. Ele liderava
um grupo de advogados que trabalhavam na rea civil.
     Marina comeara modestamente como auxiliar. Desejando progredir,
esforava-se procurando aprender o que podia, interessando-se pelos
negcios do grupo e fazendo mais do que lhe pediam. Educada, inteligente
e, principalmente, arguta, Marina sabia como lidar com as pessoas. Os
advogados do escritrio logo perceberam que podiam contar com ela e a
encarregavam dos mais complicados assuntos, felizes por se livrarem de
atend-los pessoalmente e seguros de que ela agiria a contento.
      medida que Marina ia avanando nos estudos, suas despesas iam
aumentando, tornando sua situao difcil. Esse problema, porm, era
amenizado pelos aumentos salariais que ela recebia como incentivo para
completar o curso.
     Fazia seis meses que Marina havia se bacharelado, e ela desejava
mais. Olavo prometera-lhe algumas pequenas causas, para que ela pudesse
ir conquistando a confiana dos clientes. Dissera-lhe:
     -- Em nossa profisso,  preciso pacincia. O nome  importante.
Voc  boa, tem aprendido muito nestes anos aqui, mas ningum a
conhece. Precisa fazer nome.
     Ela continuava trabalhando como antes, e as causas no apareciam.
No escritrio, era ela quem tomava a maior parte das providncias
jurdicas, redigindo peties, acompanhando o andamento dos processos,
analisando-os, sugerindo providncias, comparecendo s audincias,
conversando com os advogados da parte contrria ou com os clientes e seus
adversrios.
     Trabalhava agora mais do que antes. Havendo terminado os estudos,
ficava at mais tarde. Muitas vezes levava processos para ler nos fins de
semana.
     Vendo-a assoberbada de trabalho, Bete meneava a cabea contrariada:
     -- Esto abusando de voc. Alm de ficar l at tarde todos todos os
dias, ainda traz trabalho para o fim de semana? No acha que  demais?
     -- Preciso adquirir experincia. A vantagem  minha.
     -- Enquanto isso eles lhe pagam pouco e ganham dinheiro  sua custa.
     -- No seja mercenria! Eu gosto de trabalhar. Fao isso por mim,
no por eles. Um dia ainda terei tudo quanto desejo.
     -- Se no acabar antes. Hoje tem um baile no clube em que o Carlos 
scio. Ele nos convidou. Vamos?
     -- V voc. Prefiro ficar aqui.
     -- Voc no tem jeito mesmo. O Marcelo est louco por voc. Ele
costuma ir a esse clube.
     -- No estou interessada.
     -- Ele  um pedao! Se fosse comigo, no ia perder a vez.
     -- Fique com ele.
     -- No entendo voc. No namora, no sai, s trabalha. Desse jeito
vai ficar para titia.
     -- Pouco me importa. Casamento no est em meus planos.
     -- Que horror! No diga isso nem brincando. Eu, quando aparecer
algum de quem eu goste, caso mesmo. No vejo a hora de ter famlia, de
ser feliz.
     -- Pois eu no. Casamento no d futuro. Eu quero mais  cuidar da
minha vida.
     Marina chegou ao banco e olhou desanimada para a imensa fila do
caixa. Foi falar com o gerente. Sorriu, conversou, contou uma histria que
inventou na hora e conseguiu que ele a atendesse rapidamente. Estava
habituada a essas gentilezas. Sabia que era bonita, elegante e bem-feita.
Seus cabelos castanho-dourados, seus olhos verdes e profundos, sua pele
morena e delicada, seus dentes alvos e bem distribudos, as duas covinhas
que se formavam quando sorria e principalmente seu irresistvel
magnetismo garantiam-lhe bom atendimento onde aparecesse.
     Fez o outro banco e foi ao escritrio do Dr. Moura. Ele no estava e
ela no queria entregar aquele documento  secretria. Era um contrato
muito importante. Fora por insistncia dela que o Dr. Olavo comeara a
atender casos na rea empresarial.
     Marina pensava que os grandes negcios aconteciam a todo momento
nas empresas. Participar deles era obter mais lucro em menos tempo.
Esplios, heranas e problemas familiares, alm de serem causas muito
demoradas e trabalhosas, eram menos rentveis. A princpio Olavo no se
interessara muito, mas depois acabou aceitando algumas causas nessa rea.
     Sentada no sof macio na penumbra da tarde que ia se findando,
Marina sentiu o prazer de usufruir daqueles momentos de descanso. Olhava
satisfeita para os magnficos quadros nas paredes, para o vaso de cristal
cheio de flores frescas, perfumadas e arrumadas artisticamente, para os
mveis finos, de bom gosto, e podia sentir a maciez do tapete sob seus ps.
     -- O Dr. Moura vai demorar. Tem certeza de que  s com ele?
     A secretria estava em p na sua frente.
     -- Tenho. Foi um pedido do Dr. Olavo. Ele vai vir?
     -- Vai. Mas no tem hora.
     -- Se ele vem, vou esperar.
     -- Aceita um caf ou um refrigerante?
     -- Um caf, obrigada.
     Marina tomou o caf e colocou a xcara de porcelana revestida de
prata na bandeja sobre a mesinha. Dispondo algumas revistas ao alcance
dela, a secretria disse:
     -- Fique  vontade -- e retirou-se para a outra sala.
     Seja por estar cansada, seja pela maciez do sof ou pela penumbra do
ambiente, Marina recostou-se e sem perceber adormeceu. Sonhou que
estava em um campo muito verde, cheio de flores e de pssaros que
cantavam alegres. Andava pelas campinas verdes com prazer e alegria,
aspirando gostosamente o perfume agradvel que vinha das flores. De
repente, parou. Uma mulher se aproximava. Seu rosto bonito e jovem a
atraa. De onde a conhecia?
     -- Como vai, Marina? -- perguntou ela.
     -- Bem. De onde nos conhecemos?
     -- J faz muito tempo. Voc no se lembra.
     -- Lembro que a conheo, mas de onde?
     -- De outras vidas.
     --Outras vidas? O que quer dizer?
     -- Esqueceu que j viveu na Terra antes? Precisa se lembrar da
reencarnao.
     -- No acredito que exista.
     -- Vai se lembrar quando chegar a hora. Vim v-la porque preciso da
sua ajuda. Voc me prometeu, e espero que cumpra.
     -- Eu? Ajuda? O que posso fazer?
     -- Em breve, muitas coisas mudaro em sua vida. Est tudo certo.
Lembre-se: no h nada errado. No existe erro.
     Marina acordou ouvindo ainda a voz dela repetindo essa frase e
sobressaltou-se ao perceber que a secretria estava na sua frente dizendo:
     -- O Dr. Moura telefonou e avisou que no vai mais voltar ao
escritrio hoje.
     -- Desculpe. Acho que cochilei... Aqui est to agradvel, que no
resisti. A que horas ele estar aqui amanh?
     -- Depois das dez. Tem um encontro com um cliente importante s
dez e meia.
     -- Estarei aqui s dez. Obrigada.
     Marina saiu. J havia escurecido, e o movimento das ruas continuava
intenso. Sentiu fome. Decidiu comer alguma coisa e voltar para casa.
Passava das sete, no iria mais ao escritrio. Estava cansada.
     Entrou em uma lanchonete lotada. Encontrou uma mesa, sentou-se,
pediu um sanduche e um guaran. Enquanto comia, pensava no que fazer
para melhorar suas finanas. O dinheiro que ganhava permitiu-lhe sair da
penso e alugar um pequeno apartamento no Largo do Arouche, que
mobiliou devagar porm com bom gosto. Era o seu canto. L sentia-se
dona da prpria vida. Tudo fora conseguido com seu prprio dinheiro, e
essa pequena vitria dava-lhe a certeza de que poderia conseguir muito
mais. Ela s precisava descobrir como.
     Imersa em seu pensamentos ntimos, Marina nem sequer percebia os
olhares interessados dos rapazes que a observavam. No que ela fosse
indiferente ao assdio masculino. Ao contrrio: Gostava de trocar olhares,
flertar, conversar quando conhecia algum interessante, mas nada alm
disso.
     Essa sua atitude despertava mais interesse, e ela era constantemente
assediada, recebendo inmeros convites, que aceitava quando sentia
vontade de espairecer um pouco.
     Bete no se conformava. Se fosse com ela! Tantos convites, rapazes
bonitos, homens inteligentes, e Marina indiferente, como se no fosse nada.
No entendia como ela, agindo dessa forma, tinha tanto sucesso.
     Marina pagou a conta e saiu, e enquanto se dirigia para casa
continuava pensando em como conseguir o que queria. Comeava a
desconfiar que estava perdendo tempo no escritrio do Dr. Olavo.
Aprendera muito com eles, mas agora comeava a pensar de outra forma e
a achar que eles poderiam progredir muito mais se modificassem alguns
conceitos que ela achava antiquados.
     Nos ltimos tempos eles haviam se acomodado e no pretendiam
crescer, abrir outras reas de atividade. Estavam cansados, velhos,
limitados. Para ele, bastava o que tinham. No se motivavam a maiores
esforos.
     Se eu continuar l, ficarei limitada tambm, pensou ela.
     Cogitou procurar emprego no departamento jurdico de uma grande
empresa. Dessa forma poderia progredir at que tivesse dinheiro e fama
para abrir seu prprio escritrio.
     Chegou em casa, passou os olhos pelo pequeno apartamento e decidiu:
     -- Amanh mesmo vou procurar outro emprego. Tenho conhecimento
suficiente para obter algo melhor. E estou certa de que vou encontrar.


     CAPTULO 2


     Sentada em uma luxuosa sala, Marina esperava. Havia se preparado
para a ocasio. Comprara roupa elegante, fora ao cabeleireiro, sentia-se
muito bem percebendo os olhares de admirao das pessoas onde passava.
Ia ser entrevistada novamente para conseguir um novo emprego.
     Fazia mais de um ms que ela comeara a procura. Fora a diversas
entrevistas, conversara com gerentes, preenchera cadastros. Pedia um alto
salrio. Precisava valorizar-se. No pretendia deixar o Dr. Olavo se no
fosse por um salrio compensador e um lugar onde pudesse progredir.
     Estava em conversaes com um grupo formado por uma cadeia de
empresas. Fora entrevistada duas vezes e agora a chamaram para uma
conversa na sala da presidncia. Antes, eles quiseram saber tudo sobre sua
vida: famlia, sade, aspiraes. Ela forneceu as informaes, admirada
com os detalhes que lhe pediam. Mas o fez de bom grado. Estava muito
interessada em conseguir aquele emprego. Percebera que l poderia chegar
aonde pretendia.
     -- Srta. Marina, queira entrar, por favor.
     Ela levantou-se e acompanhou a elegante secretria. Entrou em uma
sala grande e luxuosa, decorada com extremo bom gosto. Curiosa, olhou
para a escrivaninha, atrs da qual estava sentada uma mulher elegantemente
vestida, cujo rosto no lhe era estranho. Onde a teria visto?
     -- Queira sentar-se, senhorita -- disse ela.
     Marina procurou refazer-se da surpresa. No esperava encontrar uma
mulher. Acomodou-se e esperou.
     -- Meu nome  Adele -- disse ela, voz grave e educada. -- Estive
lendo sua ficha e tenho uma proposta a lhe fazer.
     -- Sim, senhora.
     -- Antes preciso dizer que o que vamos conversar  estritamente
confidencial. Prometa-me que, acontea o que acontecer, seja qual foi sua
resposta, voc guardar segredo absoluto.
     -- Sou pessoa discreta. Pode confiar. No direi nada a ningum.
     -- Eu a escolhi porque me pareceu que tem todas as qualidades que
procuro para a tarefa que vamos iniciar. Todavia, preciso da sua promessa,
sem a qual encerramos nosso assunto agora.
     -- Muito bem. A senhora tem minha palavra. Prometo que no
contarei a ningum o que se passar aqui.
     Adele suspirou, levantou-se e comeou a andar pela sala lentamente,
pensativa, escolhendo as palavras para o que ia dizer. Marina sentiu aguar
sua curiosidade. O que ela iria propor-lhe?
     Seria algum negcio escuso? As informaes que tinha sobre aquele
grupo eram as melhores. Tratava-se de pessoas muito respeitadas no
mercado. Agora ela j se recordara de onde conhecia Adele. Era das
revistas sociais, onde ela brilhava sempre e era tida como uma das
mulheres mais importantes.
     -- Preciso de sua ajuda para resolver um delicado problema pessoal.
Sei que pretende um emprego. Posso conseguir isso e muito mais. Sei
tambm que  ambiciosa e no se conforma em levar vida modesta. Se
aceitar o que vou lhe propor, receber uma quantia que a tornar
independente. Poder viver confortavelmente pelo resto da vida.
     Marina no perdia nenhuma palavra. Adele continuou:
     -- Meu marido morreu no comeo do ano passado. Metade das suas
aes em nossas empresas so minhas e de minha nica filha. A outra
metade seria do filho varo. Como no tive um filho, e minha filha tambm
no, decorrido o prazo de trs anos aps o falecimento de meu marido, os
bens iro para o meu cunhado.
     Ele faz parte do grupo. Com essas aes, se tornar majoritrio e terei
que deixar a presidncia.
     Marina ouvia com interesse. Adele calou-se durante alguns instantes,
depois prosseguiu:
     -- Isso seria uma desgraa, porque ele, alm de no ter nenhuma
competncia, no  confivel, tendo sido mantido aqui apenas em
considerao ao av, que foi o fundador da empresa e deixou em
testamento essas determinaes pensando com isso impedir que nossos
negcios cassem nas mos de estranhos.
     Adele fez ligeira pausa e, notando que Marina ouvia atentamente,
continuou:
     -- Minha filha  casada h cinco anos e no tem filhos. Como eu
disse, faz um ano e meio que meu marido morreu. Se ela viesse a ter um
menino, tudo estaria resolvido.
     -- Mas ela ainda poder ter.
     Adele abanou a cabea e disse com tristeza:
        -- Maria Eugnia  estril. Nunca poder ter filhos. H dois meses
tive essa certeza. Para tentar resolver esse problema, fiz um plano. A
princpio ela recusou, mas agora, diante dos fatos, acabou concordando. E a
nica chance de preservarmos nossos negcios, como sempre fizemos. 
para isso que precisamos da sua ajuda. Temos um ano e meio para resolver
isso.
        -- No estou entendendo. O que posso fazer?
        -- Tenho tudo planejado. Voc deixar seu emprego e se mudar para
um lugar que s ns conhecemos. L, meu genro ir ter com voc. Quero
que tenha esse filho por Maria Eugnia.
        Marina levantou-se como que movida por uma mola.
        -- Como?! Eu?!
        -- Sim. Voc  uma moa saudvel, inteligente, culta, de boa ndole,
bonita, competente e ambiciosa. Ser a me ideal para o meu neto.
        -- A senhora est se excedendo. Isso nunca dar certo. No posso
fazer uma coisa dessas. Por que faria?
        -- No se precipite. Teria um isolamento de nove meses, mas depois
estaria livre para fazer o que quisesse e teria minha ajuda e proteo. Alm
disso, eu lhe darei um milho de dlares.
        Marina deixou-se cair na poltrona, assustada. Um milho de dlares!
Quando recobrou o flego, objetou:
        -- Isso nunca vai dar certo. E se for uma menina?
        -- Pensei nisso. Mas  a nica alternativa; temos que tentar e correr o
risco. Espero que seja um menino.
        -- A senhora no precisa fazer isso. Pode adotar um beb recm-
nascido e registr-lo como de sua filha. Ningum descobrir. H mes
solteiras que no tm como criar os filhos e que
        cederiam a vocs.
     -- Pensei nisso. Esse menino vai herdar todas as aes nossas. O
futuro dos nossos negcios estar em suas mos. No posso arriscar
adotando uma criana de pais desconhecidos. Meu genro  homem
inteligente e cheio de qualidades, saudvel, lcido. Por isso selecionei uma
mulher como voc. Tenho certeza de que vo gerar um ser capaz de arcar
com essa responsabilidade.
     Marina levantou-se preocupada:
     -- Mesmo assim, penso que no dar certo. No tenho como fazer
isso.  contra meus princpios.
     -- Voc  diferente das moas que entrevistamos. No tem o sonho de
se casar e largar tudo pelo marido, como a maioria delas. Far um sacrifcio
durante alguns meses e depois ter tudo quanto deseja pelo resto da vida.
Eu lhe darei um milho de dlares seja qual for o resultado do nosso
contrato.  um bom negcio para voc, e estaria nos ajudando muito.
     -- Disse que sua filha concordou. E seu genro? Ele sabe?
     -- Sim. Ele relutou, mas por fim aceitou cooperar.
     -- Ainda assim, me parece impossvel.
     -- No precisa me responder agora. V para casa, pense com calma.
Dou-lhe dois dias para decidir. Durante o tempo em que ficar de recesso,
enquanto espera o nascimento da criana, estar em uma linda casa, com
todo o conforto, ter polpuda mesada para gastar no que quiser. Voc dirige
automvel?
     -- Tenho carta, mas no tenho carro.
     -- Ter um em seu nome assim que concordar.
     Adele aproximou-se de Marina e segurou-a firme nos braos. Olhando
em seus olhos, disse com voz emocionada:
     -- Por favor!  um obsquio pessoal pelo qual lhe serei grata pelo
resto da vida. Prometa que vai olhar meu problema com simpatia.
     Marina sentiu o corpo estremecer. O magnetismo daquela mulher era
quase irresistvel. Comeava a entender por que ela ocupava aquele cargo e
era to famosa.
     -- Certamente. Sua proposta  tentadora, mas preciso pensar. No
creio que eu esteja  altura do que me pede. Como pensa fazer para que
acreditem que  filho legtimo de sua filha?
     --  fcil. Ela usar uma barriga postia.  medida que o tempo for
passando, ela ir aumentando a barriga. Ningum vai desconfiar. Quando
se aproximar a hora, ela ir para onde voc estiver. Quando o beb nascer,
ela o apanhar e voltar com ele. Quanto aos mdicos,  fcil inventar uma
viagem para o exterior,  consulta a algum especialista. Quanto a isso no
se preocupe, ser fcil. Tenho tudo planejado. Sua tarefa ser ir para o
lugar combinado, relacionar-se com Henrique e ficar l at o nascimento.
Depois estar livre para retomar sua vida.
     -- Isso me parece loucura. Nunca dar certo! No posso fazer uma
coisa dessas.
     -- No se precipite. Embora envolva sua vida pessoal, trata-se de um
negcio, findo o qual, cumpridas as partes, tudo voltar ao normal. Se
recusar, vai ficar arrependida, tenho certeza.
     Marina sentia-se atordoada. Precisava respirar. Resolveu ir embora e
tornou:
     -- Est bem. Vou pensar.
     -- Lembre-se: voc prometeu. Nenhuma palavra a ningum.
     -- Pode confiar. Essa  uma histria que minha famlia nunca poder
saber. Passar bem, senhora.
     -- At daqui a dois dias. Estarei esperando.
     Marina saiu rapidamente. Uma vez na rua, respirou fundo. Aquilo no
podia ser verdade. Parecia uma histria de filme. Adele estava louca. Ela
nunca concordaria. Relacionar-se com um homem casado, com
consentimento da esposa, para gerar um filho dele, era coisa de gente
psicologicamente doente. Ela nem precisaria esperar pelos dois dias para
recusar.
     Resolveu ir para casa. No estava com cabea para trabalhar. As
palavras de Adele, seu perfume delicado, seu olhar emocionado, no lhe
saam da lembrana.
     Apesar do inusitado, a proposta era tentadora, um milho de dlares!
Mesmo que conseguisse um timo emprego, se esforasse muito, seria
impossvel conseguir tanto em to pouco tempo.
     Ela no desejava casar-se. Um filho! Como se sentiria? Deu de
ombros. Ele no seria seu. Teria outra famlia, mas certamente seria muito
rico. Viveria uma vida boa, talvez melhor do que ela pudesse oferecer-lhe,
caso ele fosse realmente seu.
     Adele deixara claro que tudo era apenas um bom negcio, com o qual
todos ganhariam. Dissera tambm que lhe seria grata pelo resto da vida.
     Adele era uma mulher forte, sabia o que queria. No mundo dos
negcios era preciso ousar, e aquele plano era uma ousadia. Podia no ser
um menino, mas, ainda assim, ela queria tentar.
     Adele era to determinada, to segura de si, que Marina comeou a
pensar que havia probabilidades de o plano dar certo. Se fosse um menino,
ela teria resolvido seus problemas. Havia cinqenta por cento de chances.
     Fazia dois meses que Adele estava procurando com muito cuidado a
mulher para gerar seu neto. Se ela recusasse, certamente outra aceitaria. Era
muito dinheiro em jogo.
     Marina lembrou-se das entrevistas minuciosas que fizera. Haver sido
escolhida para essa parceria a envaidecia. Era um caso de confiana. Mas
ela no podia aceitar.
     Decidiu esquecer o assunto. Estava resolvido. Dois dias depois,
quando voltasse a ver Adele, diria "no", definitivamente. Ela devia ter
outras candidatas; encontraria logo uma substituta.
     Sentiu fome e lembrou-se de que no havia almoado. Olhou o
relgio: passava das sete. Tomou um banho e foi  cozinha preparar alguma
coisa para comer. Depois, apanhou um livro, esticou-se no sof e tentou ler.
Mas o rosto de Adele, sua sala, seu olhar, suas palavras voltavam  sua
mente, e ela no conseguia entender o que estava lendo.
     Era intil tentar ler. Tinha de reconhecer que a proposta de Adele
mexera com sua cabea.
     Um milho de dlares... O que faria com tanto dinheiro? Compraria
um bom apartamento e abriria um escritrio de advocacia. Seria um lugar
agradvel, bonito, diferente do lugar onde trabalhava. Mveis modernos,
quadros nas paredes, flores. Uma recepcionista amvel, bem vestida,
bonita, que soubesse receber os clientes. Uma secretria eficiente e
dedicada, um rapaz para os servios de rua.
     Compraria uma boa casa para sua me. No a deixaria mais costurar
para fora. Talvez trouxesse a famlia para morar em So Paulo. Nesse caso,
ao invs de um apartamento, compraria uma boa casa, em um bairro de
classe mdia, onde Ccero pudesse ter acesso a um bom colgio. Seria
maravilhoso!
     De repente, Marina lembrou-se de que havia decidido no aceitar a
oferta. Uma dvida comeou a incomod-la: seria justo recusar e deixar
que sua me continuasse costurando, que seu irmo ficasse com os
horizontes limitados, sem cursar uma universidade?
     Apesar disso, ela no se sentia com disposio de aceitar. Dali a dois
dias, diria "no" a Adele. Ela que procurasse outra.
     Marina pensou que, tendo resolvido o assunto, poderia descansar, mas
enganou-se. Naquela noite teve dificuldade para dormir. E, quando
conseguiu, teve um pesadelo terrvel. Por ter dormido mal, perdeu a hora na
manh seguinte.
    Quando entrou no escritrio, j o Dr. Olavo a esperava com
impacincia.
     -- O que houve com voc? Estou esperando h meia hora. Tenho uma
audincia importante esta tarde, vim cedo para estudar melhor os detalhes
do processo, e voc no apareceu.
     -- O senhor podia ter apanhado no arquivo as anotaes do caso.
Esto em dia.
     -- No gosto de mexer no arquivo. Depois, a obrigao  sua. Voc
devia estar aqui no horrio. Nunca venho to cedo. Vai ver que todos os
dias chega tarde.
     Ele estava sendo grosseiro, e Marina procurou controlar-se. Ela
sempre fora cumpridora de suas obrigaes, trabalhava alm do horrio,
levava processos para casa, e agora ele reclamava a meia hora de atraso
que ela tivera. Era injusto, e ela a custo conteve a indignao.
     Respirou fundo, apanhou as anotaes no arquivo e voltou  sala do
Dr. Olavo. Ele apanhou os documentos, folheou-os, depois disse:
     -- Eu me recordo de que mandei fazer uma declarao na semana
passada que deveria ser juntada ao processo. Pelo jeito, voc no fez.
    -- Claro que eu fiz doutor.
    -- Pois no est aqui.
     Marina apanhou os documentos, folheou-os e devolveu-os, dizendo:
    -- Aqui est ela, doutor.
    -- Ah! Bem... Voc no arquiva em ordem. Por isso no encontrei.
    -- Precisa de mais alguma coisa, doutor?
    -- Voc no devia ter feito um resumo das providncias e dado um
parecer?
     -- No foi possvel, porque ontem essa pasta no estava no arquivo.
Fui informada de que o Dr. Mrio a havia apanhado para estudar. Ele vai
acompanh-lo na audincia.
     -- Por causa disso terei que ler todo o texto.
     Marina deixou a sala com raiva. Parecia-lhe estar vendo o Dr. Olavo
pela primeira vez. Estava cansada e sem disposio para trabalhar.
Procurou a secretria e informou:
     -- No estou me sentindo bem. Vou para casa.
     -- Nesse caso deve ir ao mdico.
     -- Estou com dor de cabea. Se no melhorar, irei mesmo. Avise o
Dr. Olavo, por favor.
     Sem esperar resposta, ela saiu. Precisava pensar melhor. De repente,
aquele escritrio pareceu-lhe feio, triste, desagradvel. As pessoas que l
trabalhavam eram medocres. Aquele lugar no tinha futuro.
     Lembrou-se do escritrio de Adele e suspirou. Tudo l era lindo. Seria
bom poder trabalhar em um lugar assim, em meio a tantas coisas bonitas,
de bom gosto.
     Ficou andando pela cidade, olhando vitrines, tentando esquecer um
pouco a preocupao, mas no conseguiu. Quando estava cansada, comeu
um lanche, depois entrou em um cinema. O filme
     era bom, mas ela cochilou, pois estava com muito sono.
     Saiu do cinema e foi para casa. Entrou no apartamento, olhou em volta
e pensou: por que tudo lhe parecia diferente? At aquele apartamento, que
alugara como uma conquista, agora lhe parecia pequeno, feio, triste.
     Ligou o rdio, sentou-se e tentou ler. Mas sentia-se inquieta, agitada,
no conseguia parar de pensar em Adele. Foi se deitar e finalmente
conseguiu dormir. Estava muito cansada.
     Na manh seguinte, passava das dez quando o Dr. Olavo chegou ao
escritrio. Chamou Marina, entregou-lhe uma pasta fazendo-lhe algumas
recomendaes, depois pediu informaes sobre um cliente. Marina no se
recordava do caso, ao que o Dr. Olavo tornou:
     -- No sei o que est acontecendo com voc. Est desatenta, sem
interesse. Ontem me deixou na mo sem mais aquela. Gostaria que se
explicasse.
     -- Sinto muito, doutor. Ontem no estava bem, mas hoje melhorei.
     -- No parece. Voc era ativa, agora no presta a devida ateno ao
trabalho.
     Marina no se conteve:
     -- Isso no  verdade. Desde que entrei aqui, tenho me esforado em
atender a tudo que precisam, trabalhando fora de hora, levando processos
para casa. Ontem, s porque passei mal  noite e atrasei meia hora, o
senhor me destratou.
     -- Se voc pretende ganhar dinheiro na sua profisso, precisa tornar-
se uma boa profissional. Graas a ns voc tem essa chance, mas  claro
que temos nossas condies.
     -- Por falar nisso, doutor, desde que me bacharelei o senhor vem
prometendo pequenas causas, mas are agora nada.
     --  que voc ainda no est preparada.
     -- Nesse caso, por que todos os casos deste escritrio passam por
mim, tm meu parecer e na maioria das vezes os senhores fazem o que eu
digo?
     -- O que  isso? Est insinuando que estamos nos aproveitando de
voc? Que absurdo!  isso que d ajudar os outros. Faa-me o favor!
     A indignao cobriu o rosto de Marina de rubor:
     --  o senhor quem est dizendo. Eu quis dizer apenas que j estou
preparada para trabalhar por conta prpria.
     -- Nesse caso, pode ir. Est despedida!
     Marina saiu e ainda ouviu o Dr. Olavo dizer  secretria:
     -- Quero ver onde ela vai bater. Por certo voltar correndo para pedir
desculpas. Aceitarei s se for nas minhas condies.
     Marina apanhou seus pertences e saiu. Sua cabea doa. Ela entrou em
uma lanchonete e pediu uma gua. Sua boca estava amarga.
     O que estava acontecendo? Por que de repente as coisas no estavam
mais dando certo? Precisava pensar esfriar a cabea. De uma coisa tinha
certeza: no voltaria ao escritrio do Dr. Olavo. Suas ltimas palavras
ainda soavam, em seus ouvidos. Haveria de mostrar-lhe que no precisava
deles para viver. Havia se preparado, estudado muito, se dedicado, sabia
que tinha um bom desempenho.
     Comprou o jornal e foi para casa. Talvez fosse melhor procurar outro
emprego, pelo menos at conseguir juntar dinheiro para abrir seu prprio
escritrio.
     Comeu um lanche, depois se sentou no sof e comeou a ler o jornal.
No encontrou nada que a interessasse. Havia dois advogados procurando
moa para servios gerais de escritrio. O salrio era insignificante e no
daria para pagar suas despesas. Depois, estava formada, tinha competncia.
     O telefone tocou. Marina atendeu: Uma voz de mulher perguntou:
     --  Dona Marina?
     -- Sim.
     -- Aqui  Mrcia, a secretria da Dra. Adele. Estou ligando para
confirmar sua entrevista com ela, amanh s dez horas.
     Marina estremeceu. Precisava ir.
     -- Pode marcar. Irei.
     Ela agradeceu e desligou. Depois se deixou cair na poltrona,
pensativa. Havia pensado em dizer "no", mas agora, na situao em que se
encontrava, talvez fosse bom analisar melhor aquela proposta.
     Recordou-se das palavras de Adele:
     -- O tempo passa depressa. Logo voc estar livre, com uma boa
situao financeira, e eu lhe serei grata pelo resto da vida.
     Apesar disso, ela no tinha coragem de aceitar. Parecia-lhe estar se
prostituindo, vendendo seu corpo. Adele fizera questo de dizer que era
apenas um negcio. Olhando assim, podia-se dizer que era um excelente
negcio.
     Durante o resto do dia, Marina no conseguiu pensar em outra coisa.
 noite, deitou-se tarde. Sentia o corpo dodo, como se tivesse carregado
pedras o dia inteiro.
     Lembrou-se das palavras de sua me:
     -- Quando estiver com um problema e no souber o que fazer, pense
em Deus, entregue nas mos dele. Tudo se resolver.
     Havia quanto tempo ela no rezava? No que fosse descrente, mas na
maior parte do tempo estava to envolvida com trabalho que se esquecia de
rezar.
     Respirou fundo e sentiu que precisava de ajuda. Sua cabea estava
confusa. Murmurou uma prece, pedindo lucidez para decidir o melhor.
Finalmente, adormeceu.
     Sonhou que estava andando em jardim muito florido e perfumado.
Encontrou-se com uma mulher de fisionomia agradvel. Tinha certeza de
que a conhecia.
     -- Minha querida! Est na hora de cumprir o que me prometeu. No
se esquea do que combinamos.
     -- Estou confusa. No me recordo de nada.
     -- Vou reavivar sua memria.
     Conversaram, e por fim a mulher disse:
     -- Agora voc precisa ir. Lembre-se de que deve guiar-se somente
pelas leis universais. Esquea as coisas do mundo. Cooperar com a vida 
um trabalho abenoado.
     Ela repetiu essas palavras vrias vezes e Marina acordou ouvindo essa
frase. O dia havia amanhecido. Ela sentou-se na cama, sentindo uma
sensao agradvel no peito. Lembrou-se
     perfeitamente do rosto da mulher, de suas ltimas palavras. De onde a
conhecia?
     Esforou-se para se recordar da conversa que haviam tido, mas no
conseguiu. Aquele sonho no era igual aos outros. Talvez fosse uma
resposta a suas oraes.
     De repente, ela se recordou do cochilo que tivera na sala de espera do
Dr. Mauro. Havia sonhado com a mesma mulher.
     Essa descoberta a emocionou. Pelo visto, ela queria que Marina
aceitasse a proposta de Adele. Isso no seria um contra-senso?
     Fazer da maternidade, do sexo, um negcio a servio da ambio de
uma famlia?
     -- Esquea as coisas do mundo. Cooperar com a vida  um trabalho
abenoado.
     Talvez estivesse enganada. Deus no podia estar a favor de um
negcio como aquele. Marina sentia-se confusa, insegura. Ainda no estava
certa de nada.
     Horas depois, conforme o combinado entrou na sala de Adele. A
empresria abraou-a, f-la sentar-se em um sof a seu lado e perguntou:
     -- E ento? Vai fazer o que lhe pedi?
     -- Eu estava disposta a recusar, entretanto algumas coisas
aconteceram.
     -- Voc est disposta a aceitar!
     -- Gostaria de conhecer mais alguns detalhes.
     -- Voc ter que se dedicar totalmente ao empreendimento. Ningum
poder saber onde se encontra durante o desenrolar do processo. Por agora
 s o que posso dizer. Pude ter certeza de que ter todo o apoio. Nosso
projeto ser um sucesso! Ento, aceita?
     -- Sim. Aceito.
     -- Tenho certeza de que no se arrepender.
     Adele abraou-a satisfeita e continuou:
     -- De agora em diante, voc ficar sob minha guarda. Cuidarei de
tudo pessoalmente. Vamos formalizar nosso acordo.
     Ela saiu e voltou em seguida, estendendo-lhe alguns papis.
     -- Aqui est o contrato. Leia e assine.
     Marina leu, e nele no havia nenhuma meno ao tipo de servio que
ela deveria prestar. Era um contrato simples de trabalho no qual ela se
comprometia a ficar trabalhando por um ano em tempo integral, receberia
um carro novo e durante esse tempo teria todas as despesas pagas. Findo o
prazo, teria um prmio em moeda nacional equivalente a um milho de
dlares.
     A mo de Marina tremia um pouco quando assinou. Adele apanhou o
contrato, devolveu-lhe uma cpia e considerou:
     -- Voc tem at amanh para deixar o emprego e despedir-se de sua
famlia. Uma viagem repentina de negcios, sem maiores detalhes. Depois
de amanh, as dez, passarei em sua casa para busc-la.
     -- Um dia  pouco tempo para preparar tudo.
     --  mais do que suficiente.
     Foi at a escrivaninha, abriu a gaveta, apanhou um envelope e
entregou-o a ela:
     -- Gaste o que precisar. Amanh as dez irei busc-la.
     Marina deixou o escritrio pensando em como resolver tudo em to
pouco tempo. Mas estava feito. Agora no tinha mais como voltar atrs.
Ainda no sabia se havia tomado  deciso certa. O tempo se encarregaria
de mostrar.




     CAPTULO 3




     Marina olhou em volta emocionada. Faltavam poucos minutos para as
dez horas e ela j tinha tudo pronto.
     Na vspera, estivera no escritrio do Dr. Olavo para receber o que lhe
era devido, o que foi fcil, uma vez que no tinha nenhum contrato de
trabalho nem era funcionria devidamente registrada. A surpresa do Dr.
Olavo deu-lhe uma sensao de prazer. Dissera-lhe que havia recebido uma
proposta de trabalho muito vantajosa e teria de viajar imediatamente. Ele
perguntou de quem tinha sido a oferta, e ela deu-lhe um nome fictcio.
     J com o senhorio do apartamento, Marina teve de negociar a quebra
de contrato. Por fim, mandou seus mveis para um depsito, pagando
antecipadamente o aluguel de um ano. O dinheiro que Adele lhe dera para
essas despesas foi mais que suficiente.
     Como ltima providncia, a jovem telefonou para a me e informou-
lhe que iria para o exterior trabalhar, mas que mandaria dinheiro todos os
meses e telefonaria sempre.
     O telefone tocou. Era Adele:
     -- Marina, estarei a em cinco minutos. Espere na porta.
     A moa desceu, entregou a chave ao porteiro e esperou. O carro parou
e ela viu que Adele estava na direo. A empresria apertou um boto e o
porta-malas abriu-se. Marina colocou nele a bagagem e sentou-se ao lado
de Adele.
     Seu corao batia descompassado. Mil perguntas cruzavam seu
pensamento, mas ela perguntou apenas:
     -- Para onde vamos?
     -- Para um lugar bonito, confortvel, onde voc ficar o tempo todo.
     Adele no queria dar detalhes. O segredo fazia parte do jogo. Para
Marina, porm, o lugar no importava, nem as pessoas com as quais se
relacionaria. Quando tudo terminasse, ela gostaria de esquecer esse
episdio inusitado e desconfortante.
     O lado prazeroso era pensar no conforto que poderia dar  famlia. O
resto no importava.
     Viajaram algumas horas e pararam para almoar. Estavam no interior
de So Paulo. Adele era companhia agradvel. Conversaram sobre vrios
assuntos, e Marina aos poucos foi se sentindo mais  vontade.
     Depois do almoo, viajaram mais uma hora, e Adele saiu da rodovia
tomando uma estrada vicinal. Por fim, pararam diante de um imenso porto
de madeira. Adele desceu e Marina, vendo que ela ia abri-lo, ajudou-a e
esperou que ela passasse o carro para fech-lo.
     Entrou novamente no carro e pecorreram uns trs quilmetros, at que
o carro parou diante de um chal gracioso, rodeado por frondosas rvores e
canteiros floridos. Uma mulher apareceu na porta e, vendo-as,
imediatamente apressou-se em cumpriment-las.
     -- Marina, esta  Clia, pessoa de minha confiana. Cuidar de voc
enquanto ficar aqui.
     Era uma mulher de uns cinqenta anos, mulata, cabelos puxados para
trs em um coque na nuca, rosto redondo, lbios grossos, olhos vivos. Sua
roupa impecvel revelava capricho e eficincia. Marina gostou dela.
Cumprimentou-a gentilmente.
     Entraram e Marina adorou o que viu. Era uma casa espaosa,
mobiliada com gosto e conforto. Havia flores frescas nos vasos, um
escritrio com uma boa biblioteca, trs luxuosas sutes, duas salas de estar
e uma de jantar e outras dependncias.
     -- Esta casa faz parte de uma fazenda, propriedade de minha famlia
-- esclareceu Adele. -- Quero que verifique tudo e diga se precisa de algo
mais.
     -- Est melhor do que eu esperava.
     -- Vou instalar-me na casa principal, que fica atrs do parque do
outro lado do lago.
     -- Eu gostaria de conversar, saber mais detalhes de como tudo
acontecer.
     Adele sorriu.
     -- Vamos descansar um pouco. A noite conversaremos. No se
preocupe: ser bem orientada.
     Ela se foi e Marina olhou em volta. O lugar era aconchegante, lindo.
Clia pareceu na sala e informou:
     -- Voc deve estar cansada. Preparei um banho com ervas
repousantes. Antes, deseja comer ou beber alguma coisa?
     -- Obrigada, Clia. Estou sem fome.
     -- Quero que me diga como gosta que arrume suas coisas. Organizei
um cardpio: comida nutritiva, saudvel. Est na biblioteca, sobre a
escrivaninha.  apenas um ponto de partida. O que no aprovar,
modificaremos.
     Marina notou que ela abrira suas malas, separara as roupas e colocara-
as sobre a cama. Clia sugeriu onde achava bom guardar cada coisa, e
Marina concordou prontamente.
     Depois, a jovem apanhou uma tnica leve e foi ao quarto de banho. A
banheira estava cheia e havia um delicado perfume silvestre no ar. Sobre
um console ao lado da banheira, havia vrios frascos, que Marina examinou
encantada.
        Imediatamente despiu-se, entrou na banheira e estendeu-se com
prazer. Notou que havia vrios saquinhos na gua. Apanhou um e cheirou.
Era deles que vinha o perfume. Notou que eles estavam delicadamente
amarrados para que as ervas no se espalhassem.
        Enquanto se entregava ao prazer do momento, Marina se perguntava
como tudo iria acontecer. Estremecia pensando que teria de entregar-se a
um homem que no conhecia e pertencia a outra mulher.
        Esse pensamento a deixava inquieta, preocupada. O que ele pensaria a
respeito dela? Se ele concordara com o projeto, no seria justo que a
criticasse por ter concordado. Mas, no fundo, certamente imaginaria que ela
era uma interesseira, que fizera tudo por dinheiro.
        De fato, aquele dinheiro representava sua independncia financeira.
Mais do que isso: a possibilidade de Ccero estudar e sua me parar de
trabalhar. No era pelo dinheiro em si, mas pela felicidade que ele
proporcionaria  sua famlia.
        Concluiu que no lhe importava o que o genro de Adele ou sua filha
pensassem dela. Depois de tudo, no pretendia v-los nunca mais. Passaria
uma borracha nessa fase de sua vida. Afinal, um ano passaria depressa.
Enquanto isso, procuraria estudar muito, porque pretendia continuar sua
carreira, desta vez por conta prpria.
        Depois do banho, iria  biblioteca verificar os livros e pedir os que
desejava ler. Assim, aproveitaria mais o tempo.
        Depois do banho, vestiu-se e foi  biblioteca. O cansao desaparecera
e ela estava excitada demais para tentar dormir. Sobre a mesa, alm da
pasta com o cardpio, havia um ndice indicativo dos livros que estavam
caprichosamente dispostos na estante que tomava duas paredes inteiras da
sala.
        Marina ficou fascinada. L havia livros sobre diversos temas, e ela
interessou-se de tal forma que nem notou que o dia estava escurecendo.
     Clia entrou com uma bandeja, dizendo:
     -- Trouxe um suco de mamo com laranja e alguns pezinhos. Est
muito calor, e voc no tomou nada.
     -- Obrigada.
     Marina apanhou o copo que Clia lhe ofereceu e bebeu com prazer.
Estava delicioso.
     -- Coma um pozinho, est fresquinho.
     A jovem experimentou com satisfao.
     -- Vim saber o que voc quer para o jantar.
     -- Depois deste lanche, no vou querer jantar.
     -- De forma alguma! Voc precisa alimentar-se bem. Vou preparar
um prato leve e nutritivo.
     Clia saiu e Marina sorriu contente. Afinal, tudo estava sendo melhor
do que imaginara. Ia ficar mal-acostumada e sentir falta quando aquilo
acabasse.
     Depois do jantar, Marina voltou  biblioteca. Acomodou-se para ler,
mas a porta abriu-se e Adele apareceu. Aproximou-se, dizendo:
     -- Precisamos conversar. Vou embora amanh bem cedo. Temos que
acertar os detalhes.
     -- Pode falar.
     Adele acomodou-se em uma poltrona e continuou:
     -- Amanh cedo, vir um mdico examin-la. Ele mora na cidade
mais prxima e, apesar de ser do interior,  um timo obstetra. Eu lhe disse
que voc  minha sobrinha, seu marido trabalha em So Paulo e dentro em
breve ter que fazer um estgio no exterior. Por isso,voc ficou a meus
cuidados. Vocs desejam muito um filho, mas depois de cinco anos de
casamento no conseguiram.
     Vendo que Marina ouvia com ateno, Adele prosseguiu:
     -- Por recomendao minha, ele foi escolhido para examin-la. Antes
de ir para o exterior, seu marido vir aqui para v-la. Eu gostaria que at l
ele j tivesse um diagnstico.
     -- Tudo bem. O que acontecer depois?
     -- O Dr. Gilberto vai examin-la e dizer quais os seus dias frteis.
Vamos programar a visita do meu genro no perodo certo.
     Marina suspirou inquieta e Adele tornou:
     -- No se preocupe nem fique constrangida. Nesse dia, eu, minha
filha e meu genro viremos para a fazenda. Faremos tudo de um jeito que
voc no ter que enfrent-los. Garanto a voc que Henrique  um homem
saudvel, agradvel, e a tratar com extrema delicadeza.
     -- No nego que estou nervosa, mas saberei controlar-me.
     -- No sei se conseguiremos logo. Mas vamos tentar at conseguir.
     Adele levantou-se.
     -- Vou me deitar, pois pretendo madrugar. Voc tem meus telefones;
pode ligar-me sempre que precisar. Alm de ns trs, s Clia sabe a
verdade. Pode confiar nela. E uma boa pessoa; far tudo para tornar sua
vida mais agradvel.
     Depois que ela se foi, Marina tentou ler, mas no conseguiu. Ao
pensar que teria esse encontro em breve, sentia-se inquieta. Nunca havia
permitido a nenhum homem entrar em sua intimidade. Agora, teria de
permitir a um desconhecido que o fizesse.
     Desejou que o tempo passasse rpido e logo ficasse livre de qualquer
compromisso e voltasse a cuidar de sua vida. Tentou acalmar-se. Sentia
que, se ficasse muito ansiosa, seria pior.
     Naquela noite, custou a dormir. As palavras de Adele no lhe saam
do pensamento. Quando adormeceu, sonhou novamente com a mesma
mulher que lhe pedira para aceitar aquele encargo.
     Marina caminhava por uma estrada quando ela apareceu, abraou-a e
disse com doura:
     -- Acalme-se. Voc no est fazendo nada errado. Um dia saber toda
a verdade e se sentir feliz por ter aceitado esse compromisso. Eu a
abeno por isso e prometo ajud-la sempre. No se esquea de que eu a
amo muito.
     Toda a inquietao de Marina desapareceu. Uma emoo agradvel
brotou em seu corao e ela foi acometida de muita alegria. Remexeu-se na
cama e mergulhou em um sono reparador.
     Acordou na manh seguinte descansada, contente. Enquanto tomava o
caf, Clia avisou:
     -- O Dr. Gilberto vir examin-la hoje, s dez horas.
     -- Estarei esperando.
     -- Dona Adele pediu que lhe dissesse que mandar seu carro dentro
de dois ou trs dias. Vir em seu nome, com rodos os documentos em
ordem.
     -- Obrigada.
     Depois do caf, Marina saiu para caminhar um pouco. O dia estava
bonito, e ela respirou com prazer o ar puro e agradvel.
     Lembrou-se de que Adele havia lhe dito que lhe daria um carro, mas
lhe pedira que, enquanto o contrato estivesse em andamento, ela no fosse
alm da cidade mais prxima, para evitar encontrar algum conhecido.
     Caminhou meia hora admirando a beleza do lugar. Quando estava
entrando em casa, um carro parou em frente ao porto e um homem alto, de
meia-idade, carregando uma valise, desceu.
     Marina percebeu que era o mdico. Ele abriu o porto e, vendo-a
parada na varanda, sorriu. Era moreno-claro, olhos e cabelos castanhos,
alto e elegante.
     Aproximou-se, distendendo o rosto em um sorriso.
     -- Voc deve ser a sobrinha de Adele.
     -- Sou. E o senhor deve ser o Dr. Gilberto.
     -- Isso mesmo.
     Marina convidou-o a entrar. Gostou de seu jeito simples, do olhar
franco e do sorriso amigo.
     Ele a examinou, preencheu uma ficha com os dados e Marina
aproveitou para pedir as informaes que Adele queria. Anotou tudo. No
final, ele disse:
     -- Voc me parece muito saudvel. Casada durante cinco anos. Voc
nunca engravidou?
     -- No.
     -- Seu marido fez os exames necessrios para saber se ele  frtil?
     -- Fez. No h nada com ele, nem comigo. S que ainda no
conseguimos ter um filho.
     --  primeira vista, no noto nada em voc. Gostaria que fosse
amanh em meu consultrio para um exame mais apurado. Vamos fazer
um toque para saber se tudo est em ordem.
     Marina remexeu-se na cadeira. O exame mdico iria arruinar todo o
plano, uma vez que ela nunca tivera relaes sexuais. Tentou ganhar
tempo:
     -- Amanh no ser possvel. Alguns amigos ficaram de vir buscar-
me para uma pequena viagem. Mas assim que voltar eu o procuro para
combinar.
     Depois que ele se foi, Marina correu em direo a Clia.
     -- Preciso falar com Adele. Acha que ela est no escritrio?
     -- Penso que sim. Aconteceu alguma coisa?
     -- O doutor quer me examinar no consultrio. No posso fazer esse
exame.
     -- Por qu?
     -- Porque ele vai perceber que nunca tive relaes sexuais.
     Clia olhou-a surpreendida.
     -- Nesse caso,  melhor mesmo falar com ela.
     Marina ligou em seguida e logo Adele a atendeu. Colocada a par da
situao, quis saber quando seria o perodo frtil. Marina informou e ela
tornou:
     -- Faltam dez dias. Contemporize durante esse tempo. Voc disse 2 a
4 de abril. Ns estaremos a no dia 2. Depois falaremos sobre os detalhes.
     O corao de Marina acelerou suas batidas e ela esforou-se para
controlar-se.
     -- No se preocupe. Daremos um jeito. Ele no vai descobrir.
     A partir desse momento, Marina contava os dias perguntando-se como
Adele ia programar um assunto to delicado. Sentia-se ansiosa, mas ao
mesmo tempo queria que tudo acontecesse logo, para ver-se livre daquela
preocupao.
     No dia 2 de abril, Marina estava almoando quando Clia falou:
     -- Faz uma hora que Adele chegou. Logo vir v-la.
     Marina segurou a mo de Clia como a pedir proteo.
     -- Sinto-me angustiada.
     Clia passou a mo pelos cabelos dela com carinho.
     -- Eu sei. Mas logo ver que no h nada a temer. Garanto que tudo
ser feito com discrio e delicadeza.
     Marina suspirou e Clia continuou:
     -- Quando chegar a hora, vou preparar um refresco calmante.
Lembre-se de que precisa ficar calma.
     -- Voc acha que uma vez s ser suficiente?
     -- Talvez no. O que posso dizer  que voc est tratando com
pessoas de classe, gentis e bondosas. No precisa ter medo de nada.
     Passava das duas quando Adele chegou e foram ao escritrio
conversar. Notando o nervosismo de Marina, ela disse calma:
     -- Esta  a parte mais delicada do processo. Maria Eugnia e
Henrique vieram comigo.
     -- Ela tambm veio? No ser muito difcil para ela?
     -- No. Ela est preparada. Sabe que  preciso e que para Henrique
voc  uma desconhecida. Vamos aos detalhes. Preste ateno. Esta noite,
s nove horas, v se deitar. Deixe o quarto s escuras, mas no tranque a
porta. Trate de repousar; pode dormir, se quiser. Mas, em certa hora,
Henrique entrar, cumprir a parte que lhe cabe e ir embora. No precisa
dizer nada. Amanh e depois ele ir v-la novamente nas mesmas
condies. Penso que trs vezes ser suficiente.
     Marina suspirou e remexeu-se na cadeira. Adele continuou:
     -- No se preocupe com Maria Eugnia. Tanto ela quanto Henrique
esto muito agradecidos pela sua participao. Se tudo correr como
esperamos, ele no vir mais v-la.
     -- Espero que tudo isso no seja em vo.
     -- No ser. Voc  uma mulher saudvel. S precisamos torcer para
que seja um menino.
     -- Admiro sua coragem em arriscar.
     -- Quando voc deseja muito uma coisa, tem que ousar e esgotar
todos os recursos. Nosso acordo  o ltimo passo, e estou certa de que
venceremos.
     Depois que ela se foi, Marina procurou acalmar sua ansiedade. Afinal,
tratava-se de um negcio que lhe daria condies de melhorar sua vida e a
da famlia.
     Aquele dia custou a passar, mas finalmente anoiteceu. s oito e meia,
Clia foi procur-la.
     -- Est quase na hora. Vim ajud-la a preparar-se. Para comear, um
banho com flores relaxantes.
     Dentro da banheira, sentindo o perfume delicado das flores, Marina
foi relaxando. Quando saiu, Clia colocou-a em uma maca e massageou seu
corpo com leo perfumado.
     Marina sentiu-se leve e todo o nervosismo desapareceu. Clia vestiu-a
com uma camisola de seda e estendeu-lhe um copo de suco.
     -- Beba. Vai sentir-se bem. Deite-se e no se preocupe com nada.
Durma um pouco. Ele vir mais tarde.
     Marina aconchegou-se na cama macia. Estava tranqila. Clia apagou
a luz do abajur e saiu fechando a porta.
     Marina sentiu sono e um brando calor no corpo. Logo adormeceu.
     Acordou sentindo um perfume agradvel e uma mo acariciando seu
corpo. Estremeceu assustada e murmurou:
     -- O que foi?
     -- Desculpe. Pensei que estivesse acordada.
     Marina lembrou-se de tudo e no respondeu. Lentamente ele comeou
a acarici-la. Ela fechou os olhos, no respondeu. O corao acelerou suas
batidas e intimamente ela desejou que tudo acabasse rpido.
     Aos poucos, ela foi passando da indiferena ao prazer. Enquanto ele a
beijava e acariciava, Marina retribuiu apertando-o de encontro a seu corpo,
desejando prolongar a emoo.
     Quando acabou, ele estendeu-se a seu lado em silncio. Ela ainda
sentia a fora da emoo tumultuando seu pensamento. Minutos depois,
recomeou a acarici-la e novamente Marina no controlou a emoo.
     Quando terminou, Henrique segurou sua mo, levou-a aos lbios com
delicadeza e disse:
     -- Obrigado.
     Levantou-se, vestiu-se rapidamente e se foi. Marina ficou ali, ainda
entregue  lembrana de momentos antes, perplexa diante da prpria
reao. Seu corpo estava dolorido, mas sentia-se relaxada, tranqila, e logo
depois adormeceu.
     Na manh seguinte, Clia serviu-lhe o caf em silncio. Era como se
nada houvesse acontecido. Marina tentou esquecer, mas aqueles momentos
voltavam e ela se questionava. No podia ser to libidinosa a ponto de
sentir prazer em um relacionamento com um desconhecido.
     Tratava-se apenas de um compromisso de negcio, e ela no podia
deixar-se envolver daquela maneira. Tentou reagir. Apanhou um livro e
comeou a ler, mas no conseguia prestar ateno no texto.
     O dia decorreu calmo. Adele no apareceu e Marina apreciou sua
discrio. No tinha vontade de falar sobre aquela experincia,
principalmente com Adele.
     Aps o jantar, Clia foi ter com ela:
     -- Est na hora de se preparar. Ele vir novamente esta noite.
     Marina olhou-a sria e perguntou:
     -- Voc acha que precisa?
     -- Foi o combinado. O tempo  precioso, e no podemos facilitar.
Agora no pode voltar atrs.
     -- Cumprirei o contrato  risca. No se preocupe.
     Depois dos preparativos, Marina deitou-se, mas no conseguiu dormir.
Sentia-se inquieta. Sempre fora uma pessoa controlada, habituada a
programar seus projetos, disciplinada.
     Entrara para aquele compromisso por causa do dinheiro que lhe
proporcionaria melhorar as condies de sua vida e da famlia. Conforme
Adele fizera questo de frisar, era um negcio como qualquer outro.
     Por que ento se envolvera tanto emocionalmente? Por que, apesar de
sentir-se fragilizada, aqueles momentos no lhe saam do pensamento? No
gostava de se descontrolar.
     Preferia que ele no voltasse, mas ao mesmo tempo, pensando que
logo ele a estaria acariciando, algo a perturbava, fazendo-a estremecer.
     Quando ele chegou, Marina fingiu estar dormindo. Mas, assim que ele
se deitou do seu lado e a abraou, ela entregou-se em silncio.
     Depois que ele se foi, Marina sentiu-se relaxada e decidiu no pensar
em mais nada. De nada adiantava ficar se torturando. Logo tudo estaria
terminado e nunca mais se veriam. Tudo continuaria como sempre havia
sido. Virou-se para o lado e logo adormeceu.
     Na noite seguinte, quando Henrique entrou no quarto, ela estava mais
calma. Seus momentos com ele no lhe saam da lembrana, mas ela havia
decidido no se atormentar por isso. Ao contrrio: fora melhor do que
esperava, o que tomara menos difcil o cumprimento do trato.
     Por isso, quando ele a abraou, ela correspondeu com prazer. Quando
ele se foi, Marina sentiu que nunca mais esqueceria o encontro daquela
noite.
     No dia seguinte, ao acordar, encontrou uma caixa de veludo sobre a
mesa de cabeceira e um envelope. Abriu-a e encontrou um belssimo anel
de esmeraldas.
     Com as mos trmulas, tirou um carto do envelope e leu:



     Nunca esquecerei os momentos que vivemos. Obrigado. Desejo que
seja muito feliz.



     No estava assinado.
     Marina experimentou o anel pensativa. Se tudo sasse como
desejavam, eles no precisariam se encontrar mais.
     Na mesa do caf, Clia disse:
     -- Eles voltaram para So Paulo logo cedo. Adele pediu para avis-la.
     -- Obrigada.
     Marina sentiu certa tristeza. De repente, teve a sensao de que o
tempo custaria muito a passar.
     -- Parece que voc ficou triste. Est tudo bem?
     -- Sim. Estava pensando que o tempo vai custar a passar.
     Clia riu bem-humorada.
     -- Que nada! Uma gravidez  uma aventura maravilhosa. Todos os
dias so especiais. Voc ver.
     -- Acha que j estou grvida?
     -- E cedo para saber. Mas foi para isso que veio, no ?
     -- Claro.
     -- Depois, voc no precisa ficar reclusa aqui. A cidade no  longe e
seu carro est na garagem.
     -- E melhor no. No conheo ningum. Alm do mais, no quero
pessoas estranhas bisbilhotando em nossa vida.
     -- Nada disso. No se esquea de que voc  uma sobrinha de Adele,
cujo marido est no exterior fazendo um curso importante, e ela
comprometeu-se a cuidar de voc at que ele regressasse. Conheo pessoas
muito agradveis, discretas, educadas, que se sentiro muito felizes em
desfrutar da sua amizade.
     -- No sei...
     -- Para que seu filho seja saudvel e alegre, durante sua gestao voc
precisa se cuidar, levar uma vida feliz.
     -- Est certo. Ser como voc quiser. No sei se terei jeito para viver
esse papel.
     Clia sorriu:
     -- Voc contar sua histria tantas vezes que acabar acreditando nela
e sendo muito criativa. Tenho certeza disso.
     Marina sorriu. Analisando dessa forma, talvez tudo ficasse mais
agradvel. Sua funo era colaborar para que o plano desse certo. Eles
acreditaram tanto nessa possibilidade, que ela agora no se sentia mais com
o direito de duvidar.




     CAPTULO 4




      Durante o ms seguinte, Adele no voltou  fazenda, mas telefonava
para saber notcias e dar recomendaes. Conforme o combinado, dois dias
depois de sua chegada, Marina escrevera uma carta para a me, dizendo
que fizera boa viagem e mandando o endereo de Londres que Adele lhe
dera. Depois, entregou a carta a Adele, que a colocaria dentro de outro
envelope e a mandaria a uma pessoa de sua confiana naquele pas. Essa
pessoa postaria a carta como se Marina estivesse morando l. Quando
recebesse resposta, a mesma pessoa a remeteria a Adele.
     Marina levantava-se cedo. Depois de tomar caf, ia caminhar pelas
redondezas. s vezes sentava-se na relva para descansar, ouvindo o trinado
dos pssaros, olhando o cu azul quase sem nuvens, aspirando
gostosamente o ar leve e agradvel, deixando-se ficar absorta na
contemplao das belezas da paisagem.
     Quando voltava para casa, j Clia a esperava com um suco de frutas e
ela ia sentar-se na biblioteca, mergulhando prazerosamente na leitura.
       Os dias corriam tranqilos e, se no fossem as lembranas das noites
em que Henrique a visitara, teria at se esquecido do que estava fazendo
ali.
       Uma tarde em que Marina lia estendida em um sof, Adele entrou na
biblioteca. A jovem levantou-se alegre:
       -- Adele! Que bom que veio!
       Adele abraou-a com carinho e depois aos cumprimentos disse:
       -- No pude suportar a ansiedade. Vim saber como voc est.
       --Bem.
       -- Faz quase dois meses que ele veio v-la. E ento? Clia me disse
que voc pode estar grvida.
       Marina corou um pouco e respondeu:
       -- Bem... No sei. No estou sentindo nada. Mas minhas regras no
vieram.
       Adele abraou-a alegre.
       -- Vamos fazer o teste. Eu trouxe tudo que precisamos.
       Chamou Clia, foram para o quarto e fizeram o teste.
       -- O resultado vai demorar um pouco. Vamos  copa. Preparei um
lanche, assim o tempo passar mais depressa.
       Tanto Adele quanto Marina no quiseram comer nada. S tomaram o
suco.
       -- Trouxe uma carta para voc -- disse Adele, tirando um envelope
da bolsa e entregando-o a Marina. -- Chegou ontem.
       -- Que bom! Estava ansiosa por notcias. Nunca fiquei tanto tempo
sem saber deles.
       -- Fique  vontade. Enquanto l, vou resolver algumas coisas com
Clia.
       Marina, emocionada, leu a carta na qual a me falava da saudade que
sentiam dela e do orgulho que ambos tinham por ela encontrar-se no
exterior, ganhando to bem. Agradecia o dinheiro que ela lhes mandara.
Dizia que no gastaria tudo.
     Marina sorriu, mas sentiu uma ponta de remorso por estar enganando-
os. Nunca havia mentido para eles, mas havia prometido segredo e
cumpriria seu voto. O assunto era muito srio, e ela no podia pr em risco
o sucesso do empreendimento.
     Guardou a carta. Ouvindo a voz de Adele conversando com Clia na
sala ao lado, Marina voltou  biblioteca para continuar a ler. Apesar de o
livro ser interessante, ela no conseguia prestar
     ateno ao que lia.
     Muitas coisas dependiam daquele teste, e ela no conseguia pensar em
outra coisa. Se ela no estivesse grvida, Henrique a visitaria novamente.
Ao pensar nisso, sentia o corao bater mais forte. Preferia que no fosse
preciso ele voltar. Quanto menos intimidade com ele, melhor.
     Adele entrou na sala e Marina no se conteve:
     -- E ento?
     -- Conseguimos. O teste deu positivo!
     Marina no dominou a emoo:
     -- Quer dizer que estou grvida?
     -- Sim. Agora s resta torcer para ser menino.
     Marina levou a mo ao peito preocupada.
     -- E se no for?
     --Manterei nosso contrato. Registrarei a menina como filha de Maria
Eugnia. Ela a criar com todo o carinho.
     -- Nesse caso, no conseguir o que pretende.
     -- O fato de Maria Eugnia ter uma filha revela que ela ainda poder
ter um menino. Talvez eu consiga fazer um acordo com meu cunhado. Mas
por agora no quero pensar nisso. Tenho certeza de que ser um menino.
Voc vai precisar se cuidar. Ter que ir ao Dr. Gilberto.
     -- Irei.
     -- Voc vai procur-lo e dizer-lhe que seu marido ficou alguns dias
aqui antes de ir para o exterior. Se ele perguntar, diga que foi entre os dias
2 e 4 de abril. Assim ele ter todos os elementos que precisa para cuidar de
voc. Ser apenas rotina, tanto voc quanto Henrique so saudveis.
Acredito que sua gravidez decorrer sem problemas.
     -- Est bem. Farei como pede.
     -- Ser bom Clia ir junto para ouvir todas as recomendaes e cuidar
muito bem de vocs. Estou emocionada. Meu neto ser um belo menino e
ter todo o nosso amor!
     -- Tambm estou emocionada. Nunca pensei que seria me!
     -- Apesar de estar gerando um filho, deve reagir e no se sentir como
me, uma vez que ter de separar-se dele na hora do nascimento. Lembre-
se de que o filho ser de Henrique e Maria
     Eugnia. No quero que sofra por ter de separar-se dele. Acostume-se
com a idia de que ele no lhe pertence.
     -- Claro. Sei perfeitamente o que fazer e cumprirei todas as clusulas
do nosso contrato. Fique tranqila.
     Depois que ela se foi, Marina ficou pensando nas palavras dela e
compreendeu que Adele tinha razo. No podia apegar-se ao beb. Ele no
seria seu. Teria outros pais, que o educariam, amariam, lhe dariam tudo.
Seria rico e feliz.
     Sentiu uma ponta de tristeza, mas reagiu. Tratava-se de um negcio
que lhe daria independncia financeira e condies para melhorar a vida da
famlia. Dali para frente, faria tudo para esquecer que estava esperando um
filho.
     Apesar de haver decidido isso, no era to fcil como havia pensado.
Nos dias que se seguiram, foi com Clia ao mdico, que ficou feliz por
dizer-lhe que finalmente conseguira engravidar.
      Pediu-lhe os exames de praxe e estabeleceu uma rotina saudvel, que
Marina procurou seguir  risca. Por mais que desejasse esquecer o beb, era
o assunto de todos os momentos, seja nas visitas peridicas ao mdico, seja
nas caminhadas que precisava fazer todos os dias para manter a forma.
      Clia apresentou-a a algumas pessoas, mas, apesar de serem
simpticas, Marina no se sentiu com vontade de estreitar a amizade.
      Contudo, quando conheceu Isaura, foi diferente. Alta, morena, testa
alta, olhos brilhantes, cabelos castanhos e ondulados, tinha duas covinhas
na face quando sorria. Enviuvara havia cinco anos e beirava os quarenta.
Seu marido havia sido prefeito de Bauru e morrera em um acidente de
carro.
      Isaura era muito querida na cidade por suas obras sociais, quando seu
marido ocupara a prefeitura. Depois da morte dele, mesmo sem ocupar
nenhum cargo, continuou trabalhando incansavelmente pela comunidade.
No tiveram filhos, e essa era a forma que Isaura encontrara para ocupar-
se.
      Marina simpatizou com ela  primeira vista. Porm, a princpio no
procurou estreitar a amizade. Um dia, Clia tornou:
      -- Convidei Isaura para almoar conosco hoje. Sei que voc a aprecia.
      -- De fato, gostei dela. Mas no sei se foi uma boa idia.
      -- Por qu? Voc precisa distrair-se. No aceitou nenhum dos
convites dos nossos amigos.
      -- Estou vivendo um momento especial. As pessoas vo perguntar
sobre minha vida. No vou poder falar, terei de inventar uma histria. Isso
no me parece certo. Prefiro continuar assim. O tempo vai passar logo tudo
estar terminado e minha vida voltar ao normal.
      -- Em todo caso, Isaura vir e voc vai contar-lhe a mesma histria
que contou ao Dr. Gilberto, se for necessrio. Ela  pessoa discreta,
delicada. No vai perguntar-lhe nada.
     Isaura chegou pontualmente ao meio-dia e Marina recebeu-a com
carinho. A conversa fluiu com naturalidade. A visitante era pessoa culta,
dona de um carisma que tornou sua visita muito
     agradvel. No fez perguntas pessoais.
     Clia tratou-a com deferncia, e as trs juntas percorreram os jardins
ao redor da casa, bem como o pomar da fazenda. Clia fez questo de
mostrar-lhe seus canteiros de ervas e o pequeno salo ao lado da casa, onde
fazia seus estudos de fitoterapia.
     Era um pequeno laboratrio, que Marina ainda no havia visto e que
Isaura conhecia muito bem. Clia mostrou-lhe vrias de suas anotaes e
experincias, e Isaura a orientavam de maneira segura, revelando amplo
conhecimento do assunto.
     Passava das quatro quando Isaura se despediu, convidando Marina
para um ch em sua casa no sbado.
     Depois que ela se foi, Clia comentou:
     -- Que bom que ela veio e aprovou meus testes!
     -- Ela parece que entende muito do assunto.
     -- Alm de formada cm Psicologia e Biologia,  fitoterapeuta. Voc
precisa conhecer o trabalho que ela tem feito. O Dr. Gilberto a tem
auxiliado. Juntos tm conseguido atender os colonos das redondezas,
distribuindo medicamentos. Alm de as pessoas serem pobres e no terem
como comprar remdios caros, o atendimento mdico por estas fazendas 
precrio. Quando era
     primeira-dama, Isaura sentiu a necessidade de fazer esse trabalho. O
xito foi to grande que ela nunca mais parou. As pessoas vm de longe em
busca de tratamento. O Dr. Gilberto atende receita, e ela providencia os
remdios.
     --  uma mulher extraordinria. Senti desde que a vi.
     -- Isso mesmo. Sempre me senti atrada pelo tratamento com ervas. A
natureza  to rica e perfeita, que acredito que por meio dela h cura para
todas as doenas. O que falta  os cientistas se dedicarem a esse estudo.
     -- Pelo que sei, h vrios deles estudando.
     -- Poucos.
     -- Se d tanto resultado, por que no intensificam as pesquisas?
     -- Eu descobri que para trabalhar com ervas h que se cuidar muito da
parte emocional do paciente. As ervas contm tipos particulares de energias
que atuam no emocional.
     -- Como a homeopatia?
     -- Isso mesmo. Para obter xito no tratamento, voc tem que
conversar muito com o paciente, ir alm dos problemas fsicos, e depois
juntar as ervas necessrias  sua cura. As pessoas do mato, intuitivamente,
sabem disso.
     -- Minha av entendia muito de ervas. Quando algum da famlia no
se sentia bem, ela sempre tinha um ch especial, que, se no curava logo,
aliviava bastante.
     -- Vai ver que ela rezava ao prepar-lo.
     -- Como assim?
     --  um costume antigo de quem mora no campo. Alm do carinho
com que preparam o ch, fazendo o paciente perceber que  querido, rezam
sobre ele para acrescentar energias de cura.
     -- Acha que funciona?
     Clia meneou a cabea, pensativa. Depois disse:
     -- s vezes, sim. Ainda no sei bem por qu. Tenho visto muitas
coisas neste mundo. Acredito sinceramente que a vida tem leis que agem
cuidando de tudo e de todos a seu modo. Quem
     conseguir conhecer essas leis e aplic-las em sua vida conseguir
viver melhor.
     -- Eu gostaria de conhecer mais. Acho que aceitarei o convite para
um ch na casa de Isaura.
     No sbado, na hora combinada, Marina foi com Clia visitar a amiga.
Ela morava em um casaro antigo, cercado por um jardim bem cuidado.
Isaura recebeu-as com alegria.
     O ch foi servido no caramancho do jardim e a conversa fluiu
agradvel. Marina mostrou interesse pelo trabalho, e Isaura levou-as ao
local onde plantava suas ervas, conversando sobre algumas delas e suas
utilidades.
     Depois, conduziu-as ao laboratrio onde produzia os medicamentos.
Um casal trabalhava em meio aos frascos e infuses. Na sala ao lado, havia
prateleiras repletas de vidros prontos para serem distribudos.
     Isaura explicou como funcionava o atendimento. Alm do casal, que
cuidava da preparao dos remdios, uma moa atendia o receiturio.
     -- Hoje ela j foi embora -- disse Isaura. -- O atendimento  ale a
uma. Eu atendo as pessoas, converso com elas. Conforme o caso, marco
consulta com o Dr. Gilberto. Nem sempre  necessrio. H casos crnicos
ou simples que eu mesma dou a medicao. Ele os atende mediante uma
ficha que envio ao consultrio com o que observei.
     -- Tem obtido bons resultados?
     -- Sim. H casos de cura surpreendentes. Isso nos estimula a
continuar.  gratificante poder fazer alguma coisa pelos outros.
     --  tudo gratuito?
     -- No. Ns achamos que o pobre deve ter a dignidade de pagar. Mas
o preo  simblico. Quem no tem nada, quando melhora vem ou manda
algum da famlia dar algumas horas de trabalho. Assim, todos cooperam
com alegria.
     Marina estava emocionada. Ali havia uma comunidade de auxlio, de
respeito aos necessitados, que a encantava.
     -- Eu gostaria de dar algumas horas de trabalho para ajudar -- disse
ela. -- Acha que h alguma coisa que eu poderia fazer?
     -- Claro.
     -- No entendo nada de ervas, mas farei qualquer servio que mandar.
     -- Ficarei feliz em receb-la.
     -- Quando poderei comear?
     -- Segunda-feira, s duas da tarde.
      Marina sentiu-se feliz. Aquilo seria uma forma de passar o tempo.
Apesar do conforto da casa e da biblioteca, no gostava de ficar ociosa.
Clia no a deixava fazer nenhum servio domstico.
     -- Virei com certeza.
      A partir daquele dia, Marina comeou a ir todas as tardes  casa de
Isaura, que a colocou como tua assistente.
     -- Quero que fique a meu lado, observando a conversa com ateno.
Depois me dir o que percebeu.
     A princpio, quando no fim do atendimento Isaura lhe pedia opinio,
Marina ficava calada. Mas aos poucos, mais familiarizada com a maneira
simples das pessoas que compareciam, percebeu algumas particularidades,
anotou-as e no fim do atendimento apresentou-as a Isaura.
     -- Eu sabia que voc tinha um sexto sentido bem desenvolvido.
     -- Sexto sentido? Como assim?
     -- Intuio, sensibilidade. Voc captou perfeitamente a personalidade
de Dona Augusta, percebeu que seu problema  mais emocional do que
fsico.
     -- Mas mesmo assim voc a mandou voltar dentro de uma semana. J
o Joo, que est com problema renal, s voltar daqui a quinze dias.
     -- Isso mesmo. O ch que dei a Augusta  um estimulante que a
manter ativa e tratar sua depresso. Todavia, ela precisa de orientao
para perceber como est atraindo tantos problemas em sua vida. A maneira
como ela v os fatos do dia-a-dia  a causa de tudo. Enquanto ela no
mudar, no vai sentir-se bem.
     -- Voc faz uma terapia?
     -- No. Conversando, tento passar-lhe alguns conhecimentos sobre a
vida. Suas crenas erradas a esto desequilibrando.
     -- Sempre pensei que nosso emocional se descontrola pressionado
pelos fatos.
     -- Isso acontece s em momentos muito dolorosos, em que o
sofrimento  verdadeiro. Mas, na maioria das vezes, aquilo a que voc d
importncia, aquilo em que acredita, faz o mesmo efeito em seu sistema
nervoso, ainda que seja uma iluso.
     -- Tenho observado pessoas nervosas, que tm medo de tudo, que se
descontrolam sem motivo.
     -- Engana-se. Elas tm motivo: as crenas aprendidas, incorporadas 
sua maneira de ser, que consideram certas, mas nem sempre o so.
     -- Como assim?
     -- Algum disse algo, e a pessoa acreditou sem tentar saber se era
verdade. As crenas mais absurdas atormentam as pessoas, limitando-as,
impedindo-as de ter paz. Muitas acabam prisioneiras dos medos.
     -- Talvez seja falta de instruo. Aqui vem gente muito pobre.
     -- Engana-se. H pessoas muito instrudas sofrendo do mesmo mal.
Os consultrios mdicos esto cheios delas. Doentes crnicos. Percebendo
isso, a medicina moderna tem se voltado muito ao estudo do
comportamento.
     Marina ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:
     --  difcil saber o que  certo ou errado.
     -- No se trata disso. A vida tem leis perfeitas que determinam o
equilbrio do universo. Ela criou o homem com destino  felicidade, mas
determinou que essa conquista fosse feita com esforo prprio, a fim de
que o homem valorizasse suas vitrias.
     -- As pessoas no valorizam nada que  de graa.
     -- Isso mesmo.  preciso aprender quanto custa cada conquista para
que ela se mantenha. Por isso, Deus criou o homem simples e ignorante,
mas colocou dentro de seu esprito como uma semente, tudo quanto precisa
para desenvolver sua conscincia, evoluir e alcanar a felicidade.
     -- Estamos longe disso.
     -- Nem tanto. Ainda que as coisas paream ruins no mundo onde a
maldade de muitos domina, tem havido muito progresso em todos os
setores, aliviando o sofrimento humano, facilitando a vida, permitindo ao
homem mais conforto.
     -- De fato, olhando dessa forma...
     -- Tudo na vida depende do modo como voc olha. Todas as
situaes tm vrios lados. So suas crenas que vo determinar como voc
vai lidar com elas. Agora, as leis csmicas so perfeitas e vo agir com
verdade, independentemente das suas iluses.
     -- Quer dizer que, se eu agir errado, ela vai me punir?
     -- A vida nunca pune. Ela ensina do seu jeito. Sinaliza de diversas
formas, tenta advertir as pessoas provocando situaes nas quais elas
podem perceber a verdade, mas para os resistentes, que se acomodam e no
querem mudar, ela permite que colham os resultados de seus enganos para
que aprendam o que j esto maduros para saber.
     -- Nunca ouvi nada sobre isso. Gostaria de saber mais.
     --  preciso observar, prestar ateno aos fatos  nossa volta.
      incrvel como tudo se encadeia quando estamos abertos a essa
realidade.
     -- Conhecer essas leis deve ser fundamental.
     -- Conhecer e aplicar significa ir pela inteligncia e sofrer menos.
Quem percebe os primeiros avisos da vida e retifica seu caminho, vive
melhor.
     --  seguir os dez mandamentos?
     -- , alm disso. Nos dez mandamentos esto as normas gerais, mas
cada um os interpreta de acordo com suas crenas. Por isso h tantas
religies, e muitos se equivocam por meio delas, enveredando pelo
fanatismo. As leis universais so sbias, perfeitas. Visam ao equilbrio do
universo e ao progresso do homem. Agem com amor e sabedoria.
     -- Onde posso encontrar essas informaes?
     -- Como eu j disse, observando a vida. Ela nos fala por sinais, e
aprende-se experimentando.  preciso estar atento. Um acidente, um fato
desagradvel, pode ser uma advertncia. Uma desiluso  a visita da
verdade tentando restabelecer o equilbrio.
     --  a misria, onde tudo falta?
     -- Voc j disse:  valorizar a falta, em vez de agradecer o que j se
tem.  viver relacionando o que falta. A, sempre h uma passividade, em
que a pessoa acredita que no merece algo melhor ou no  capaz de
progredir. A pobreza tem vrios aspectos e age em cada um de acordo com
suas necessidades.
     -- Como assim?
     -- Para os acomodados, os depressivos, os que se julgam menos, e at
para os que acreditam que ser pobre  ganhar o cu, a vida vai apertando o
cerco, tornando a situao cada vez mais difcil, para provocar uma reao
que as obrigue a rever suas crenas e procurar novos caminhos.
     -- Sempre pensei que a causa da pobreza fosse  falta de instruo e
de oportunidade.
     -- Muitos pensam assim, porm  preciso olhar alm do que parece.
H pessoas instrudas, com boa escolaridade, que no conseguem nem se
sustentar, enquanto outros, sem nada disso, tm uma vida melhor. Claro
que a instruo  importante, mas no  tudo. O mais importante  saber
aproveitar as oportunidades. Se voc observar a vida de uma pessoa que
obteve sucesso em todos os aspectos, perceber que ela nunca perdeu uma
boa oportunidade. Nunca teve medo de ousar, de mudar e procurar
aprender.
     Marina ficou pensativa. Ela estava ali, aproveitando uma oportunidade
que Adele lhe oferecera. Como descobrir se essa havia sido uma boa
oportunidade?
     -- Com vontade de progredir financeiramente, uma pessoa pode fazer
coisas erradas. Como avaliar?
     --  fcil. Ao analisar uma situao, devemos perguntar: essa atitude
vai trazer benefcio para todos os envolvidos? Se a resposta for sim, pode
aceitar sem medo. Caso contrrio, e se prejudicar algum, no aceite.
     Marina respirou aliviada. Aceitando aquela proposta, todos seriam
beneficiados.
     Era com prazer que Marina ia  casa de Isaura todas as tardes, e a cada
dia mais admirava o trabalho, a lucidez, a segurana com que ela atendia
todos.
     No final, apresentava suas anotaes e sentia-se feliz quando
conseguia identificar os problemas das pessoas. Mas a alegria maior era
com os resultados. A melhora de algumas pessoas era visvel, enquanto
outras no obtinham o mesmo sucesso. Marina se impacientava:
     -- Por que a Maria no melhorou? O caso de Dona Odete era
semelhante, mas muito pior. No entanto, ela est quase boa. Nem parece a
mesma pessoa.
     -- Neste trabalho precisamos ser pacientes. As pessoas no so iguais.
Depois, nossa funo aqui  esclarecer, oferecer condies de melhora.
Aproveita quem quer.
     -- Voc quer dizer que a Maria no est aproveitando esta
oportunidade?
     --Eu diria que est aproveitando menos do que a Odete. Mas isso no
depende de ns. H outros fatores que interferem. O ritmo de cada um, 
vontade, quanto conseguem perceber. At o medo de recuperar a sade.
     -- No acredito! Se ela vem,  porque quer sarar ficar bem.
     Isaura sorriu, e havia um brilho malicioso em seus olhos quando
respondeu:
     -- E no poder mais manipular os outros? Ter de assumir algum
trabalho? Deixar de ser paparicada?
     Marina desatou a rir.
     -- No havia pensado nisso!
     -- Sabia que a Maria tem um marido bondoso que, quando volta da
roa, faz a comida e cuida dos filhos?
     -- Ento  isso! Ela no quer ficar boa...
     -- No  apenas isso. O que ela no quer  perder o apoio dele, o
carinho.  uma manifestao quase inconsciente. Mas, se eu disser isso a
ela, no vai acreditar.
     -- Nesse caso, como agir!
     -- Como sempre, fazendo o melhor que podemos. No temos a
pretenso de salvar ningum. A vida, quando for oportuno, dar um jeito
nisso. E, acredite, ela o far muito melhor do que ns.
     Marina ficava encantada. Conversar com Isaura era estimulante.
Quase sempre voltava para casa pensando nos assuntos de que havia
tratado admirando sua sabedoria.
     O tempo estava passando depressa. Sua gravidez completara o quarto
ms e ela dispunha apenas de mais algum tempo para estar com Isaura.
Pensando nisso, por vezes sentia-se triste.
     Certa tarde, Isaura perguntou:
     -- Voc est triste. Aconteceu alguma coisa?
     Apanhada de surpresa, Marina sobressaltou-se e respondeu:
     -- No. Est tudo bem. O que me entristece  que dentro de algum
tempo terei de ir embora. Estou gostando muito de trabalhar aqui com
voc.
     -- Quando precisar ir, sentirei sua falta. Mas espero que venha nos
visitar de vez em quando.
     -- Eu adoraria, mas no ser possvel.
     Isaura fixou-a pensativa, depois disse:
     -- Seu marido pretende fixar residncia fora do Brasil?
     Temendo ter falado demais, Marina tentou consertar:
     --  uma das possibilidades.
     -- Espero que acontea o melhor para vocs. Se tivermos que
trabalhar juntas, a vida nos reunir novamente.
     Marina sorriu concordando com a cabea, mas intimamente no
acreditava nessa possibilidade.
     Sabia que nunca mais poderia voltar quele lugar. Essa havia sido uma
das clusulas do contrato: ela nunca tentaria aproximar-se da famlia nem
das pessoas com as quais estivera durante a gravidez.
     Assim que cumprisse o contrato, traaria seu projeto de vida dali para
frente. Tinha algumas idias em mente. Abriria sua empresa, compraria
uma boa casa e iria buscar a famlia.
     -- Seja como for, Isaura, pretendo aproveitar ao mximo esta
oportunidade. Tenho aprendido muito com voc. Nunca esquecerei estes
momentos de convivncia.
     Isaura sorriu, e em seus olhos havia um brilho indefinvel quando
disse:
     -- Eu tambm. Nossa afinidade vem de muito tempo, talvez de outras
vidas.
     -- Voc cr que tivemos outras vidas?
     -- Com certeza. A reencarnao  um fato.
     -- A mim parece algo fantasioso.
     -- Ao contrrio. S ela explica a desigualdade social e tantas outras
coisas que vemos no mundo. Nunca estudou o assunto?
     -- No. Para dizer a verdade, nunca me interessei por religio. Tenho
uma maneira muito livre de pensar.
     -- A reencarnao  um acontecimento natural da vida. Nada tem a
ver com religio, embora algumas a aceitem e falem sobre elas. Ningum
pode estudar a vida, entend-la, sem atentar para essa realidade.
     -- Voc tem uma maneira diferente de ver as coisas.
     -- Apesar de ter muita f no poder absoluto de Deus, de respeitar a
religiosidade de cada um, me permito pensar por conta prpria. Sou
espiritualista independente.
     -- Por qu?
     -- Porque gosto de pensar, questionar, aprender com a vida, entender
sua linguagem. As religies so as interpretaes que os homens fizeram
das revelaes espirituais em todos os tempos. Por isso, quando voc as
estuda, apesar dos aspectos positivos que encontra, h outros que voc no
consegue aceitar.
     -- No tem medo de estar errada?
     -- No. A opinio da maioria nem sempre est absolutamente certa.
Se eu errar, prefiro que seja por minha prpria cabea. Depois, errar 
natural em quem experimenta, e tenho aprendido
     muito com meus erros. Eles ensinam, marcam para sempre.
     Marina sacudiu a cabea sorrindo.
     -- Compreendo. Eu tambm gosto de pensar, de ter liberdade para
experimentar. Desde cedo procurei cuidar de minha vida do jeito que achei
melhor. Apesar de apreciar uma boa opinio, nunca me deixei manipular
por ningum.
     --  por isso que nos damos bem. Temos a mesma maneira de pensar.
     A conversa continuou agradvel. Quando Marina chegou em casa,
depois do jantar, foi  biblioteca, apanhou a pasta com o ndice dos livros e
procurou alguma coisa sobre reencarnao.
     Isaura falara com tanta certeza, que aguara sua curiosidade. No
encontrou nada. Quando Clia entrou avisando-a que o jantar estava
servido, Marina perguntou se no havia nenhum livro que tratasse do
assunto.
     -- H. O Livro dos Espritos.
     -- Fala sobre reencarnao? No  um livro religioso?
     -- Fala e no  religioso.  de um grande educador francs que
realizou pesquisas com mdiuns. Leia,  interessante. Agora vamos jantar.
     Marina acompanhou-a, decidida a ler o livro aps o jantar.




     CAPTULO 5




     Sentada em uma poltrona, Maria Eugnia segurava o livro sem ler,
perdida em seus pensamentos ntimos. Havia dois meses que estavam em
Paris, e, apesar das atenes de Henrique e da beleza da cidade, ela no se
sentia feliz.
     Por que concordara com o plano de sua me? Por que entrara naquela
situao falsa, agindo contra seu temperamento?
     Ela nunca soubera resistir aos desejos da me. Adele, pessoa
inteligente, carismtica, habituada ao sucesso e  reverncia de todos,
impusera-se  filha, que lhe obedecia sem questionar.
     Henrique foi seu primeiro namorado. Assim que Adele notou o
interesse dela, mandou investigar a vida do rapaz. Embora no fosse rico,
pertencia a respeitada famlia classe-mdia. Acabara de graduar-se em
Administrao de Empresas. Adele ofereceu-lhe emprego em uma de suas
empresas e ele aceitou. Observou-o por certo tempo. Henrique era
esforado, trabalhador e responsvel.
     O maior desejo de Adele era casar a filha, porquanto precisava de um
neto para perpetuar sua presidncia nas empresas da famlia. Casar Maria
Eugnia era seu objetivo. Ficou satisfeita ao notar que os dois se sentiam
atrados um pelo outro.
     Um ano depois, o casamento realizou-se. Maria Eugnia amava o
marido e estavam felizes. Contudo o tempo passava e o to desejado
herdeiro no aparecia.
     Depois de muitas tentativas e exames mdicos, ficou constatado que
Maria Eugnia era estril. Nunca poderia ter filhos.
     A partir desse dia, Maria Eugenia mudou. Desejava ser me. A certeza
de sua incapacidade a entristecia, fazendo-a sentir-se deficiente.
     Embora Henrique jurasse que a amava e que nada havia mudado entre
eles, Maria Eugnia no conseguia manter a alegria de antes.
     Pensando em ajud-la, Henrique sugeriu a adoo. Mas Adele no
concordou. At que uma tarde os chamou em seu escritrio e falou sobre
seus planos.
     Henrique ficou constrangido e Maria Eugnia recusou. Mas Adele
conseguiu convenc-los. Era a ltima tentativa.
     Henrique, a ss com Adele, tentou convenc-la a desistir. Ele sentia
que aquela situao agravaria a tristeza de Maria Eugnia e a faria sentir-se
ainda mais incapaz.
     Contudo, Adele no concordou. Estava decidida. Tinha tudo
planejado, havia encontrado a moa ideal e no queria perder a
oportunidade.
     Maria Eugnia suspirou triste. A lembrana daqueles dias no lhe
saam do pensamento e ela arrependia-se de no haver dito "no".
     Henrique dissera-lhe que s aceitara porque devia muitos favores a
Adele, que naqueles anos todos havia no s lhe ensinado a enfrentar o
mundo dos negcios mas tambm ajudara financeiramente todos os
membros de sua famlia.
     Ela era para seus familiares o anjo bom que aparecera em suas vidas,
dando-lhes oportunidade de produzir e manter uma vida melhor.
     -- Ningum consegue resistir  minha me! -- respondera Maria
Eugnia, convicta.
     Quando Adele os chamou, os trs foram para o stio. Maria Eugnia
sentia o corao apertado. A custo resistiu ao desejo de fugir dali, de dizer
que no queria nada daquilo, que seu marido no podia relacionar-se com
outra mulher.
     Mas no fez nada. Suportou tudo esforando-se para controlar o
cime, a revolta. Henrique, notando o nervosismo da esposa, sentia-se
constrangido, tenso. S Adele estava calma e conversou com eles,
afirmando que tudo aquilo era natural.
     -- V, Henrique. Lembre-se de que est colaborando para que
continuemos na posse dos nossos bens. Pense que, se nossos negcios
passassem para as mos de Renato, em pouco tempo ele depredar tudo.
Vocs o conhecem e sabem que digo a verdade. Fazendo isso, ele tambm
estar protegido: continuar recebendo os lucros da empresa, como sempre.
     Henrique saiu e Adele ficou conversando com a filha. Sabia que lhe
era difcil pensar que seu marido naquele momento estava se relacionando
com outra, ainda que fosse uma desconhecida.
     -- Os homens so diferentes de ns mulheres. Para eles, um
relacionamento sexual no significa nada. Ele ama voc. Est fazendo isso
por ns, pela nossa famlia. Ele nem sequer a conhece. Eu combinei com
Clia, e eles no vo se conhecer, conversar. Por isso, trate de no levar
isso a srio. E apenas um negcio, nada mais.
     -- No posso encarar como um negcio. Trata-se de meu marido.
     -- Trata-se da nossa famlia. Henrique est se sacrificando pelo nosso
bem-estar. Devemos ser gratas a ele.
     -- E se no adiantar? E se depois de tanto sacrifcio nascer uma
menina?
     -- Voc a criar como filha. Est no contrato. Filhos no estavam no
plano dela. Marina nem sequer deseja se casar.
     -- Ento tudo ter sido intil.
     -- Talvez no. Poderei tentar um adiamento. Afinal, voc teve uma
filha. Poder ter um varo.
     -- Isso, no. Nunca farei isso de novo.
     -- Pois eu tentarei por todos os meios. Se for preciso, dividirei nossa
fortuna com Renato para que ele desista da presidncia. Afinal, ele no
gosta mesmo de trabalhar.
     -- Por que j no fez isso? Teria sido melhor.
     -- Descobri que ele tem perdido muito nos cassinos. Dar-lhe dinheiro
ser um recurso extremo. Depois, quem nos garante que mais tarde ele no
volte a reivindicar seus direitos? Nosso plano  definitivo. Se nascer um
menino, tudo estar resolvido. Ele no poder fazer nada.
     Quando eles regressaram a So Paulo, Maria Eugnia sentiu vontade
de perguntar ao marido como havia sido seu encontro com a outra. Porm
ele no mencionava o assunto e ela no tinha coragem de perguntar.
     Adele, notando a curiosidade dela, dissera-lhe:
     -- No pergunte nada a ele. Esquea o caso. No d a isso uma
importncia maior do que tem. Foi uma circunstncia passageira.
     -- E se precisar repetir?
     -- Faremos de novo -- respondeu Adele com firmeza.
     Maria Eugnia sentiu alvio ao saber que Marina engravidara. Porm,
ao mesmo tempo, aquela gravidez lhe dava a certeza de que eles realmente
haviam se relacionado, e isso despertava seu cime.
     Maria Eugnia refletia, procurava tranqilizar-se pensando que ele
nunca mais iria v-la. Mas a idia de que ele estivera nos braos de outra a
atormentava.
     Adele preparou tudo para a viagem da filha com o marido, e na
bagagem havia uma barriga postia que ela usaria mesmo no exterior. Seus
amigos costumavam ir  Europa, e Adele no desejava correr nenhum
risco.
     Depois, queria que Maria Eugnia se habituasse  idia da
maternidade. Quando a criana chegasse, ela precisaria estar preparada.
     Foi com alegria que Adele contou para os parentes e os amigos que
Maria Eugnia estava grvida. Comeou a preparar o enxoval e o quarto
para receber o beb.
     Maria Eugnia olhava os preparativos tentando dissimular o
desagrado. Era-lhe difcil fingir. Usar a barriga postia era constrangedor.
Mas Adele estava atenta, e, assim que chegou ao fim do quarto ms da
gravidez, ela foi forada a us-la.
     Foi com alvio que Maria Eugnia embarcou para a Europa com o
marido. Mesmo tendo de continuar usando o disfarce, no precisaria fingir.
Ningum a conhecia.
     Apesar de estarem fora do Brasil, Henrique continuava trabalhando,
porquanto a empresa mantinha um escritrio em Paris, por intermdio do
qual se relacionava com toda a Europa, exportando seus produtos.
     Maria Eugnia passava o dia inteiro sozinha. Ler era seu passatempo
predileto.
     Fechou o livro que tinha nas mos e sentou-se novamente.
     Haviam combinado que, quando o beb nascesse, Clia os avisaria.
Eles seguiriam imediatamente para a fazenda, onde pegariam a criana. Era
l que Maria Eugnia diria que seu filho havia nascido.
     Voltariam para casa, onde haveria uma ama esperando por eles. Adele
planejava batizar o menino em seguida, convidando parentes e amigos,
fazendo uma grande festa.
     Maria Eugnia preferia uma cerimnia discreta, mas Adele no
concrdou:
     -- Nada disso! Todos precisam saber que voc teve um filho. Assim
ningum suspeitar de nada.
     Sabia que seria assim. Adele sempre fazia o que desejava. Maria
Eugnia no se atrevia a opor-se.
     Henrique entrou, aproximou-se e beijou-a na face:
     -- Como passou o dia?
     -- Bem.
     Ele notou que ela estava plida e considerou:
     -- Por que no foi dar uma volta, fazer algumas compras? Voc
sempre gostou de fazer isso aqui em Paris.
     -- Fiquei lendo. O livro estava interessante; nem me lembrei de sair.
     Henrique no disse nada. Notava que Maria Eugnia andava triste.
Suspeitava que o plano de Adele a estava infelicitando.
     Arrependia-se de haver concordado. Maria Eugnia no conseguia
aceitar que era estril. O plano de Adele a deixa ainda mais triste.
     Ele esperava que com o tempo ela fosse se modificando. Mas Maria
Eugnia parecia-lhe pior. Perdera o prazer de viver, de sair, de conversar.
Aos poucos fora se tornando uma mulher apagada, insegura, muito
diferente de quando ele a conhecera.
     Ao expor seus receios para Adele, temendo que seu plano a
entristecesse ainda mais, a sogra lhe respondera que, depois que a criana
nascesse, Maria Eugnia esqueceria tudo.
     Tentando alegrar a esposa, ele tornou:
     -- Prepare-se. Esta noite vamos jantar em um lugar adorvel. Tem um
piano-bar famoso, onde se apresentam bons cantores. Um amigo me
indicou.
     -- Eu preferia ficar em casa.
     -- Nada disso. Vamos nos divertir. Talvez danar um pouco. V
arrumar-se.
     Ela levantou-se. No queria que ele notasse sua tristeza. Foi para o
quarto preparar-se.
     Ele sentou-se no sof, pensativo. Apesar de amar a esposa, de entrar
naquela aventura contrariado, de ter ido queles encontros por obrigao,
eles haviam sido muito agradveis.
     Instrudo pelo mdico sobre como motivar a esposa a fim de que ela
engravidasse, Henrique foi ao encontro de Marina pretendendo usar tudo
que aprendera para que sua tarefa se cumprisse o mais depressa possvel,
para no precisar voltar mais vezes.
     Quando entrou naquele quarto em penumbra, deitou-se ao lado de
Marina, sentiu um agradvel perfume e, disposto a cumprir seu papel,
comeou a acarici-la. Ela correspondeu de tal forma que ele acabou se
esquecendo de tudo.
     Ela possua lbios macios, pele delicada e suave ao toque. E, pelo que
pudera perceber, um corpo perfeito. Ao notar que ela nunca havia tido
relaes, Henrique emocionou-se. Adele no lhe contara aquele detalhe.
     Tocado, procedeu com delicadeza e carinho. Quando voltou na noite
seguinte, estava ansioso para perguntar algumas coisas. Mas conteve-se.
Havia prometido a Adele que evitaria contato maior com ela.
     Naquela noite, ao voltar para casa, encontrou Maria Eugnia deitada e
notou que ela fingia dormir. Certamente no conseguira conciliar o sono.
Sabia que era difcil para ela aceitar aquilo. Deitou-se procurando no fazer
rudo.
     Era melhor assim. Temia que ela lhe perguntasse detalhes que ele no
estava disposto a relatar para no aumentar sua insatisfao.
     Apesar de o tempo haver passado, de nunca haver conversado com
Marina e no saber como ela era na realidade, Henrique se surpreendia
recordando os momentos vividos naquelas noites.
     Fosse pelo mistrio da aventura, fosse pela curiosidade, pelo fato de
haver sido seu primeiro, ele gostaria muito de v-la, ainda que de longe.
Mas Adele fora categrica: no queria que se conhecessem. Pensava assim
evitar um possvel interesse que pudesse surgir entre eles.
     Havia prometido a Maria Eugnia que disporia de tudo para que eles
nunca se encontrassem frente a frente depois daqueles momentos em que
cumpriram suas obrigaes de contrato.
     Embora nunca houvesse mencionado o assunto, Henrique sentia que
Maria Eugnia pensava constantemente nele. Momentos havia em que ela
ficava inquieta, em seus olhos havia curiosidade, mas no formulava
nenhuma pergunta.
     Ele tentava distrai-la falando de assuntos agradveis, redobrando as
atenes para demonstrar que ela no precisava preocupar-se, porque ele a
amava de verdade.
     Adele ligava para o escritrio para saber como a filha estava. Quando
Henrique confidenciava que Maria Eugnia estava triste, deprimida, apesar
dos esforos dele para alegr-la, Adele invariavelmente respondia:
     -- Tenha pacincia, Henrique. No se preocupe. Quando ela tiver uma
criana nos braos, tudo passar. Sei o que estou dizendo.
     -- Ela me parece muito mudada. Perdeu a alegria, parece outra
pessoa.
     -- Voc est impressionado. Precisam esquecer o que passou. Voc
est esperando seu filho! Quanto a ela, tenho certeza de que se render
quando vir o menino. A criana emociona e enleva. Procurem aproveitar
esses momentos juntos. Ver que tenho razo.
     Ele sentia-se mais animado. Um filho! Emocionava-se a esse
pensamento. Mas e Maria Eugnia, como se comportaria? Adele tinha
razo: eles precisavam reagir.
     Maria Eugnia aprontou-se com esmero. No queria que Henrique
notasse sua tristeza. Uma vez no restaurante, ela procurou mostrar-se
entusiasmada.
     O lugar era elegante, agradvel, e o pianista executava msica
romntica. Alguns casais danavam. Henrique estava particularmente
alegre. Havia fechado um grande contrato e queria comemorar.
     Escolheu o vinho e o jantar. Enquanto esperavam, ele perguntou:
     -- Gostou do lugar?
     -- Muito.
     -- Me disseram que a comida  divina.
     O garom trouxe o vinho. Henrique experimentou e mandou servir.
     -- Vamos brindar ao nosso sucesso!
     -- Ao sucesso da empresa, voc quer dizer!
     Ele admirou-se:
     -- Estou me referindo ao nosso sucesso.  nossa felicidade. Estamos
aqui juntos, neste lugar maravilhoso. Temos tudo. A vida tem sido prdiga
conosco.
     Maria Eugnia suspirou, mas tentou dissimular a tristeza:
     --  verdade! Temos tudo. S nos falta...
     Ele colocou sua mo sobre a dela com carinho.
     -- No nos falta nada. Para mim, ter voc  o suficiente. No preciso
de mais ningum.
     -- Quisera ter certeza de que isso  verdade.
     -- Claro que .
     -- Ento por que aceitou o plano de mame?
     -- Porque voc concordou, e eu pensei que voc queria ter esse filho.
     --  o que eu mais queria neste mundo. Mas no fui boa o bastante
para isso.
     -- A natureza faz dessas coisas de vez em quando. No  culpa sua.
Voc no  menos por isso. Vamos esquecer essa histria. Viemos aqui
para nos divertir. Vamos danar.
     -- Tem razo. Vamos danar.
     Uma vez nos braos dele, Maria Eugnia tentou reagir. Apesar da
estranha aventura, Henrique a amava, estavam casados. Ela no tinha
nenhum motivo para sentir-se triste. Naquela noite, queria esquecer seus
problemas.
             Firmou o propsito de no pensar mais no beb que viria
      quando voltassem. Enquanto estivessem em Paris, longe de Adele e
      dos assuntos da empresa, iria aproveitar esse tempo de liberdade para
      ser feliz. Quando chegasse a hora de regressar, voltaria a pensar
      neles.
     A partir dessa noite Maria Eugnia mudou sua atitude. Tornou-se
alegre, bem-disposta.
     Quando o marido saa para o trabalho, ela, aps arrumar-se com
capricho, saa procurando descobrir os lugares da moda, freqentando
institutos de beleza, estilistas, comprando tudo que lhe agradava e ao
mesmo tempo informando-se sobre espetculos, clubes, restaurantes. O
nico seno era a incmoda barriga postia que precisava usar, mas, como
estava disposta a no pensar mais nela, fingia no v-la.
     Quando Henrique voltava no fim da tarde, encontrava-a muito bem
arrumada, sorrindo e com uma lista de lugares onde poderiam ir  noite.
     Nos primeiros dias Henrique sentiu-se aliviado. Afinal, Maria Eugnia
havia deixado de preocupar-se com o beb. Mas, depois de um ms
levando essa vida, sentiu-se extenuado. Dormindo tarde e acordando cedo,
ele ansiava por descansar nos fins de semana, mas Maria Eugnia no lhe
dava chance.
     Em um sbado, quando ela mostrou duas entradas para o teatro um
clube, Henrique tornou:
     -- Esta noite gostaria de ficar em casa. Iremos outro dia.
     -- Mas eu j tenho as entradas e fiz a reserva no clube. Depois,
combinei de jantarmos com Jamille e o marido. Eles so muito amveis;
no podemos faltar. Ser deselegante e imperdovel.
     Henrique sentia-se irritado. Havia tido um dia exaustivo na empresa,
onde tomara conhecimento de alguns problemas que desejava contornar e
encontrar soluo. Para isso, queria passar um fim de semana calmo para
poder refletir. Depois, no estava com disposio de fazer sala a um casal
que vira apenas uma vez.
     Maria Eugnia e Henrique conheceram Jamille e Pierre em um desfile
de modas. Durante o evento, as duas mulheres haviam conversado, ficado
amigas. Na sada do desfile, Maria Eugnia props que os casais jantassem
juntos dali a alguns dias.
      Maria Eugnia esperara ansiosamente pelo encontro. Por esse motivo,
a inesperada recusa de Henrique em cima da hora a deixara inconformada:
      -- Eu gostaria tanto de ir a esse encontro... Porque no quer ir? Vocs
no gosto deles?
      De fato, Henrique no se sentira  vontade ao lado de Pierre. Embora
admitisse que o francs era um homem culto e sofisticado, aborreceu-se
profundamente com sua conversa formal.
      -- J que voc pergunta... Ela pareceu-me mais agradvel do que ele,
que olha as pessoas do alto da sua sabedoria, tem regras para tudo.
      -- Ele  um intelectual. Alis, sei de gente importante que gostaria
muito de usufruir da amizade deles.
      -- Estou surpreso. Voc nunca deu valor a essas coisas!
      -- Mas agora dou. Afinal, estamos em Paris, a capital do mundo. Aqui
 a sede de tudo. Seria imperdovel faltarmos a esse encontro! Temos que
ir.
      Henrique irritou-se.
      -- Telefone e diga que no iremos.
      -- O que direi a eles?
      -- Invente alguma coisa. Diga que estou mal, que adoeci de repente.
No me sinto com pacincia para toler-los.
      Maria Eugnia levantou-se, irritada.
      -- Toler-los? Foi o que disse? Eles  que precisam de pacincia cia
para nos receber. Da ltima vez, voc mal conversou com ele, comportou-
se como um ignorante.
      -- Ele estava falando sem parar uma gama de assuntos que no me
interessam nem um pouco. Tenho certeza de que no fui indelicado. Pelo
contrrio: tratei-o com respeito, ouvindo-o exibir suas qualidades.
     -- Est com inveja do sucesso dele?
     Henrique olhou Maria Eugnia como se a estivesse vendo pela
primeira vez.
     -- Inveja dele? Pensou bem no que est dizendo?
     -- Bem... Voc no teve a formao que ele tem... Ele  um homem
famoso na melhor sociedade. Nas rodas intelectuais, todos consultam suas
opinies.
     -- Pois eu no acho. E decididamente no irei a esse jantar.  melhor
telefonar logo avisando-os.
     -- Estou chocada! No posso fazer isso!
     -- Nesse caso, v sozinha. Eu vou ficar em casa.
     Os olhos dela encheram-se de lgrimas.
     -- Voc no pode fazer isso comigo!
     -- No pode obrigar-me a fazer uma coisa que me desagrada.
     --Eu comprei uma roupa especial, me preparei... Quero muito ver
essa pea.
     -- Pois v. Diga-lhes que no pude comparecer e aproveite sua noite.
Quanto a mim, ficarei em casa. Preciso descansar. Quero sossego para
resolver alguns assuntos da empresa que esto me preocupando.
     -- Nunca pensei que voc fosse capaz de fazer isso comigo!
     -- Pois eu sou. Depois, hoje eu no seria uma boa companhia. V,
divirta-se, e da prxima vez no marque encontros com pessoas sem
perguntar se quero ir.
     Maria Eugnia, nervosa, foi para o quarto pensando se deveria ir ou
no. Nunca havia sado para passear sem o marido. Gostava de desfilar de
braos com ele e notar como as mulheres o olhavam com admirao.
     Henrique era um homem bonito, charmoso, elegante. Suspirou
pensativa. Mas, entre o desejo de fazer o passeio que havia programado e
ficar em casa, ela decidiu ir. Assim, daria uma lio ao marido. Ele
precisava saber que ela no ia desistir de algo que lhe dava prazer s
porque ele no queria ir.
     Foi preparar-se, caprichou e antes de sair foi ter com ele, que lia no
escritrio. Sentia-se linda, elegante, perfumada. Ela teria sua noite de
alegria. Ele  quem estava perdendo, recusando-se a acompanh-la.
     -- Que tal estou?
     Henrique fixou-a e respondeu:
     -- Muito bonita.
     -- Tem certeza de que no quer ir?
     -- Tenho. Estou cansado. Preciso de um tempo para refletir.
     -- Refletir. Posso saber em qu? Afinal, estamos aqui para nos
divertir enquanto minha me trama no Brasil.  nisso que est pensando?
     -- Que idia! Claro que no. Tenho que resolver alguns problemas da
empresa.  nisso que estou pensando.
     Maria Eugnia aproximou-se dele, braos estendidos, e disse irnica:
     -- Acha que aquela mulher  mais bonita do que eu?
     -- A que mulher se refere?
     -- A que se vendeu aos milhes de Adele.
     Henrique olhou-a assustado. Maria Eugnia nunca se referira ao caso
daquela forma.
     -- Pensei que tivesse esquecido aquele incidente.
     -- . Tenho me esforado. Havia esquecido mesmo. Sua atitude fez-
me lembrar.
     --  melhor ir logo, para no estragar sua noite. Afinal, voc se
preparou muito para ela.
     -- Isso mesmo.  o que farei.
     -- Divirta-se.
     Ela saiu deixando uma onda de perfume no ar. Henrique suspirou,
pensativo. Talvez no tenha feito bem aceitando participar do plano de
Adele. Maria Eugnia que parecera concordar de bom grado, estava
demonstrando que se sentia magoada, ferida, enciumada. No parecia mais
a moa dcil, delicada que conhecera. Mergulhara na vida social, fizera
amizades com pessoas fteis, mudara sua maneira de ser, falava como eles.
     Suas inesperadas palavras de momentos antes demonstravam que ela
se tomara amarga, cruel. O que aconteceria quando regressassem ao Brasil
e tivessem nos braos a criana?
     Seu filho! Henrique estremeceu. Um sentimento de amor brotou em
seu peito pensando na criana que pouco tempo depois teria em seus
braos.
     Apesar do constrangimento com Maria Eugnia, havia o fato de que o
plano de Adele lhe dera oportunidade de ter um filho e educ-lo como
sempre desejara.
     Lembrou-se dos encontros furtivos com Marina, da maciez de sua
pele, dos momentos prazerosos que haviam desfrutado. Apesar de estarem
ali cumprindo um contrato, em nenhum momento ela se mostrara
indiferente. Mesmo nunca tendo se relacionado com algum, correspondera
ao seu carinho, fazendo-o esquecer as circunstncias daquele encontro.
     Adele dissera-lhe que Marina no pretendia casar-se. Preferia dedicar-
se  carreira profissional. Uma mulher ambiciosa. Aceitara o contrato por
dinheiro.
     Henrique suspirou triste. O que faria uma jovem instruda, cheia de
vida como ela parecia ser, aceitar uma proposta daquelas? Adele no lhe
dissera. Alis, ao tocar nesse assunto, ela falava o essencial.
     De certa forma, sua sogra tambm era uma mulher ambiciosa. No se
conformava em perder a presidncia da empresa. Era uma mulher muito
rica. Mesmo que Renato acabasse com a empresa, ela ainda poderia viver
muito bem com os recursos que possua.
     O que estava em jogo era o poder. Adele no desejava abrir mo dele.
Se Renato se tornasse o presidente, ela ficaria subordinada a ele. Era isso
que a irritava.
     Henrique gostava de ser rico, de usufruir de tudo quanto o dinheiro
pode comprar. Mas casou-se com Maria Eugnia porque a amava. Claro
que sua situao financeira o agradara, mas, se no sentisse atrao por
ela, jamais teria se casado.
     Os pais de Henrique moravam na cidade de Ribeiro Preto, onde ele
nasceu e foi criado. Foi o segundo filho de Amrico e Estela, ele mdico
conceituado na cidade, ela professora primria. Jorge, o irmo mais velho,
seguira a carreira do pai. Aos dezoito anos, Jorge viera para So Paulo e
conseguira ingressar na Escola Paulista de Medicina. Dois anos depois,
Henrique viera tentar a mesma coisa. Contudo, como no conseguiu, ficou
para fazer o cursinho e preparar-se melhor.
     Foi nesse perodo que conheceu Maria Eugnia, que estudava na
mesma escola e preparava-se para fazer Administrao de Empresas. Ela
logo se interessou por ele. Comearam a estudar juntos, ele a freqentar a
casa dela.
     Maria Eugnia no se interessava muito pelos estudos. No possua o
mesmo interesse da me. Ele percebeu logo que fora Adele quem escolhera
essa carreira para ela.
     Foi Adele que o fez mudar de idia com relao  carreira. Falava com
tanto entusiasmo sobre administrao, do prazer de planejar e executar seus
projetos, que ele passou a se interessar e acabou gostando.
     Seu irmo formou-se mdico e voltou para Ribeiro Preto a fim de
dedicar-se  profisso ao lado do pai. Henrique cursou a faculdade e ao
graduar-se j estava noivo de Maria Eugnia e trabalhando na empresa de
Adele.
     Ela acompanhara seus estudos, ensinara-lhe coisas que s a prtica lhe
daria. Alm do emprego, dera-lhe a filha em casamento. Era-lhe muito
grata por tudo isso.
     Maria Eugnia entrara na faculdade, mas desistira no primeiro ano.
Adele percebeu que no adiantava insistir. Ela nunca seria boa
administradora. No tinha pique. J Henrique era seu orgulho. Inteligente,
trabalhador, bonito. Tornara-se seu brao direito.
     Henrique olhou o relgio: passava da uma. Maria Eugnia ainda no
havia voltado. Ele resolveu se deitar. Sentiu prazer em poder estar em
silncio no aconchego do apartamento.
     Foi  cozinha, fez um caf para tomar com leite, como nos tempos em
que morava na casa dos pais. Pensou neles com saudade. Fazia tempo que
no os via. No dia seguinte, escreveria uma carta.
     Procurou no armrio algo para comer. Encontrou um pacote de
bolachas. Sentou-se, e foi muito prazeroso tomar sua xcara de caf com
leite, comer bolachas, recordar-se de sua vida no interior.
     Depois, foi para o quarto, preparou-se para dormir. Deitou-se e logo
pegou no sono.
     Passava das quatro quando Maria Eugnia chegou com o casal amigo.
Jamille ficou no carro e Pierre subiu com Maria Eugnia at o apartamento.
Ela abriu a porta, voltou-se e estendeu a mo para despedir-se dele.
     -- Obrigada por tudo. Foi uma noite maravilhosa.
     -- Eu adorei! -- respondeu ele segurando a mo dela e levando-a aos
lbios. -- Fazia muito tempo que eu no me divertia tanto.
     -- Eu tambm.
     -- Espero que seu marido tenha melhorado. Mas no pude deixar de
observar que voc sem ele  outra pessoa, alegre, espirituosa. Tive
impresso de que, de certa forma, voc se contm diante dele.
     -- Por que diz isso? Henrique respeita minha liberdade. Foi ele quem
insistiu para eu sair, mesmo no podendo ir.
     Ainda segurando a mo dela, ele considerou:
     -- Continuo achando que voc sem ele fica mais alegre, mais solta.
     Ela retirou a mo e sorriu:
     -- Obrigada. Jamille est esperando no carro.  melhor ir.
     -- Sim. Prometa que logo sairemos de novo.
     -- Prometo. Agora v.
     Ele se foi e Maria Eugnia suspirou feliz. Os olhos de Pierre
brilhavam quando se fixavam nela. Sentia-se linda, cortejada. Estava
deslumbrada. nunca sentira aquilo antes.
     Henrique fora seu primeiro namorado. Nunca tivera oportunidade de
experimentar a admirao masculina como naquela noite.
     Fechou a porta, foi para o quarto. Henrique dormia tranqilo. Ficou
irritada. Pelo jeito, ele no sentira nem um pouco sua falta. Mas isso no
iria estragar seu bom humor.
     Foi para o banheiro, tirou a maquiagem e preparou-se para dormir.
Estava feliz. Se Henrique quisesse ficar em casa outras vezes, ela no se
impotaria. Faria amigos, sairia, aproveitaria a vida como nunca o fizera.
     Tinha certeza de que logo voltaria ao Brasil e teria de entrar no papel
da filha obediente, suportar aquela criana e as imposies de Adele.
     No queria pensar nisso agora. Deitou-se e, pensando nos momentos
alegres que desfrutara naquela noite, logo adormeceu.




     CAPTULO 6
     Henrique levantou-se, lavou-se e foi  copa tomar caf. Era sbado,
passava das dez e Maria Eugnia ainda dormia. Provavelmente voltara
tarde novamente.
     Ele suspirou aborrecido. Maria Eugnia estava mudada. No era mais
aquela moa discreta, tmida, doce, de que ele gostava. Desde que ele se
recusara a acompanh-la quele jantar com Jamille e Pierre quatro meses
atrs, ela no parava mais em casa. Vivia rodeada de amigos, com os quais
sempre tinha algum lugar para ir.
     No incio ela o convidava, mas, como ele invariavelmente no ia,
depois de algum tempo ela deixou de faz-lo. Quando ele chegava em casa
no fim da tarde, encontrava-a as voltas com os preparativos para o passeio
da noite.
     Quase sempre saa em companhia de Jamille, o marido e outro casal.
Henrique no gostava deles. Achava-os pedantes e fteis. Mas Maria
Eugnia envolvera-se de tal forma que no fazia mais nada sem eles. Vrias
vezes Henrique tentara convenc-la de que estava exagerando, ao que
Maria Eugnia respondia:
      Pela primeira vez estou livre para fazer aquilo de que gosto. Por
que no posso? Logo teremos que voltar, ento viverei prisioneira de novo.
     Ele pedia-lhe que moderasse um pouco, mas era intil. Maria Eugnia
no ficava uma noite em casa.
     Na tentativa de convenc-la, ele a acompanhara algumas vezes, e o
que vira preocupou-o ainda mais. Notou que ela estava sempre com o copo
de vinho nas mos, bebericando, e seus companheiros providenciavam para
que ele estivesse sempre cheio. Nesses momentos, Maria Eugenia tornava-
se espirituosa, maliciosa.
     Comentavam as fofocas do momento com prazer, falavam dos outros
conhecidos, famosos ou no, com maldade, o que desagradava Henrique,
que odiava esse tipo de assunto.
     Certa vez, ao chegarem a casa, ele lhe dissera:
     -- No sei como voc agenta a conversa desses seus amigos. S
sabem falar mal dos outros.
     -- Pois eu os acho divertidos. Adoro conversar com eles. No sabia
que voc era moralista...
     -- No se trata de moralismo. No gosto das futilidades de salo nem
de maledicncia.  isso que vocs fazem.
     -- Est falando isso porque no consegue se divertir como ns. Para
voc, o trabalho  mais importante do que tudo. Pois eu no sou assim. Sou
jovem, gosto de me divertir. Estou aproveitando muito a estada aqui.
     Henrique serviu-se de caf. Enquanto o tomava, pensou que faltava
pouco para a volta. Arrependia-se de haver concordado com aquela
experincia. Embora obedecesse a me, Maria Eugnia no tinha estrutura
para aceitar os fatos. Ela havia mudado radicalmente, e isso no era bom.
     Maria Eugnia entrou na sala com cara de sono:
     -- No sei o que est acontecendo na rua hoje. O barulho est
infernal; no me deixou dormir.
     -- Bom dia.
     -- Bom dia. Acordei to irritada que me esqueci de dizer.
     Ele no respondeu logo, e continuou tomando seu caf. Depois de
alguns instantes, disse srio:
     -- Voc se esqueceu de colocar a barriga. Alis, tenho notado que no
est fazendo como se deve. Ela deveria estar muito maior. Est quase na
hora de nascer.
     -- No gosto desta histria.  deselegante ter que sair carregando esta
coisa. Acho que aqui eu no precisaria usar este disfarce. Meus amigos no
sabem nada sobre o que se passam no
     Brasil. Nunca mostraram desejo de ir para l. Por que eu deveria usar
esta barriga horrvel?
     -- Eu tambm no gosto de nada disso, mas, uma vez que nos
metemos nesta,  preciso fazer tudo direito. Estamos fazendo um esforo
para ajudar Adele a preservar o futuro da empresa, e no podemos correr o
risco de pr tudo a perder. J pensou se voc encontrar algum conhecido do
Brasil?
     -- Algumas vezes isso aconteceu, mas ningum perguntou nada.
     -- Claro que no iam perguntar.
     -- Mas eu tive o cuidado de mencionar minha gravidez falando dos
sintomas. Ningum desconfiou.
     -- Seus amigos podero estranhar o fato de que sua barriga no est
crescendo o suficiente.
     -- No seja implicante. Eles nunca tocam nesse assunto.
     -- Pelas minhas contas, o beb esta quase na hora de nascer.
     -- Nem fale uma coisa dessas! No quem pensar em voltar. Se eu
pudesse, ficaria aqui para sempre. No sei por que temos que nos preocupar
com a empresa. Temos dinheiro suficiente
     para viver bem. Depois, se nascer uma menina, esse sacrifcio ter
sido intil.
     -- Se pensa assim, no deveria ter concordado com Adele.
     -- Voc tambm concordou. Alis, ficou com a melhor parte.
     Henrique fixou-a irritado.
     -- No entendi sua aluso. Fiz o que me pediram. Ponha isso na sua
cabea.
     -- Mas ter um filho, coisa que eu nunca terei.
     -- Essa criana ser seu filho tambm. Embora tenha sido gerada em
outro corpo, ela vir para seus braos, vai precisar de seu carinho, de seu
amor de me. Um dos argumentos que me convenceram a concordar foi
que essa seria a nica forma de termos um filho.
     -- Vamos mudar de assunto. Enquanto estivermos aqui, quero
esquecer esse fato. J chega ter que voltar para casa.
     Henrique terminou o caf e foi at a janela. Apesar do frio, o dia
estava bonito, havia muitas pessoas na rua. Ele voltou-se para Maria
Eugnia:
     -- O dia est bonito. Vamos dar uma volta.
     -- A esta hora da manh? No dormi o suficiente. Estou cansada.
Pretendo dormir mais um pouco, descansar. Esta noite iremos ao teatro.
     -- Voc est abusando, bebendo demais, voltando tarde todas as
noites. Se deseja descansar, deveria ficar em casa, dormir cedo, pelo menos
algumas noites por semana.
     -- Estou correndo contra o tempo. Logo teremos que ir embora. No
posso perder um minuto.
     Henrique olhou-a srio. Ia retrucar, mas mudou de idia. Foi ao
banheiro, escovou os dentes, penteou os cabelos, vestiu o palet, voltou 
sala e disse:
     -- Vou andar um pouco. No me espere para o almoo.
     Deu meia volta e saiu. Maria Eugnia no se importou. Nos ltimos
tempos, Henrique estava se tornando cansativo. No se divertia com nada,
olhava-a com ar de reprovao. Dava a impresso de que a estava vigiando.
     Ela sentia-se mais alegre quando no estava ao lado dele. Foi para o
quarto e deitou-se novamente, procurando dormir.
     Uma vez na rua, Henrique comeou a caminhar por entre as pessoas
que passavam elegantes, conversando animadamente entre si. Mas eram-
lhe desconhecidas. De repente, apesar de estar rodeado de pessoas, sentiu-
se s.
     Lembrou-se dos pais, da fazenda confortvel onde passava as frias
duas vezes por ano, em meio aos primos e s brincadeiras, sem se
preocupar com o futuro, que acreditava ser como at ento, alegre e feliz.
     Sentiu saudade e vontade de voltar. Uma vez em casa, Maria Eugnia
seria forada a assumir seus compromissos de me.
     Esse pensamento confortou-o um pouco, mas no o bastante para
motiv-lo quanto ao futuro. Sentia-se decepcionado, triste.
     Ao alcanar uma praa, sentou-se em um banco discreto, distante dos
rudos das crianas que brincavam alegres. Sentia necessidade de meditar,
de repensar sua vida.
     Maria Eugnia estava se revelando uma mulher diferente do que
imaginava. A ingenuidade, o recato, a modstia que sempre demonstrara
eram fraquezas que a mo de ferro de Adele encobria.
     Diante da me, Maria Eugnia era discreta, educada, falava pouco, e
suas opinies, quando as externava, refletiam sempre o bom senso de
Adele, jamais tendo discordado dela em nada.
     Henrique suspirou triste. Descobrir as fraquezas da esposa
incomodava-o.     Ele   buscara    nela   a   companheira     suficientemente
amadurecida com quem pudesse dividir idias, afeto, em uma parceria
harmoniosa.
     Agora reconhecia que isso no seria possvel. Distante dos olhos
inquisidores da me, Maria Eugnia no se dera ao trabalho de dissimular,
exteriorizando seu lado infantil, inseguro, fraco.
     Descobrir isso fora decepcionante. Henrique sentia que, mesmo depois
que voltassem ao Brasil e ela retomasse a antiga postura, estaria apenas
dissimulando seus verdadeiros sentimentos.
     Dali para frente, ele teria de assumir o comando das decises em
famlia, uma vez que no confiava que Maria Eugnia possusse
maturidade para ajud-lo a escolher o melhor.
     No era isso o que ele desejava. Adele conhecia as fraquezas da filha
e, talvez por isso, tenha adotado atitudes to firmes, decidindo o rumo que
ela deveria tomar na vida.
     Ou teria sido essa atitude de Adele que tornara Maria Eugnia to
imatura? Adotando tambm essa atitude, no estaria ele tambm
contribuindo para que ela continuasse to infantil?
     Henrique passou a mo entre os cabelos, preocupado. Talvez estivesse
exagerando e Maria Eugnia estivesse apenas brincando, qual criana
reclusa que por algum tempo consegue liberdade.
     Ele precisava refletir melhor. Gostaria de conversar com ela, abrir seu
corao, colocando o que estava sentindo. Mas nos ltimos tempos, ela
tornara-se distante, nunca trocando idias ou opinies.
     Ele precisava esfriar a cabea. Levantou-se e caminhou pelas ruas,
procurando interessar-se pelas vitrines das lojas. Sentindo saudade da
famlia, decidiu comprar presentes para eles.
     Isso o entreteve, fazendo-o lembrar-se das preferncias de cada um, o
que o fez esquecer as preocupaes.
     Estava anoitecendo quando regressou ao apartamento carregando as
sacolas com os presentes.
     Maria Eugnia, estendida em um canap, conversava animadamente
ao telefone. Vendo-o entrar, sentou-se e disse que precisava desligar.
Colocou o telefone sobre a mesinha e olhou-o curiosa:
     -- Esteve fazendo compras. Posso ver?
     -- So presentes e esto embalados. No quero desfazer os pacotes.
     -- Alguma secretria da empresa?
     -- No. De onde tirou essa idia? So algumas lembranas para meus
pais e Jorge.
     -- No acha que ainda  cedo para isso?
     -- Nem tanto. Falta pouco para nosso regresso. No quero deixar para
a ltima hora. Por que no faz o mesmo?
     -- No vou levar nada para ningum.
     -- Nem para Adele?
        -- Ela tem tudo, e eu no saberia o que lhe dar.
        -- Alguma coisa bonita, um agrado, s isso.
        -- . Talvez. Mas  cedo. No quero pensar na volta.
        Henrique colocou as sacolas no escritrio, voltou e sentou-se ao lado
dela.
        -- Voc deveria sair um pouco, caminhar pelas ruas em um sbado
como este. Havia muita gente bonita, alegre. As lojas estavam
movimentadas.
        -- No gosto de sair  tarde. Prefiro  noite.
        -- Nesse caso, poderemos sair jantar em algum lugar bonito.
        -- Tenho um compromisso para esta noite. Vamos a um clube
fechado. Estou entusiasmada. Jamille diz que  maravilhoso.
        -- Deixe para outro dia. Esta noite vamos sair s ns dois. Poderemos
danar um pouco.
        -- Sinto muito, mas no posso desistir. Foi difcil conseguir convites
para esse clube. Pierre precisou usar todo o seu prestgio. No posso
cometer essa indelicadeza.
        -- Tem um convite para mim?
        -- No sabia que desejaria ir. Voc no gosta de sair com meus
amigos. Infelizmente, os convites so individuais e intransferveis. Sinto
muito.
        Henrique olhou-a srio. A situao estava pior do que gostaria.
        -- Nesse caso, prefiro que voc no v. H tempos que no samos
juntos, s ns dois.
        -- Sairemos outro dia. Teremos muito tempo quando voltarmos ao
Brasil. No posso perder a festa desta noite. Havia muito eu desejava
conhecer esse lugar. Todos os colunistas sociais falam maravilhas de l.
Depois, quanto mais difcil, mais valioso. Voc no pode imaginar o que 
isso.
     -- Voc est disposta a ir, mesmo sabendo que eu gostaria ficasse
comigo?
     -- Lamento, mas foi voc mesmo quem me aconselhou a sair sozinha
com os amigos. Agora que vou conseguir algo que tanto quero, no acho
justo desistir.
     -- Voc quer mesmo ir...
     -- Eu vou.
     Henrique teve vontade de impor sua vontade, de discutir, cham-la 
ordem, fazendo-a ver que estava exagerando. Mas preferiu calar-se. Ele
detestava discusses.
     -- Faa como quiser.
     Ele foi para o escritrio, apanhou um livro ao acaso e sentou-se no
sof. Aquela situao no podia mais continuar. No dia seguinte, teria uma
conversa sria com ela. Colocaria sua posio e a proibiria de sair com
aqueles amigos.
     Henrique odiava ter de impor sua opinio. Em todas as circunstncias
preferia o dilogo, a conversa aberta, sincera. Mas naquele momento sentia
que no podia contemporizar com a situao.
     Maria Eugnia estava abusando de sua pacincia e ele precisava
colocar as coisas nos devidos lugares.
     Eram quase nove horas quando Henrique procurou por Maria Eugnia,
que estava se arrumando para sair.
     -- Estou com fome e vou pedir alguma coisa para jantar. Voc quer?
     -- No. Vamos jantar no clube.
     Ele apanhou o telefone e pediu um lanche. Enquanto esperava,
observou a esposa e notou quanto ela estava mudada: mais magra, inquieta,
maquiagem carregada, jias mais vistosas.
     Sentindo-se observada, Maria Eugnia perguntou:
     -- O que foi? Est me achando bonita?
     Ele no respondeu logo, permanecendo pensativo. Depois disse:
     -- Voc est diferente.
     -- No acha que estou muito melhor?
     -- No. Eu preferia voc como era.
     -- Bem se v que voc no est a par da moda atual.
     Maria Eugnia colocou perfume e olhou-se no espelho, satisfeita. A
campainha tocou e Henrique foi abrir. Pierre, elegantemente vestido, estava
diante dele. Henrique esforou-se para dissimular o desagrado.
     Ele abrira pensando que fosse a comida que havia pedido. Vencendo a
repulsa instintiva que Pierre lhe causava, cumprimentou-o educadamente,
convidando-o a entrar.
     -- Obrigado, mas Jamille est esperando no carro. Viemos buscar
Maria Eugnia.
     Ela apareceu em seguida, dizendo contente:
     -- Estou pronta. Podemos ir. At logo, querido.
     Henrique nem teve tempo de responder. Ela saiu, Pierre fez ligeiro
cumprimento com a cabea e se foram. Henrique fechou a porta lutando
para vencer a sensao desagradvel.
     Sentiu vontade de ir atrs deles e trazer sua esposa de volta. Pierre,
com seus cabelos esticados com gomalina, desviando os olhos quando
falava no lhe inspirava confiana.
     Conteve-se a custo. Se fizesse o que desejava, Maria Eugnia faria
uma cena, e ele no estava disposto a provocar um escndalo. Precisava se
acalmar e conversar com ela no dia seguinte. De uma coisa tinha certeza:
no permitiria mais que ela sasse com aqueles amigos.
     Enquanto isso, Maria Eugnia e Pierre chegaram ao carro e no havia
ningum.
     -- Jamille no veio? -- indagou ela, admirada.
     -- Ela estava sem pacincia de esperar. Foi com Jean para o clube.
       Ele abriu a porta, ela acomodou-se e ele sentou-se a seu lado. Ligou o
carro e partiu devagar.
       -- Voc est linda!
       Ela sorriu contente e perguntou:
       -- Por que est indo to devagar?
       -- Quero admir-la mais tempo. No clube vo chover admiradores e
eu vou ficar morrendo de cimes.
       Vendo que ela sorria e continuava em silncio, continuou:
       -- Por mim, eu nunca a levaria quele clube.
       Ele parou o carro e olhou-a com paixo. Segurou as mos dela,
beijando-as efusivamente.
       -- Voc sabe que eu a amo! No posso mais segurar essa paixo que
est me consumindo. Quero voc para mim.
       Abraou-a com fora, beijando seus lbios com ardor. Maria Eugnia
estremecia de emoo. Havia muito tinha notado que Pierre se sentia
atrado por ela. Era excitante notar que era uma mulher atraente, que outros
homens alm de seu marido a desejava.
       Henrique havia sido seu primeiro namorado. Ela nunca tivera
oportunidade de conhecer outros rapazes, de experimentar o jogo de
seduo. Apaixonara-se por Henrique e sentira-se feliz em casar-se com
ele.
       Mas agora ele estava diferente, distante, ela em Paris, vivendo uma
aventura amorosa. Uma experincia diferente.
       Ele   continuava      cobrindo-a   de   beijos,   murmurando   palavras
apaixonadas. Maria Eugnia entregava-se prazerosamente a essa emoo.
       -- Minha querida... Eu preciso de voc. No vamos a esse clube.
Vamos a um lugar onde possamos ficar sozinhos com o nosso amor. Sinto
que voc tambm me quer.
     Ela estremeceu assustada. A brincadeira estava indo longe demais.
No desejava trair seu marido. Pierre insistia, beijando-a nos lbios, no
pescoo, na face.
     -- Vamos viver nosso momento de amor! Logo voc ir embora,
voltar a seu pas e talvez nunca mais nos encontremos.
     Maria Eugnia estremecia de prazer com os beijos dele. Reconheceu
que Pierre estava certo. Ela logo teria de voltar ao Brasil, suportar aquela
criana que odiava por ser fruto de Henrique com
     outra, e fazer tudo certinho como Adele queria.
     Henrique tivera sua relao extraconjugal; ela poderia fazer o mesmo.
Assim, estariam quites. Adele e Henrique nunca saberiam. Ela podia se
considerar vingada por lhe haverem impingido aquele filho que ela no
desejava.
     -- Vamos -- disse ela, trmula de desejo.
     Ele ligou o carro e dentro em pouco estavam em um prdio de luxo
que ela no conhecia.
     --  um apartamento que eu tenho quando quero ficar s, pensar.
     Eles entraram. Ele fechou a porta e levou-a para o quarto. Lentamente,
Pierre comeou a despi-la.
     De repente, ela lembrou-se da barriga postia. Pediu licena, foi ao
banheiro e retirou o incmodo disfarce. Voltou nua para o quarto. Pierre,
olhando-a com um misto de surpresa e cobia, abraou-a e beijou-a com
ardor, e juntos rolaram na cama.
     Quando se acalmaram, Pierre acendeu um cigarro, fitando-a com
curiosidade.
     -- Esta noite voc me fez o homem mais feliz do mundo!
     -- Estou pensando em Jamille. Ela est nos esperando no clube.
     -- No se preocupe. Jean a far se esquecer de ns.
     -- Como assim?
     -- Ele e ela j tiveram um caso. Acho que no vo perder tempo nos
esperando.
     Maria Eugnia no se chocou. Embora ela nunca houvesse feito isso,
sabia que em alguns grupos era moda a troca de casais.
     Pierre beijou-a de novo, dizendo alegre:
     -- Fiquei contente em saber que voc no estava grvida. Por que usa
aquela barriga postia?
     Maria Eugnia sentiu um arrepio de medo. Esquecera-se desse
detalhe.
     -- Eu gostaria de ter um filho. Como no posso, finjo que estou
grvida.
     -- Assim, sem nenhum motivo especial?
     -- . Eu gosto.
     -- Nesse caso, no est mais aqui quem falou. Gosto  gosto.
     -- Esse  um segredo meu. Preferia que esquecesse isso e nunca
contasse nada a ningum.
     -- Pode deixar. Sou um tmulo.
     De repente, Maria Eugnia sentiu que fora longe demais. Havia um
brilho diferente nos olhos dele que a fez desejar sair dali imediatamente.
     -- Acho melhor irmos embora.
     -- Vamos ao clube?
     -- No. Prefiro ir para casa.
     -- Nesse caso, vamos ficar aqui um pouco mais e aproveitar nossos
momentos de amor.
     Pierre acariciou-a e o receio dela foi embora. Ele estava apaixonado.
Guardaria seu segredo. Depois, logo ela iria embora e nunca mais o veria.
Era melhor mesmo aproveitar.
     -- Est bem -- murmurou ela, correspondendo ardorosamente ao
beijo que ele lhe deu em seguida.
     Ela queria esquecer o mundo, as convenes, o marido e a vida cheia
de regras que Adele lhe impusera. Se pudesse, nunca mais voltaria ao
Brasil. Mas aquele era um sonho impossvel.
     Pensando assim, entregou-se s emoes do momento com euforia.
     Estava amanhecendo quando finalmente conseguiu convencer Pierre a
lev-la para casa.
     -- Tenho que ir, Henrique acorda cedo. No quero que ele me veja
chegar.
     -- No se preocupe. Ele no vai desconfiar de nada. J eu, jamais
esquecerei esta noite.
     Ela ficou pensativa durante alguns segundos, depois respondeu:
     -- Quando eu estiver no Brasil, em casa, tambm vou me lembrar
destes momentos.
     -- Voc no parece feliz em voltar. Por qu?
     --De fato. L terei que assumir minhas responsabilidades de famlia.
No poderei fazer nada do que fiz aqui.
     -- Com o marido que voc tem, deve levar uma vida sem graa.
     Ela no gostou do comentrio. Ele notou e no lhe deu tempo de
responder:
     --Desculpe, no quis ofender.  que no posso compreender como
uma mulher como voc, jovem, bela, cheia de vida, pode se conformar em
viver com algum que no gosta de nada e s
     pensa nos negcios.
     -- Henrique  um bom homem e muito competente. Depois de minha
me,  ele quem cuida de todos os negcios da empresa.
     -- Ouvi dizer que a empresa de vocs vai muito bem. Ele deve ser
mesmo muito competente.
     -- Ele . Mas  minha me quem comanda tudo. Ela sempre consegue
o que quer.  firme e segura em suas atitudes.
     -- Fico pensando em como ser sua vida entre o marido e a me que
tem. Comeo a entender por que no sente vontade de voltar para casa.
     -- No  por causa deles. Eu gosto de ambos.  que aqui sou uma
desconhecida, posso agir livremente. L h uma sociedade, sou conhecida,
as pessoas comentam. H o nome de famlia para zelar. Voc entende?
     Pierre abraou-a sorrindo:
     -- Claro que entendo. Voc precisa aproveitar sua liberdade enquanto
estiver aqui. Eu a ajudarei a se divertir cada vez mais. Vamos viver este
tempo e aproveitar a vida.
     --  isso que eu quero.
     -- J tem idia de quanto tempo nos resta?
     -- Menos de um ms. No sei ao certo.
     -- Nesse caso, no poderemos perder tempo. Amanh cuidarei disso.
     Maria Eugnia levantou-se dizendo:
     -- Vamos embora.  tarde.
     Desta vez ele no a deteve. Vestiram-se e ele a levou para casa.
Faltavam poucos minutos para as quatro quando ela entrou em casa,
procurando no fazer nenhum rudo.
     Estava se sentindo culpada e receava encontrar o marido. Parecia-lhe
que, vendo-a, ele saberia o que ela havia feito.
     Tirou os sapatos, cautelosamente entrou no quarto e foi direto ao
banheiro. Fechou a porta com cuidado, tirou a roupa e foi para o chuveiro.
Sentia-se suja, e a gua que lhe caa sobre o corpo era como se estivesse
lavando um pouco sua culpa.
     Ficou l durante algum tempo. Depois enxugou-se, vestiu a camisola e
foi dormir. Henrique dormia e ela se deitou procurando no encostar para
no acord-lo.
     Vendo que nada havia acontecido que tudo escava calmo, Maria
Eugnia suspirou aliviada. Ento pde pensar na aventura, reviver os
momentos de paixo.
     Sabia que a atrao que sentia por Pierre no era amor. Mas o prazer
daqueles momentos, a experincia nova, a certeza de que era uma mulher
desejada, bonita, apreciada, deslumbrava-a.
     Maria Eugnia sempre fora uma pessoa apagada diante do brilho
carismtico de Adele. Enquanto a me era reverenciada onde aparecia, ela
ficava sempre em segundo plano.
     Mas desta vez a me no estava presente para ofuscar seu brilho, e ela
se sentia viva, forte, requestada. Chegou a pensar que talvez fosse o
momento de reagir aos desejos de Adele, de comear a enfrent-la, no
permitindo que continuasse a decidir sua vida.
     Em suas fantasias, Maria Eugnia j se via de volta a casa, dizendo
no s imposies da me. Quanto a Henrique, ele seria mais fcil manejar.
Estava sempre ocupado e no seria empecilho a seus desejos de liberdade.
     Embalada por esse sonho, Maria Eugnia finalmente adormeceu.




     CAPTULO 7




     Marina levantou-se com alguma dificuldade. Sentia o corpo pesado.
Nos ltimos dias, de vez em quando uma dor aguda a afligia, como se o
beb estivesse forando para baixo.
     Sentia-se cansada e desejava acabar logo com aquela espera. Ao
mesmo tempo, quando pensava que teria de renunciar ao filho, sentia um
aperto no peito e uma sensao de culpa. Ento pensava nos benefcios que
aquela criana traria no s a Adele para consolidar os bens de sua famlia,
mas tambm a si prpria, que poderia dar  me e ao irmo uma vida
melhor.
     Apesar disso, sentia muita curiosidade em ver o rostinho de seu filho,
procurar nele os traos de sua famlia.
     Foi para a copa tomar caf. Clia, vendo-a, perguntou:
     -- Como se sente?
     Marina suspirou e respondeu:
     -- Cansada.
     -- Pelas nossas contas, o beb dever nascer por estes dias. Adele
chegou ontem  noite. Est na casa-grande. Mais tarde vir v-la.
     -- Ela ficar at o beb nascer?
     -- Sim. Veio preparada. Trouxe todo o enxoval.
     Marina tomou caf com leite e comeu um po com queijo. Depois,
disse pensativa:
     -- Espero que tudo isto no seja em vo.
     -- Eu tambm.
     Marina estava se levantando da mesa quando Adele chegou e abraou-
a com carinho.
     -- Ento, como se sente?
     -- Cansada.
     -- Agora falta pouco. Vamos conversar na sala.
     Depois de acomodadas no sof, Adele continuou:
     -- Maria Eugnia e Henrique chegam da Europa amanh. Eles
precisam estar aqui quando o beb nascer.
     Marina no respondeu. Se pudesse, gostaria de dormir e s acordar
quando tudo houvesse terminado. s vezes pensava que estava pagando um
preo muito alto para ter sua independncia financeira. Mas o que estava
feito estava feito, e ela no podia voltar atrs. Mesmo que doesse, levaria o
projeto at o fim.
     -- Chegou mais uma carta de sua me.
     -- Que bom! Estou com muita saudade dela.
     -- Logo poder v-los. Mandei vir de Londres alguns presentes para
dar a eles.
     -- No precisava fazer isso.
     -- Quero que tudo seja o mais natural possvel. Trazer-lhes presentes
 o que voc faria se estivesse mesmo chegando de l.
     -- Tem razo.
     Conversaram sobre outros assuntos, e Adele levantou-se dizendo:
     -- Voc deve estar ansiosa para ler a carta. Se sentir alguma coisa de
diferente, me avise.
     Depois que ela se foi, Marina abriu a carta. As notcias eram boas.
Ccero estava terminando o curso ginasial. Seria timo, porquanto no ano
seguinte Marina contava traz-los para morar com ela.
     Ento, era tocar sua vida para a frente e esquecer aquela difcil
experincia.
      noite, Adele foi fazer-lhe companhia. Sua conversa agradvel
encantou Marina, que a admirava muito, no s pela inteligncia brilhante,
mas tambm pela maneira clara de expor as idias.
     Durante aqueles meses, de vez em quando ela aparecia na fazenda
para ficar um fim de semana. Marina pensava que era um privilgio privar
de sua companhia e procurava conversar sobre os assuntos de seu interesse
e aprender o que podia.
     Falava de seus projetos profissionais, expondo suas idias. Adele tinha
uma maneira especial de ver, fazendo-a enxergar outros lados do assunto, o
que a encantava.
     Naquela noite no foi diferente. No fim, Adele comentou:
     -- Tenho certeza de que voc ter muito sucesso profissional.
     -- No est dizendo isso s para me animar?
     -- Absolutamente. Em um assunto desses, no costumo brincar. Voc
tem garra, sabe o que quer, estuda, trabalha para ser cada vez melhor. Alm
disso, tem uma coisa que para mim  essencial.
     -- O qu?
     -- No cultiva o "sonho de amor".
     -- Pode no parecer, mas sou uma pessoa amorosa. Adoro minha
famlia. O que no quero  me casar, ter uma pessoa mandando em mim,
querendo impedir-me de fazer o que gosto. Se um dia eu vier a gostar de
algum, s vou me relacionar se ele respeitar minha privacidade.
     Adele bateu palmas sorrindo:
     -- Isso mesmo! Tenho visto mulheres que obtiveram sucesso em tudo,
inclusive na rea profissional, mas quando se apaixonaram foi um desastre.
Em pouco tempo se tornaram passivas, sem vontade prpria, apagadas e
insignificantes. Voc  uma honrosa excesso.
     -- Talvez seja porque vi o sofrimento de minha me, que se casou por
amor com um homem muito diferente dela. Ela era delicada, bondosa,
alegre; ele era grosseiro, machista, implicante. Quando a via triste por
causa das grosserias dele, pedia para irmos embora. Mas ela se
escandalizava, dizendo que uma mulher precisa obedecer ao marido. E ia
ficando cada dia mais passiva e mais triste. At que, quando ela estava
grvida do meu irmo, meu pai acabou nos deixando por causa da filha da
nossa vizinha.
     -- Quantos anos voc tinha?
     -- Treze para catorze. Mas, apesar do desespero dela, senti grande
alvio.
     -- Como se arranjaram financeiramente?
     -- No fez nenhuma diferena. Meu pai gastava na rua o pouco que
ganhava como vendedor. Minha me sempre sustentou a casa costurando
para fora.
     --  por isso que voc no deseja se casar.
     -- Em parte . Porque eu nunca agentaria o que mame agentou. Eu
o teria deixado logo no comeo. Sempre desejei ser dona da minha vida.
Por isso, desde cedo estudei muito, porque acredito que, para conseguir
isso, eu preciso ter a independncia financeira.
     -- Por isso aceitou minha proposta.
     -- Mesmo sem ela, estou certa de que conseguiria meu propsito. Mas
sua oferta encurtou o caminho e possibilitou melhores condies de vida 
minha famlia, principalmente a meu irmo, que  jovem e precisa de
apoio.
     -- E seu pai? O que foi feito dele?
     -- Eu nunca mais soube dele. Desapareceu completamente. Minha
me ficou muito envergonhada com o que ele fez. A vizinha, que era sua
amiga, passou a nos hostilizar, e ns nos mudamos para o outro lado da
cidade. Desde ento, nunca mais tivemos nenhuma notcia dele.
     -- Nunca sentiu sua falta?
     -- No. Ns no tnhamos nenhuma afinidade. Nem sequer
conversvamos.
     -- E seu irmo? Ele nunca perguntou pelo pai?
     -- Um dia, eu j estava cursando a faculdade em So Paulo e fui
visit-los. Ccero estava com oito anos e perguntou pelo pai. Ento, fiz o
que mame nunca teve coragem de fazer: contei-lhe a verdade em todos os
detalhes.
     -- Como ele reagiu?
     -- Muito bem. No falou mais no assunto e tornou-se mais amigo de
mame.
     Conversaram mais um pouco, e depois Adele foi embora.
     Na manh seguinte, ainda no avio, sentado ao lado de Maria Eugnia,
Henrique comentou:
     -- Estamos chegando. Daqui a pouco estaremos em casa. No se
esqueceu das recomendaes?
     -- No. Fiz tudo que mame pediu, como sempre.
     -- Voc no parece nem um pouco contente com nosso regresso.
     -- E no estou mesmo. Deixar uma vida deliciosa em Paris para tomar
parte desta farsa... Ao invs do prazer de sair com os amigos, uma criana
desconhecida para chorar em nossos ouvidos.
     Henrique colocou a mo sobre o brao dela, dizendo srio:
     -- No devia falar isso do nosso filho.
     -- Do seu filho, voc quer dizer.
     Henrique franziu a testa, tentando conter a irritao.
     -- Se pensa assim, por que aceitou este projeto? Ningum a forou a
nada. Alis, eu esperava que dissesse "no".
     -- Minha me  muito convincente.
     -- Ningum a obrigou. Voc concordou porque quis. Agora precisa
fazer tudo direito. Trata-se de um caso muito srio, que, se no for bem
resolvido, pode nos causar srios problemas. No que depender de mim,
farei tudo como combinado. E voc precisa fazer o mesmo.
     -- Sei disso. Por isso concordei em voltar. Minha vontade era ficar
morando em Paris.
     -- Voc sabe que isso  impossvel.
     O avio aterrissou pouco depois, e, quando foram liberados, saram. A
secretria de Adele os esperava e, depois dos cumprimentos, disse:
     -- Dona Adele no pde vir. Ela foi para a fazenda preparar tudo para
o nascimento do beb. -- Dirigindo-se a Maria Eugnia, continuou: --
Como se sente? Cansada?
     -- Sim -- respondeu ela. -- No vejo a hora de me livrar desse peso.
     --  assim mesmo. O ltimo ms  o pior. Eu me lembro muito bem
quando meu filho nasceu. Mas valeu a pena. A alegria de ser me
compensa tudo.
     Maria Eugnia sorriu tentando parecer alegre. Uma vez em casa,
Mrcia fez questo de mostrar-lhe o quarto do beb e parte das roupas.
     -- Voc precisa ver as que Dona Adele levou para esperar a chegada
dele. So maravilhosas.
     Maria Eugnia no via a hora em que a secretria de Adele fosse
embora, mas esta, entusiasmada, continuava:
     -- Quero saber se tudo est do seu gosto. Eu ajudei a decorao, claro
que sob orientao de Dona Adele. Mas, se houver alguma coisa de que
voc no gostou e que deseja mudar, me avise. Quero que tudo fique do seu
gosto.
     -- Obrigada, Mrcia, pela sua dedicao. Est lindo. Alis, como tudo
que voc faz. Tem muito bom gosto.
     Henrique, notando que Maria Eugnia tentava encobrir a irritao,
interveio:
     -- Obrigado pelo seu interesse. Tudo est maravilhoso. Mas Maria
Eugnia precisa descansar. No passou muito bem durante o vo. A sade
dela em primeiro lugar. Depois, mais descansada, vir examinar tudo
detalhadamente.
     -- Claro, Dr. Henrique, claro. Tem razo. Desculpe. Imaginei que ela
gostaria de ver tudo. Afinal,  o primeiro filho. Mas a viagem foi longa.
Vou embora. Se precisarem de alguma coisa,  s me ligar. A que horas
mando o motorista busc-los para irem  fazenda?
     -- No ser preciso. Eu mesmo vou dirigir.
     -- Como quiser. At logo.
     Ela saiu e Maria Eugnia foi para o quarto. Henrique a acompanhou.
A criada j havia aberto as malas e estava arrumando as roupas.
     -- Pode ir, Dalva -- disse Henrique. -- Queremos descansar.
     Depois que ela saiu, Maria Eugnia estendeu-se na cama, dizendo
nervosa:
     -- Ainda bem que voc percebeu. No agentava mais aquela
conversa. No vejo a hora de arrancar esta barriga ridcula.
     -- No pode fazer isso ainda. No aqui. Pacincia. Est por pouco.
Amanh iremos para a fazenda. Mais alguns dias e tudo estar resolvido.
Agora vou tomar um banho. Quero ir at a empresa ver como esto as
coisas.
     -- Que exagero!  melhor descansar, j que amanh pretende dirigir
at a fazenda.
     -- No vou demorar. Descanse.
     Depois que ele saiu, Maria Eugnia espreguiou-se e fechou os olhos.
Lembrou-se dos amigos que deixara em Paris, dos momentos que vivera
com Pierre, e sorriu.
     A despedida fora deliciosa. Ela pretendia voltar assim que fosse
possvel. Estava disposta a arranjar algum pretexto para ir a Paris
encontrar-se com ele.
     Era assim que pensava se compensar do sacrifcio que estava fazendo
em prol dos interesses de Adele. No sentia culpa por trair Henrique.
Afinal, ele estava do lado de Adele. Fazia tudo que ela queria. Merecia ser
castigado por isso.
     Quando eles chegaram  fazenda na tarde do dia seguinte, Adele os
recebeu com alegria. Tinha tudo planejado. Depois dos cumprimentos,
foram para o quarto, onde ela explicou:
       -- O beb est para nascer de uma hora para outra. Clia vai cuidar de
tudo.
       -- E os empregados da fazenda? Ser que no vo desconfiar? --
indagou Henrique.
       -- Sei como fazer. Vocs vo circular pelas proximidades da casa,
passeando, para que todos os vejam. Depois que o beb nascer, mesmo que
seja durante o dia, Clia vai esperar a noite, quando os empregados j
foram para suas casas. Ento, ela trar tudo que for preciso e prepararemos
a cena. Pela manh, quando eles voltarem, voc estar na cama, com o beb
ao lado.
       -- E quanto a ela? -- indagou Maria Eugnia.
       -- Ficar alguns dias mais, at que possa dirigir, e ir embora sem que
ningum veja. No dia seguinte, Clia contar aos conhecidos que o marido
dela veio busc-la para ter o filho na cidade.

       Ento comeou para eles um tempo de espera. Maria Eugnia e
Henrique faziam tudo como Adele havia determinado.
       Dois dias depois, Clia ligou avisando Adele que as dores haviam
comeado. Ela foi ter com Henrique e avisou:
       -- Est na hora. Estou indo para l. Avisarei assim que tiver nascido.
       Henrique sentou-se em uma poltrona, emocionado. Seu filho estava
nascendo. Sentiu vontade de ir para l, acompanhar tudo, saber como ele
era.
       Mas conteve-se. No podia. E Marina, como estaria, tendo um filho
que nunca seria seu? No seria cruel demais?
       Mil indagaes passavam por sua mente. Ela aceitara as condies.
Havia escolhido livremente. Que espcie de mulher era ela que gerava um
filho a troco de dinheiro?
     Ao mesmo tempo, ele tambm no estava enganando, colocando em
risco at seu relacionamento com Maria Eugnia, para manter sua posio
financeira?
     Apesar disso, era gratificante poder ter um filho. Mesmo tendo sido
conseguido por meio de um negcio, ningum poderia negar o fato de o
beb ser seu filho. Ele nunca saberia como fora gerado, mas o importante
era am-lo, educ-lo, fazer dele uma pessoa feliz. Isso, por certo, ele faria.
     Adele chegou  casa onde Marina estava hospedada e foi direto ao
quarto.
     -- Como est indo?
     -- Tudo bem. Acho que no vai demorar. As dores esto muito
prximas.
     Adele aproximou-se de Marina e acariciou-lhe os cabelos, dizendo:
     -- Vai dar tudo certo. Voc vai ver.
     Marina remexeu-se na cama, nervosa:
     -- No sei. E se for menina?
     -- No vamos nos preocupar com isso agora -- disse Clia.
     -- Tudo ser como combinamos. No tenha medo -- tornou Adele.
     As dores voltaram e Marina suspirou aflita.
     -- Calma -- pediu Clia. -- Fora, vamos.
     Enquanto Clia cuidava de Marina, Adele afastou-se um pouco. Ela
no era uma pessoa religiosa. Mas, nos momentos decisivos de sua vida,
sempre costumava pensar no poder de Deus.
     Ela sentia que havia uma fora superior que cuidava de tudo.
Respeitava essa fora de tal sorte que mantinha uma tica pessoal,
acreditando que, enquanto fizesse seu melhor e ficasse no bem, estaria
sendo apoiada por ela.
     Apesar das circunstncias daquele projeto, Adele estava certa de que
sua realizao no estava prejudicando ningum. Ao contrrio.
     Aquele menino teria uma famlia, seria amado, estudaria e se tornaria
um homem rico. Ele seria muito beneficiado. Por outro lado, Marina era
uma mulher honesta que pretendia usar aquele dinheiro para trabalhar,
melhorar as condies de sua famlia. Quanto a ela, Adele, estaria
preservando a sade de sua empresa, cujo maior patrimnio eram seus
milhares de empregados.
     Estava certa de que, se seu cunhado Renato assumisse a presidncia da
empresa, poria a perder todo o progresso duramente conquistado, no s
pela falta de capacidade administrativa, mas tambm pela conduta
irresponsvel que tivera durante toda a vida.
     Alm disso, Adele estava dando oportunidade a Maria Eugnia de ser
me e Henrique de ser pai. Assim, ela se sentia  vontade para pedir a
proteo divina e em paz para esperar o resultado desse projeto.
     Quando voltou ao quarto, Clia ajudava Marina pedindo:
     -- Vamos, fora, est quase saindo.
     Um esforo maior, uma contrao, e eis que a criana nasceu.
     -- Deus nos abenoe -- gritou Clia, emocionada. --  um menino!
     Adele chorava sem conter a emoo, enquanto Marina relaxava
aliviada. Um choro forte encheu o quarto, e lgrimas correram pelas suas
faces.
     -- Por favor! Quero v-lo ao menos uma vez -- pediu Marina em voz
entrecortada de emoo.
     -- Claro -- concordou Adele. -- Tem todo o direito.
     Clia cuidou do menino, enrolou-o em uma toalha e levou-o at
Marina, que o olhou emocionada.
     --  um belo menino -- comentou Adele. -- Forte, saudvel.
Obrigada, Marina. Nunca esquecerei o bem que voc est nos fazendo.
     Abaixou-se e beijou-a na testa com carinho. Fez um sinal a Clia, que
saiu levando o beb. O rosto de Marina contraiu-se e ela apertou os lbios
tentando no chorar.
     -- Avalio o que voc deve estar sentindo. Sei que vai cumprir nosso
trato e nunca tentar se aproximar dele.
     -- Sou uma pessoa de palavra. Por mais que me custe, cumprirei
nosso trato.
     -- Tenho certeza disso. Mas, se voc um dia precisar de alguma coisa,
estarei  disposio. O bem que voc nos fez no tem preo. Ser-lhe-ei
grata pelo resto da vida.
     Clia voltou sem o beb, que havia deixado dormindo em outro
quarto. A tarde estava findando, mas elas queriam esperar para levar o beb
sem que ningum visse.
     -- Agora vou cuidar de voc -- disse ela sorrindo.
     -- Eu estava bem at agora, mas estou sentindo dores novamente.
     --  natural. Ainda tem de expelir a placenta. Depois voc vai tomar
este ch e dormir. Precisa recuperar as foras.
     Adele sentou-se na poltrona ao lado da cama e s se levantou depois
que Marina estava bem acomodada e dormindo.
     Ela e Clia foram ver o beb, que dormia tranqilo. Adele aproximou-
se dele e acariciou delicadamente sua face rosada.
     --  um lindo menino! -- exclamou feliz.
     -- Lindo e forte. Graas a Deus, deu tudo certo. Seus problemas
terminaram.
     Adele suspirou satisfeita:
     -- Agora vou para casa, contar a novidade a eles. Assim que eu
perceber que no h perigo, telefono e voc o leva.
     -- Est bem.
     -- Voc vai precisar ensinar Maria Eugnia a cuidar bem dele. Quero
que ela faa isso desde o primeiro dia.
     -- Est bem. J preparei um roteiro para ela. Mas a alimentao  o
mais delicado. Organizei tudo para os primeiros dias. Vamos ver como ele
reage. Ela vai precisar de uma bab experiente.
     -- J escolhi uma que me parece tima. Vai comear um dia antes de
eles voltarem para casa. Mas quero que Maria Eugnia fique aqui mais
alguns dias e cuide dele ela mesma. Ela precisa aprender a am-lo como se
fosse mesmo seu filho.
     --  uma boa idia. Por outro lado, ela vai ter que ficar repousando
para no despertar suspeitas.
     Quando Adele chegou em casa, Henrique a esperava ansioso. Assim
que a viu, perguntou:
     -- E ento?
     -- Nasceu, Henrique.  um belo menino. Parabns, papai!
     Ele abraou-a emocionado. Maria Eugnia apareceu na sala e, vendo-
a, Henrique correu a abra-la, dizendo:
     -- Nasceu, Maria Eugnia! Temos um menino!
     -- Voc tem um menino! -- corrigiu ela.
     Adele interveio:
     -- Nunca mais diga isso. Vocs tm um menino. Mais tarde, quando
ele vier para casa, vamos comemorar. Vencemos! No est contente, minha
filha?
     -- Sim -- respondeu Maria Eugnia, tentando fingir alegria.
     A criada entrou na sala e perguntou se podia servir o jantar. Adele
concordou. Depois que ela se foi, Adele disse:
     -- Depois que os criados forem embora, Clia trar o menino. Ento
vamos comemorar.
     Passava da meia-noite quando Adele ligou para Clia:
     -- Pode vir agora. Est tudo calmo. No se esquea do que
combinamos. Traga tudo como se o parto tivesse acontecido aqui. No se
esquea de nada.
     Alguns minutos depois, o carro de Clia parou na porta da casa.
Adele, acompanhada do casal, foi receb-la. Maria Eugnia tentava
controlar a raiva. Aquele menino era um intruso, fruto da ligao ntima do
marido com outra mulher e uma prova de que ela no era boa o suficiente
para ser me.
     Sentia-se diminuda, irritada, nervosa, porm esforou-se para que
ningum notasse.
     Quando Clia desceu do carro, apanhou o cestinho em que o menino
dormia. Adele aproximou-se e pegou o beb, mostrando-o ao casal.

     Olhando o rostinho rosado, Henrique sentiu forte emoo. Era seu
filho! Adele quis coloc-lo no colo de Maria Eugnia, mas ela disse
assustada:
     -- Ele  to pequeno! Tenho medo de segur-lo.
     -- Ele  seu. Pegue-o. No tem perigo.
     Adele colocou-o nos braos da filha. As mos de Maria Eugnia
tremiam, e ela disse nervosa:
     -- Agora, no. Preciso me acalmar.
     Henrique aproximou-se e pediu:
     -- Deixe-me segur-lo.
     Maria Eugnia entregou-o a ele aliviada. Ele entrou em casa com o
menino nos braos, olhando-o embevecido. Sentou-se na sala. No se
cansava de olhar seu rosto, tentando encontrar os traos de famlia.
     Notando os dedinhos rosados que apareciam na manga do casaquinho
de l azul, ele colocou o dedo para examin-los. Mesmo dormindo, o beb
segurou firme no dedo do pai. Henrique sentiu os olhos marejados e,
tomado pela emoo, disse baixinho:
     -- Vou cuidar de voc. Tudo farei para torn-lo feliz.
     Enquanto isso, as mulheres tinham ido para o quarto do casal, onde j
havia um bero e uma cmoda que Adele enchera com um enxoval para os
primeiros dias.
     -- Agora voc vai colocar uma camisola, deitar-se. Acaba de dar  luz
e ter que ficar em repouso.
     Enquanto Maria Eugnia se trocava, Clia preparava a cena. Ela havia
trazido as roupas de cama que Marina usara, as toalhas e tudo o mais, para
fazer crer que o parto havia sido ali.
     Adele acompanhava satisfeita. Quando Clia terminou, ela foi chamar
Henrique, que continuava segurando o menino.
     -- Venha. Vamos coloc-lo no bero.
     Henrique obedeceu. Olhou em volta e comentou:
     -- Parece mesmo que o parto foi aqui.
     -- Agora vamos comemorar nossa vitria -- tornou Adele, sorrindo.
     Sobre a mesa estava uma bandeja com taas e uma garrafa de
champanhe. Henrique abriu-a, serviu, e Adele disse contente:
     -- Hoje iniciamos um novo ciclo. A forma como chegamos at aqui
ficou no passado. Nunca mais falaremos sobre isso. A vida aprovou nossos
projetos, uma vez que atendeu a nosso pedido. Vamos agradecer essa
ddiva e receber este filho com todo o amor e carinho. Brindamos  nossa
felicidade e ao futuro.
     Eles tocaram as taas e beberam com satisfao. Maria Eugnia sorria
para encobrir a contrariedade. Ela no estava feliz. Mas no se atrevia a
mostrar seus verdadeiros sentimentos.
     Depois, Clia pegou o beb e aproximou-se de Maria Eugnia.
     -- Ele deve estar molhado. Voc precisa trocar a fralda.
     -- Eu? No sei como fazer isso.
     -- Vou ensinar-lhe.
     Colocou o bebe sobre a cama e disse:
     -- Venha. Veja como eu fao.
     Ela trocou a fralda, depois pediu:
     -- Agora  sua vez.
     -- No  preciso. Voc j o trocou.
     -- Fiz para mostrar. Quero ver se aprendeu.
     -- No preciso fazer isso. Vamos ter uma bab.
     Adele aproximou-se:
     -- Voc  a me. Ter que fazer isso, pelo menos enquanto estiver
aqui. Quando voltarmos para casa, ter a bab.
     Adele falara com firmeza e Maria Eugnia achou melhor obedecer.
Sabia por experincia prpria que, quando Adele queria uma coisa, no
desistia at que ela a atendesse.
     Com mos trmulas, trocou a fralda. O menino comeou a chorar. Ela
olhou assustada para as duas.
     -- Todo beb saudvel chora muito. E a nica forma de expresso que
ele tem para reclamar quando algo o incomoda -- disse Adele.
     -- Ele deve estar com fome -- tomou Clia. -- Trouxe uma
mamadeira pronta. Acho que ainda est quente. Pegue-o e sente-se na
poltrona.
     O menino chorava forte. Maria Eugnia tomou-o nos braos e fez o
que lhe pediam. Clia colocou a mamadeira na boca do menino, que
imediatamente comeou a mamar.
     -- Segure assim, meio inclinada -- explicou Clia.
     Maria Eugnia obedeceu, satisfeita por ele ter parado de chorar.
     Henrique, em um canto do quarto, observava contente. Pela primeira
vez sentiu prazer por terem aceitado o plano de Adele. Era mais um dos
muitos favores que devia a ela.
     Enquanto isso, Clia mostrava a Adele o roteiro que havia feito para
Maria Eugnia.
     -- Acho que ele no quer mais -- disse Maria Eugnia. -- Eu coloco
na boca e ele no suga.
     Clia aproximou-se:
     -- Ele mamou bem. Agora segure-o em p, de encontro ao peito. Ele
tem que arrotar.
     Maria Eugnia estava enjoada. No sabia se era o cheiro do leite ou o
nervosismo por ter de cuidar do beb. Felizmente ele arrotou logo e ela
pde coloc-lo no bero, o que fez aliviada.
     -- E ento? Como est se sentindo? -- indagou Clia, sorrindo.
     -- Apavorada. Espero que voc no me deixe sozinha com ele
enquanto estivermos aqui.
     -- Estarei por perto, mas  voc quem ter que cuidar dele. Voc
sempre quis muito ter um filho. Agora tem.
     Maria Eugnia no respondeu. Ela queria ter um filho, sim, mas que
fosse seu. Aquele era um estranho, filho de uma mulher desconhecida.
Suportar sua presena, cuidar dele, seria um sacrifcio que teria de suportar
pelo resto da vida.
     No dia seguinte, tudo saiu conforme previam. Ningum desconfiou de
nada. Trs dias depois, Adele mandou preparar tudo para voltarem 
cidade. Na vspera da partida, foi ter com Marina, que, conforme o
combinado, se preparava para ir embora.
     Levou-lhe o comprovante do depsito do equivalente a um milho de
dlares que depositara no banco em nome dela.
     -- Obrigada por ter aceitado meu pedido. Sempre lhe serei grata. Mas
nosso relacionamento termina aqui. Vamos esquecer tudo, fazer de conta
que nunca nos encontramos.
     -- Entendo. Fique tranqila. Cumprirei o combinado.
     -- Deixei todas as instrues com Clia. Amanh, vamos partir antes
das sete. Quanto a voc, assim que estiver em condies de dirigir, pode
voltar a So Paulo. O que pensa fazer?
     -- Primeiro vou ver minha me e meu irmo, contar-lhes meus
projetos.
     -- Desejo-lhe toda a felicidade do mundo.
     -- Obrigada. Quero que saiba que estou muito grata pela forma como
voc cuidou de um assunto to delicado. Apesar de tudo, em nenhum
momento me senti desconfortvel. Ao contrrio. Clia  uma mulher
maravilhosa. Se eu pudesse, viveria minha vida ao lado dela. Durante
minha estada aqui, aprendi muito. Conheci Isaura, uma mulher
maravilhosa, que me ensinou a ser melhor. Sinto ter de ir embora sem
poder me despedir dela. Mas reconheo que  preciso. Alm de tudo isso,
aproveitei sua biblioteca, estudei muito, o que vai me ajudar na carreira
profissional.
     Adele abraou-a com carinho.
     -- Adeus, Marina. Cuidarei do nosso menino com todo o amor.
Faremos dele um homem de bem e muito feliz. Sei que vai conseguir tudo
que pretende. Voc  uma mulher inteligente, forte, capaz.
     -- Adeus, Adele. Obrigada por tudo.
     Depois que ela saiu, Marina sentou-se pensativa. Estava livre para
voltar e cuidar de sua vida. Sentia-se bem, tinha certeza de que seu estava
em boas mos.
     Foi para o quarto, olhou em volta e, recordando o dia em que chegara
l, sorriu. Sentia-se outra pessoa, havia amadurecido, aprendido.
    Foi ao quarto de Clia. Ela ainda no havia chegado da fazenda. Sobre
uma cadeira, avistou um casaquinho de l que o beb usara no dia em que
nasceu. Em um gesto rpido, apanhou-o, foi para seu quarto e guardou-o
em sua mala, embaixo de tudo.
    Emocionada, ela pensou que pelo menos teria essa lembrana do
pequenino ser que ajudara a vir ao mundo, mas que no podia ser seu.




    Captulo 8




    Estava anoitecendo quando Adele, Henrique e Maria Eugnia
carregando o menino chegaram  casa do casal. Henrique ajudou a esposa a
descer enquanto Adele foi entrando.
    O mordomo esperava, no hall com uma mulher aparentando uns trinta
anos, alta, magra, cabelos castanhos presos por um coque na nuca, vestida
de branco.
    Adele cumprimentou-os e determinou:
    -- Ariovaldo, apanhe as malas.
    Vendo que Maria Eugnia estava entrando com o beb, designando a
moa disse:
    -- Esta  Elvira, a bab.
    Ela aproximou-se:
    -- Muito prazer, senhora.
    -- Obrigada, Elvira.
    -- Leve-o e cuide dele.
    Elvira segurou o beb e perguntou:
    -- A que horas ele mamou?
     -- Quando samos da fazenda -- informou Maria Eugnia.
     Adele interveio:
     -- Faz mais de duas horas. Na maleta dele voc vai encontrar o leite
que est tomando e a forma de preparar.
     -- Sim, senhora.
     Ela levou o menino e Maria Eugnia disse aliviada:
     -- Vou descansar um pouco. Esta noite no dormi nada. Ele chorou
vrias vezes e eu fiquei preocupada.
     -- Vamos conversar no seu quarto -- sugeriu Adele. --Temos
algumas coisas para definir.
     Voltando-se para o mordomo, que passava carregando algumas malas,
Adele pediu:
     -- Diga a Henrique que o estamos esperando no quarto.
     Pouco depois, Henrique foi ter com elas.
     -- Ns pensamos em vrios nomes; temos de decidir. Amanh voc,
Henrique, ter que registr-lo.
     -- Eu pensei em Dionsio. Era o nome de meu av. O que acham?
     -- Para mim est bem -- respondeu Maria Eugnia.
     --  um lindo nome.
     -- Ento est escolhido. Irei amanh cedo.
     Adele aproximou-se de Maria Eugnia e disse com firmeza:
     -- Ate agora tudo tem dado certo. No preciso recomendar o que voc
como me precisa fazer.
     -- Eu no sou me e no sei o que uma me faz -- disse nervosa.
     -- Voc no era, mas agora . Esse filho  seu. Est sob
responsabilidade. Precisa de seus cuidados, seu carinho, seu amor.  isso
que uma me d -- tornou Adele. -- Escolhi Elvira com cuidado.  uma
excelente pessoa e uma bab gabaritada. Saber cuidar muito bem do
menino. Mas no quero que por causa disso voc o deixe exclusivamente
com ela. Quero que ele fique com voc algumas horas por dia. Ele precisa
sentir o amor dos pais.
        -- Ele  muito pequeno. Por enquanto no sabe de nada.
        -- Engano seu, minha filha. Os mdicos dizem que eles sentem as
emoes quando ainda esto no ventre materno. Sentem-se rejeitados
quando os pais no os amam, o que poder causar traumas que os
acompanharo pelo resto da vida. Desejo que meu neto seja um menino
feliz, que tenha sade fsica e mental. Por isso exijo que voc se esforce por
dar-lhe todo o amor. Afinal, ele est lhe dando a chance de ser me. Seja
grata por isso e faa a sua parte.
        Maria Eugenia procurou encobrir a contrariedade. Alm de tolerar a
presena daquele intruso, ainda teria de fingir um amor que sentia. Baixou
a cabea e disse:
        -- Farei o que puder.
        Henrique aproximou-se dela, abraou-a e beijou-a delicadamente na
face.
        -- Esquea como essa criana veio ao mundo. Voc agora  sua
verdadeira me. Tenho certeza de que aquele ser to pequeno, to carente
de amor, despertar esse sentimento em seu corao.
        -- Eu tenho que ir -- tornou Adele. -- Quero descansar. Amanh
teremos que comunicar o nascimento de Dionsio aos parentes e amigos e
fazer as comemoraes de praxe.

        Nesse tempo, Marina, dirigindo o prprio carro, levando os presentes
que Adele comprara, chegava  casa da me em Sorocaba. Estava
escurecendo, e, assim que parou o carro, viu Ccero no porto olhando
curioso.
        Seu corao bateu mais forte, antegozando a alegria da volta e o
prazer de poder dizer-lhes que nunca mais iriam se separar.
     Desceu do carro e Ccero correu para ela estendendo os braos.
Marina apertou-o de encontro ao peito, beijando-o na face.
     -- Voc veio mesmo! -- exclamou ele, eufrico. -- Quando mame
disse, no acreditei. Estava morrendo de saudade.
     -- Eu tambm. Deixe-me ver voc.
     Afastou-o um pouco e continuou:
     -- Como mudou! Est mais alto do que eu.
     -- J completei quinze anos.
     --  um homem, e continua lindo como sempre.
     Ccero sorriu orgulhoso.
     -- Pareo com voc.
     De fato, os mesmos olhos verdes, a pele morena e os cabelos
castanhos dourados.
     -- Voc alugou um carro?
     -- No. Comprei.
     -- Puxa! Deve ter ganhado muito dinheiro!
     -- Um pouco. Me ajude com as malas.
     Ccero tocou a campainha, e logo Oflia apareceu na varanda. Vendo-
os, correu a abraar a filha. Ccero no se conteve:
     - Me, ela comprou esse carro. Veja que lindo!
     -- Voc est bem? -- indagou Oflia assim que conseguiu dominar a
emoo. -- Voc, to longe! Fiquei muito preocupada. Ainda bem que
voltou.
     -- Senti muita saudade -- disse Marina. -- Mas foi preciso, para
conseguir o que queria. Temos muito que conversar. Vamos entrar.
     -- Podem ir, que eu levo tudo para dentro -- disse Ccero.
     Elas entraram abraadas. Marina olhou em volta e, depois de haver
morado em uma das casas de Adele, achou a pequena sala menor e mais
pobre. Como sempre, tudo estava rigorosamente limpo, havia flores no
vaso, mas ela sentiu-se feliz por poder oferecer a eles uma vida mais
confortvel e melhor.
     Uma vez na sala, Oflia perguntou;
     -- E ento? Gostou de viver na Inglaterra?
     Marina preferia no falar sobre isso, mas a curiosidade de Oflia era
natural e ela teve de responder. Descreveu um pouco a cidade, os costumes
e finalizou:
     --  tudo muito lindo, mas eu no via  hora de regressar. Prefiro
morar no Brasil.
     -- E voc acha que valeu a pena ficar tanto tempo longe!
     -- Muito. De agora em diante, vamos morar todos juntos em So
Paulo.
     -- L a vida  muito cara. Acha que vai dar para tudo isso?
     -- Acho. Vou montar minha firma e voc no precisar mais costurar
para fora. Quero que Ccero continue os estudos.
     -- Ele acabou o ginsio ano passado. Mas no pude matricul-lo no
colegial. No conseguimos vaga e eu no tinha dinheiro para uma escola
particular.
     -- No faz mal. Estamos no comeo do ano. Chegando a So Paulo,
cuidarei disso.
     -- Voc deve estar com fome. Vou ver o jantar.
     -- No precisa. Vamos fazer um lanche; comprei algumas coisas no
caminho. Vamos abrir as malas. Eu trouxe algumas lembranas para vocs.
     Ccero colocara as malas sobre o sof e aproximou-se contente:
     -- Eu sabia que no ia se esquecer de mim.
     Marina separou os pacotes, distribuindo-os com alegria. Adele no
havia economizado. Comprara vrios presentes para cada um baseando-se
nas informaes que ela lhe fornecera.
        Foi um sucesso. Havia roupas, jogos para Ccero, novidades para
cozinha que entusiasmaram Oflia, tudo com muito bom gosto.
        -- Voc deve ter gastado uma fortuna -- comentou Oflia,
preocupada.
        -- Nem tanto. Eu ganhei muito bem. Estou feliz de que tenham
gostado.
        -- Sinta este perfume, Marina! Que delicia! Vou ficar com pena de
usar.
        -- Nada disso! Vai usar tudo e muito mais. Fao questo de que
vivam bem, com conforto. Nesse tempo, aprendi que a beleza  muito
importante em nossas vidas. L, vivi em uma casa linda, cheia de coisas
bonitas, e isso me fez muito bem. A beleza toca nossa alma e nos faz
desejar ser melhores.
        Oflia olhava-a admirada.
        -- Voc voltou diferente.
        -- Sim. Hoje sou outra pessoa. Sei o que quero da vida. Mas sei
tambm como conseguir o que desejo. Amanh mesmo vamos providenciar
nossa mudana para So Paulo.
        -- Assim? No seria melhor voc primeiro se estabelecer l, ver se d
certo, para depois ns irmos ter com voc?
        -- Nada disso. Iremos o quanto antes.  s o tempo de entregarmos
esta casa e darmos um destino aos mveis.
        -- No vamos levar nossas coisas?
        -- S os objetos de uso pessoal e as lembranas de famlia.
        Ccero esfregava as mos contente:
        -- Oba! Sempre desejei morar na capital.
        -- Continuo achando que  melhor voc ir primeiro. Onde vamos ficar
at voc arranjar uma casa?
        -- Em um hotel, claro.
     -- Eu nunca fiquei em hotel -- comentou Ccero.
     -- Voc vai gostar. No se preocupe, me. J fiz as reservas para
depois de amanh.
     -- To depressa! Acha que vai dar tempo para arrumar tudo?
     -- Vai, sim. S temos que conversar com Seu Joel e entregar a chave.
Pelo que sei voc no tem contrato de aluguel.
     -- Nunca foi preciso isso. Sempre fui de palavra. Nunca atrasei o
aluguel.
     -- Vamos comer e depois iremos a casa dele conversar.
     -- Est bem. Vou  cozinha fazer o caf.
     Marina pegou as duas sacolas de comida e disse:
     -- Venha, Ccero, vamos arrumar a mesa.
     Os olhos geis de Ccero brilhavam de prazer a cada pacote que
abriam e colocavam sobre a mesa. Marina sorria feliz. Fora para
proporcionar a eles uma vida melhor que ela aceirara a proposta de Adele.
     No se preocupava com o futuro. Durante os meses que ficara reclusa
na fazenda, tivera tempo de planejar passo a passo o que faria.
     Assim que chegassem a So Paulo, procuraria uma casa confortvel
para alugar e compraria o indispensvel para se instalarem. Depois, abriria
sua firma de advocacia, alugaria um local apropriado, montaria seu
escritrio.
     Tinha de ser um lugar bonito, aconchegante. Contrataria uma
secretria e se dedicaria inteiramente ao trabalho. Conhecia alguns
empresrios importantes com os quais fizera contato quando trabalhava
para o Dr. Olavo.
     Iria visit-los, apresentar sua empresa e colocar-se  disposio deles.
Tinha certeza de que seria bem-sucedida. Era apenas questo de tempo.
     Depois do lanche, foram conversar com o dono da casa, que era mais
amigo da famlia do que senhorio. Apesar de sentir a perda dos amigos,
ficou feliz em saber que eles estavam melhorando de vida.
     Quando Marina disse que entregariam a chave no dia seguinte, ele
comentou:
     -- To depressa? Voc acabou de chegar. Por que no fica mais
alguns dias? Nossa cidade progrediu muito.
     -- Eu sei Seu Joel, mas acontece que estive fora do Pas quase um ano
e desejo comear a trabalhar logo.
     -- J tratou o caminho para a mudana? Meu sobrinho Juca tem
caminho e  bom nisso.
     -- No vamos levar os mveis -- disse Oflia.
     --No?
     -- No -- confirmou Marina. -- Eu tenho tudo em So Paulo. Vamos
deixar na casa. Se o senhor no quiser ficar com eles, pode dar a quem
precisar.
     --  muita generosidade. Obrigado.
     Tudo combinado, na tarde do dia seguinte, j com as malas no carro,
eles entregaram as chaves e se despediram.
     Ccero estava radiante, Oflia um pouco assustada. Ela nunca havia
ido a So Paulo. Marina sorria observando seu ar preocupado, que ela se
esforava para no mostrar.
     No momento de entrar no carro, Marina segurou o brao dela e,
olhando firme em seus olhos, disse com voz segura:
     -- Tudo vai dar certo, me. No se preocupe. Estamos virando uma
pgina de nossas vidas. Alegre-se. Vamos ser muito felizes.
     A firmeza de Marina, sua coragem, sempre impressionaram Oflia.
Era uma vencedora. Conseguira formar-se, ir ao exterior, construir uma
carreira. Certamente sabia o que estava fazendo.
     Oflia sorriu e respondeu:
     -- Eu sei filha. S o fato de podermos viver todos juntos j  uma
felicidade. Vamos embora.
     -- Sim, me. Vamos embora sem olhar para trs. Nossa vida est
comeando hoje.
     Todos acomodados, Marina deu partida no carro. Naquele momento, o
passado ficara para trs.

     Assim que se instalaram no hotel, Marina pediu o jornal e comeou a
procurar uma casa para morar. Oflia no queria ir para um apartamento.
Gostava de ter quintal, plantar. Marina concordou. Queria que ela se
ambientasse logo e, principalmente, se sentisse feliz.
     Uma semana depois, haviam alugado um sobrado na Vila Mariana.
Era uma boa casa, com trs quartos, dois banheiros em cima, duas salas,
cozinha, garagem e pequeno quintal.
     Para Oflia e Ccero, parecia um palcio. Marina desejava coisa
melhor, mas pensava que seria por pouco tempo. Assim que estivesse
ganhando bem, pretendia comprar uma boa casa. A, sim faria tudo a seu
gosto.
     Depois foram s compras. Marina escolhia tudo de boa qualidade;
Oflia ficava preocupada. Em poucos dias a casa estava mobiliada com o
indispensvel para que pudessem se mudar.
     Assim que se instalaram na casa, Marina preparou a documentao
para abrir seu escritrio de advocacia. Em menos de um ms, ela havia
alugado trs salas em um prdio no centro da cidade, matriculado Ccero
em um bom colgio e estava cuidando da decorao de seu escritrio.
     Enquanto esperava a documentao para comear a trabalhar, Marina
fez uma lista de empresas com as quais havia tido contato quando
trabalhava para o Dr. Olavo e agendou visitas com os diretores para
apresentar sua firma e colocar-se  disposio deles. Foi muito bem
recebida pela maioria deles, que se lembravam de como ela era eficiente e
capaz.
     Apresentava-se elegantemente vestida, mostrando segurana e
firmeza. Ela notava os olhares de admirao que despertava, tinha
conscincia de que estava mais bonita e mais bem preparada.
     Havia ido ao banco onde Adele depositara o dinheiro em seu nome.
Deixara uma parte para as primeiras despesas e aplicara o restante.
     Quando tudo ficou pronto, ela contratou uma recepcionista e um rapaz
para os servios de rua.
     J no segundo dia o telefone comeou a tocar e os primeiros contratos
comearam a ser estudados.
     Marina dedicou-se inteiramente ao trabalho. Dois meses depois, ela j
precisou contratar uma secretria.
     Marina sentia-se feliz. Sua me havia se ambientado  nova vida. A
princpio no queria que se contratasse uma pessoa para os servios
domsticos.
     -- No  preciso. Eu posso dar conta de tudo.
     -- Eu sei, mas quero que tenha seu tempo livre para cuidar de outras
coisas.
     -- Voc no me deixou trazer a mquina de costura. Sou uma pessoa
ativa. No posso ficar sem fazer nada.
     -- Voc ter que tomar conta da casa. Quero que ensine a Rosa a
fazer as coisas do jeito que s voc sabe fazer. Vou estar muito ocupada e
voc ter que fazer as compras da casa.
     -- Claro. Pode ter certeza de que aproveitarei cada centavo.
     Eu       quero cozinhar. No vou permitir que outra pessoa cuide da
alimentao dos meus filhos.
     -- Se quer assim, faa. Mas eu gostaria que voc arranjasse algumas
amigas, que fosse passear. H muitas coisas bonitas para conhecer nesta
cidade.
     Quando Marina contratou Rosa para trabalhar na casa, colocou como
condio principal a dedicao a Oflia. Depois de enumerar as condies
de trabalho, finalizou:
     -- Trate de agradar mame. Ela sempre viveu no interior. Quero que
ela se acostume e seja feliz aqui.
     -- Fique tranqila, Dona Marina. Sei como fazer isso.
     Rosa era uma mulata de vinte e cinco anos, olhos vivos, sorriso farto,
peitos generosos, corpo bem-feito.
     -- Se voc souber mesmo, no vai se arrepender. Sei ser generosa
quando a pessoa merece.
     -- Pode deixar. Comigo Dona Oflia nunca vai ficar triste.
     De fato, Rosa tinha um jeito especial de lidar com Oflia. Notou logo
que ela se ressentia por Marina ter escolhido outra pessoa para trabalhar na
casa. Por isso, desde o incio procurava fazer as coisas do jeito que Oflia
gostava.
     Muito bem-disposta, sempre alegre, em pouco tempo conquistou a boa
vontade de Oflia e a amizade de Ccero, contando-lhes os costumes da
cidade, falando sobre os lugares mais bonitos, oferecendo-se para
acompanh-los quando desejassem passear.
     Ia s compras com Oflia na feira, no supermercado, sempre com
disposio e alegria, auxiliando-a com presteza.
     Marina tinha motivos para sentir-se feliz. Os primeiros clientes
estavam aparecendo, o dinheiro comeou a entrar e ela confiava que
conseguiria tudo quanto havia planejado.
    Em meio a tantas ocupaes, ela havia quase esquecido seu negcio
com Adele. At que uma tarde, sentada no escritrio, abriu uma revista e
seu corao disparou.
    L estava uma foto de Adele, Maria Eugnia e Henrique, este
carregando o filho nos braos. Seus olhos vidos e curiosos fixaram-se no
menino. Reconheceu que ele era lindo. Devia estar com seis meses. Ela no
se cansava de olh-lo. Havia outras fotos de Maria Eugnia e Henrique.
Estava vendo-os pela primeira vez.
    Sentiu uma sensao diferente. Ele estivera em sua cama, haviam se
encontrado intimamente. Mas ele era um estranho. Recordou-se das
emoes que sentira naqueles momentos.
    Sentia as pernas bambas e as mos trmulas. Levantou-se e tomou um
copo de gua. Precisava reagir. Aquelas pessoas haviam passado em sua
vida, mas estavam distantes para sempre. No podia entregar-se  emoo
daquela forma.
    Fora apenas um negcio, um contrato que fora bom para ambas as
partes. Ela estava feliz, havia conseguido o que queria. Eles tambm.
Precisava encarar a situao como sempre fizera com serenidade e calma.
    Precisava preparar-se. Moravam na mesma cidade. Poderia acontecer
de se encontrarem em algum momento em algum lugar. Se acontecesse,
no poderia demonstrar nenhuma emoo. Oficialmente, eram pessoas
desconhecidas que nunca haviam feito parte de sua vida.
    A esse pensamento, Marina sentiu-se um pouco triste. Admirava
Adele, gostaria de continuar tendo contato com ela. Mas era impossvel.
Apesar do lao profundo que os unia na pessoa daquela criana, era esse
mesmo lao que os havia separado para sempre.
    Olhou o relgio. Eram cinco horas. Havia ainda um processo que
precisava ler, mas no estava com disposio e deixou para o dia seguinte.
Decidiu encerrar o expediente, sair, andar um pouco.
     Apanhou a bolsa, deu algumas recomendaes  secretria e saiu.
Uma vez na rua, foi caminhando, olhando as vitrines, procurando distrair-
se. Ao passar por uma livraria, decidiu entrar.
     Nos ltimos tempos, lera quase que exclusivamente livros sobre sua
profisso. Seria bom procurar uma leitura mais agradvel.
     Separou dois que lhe pareceram bons. Folheou-os indecisa.
     -- Pode levar esse.  muito bom.
     Ela voltou-se e viu um rapaz alto, moreno, forte, bem vestido, que a
olhava sorrindo levemente.
     -- Voc j leu?
     -- Li os dois. Gostei mais deste. Apesar de ser um livro leve sem
grandes pretenses,  verdadeiro e toca nosso esprito.
     -- Voc  da loja?
     Ele sorriu, exibindo dentes alvos e bem distribudos.
     -- No. Sou apenas um leitor assduo. Ler  meu passatempo
predileto. Vim buscar dois livros que havia encomendado.
     -- Ah! Nesse caso, vou lev-lo.
     Marina segurou o livro e foi ao caixa. Estava pagando quando viu o
mesmo rapaz atrs dela. Foi apanhar o pacote e logo ele tambm estava a
seu lado.
     -- Que livros voc comprou? -- indagou ela, notando que o pacote
dele era volumoso.
     -- Livros profissionais. Sou mdico. Permita que me apresente.
     Em seguida tirou um carto do bolso e entregou-o a Marina, que o
apanhou e leu:


     DR. RAFAEL VILARDI  PSIQUIATRA
     -- Escolheu uma profisso difcil -- disse ela, sorrindo. -- Meu nome
 Marina Siqueira, advogada.
     -- Muito prazer. Aceitaria tomar um caf comigo?
     Marina havia apanhado o pacote. Fixou o olhar no rosto dele e
pensou:
     Por que no?
     Fazia tempo que no tinha com quem conversar. Um homem bonito,
inteligente, era justamente do que precisava para distrair-se. Sorriu e
respondeu:
     -- Est bem.
     Saram juntos da livraria e foram conversando enquanto caminhavam.
Pararam em uma casa de ch e ele disse:
     -- Eu gosto daqui. Est bom para voc?
     -- Est.
     Entraram, sentaram-se e a princpio falaram sobre suas profisses,
comparando os pontos que julgavam semelhantes. Ele discorria com
facilidade, sua voz era agradvel, e Marina sentiu-se  vontade.
     Ele contou que morava havia pouco tempo na cidade, abrira seu
escritrio e trouxera a me e o irmo para viver com ela.
     -- Voc  uma mulher batalhadora, corajosa, que sabe o que quer.
No tenho encontrado muitas assim.
     -- No sou conformada, vou atrs do que desejo. Meu pai nos deixou
e minha me lutou muito para nos criar. Vendo o esforo dela, prometi a
mim mesma estudar, progredir, dar a ela e ao meu irmo uma vida melhor.
Estou conseguindo.
     -- A maioria das moas coloca no casamento todas as suas
esperanas. Realizar um sonho de amor  tudo que desejam. Voc nunca
pensou nisso?
     -- No. Casamento nunca esteve em minhas cogitaes.
     -- Voc  muito bonita. No deve ter sido fcil conseguir isso. Como
fez para espantar os pretendentes?
     -- Simplesmente no namorando.
     Ele a olhou incrdulo.
     -- Quer dizer que nunca namorou?
     -- Nunca. Sa com alguns rapazes, fiz algumas tentativas, mas eles
logo queriam tomar posse de mim, mandar em minha vida, e eu tinha
outros planos.
     Ele olhou-a nos olhos e perguntou:
     -- Voc no gosta de homens?
     Marina corou e respondeu:
     -- No sou homossexual, se  o que quer saber.
     -- Desculpe, no quis ser intrometido.  difcil acreditar que uma
mulher bonita, jovem, como voc, no pense em se casar, ter filhos. Mesmo
sendo uma pessoa mais lcida, a funo da mulher  essa.
     -- Eu nunca me apaixonei. Talvez seja por isso.
     -- Enfrentar o casamento se um dia se apaixonar?
     Marina riu:
     -- Talvez. Depende. Mas at agora falamos de mim. Seria bom
falarmos de voc.
     -- No h muita coisa a dizer. Meus pais moram no Rio de Janeiro,
tenho uma irm casada que tambm vive l, dois sobrinhos lindos. Vivo em
So Paulo h muitos anos. Vim para cursar Medicina. Depois de formado,
fiz especializao nos Estados Unidos. Depois que terminei, fiquei
trabalhando l durante trs anos. Quando senti saudade do Brasil, voltei e
resolvi morar em So Paulo.
     -- No quis viver no Rio?
     -- No. Deixei aqui alguns amigos do tempo de estudante. Adoro esta
cidade. Comprei um apartamento, montei meu consultrio aqui. Quando a
saudade bate, vou visitar a famlia.
     -- Quanto a casamento...
     -- Escapei tanto quanto voc, e posso garantir que no tem sido fcil.
Quando elas cismam com algum, no desistem, querem casar de qualquer
jeito. Para ser sincero, essa idia no me entusiasma.  difcil viver junto
com a cabea que a maioria das pessoas tem. D trabalho antes, durante... E
depois da separao fica pior.
     Marina riu gostosamente.
     -- Se voc pensa assim, ns podemos ser amigos. No corremos
nenhum risco.
     Ela estendeu a mo, que ele apertou contente.
     -- Encontrar uma mulher como voc merece uma comemorao.
     -- Por que diz isso?
     -- Gostaria de ter amizade com voc. Tambm no gosto de correr
riscos. Aceitaria jantar comigo uma noite destas?
     Ela riu bem-humorada:
     -- Talvez. Estou precisando fazer amigos.
     Marina consultou o relgio e continuou:
     -- Est na hora de ir embora.
     -- Quer que a leve em casa?
     -- No  preciso. Meu carro est no estacionamento perto daqui.
     Ela levantou-se. Ele tambm.
     -- Tive prazer em conhec-lo. Obrigada pelo caf.
     -- O prazer foi meu. No vai dar seu telefone?
     Ela apanhou um carto e entregou-o a ele. Depois do aperto de mo,
Marina foi embora.
     Rafael sentou-se novamente, apanhou o carto que ela lhe dera e
olhou-o pensativo.
     Era uma mulher inteligente, bonita, agradvel e de cabea boa. Seria
interessante conhec-la melhor, saber se ela era mesmo tudo isso.
     Acreditava que as mulheres gostam de representar papis, fantasiar,
manipular, para conseguir o que pretendem. Talvez aparentar desinteresse
fosse apenas uma ttica inteligente para conseguir agarrar um marido. Em
sua experincia, j havia visto tudo isso e muito mais.
     Ela o olhava nos olhos enquanto falava, e isso revelava sinceridade.
Mas ele precisava descobrir se no havia alguma inteno por trs disso.
     Rafael era um profundo estudioso do comportamento humano.
Gostava de questionar, olhar todos os lados de uma situao, entender o
que motivava as pessoas a escolher esta ou aquela atitude.
     Marina seria um bom elemento para seus estudos. No conhecia
outras com esse aparente bom senso. Guardou o carto no bolso,
planejando ligar para ela nos prximos dias.




     CAPTULO 9




     Marina chegou em casa um pouco mais tarde do que de costume. O
trabalho no escritrio estava crescendo. Ela havia contratado uma estagiria
alm da secretria. Advogara para dois clientes importantes, conseguira
acordos vantajosos, e isso lhe trouxera novos clientes.
     Ao entrar em casa, notou um ambiente festivo. Havia flores na mesa
de jantar, que fora arrumada com capricho. Um cheiro gostoso vinha da
cozinha, e ela foi ver o que era.
     -- Hum! Que cheiro bom! Estou vendo que o jantar vai ser
caprichado.
     Oflia sorriu enquanto mexia uma panela e respondeu:
     -- Hoje faz seis meses que viemos para So Paulo. Temos que
comemorar.
     -- Notei o capricho da mesa. Foi voc quem arrumou tudo?
     -- Claro. Faz um ms que estou fazendo aquele curso.
     -- Pelo que vi, voc est aproveitando muito. O arranjo de flores
tambm foi voc?
     -- Foi. Gostou?
     -- Est lindo. Ccero j chegou?
     -- J. Est no quarto.
     -- Tenho tido tanto trabalho que no tem sido possvel dar a ele a
atenco necessria. Como est indo nos estudos?
     -- Bem. Ele  estudioso, voc sabe. O jantar est pronto. Posso servir?
     -- Vou subir, me lavar um pouco. Cinco minutos e estarei descendo.
     -- Avise Ccero.
     Marina assentiu com a cabea e foi para o quarto. Calou um chinelo
macio, lavou-se. Ao descer, passou pelo quarto do irmo e bateu.
     -- Ccero, o jantar est pronto.
     -- No quero jantar. No estou com fome.
     Marina estranhou. Ele tinha bom apetite. Era sempre o primeiro a
sentar-se para comer. Estaria doente?
     Abriu a porta e entrou. A luz estava apagada e Marina a acendeu.
     -- No acenda -- protestou ele. -- Estou com dor de cabea.
     Ela aproximou-se, colocou a mo em sua testa. No estava quente.
     -- Febre voc no tem. Vou pedir  mame um remdio para sua dor
de cabea.
     -- No precisa. Vou ficar no escuro descansando e logo vai passar.
     -- Mame fez um jantar especial para comemorar nossa vinda para c.
Ela vai ficar triste se voc no descer.
     -- No quero que ela fique triste.
     -- Ento vamos l para baixo. Talvez comendo um pouco voc
melhore.
     -- Est bem. Pode ir. Vou lavar o rosto e descer.
     Marina desceu e comentou com Oflia:
     -- Ccero no quer jantar. Est com dor de cabea.
     -- De novo?
     -- Como assim?
     -- Nos ltimos dias ele no tem estado bem. Chega da escola, fecha-
se no quarto, no conversa e, quando pergunto, diz que est com dor de
cabea.
     -- Nesse caso, vou marcar uma consulta mdica.
     -- Faa isso. Mas eu acho que ele est com algum problema e no
quer me contar. Converse com Ccero; talvez ele se abra com voc.
     Pouco depois, o rapaz desceu e juntou-se a elas na mesa para jantar.
Marina notou que ele estava plido e com olheiras, mas no disse nada.
     A comida estava gostosa e o jantar decorreu alegre. Ccero comeu
tudo que a me colocou em seu prato. Mas, imediatamente aps a
sobremesa, ele foi novamente para o quarto.
     Pouco depois, Marina fez ligeiro sinal para a me e foi ter com ele.
Encontrou-o deitado no escuro. Ela entrou e no acendeu a luz. Sentou-se
do lado da cama, alisou a cabea dele e indagou:
     -- Ento? Melhorou sua dor de cabea?
     -- Ainda no.
     Marina continuou acariciando a cabea dele em silncio por alguns
instantes. Depois debruou-se sobre ele e beijou-o na testa.
     -- Eu adoro voc. O que mais quero  que seja feliz. Sinto que voc
no est bem. Aconteceu alguma coisa?
     Ele rompeu em soluos e Marina continuou alisando seus cabelos com
carinho, esperando que a crise passasse. Quando ele se acalmou, ela
perguntou:
     -- Ento, no vai me contar o que o est afligindo? No confia em
mim?
     --  que voc e a me fazem tudo para me ver feliz, mas eu no estou
correspondendo.
     -- No diga isso.
     -- Estou indo mal no colgio e voc paga um dinheiro para eu
estudar.  que aqui tudo  diferente do interior.
     --  natural que estranhe a mudana.
     -- No gosto daquela escola. Queria voltar para o interior.
     -- Voc acha que aqui o ensino  mais puxado?
     -- Acho. Eles no explicam bem as matrias. Falam de um modo
diferente. No gosto deles, e dos colegas muito menos.
     -- Como assim?
     -- Eles ficam caoando de mim, imitando minha maneira de falar.
No quero mais ir a essa escola.
     -- Voc sempre foi corajoso. No vai fugir agora. Vai ficar e
enfrentar a situao.
     -- Mas as meninas riem de mim quando eu falo.
     --  o sotaque do interior. Eu, quando vim estudar em So Paulo,
passei pela mesma coisa.
     Ccero sentou-se na cama:
     -- Voc no fala como eu e mame.
     -- Porque eu aprendi a falar igual s pessoas daqui.  o que voc vai
fazer.
     -- Eu no sei como. Eu falo sem perceber. Os colegas, quando
chegam perto de mim, imitam meu modo de falar e do risada.
     -- E as notas, como esto?
     -- Baixas.  que no entendo o que alguns professores falam.
     -- Fui informada de que essa escola  muito boa. Mas penso que o
currculo deles  mais adiantado que o da escola em que voc estava. Por
que no me contou isso antes?
     -- Depois de tudo que voc fez por mim, das roupas que me deu, da
casa, tudo, tive vergonha de no corresponder ao que voc esperava de
mim.
     Marina alisou novamente a cabea dele e respondeu:
     -- Eu espero que seja feliz. Apenas isso. E, sempre que voc no
estiver gostando de alguma coisa, quero saber. Seja sincero, fale comigo,
conte o que o est incomodando. Juntos vamos resolver a situao.
     --  que no sei se vou conseguir passar de ano.
     -- No se preocupe com isso. Se no passar, far tudo de novo. Voc
mudou de vida e est se adaptando ao novo momento. O que no pode 
desanimar.
     -- Talvez fosse melhor mudar de escola.
     -- Nada disso. Voc vai enfrentar seus colegas, os professores, dar a
volta por cima. Vou ajud-lo a fazer isso.
     -- Como?
     -- Vou contratar um professor particular para ajud-lo nos estudos e
vencer esse sotaque.
     -- Tem certeza de que vai dar certo?
     -- Tenho. Amanh irei com voc ao colgio informar-me sobre o
currculo e os livros utilizados no curso. Com um bom professor, voc em
pouco tempo ter vencido essa batalha.  inteligente, forte, capaz.
     -- Voc acha mesmo?
     -- Tenho certeza. Agora, levante-se dessa cama e vamos descer e ver
televiso com a mame. H um filme bom que vai passar esta noite.
     Marina acendeu a luz e Ccero saltou da cama. Seu rosto estava mais
corado e os olhos brilhantes. Abraados, desceram at a sala.
     Na tarde seguinte, Marina foi ao colgio de Ccero conversar com a
diretora. Ficou sabendo que ele no estava indo bem nos estudos, no
conseguia acompanhar as matrias e, diante das notas que ele trouxera da
escola anterior, a diretora acreditava que a escola que ele cursara era muito
fraca.
     Marina explicou que seu irmo estava tendo dificuldade de adaptao,
inclusive por causa do seu sotaque, que era motivo de chacota dos colegas.
     -- Eles no fazem isso por mal. Gostam de brincar -- justificou ela.
     -- Essas brincadeiras magoam, principalmente na idade em que
Ccero est. Ele queria at deixar a escola.
     -- Se ele fizer isso nesta poca do ano, vai repetir.
     -- No vai, no. Meu irmo  um menino estudioso e inteligente. Vou
procurar um professor particular para ajud-lo nos estudos, mas gostaria
que a senhora conscientizasse seus alunos de que devem respeitar o colega
e no desmoraliz-lo apenas porque tem um sotaque diferente. A meu ver,
a escola tem o dever de educar seus alunos ensinando-os a respeitar as
diferenas de cada um.
     -- Vou conversar com os professores e ver o que poderemos fazer.
     Marina agradeceu e saiu. Era intervalo de aula e no corredor ela
encontrou Ccero conversando com uma senhora.
     Vendo-a, ele chamou-a:
     -- Venha, Marina. Quero apresentar-lhe Dona Rute, minha professora
de portugus.
     Marina cumprimentou-a e Ccero continuou:
     -- Dona Rute  a melhor professora que tenho. Quando estou de
cabea quente, ela conversa comigo e me acalma.
     Rute era uma mulher de uns quarenta anos, alta, magra, olhos vivos e
alegres, cabelos castanhos. Marina gostou dela.
     -- Ele tem lhe dado muito trabalho? -- brincou.
     A professora sorriu e respondeu:
     -- No. Ccero  um bom menino.
     -- Ele est tendo problemas de adaptao. A mudana foi
     grande. Ele nunca havia sado do interior, est estranhando os
costumes da cidade. S agora descobri que o currculo desta escola  muito
mais completo e adiantado que o da que ele cursava.
     -- De fato. Os cursos de nossa escola so puxados, o que  muito
bom, porquanto os prepara melhor. Muitos dos nossos alunos, ao terminar
o colegial, nem fazem cursinho: entram direto na universidade.
     -- Estou querendo contratar um professor particular para ajud-lo.
Mas no conheo nenhum. Estive trabalhando fora do Pas, e faz seis meses
que estamos em So Paulo. A senhora poderia indicar-me algum?
     -- Eu sou viva e tenho uma filha adolescente. Dou aulas particulares
para ajudar nas despesas.
     Ccero interveio:
     -- A senhora poderia fazer isso por mim?
     -- Se sua irm quiser, farei com prazer.
     -- Claro que eu aceito.
     -- Que bom, Dona Rute! Tenho certeza de que vou aprender mesmo.
     Combinaram comear na manh seguinte e Marina despediu-se
contente. Notara que Ccero gostava daquela professora. Para ela, isso
ajudaria muito sua recuperao.
     Quinze dias depois, quando Marina chegou do escritrio, Ccero j
havia voltado da escola.
        -- E ento? -- indagou ela. -- Como est indo?
        -- Melhor. Hoje tive uma aula de matemtica e no entendi muito
bem. Mas amanh cedo Dona Rute vai me explicar tudo direito.
        -- S que voc precisa prestar ateno na aula.
        -- Eu presto. Mas os outros professores falam depressa, no gostam
de repetir nada, e tenho vergonha de perguntar o que no entendo. Outro
dia, uma professora chamou um aluno de burro porque ele no entendeu o
que ela ensinou. A os outros, quando samos para o recreio, comearam a
cham-lo de burro, fazendo orelhas grandes e relinchando. Fiquei com pena
dele.
        -- Uma professora no deveria chamar um aluno de burro. Ela est
sendo paga para ensin-lo. Se ele soubesse a lio, no precisaria dela.
        -- Dona Rute  diferente. Explica de novo, d exemplos, faz a gente
repetir o que entendeu. s vezes conta um caso engraado, e fica fcil
guardar a lio.
        -- Ainda bem que voc a contratou -- interveio Oflia. --  uma
mulher muito especial.
        -- Pelo jeito, j conquistou voc tambm.
        --  verdade. s vezes, depois da aula, conversamos um pouco. Ela
perdeu o marido em um acidente quando a filha tinha dois anos. Eles se
amavam muito. Voc precisa ver como os olhos dela brilham quando fala
nele.
        -- De certa forma, voc tambm passou por isso. Criou os filhos
sozinha.
        --  diferente. O marido dela morreu; o meu me abandonou. Ela pode
pensar nele com amor; eu, no.
        -- Voc ainda se lembra dele?
        -- De vez em quando. Porm, quando acontece, no sinto saudade,
mas raiva, revolta.
    -- Voc precisa esquecer. O que passou, passou.
    O telefone tocou e Rosa atendeu. Depois chamou Marina:
    --  para voc.
    -- Quem ?
    -- Um tal de Dr. Rafael Vilardi.
    Marina atendeu imediatamente.
    -- Como vai, Marina? Lembra-se de mim?
    -- Claro! Vou bem. E voc, como tem passado?
    -- Bem. Quer jantar comigo esta noite?
    -- Acabei de chegar do escritrio. Tive um dia complicado.
    -- Eu tambm.  mais uma razo para nos darmos ao luxo de jantar
juntos, tomar um bom vinho, jogar conversa fora. Que tal?
    Marina pensou um pouco e resolveu:
    -- Est bem. Estou precisando mesmo espairecer um pouco. A que
horas?
    -- s oito est bem?
    Marina consultou o relgio. Eram sete horas. Daria tempo de tomar
um banho e aprontar-se.
    -- Est.
    -- Passarei por sua casa s oito. Qual  o endereo?
    Ela lembrou-se de que lhe dera seu carto comercial, no qual s
constavam os telefones e o endereo do escritrio. Ela disse e ele anotou.
Depois desligou o telefone.
    Oflia, curiosa, perguntou:
    --  um admirador?
    -- No. Um amigo. Nos conhecemos outro dia em uma livraria,
conversamos, tomamos um caf juntos. Vamos sair para jantar.
    Oflia olhou-a e sorriu.
     -- Est na hora de voc arranjar um namorado. S trabalha e estuda.
Na sua idade isso no est certo.
     -- No fique fantasiando. O Dr. Rafael pareceu-me uma boa pessoa, e
estou querendo fazer amigos, ter companhia para sair, passear um pouco.
No pretendo me envolver em um namoro. Voc sabe que no quero perder
minha liberdade. Casar no est em minhas cogitaes.
     Ela subiu para se arrumar. Oflia, vendo-se a ss com Rosa,
comentou:
     -- Marina  diferente de todas as moas. Por que ser que foge do
casamento? Eu gostaria que ela encontrasse um homem bom, casasse,
tivesse filhos. Esse  o destino de uma mulher.
     -- Vai ver que ela ficou assim por causa do que o pai fez.
     -- Pode ser. Essa  uma culpa a mais daquele safado.
     -- No se preocupe, Dona Oflia. Ela diz isso porque ainda no
encontrou um homem que a interesse. Quando o amor aparece, a gente se
esquece de tudo. Quando me separei do marido, jurei que nunca mais me
ligaria a homem nenhum. Mas, quando apareceu o Nelsinho, foi como se
tudo se modificasse. Fiquei caidinha.
     -- Mas voc no quis ir morar com ele.
     -- Isso eu no fao mesmo. Eu quero  namorar. Ir todos os sbados
ao clube com ele, danar at o dia amanhecer. Depois, volto para casa, ele
vai para a casa dele. No tem brigas, discusses, problemas, e pronto.
     -- Voc no gostaria de ter filhos?
     -- Eu tive dois que morreram antes de nascer. Agora no vou tentar
mais. Estou muito bem aqui.
     s oito em ponto a campainha tocou e Rosa foi abrir. Rafael
apresentou-se. Ela pediu que ele entrasse e conduziu-o at a sala onde
Oflia, vendo-o, levantou-se e foi cumpriment-lo.
     -- Sou Rafael Vilardi, amigo de Marina.
     -- Muito prazer. Sente-se, por favor. Minha filha no demora.
     Ele acomodou-se no sof e ela continuou:
     -- O senhor aceita um caf, uma gua, uma bebida?
     -- No, obrigado.
     Oflia, voltando-se para Rosa, pediu:
     -- Avise Marina que o Sr. Rafael j chegou.
     Ela obedeceu. Oflia sentou-se na poltrona ao lado e continuou:
     -- Estou contente de que Marina tenha concordado em sair um pouco.
Essa menina estuda e trabalha demais. No sai para divertir-se. Na idade
dela isso no est certo.
     -- De fato. Eu tambm s vezes exagero no trabalho.
     Marina desceu as escadas e entrou na sala. Estava linda no elegante
vestido vermelho escuro, os cabelos dourados bem penteados. Ele
levantou-se. Ela foi em direo a ele:
     -- Desculpe se me atrasei alguns minutos. Gosto de ser pontual. Mas
no tive muito tempo para me arrumar--disse, estendendo a mo para
cumpriment-lo.
     -- No notei. Esperei em excelente companhia.
     -- J vi que voc no perdeu tempo -- respondeu Marina, sorrindo.
     -- Ele est sendo gentil, minha filha. No tivemos tempo nem de
conversar.
     -- Hoje ns vamos sair, mas prometo que voltarei um dia para
conversarmos. A senhora lembra muito uma tia de quem gosto muito e no
vejo h tempos. Fez-me sentir saudade de minha famlia.
     -- Podemos ir quando quiser -- disse Marina.
     -- Ento vamos agora.
     Ele despediu-se de Oflia e saram. Rosa apareceu e avisou:
     -- O jantar est pronto. Posso servir?
     -- Pode. Vou chamar o Ccero.
        -- Moo bonito, no? Viu como ele olhou para ela quando entrou na
sala?
        -- Vi. Marina estava linda.
        -- Ela deveria arrumar-se sempre assim. Ele ficou deslumbrado.
        -- Ela garante que  s amizade.
        Rosa balanou a cabea e respondeu:
        -- Por enquanto pode at ser. Mas isso pode mudar.
        -- No sei se  bom ou ruim. Um amor pode trazer muitas mudanas.
Sirva o jantar. Vou avisar o Ccero.
        Durante o trajeto para o restaurante, a conversa entre Marina e Rafael
fluiu agradvel.
        -- Sua me merece o carinho que voc sente por ela.
        -- De fato. Sempre foi muito dedicada a mim e a Ccero.
        -- Nota-se pelo brilho dos olhos quando fala sobre vocs.  uma
pessoa confivel.
        -- Voc deve ser muito bom em sua profisso.

        -- Por qu?
        -- Analisa as pessoas com exatido.
        -- Nem sempre. Sua me  uma pessoa sincera, simples, prtica, sem
joguinhos psicolgicos. J outras se fecham, com receio de mostrar-se
como so, representam papis o tempo todo e  preciso tempo, esforo,
para conhec-las de fato.
        -- Do jeito como fala, parece no confiar muito no ser humano.
        Ele sorriu e respondeu:
        -- A experincia tem me mostrado que  melhor no prejulgar.
Confiar ou no, depende das circunstncias.
        -- Como assim?
     -- As pessoas agem de acordo com o que acreditam e muitas vezes
menosprezam suas prprias qualidades. Preferem fingir, assumindo ser o
que no so, pensando em conseguir a admirao dos outros. Cedo ou tarde
vo descobrir que, seja qual for sua motivao, o melhor  ser verdadeiro.
     Marina no respondeu logo. Talvez no fosse bom aprofundar aquela
amizade. Rafael era inteligente, observador. Mas ela no gostava que
penetrassem em sua intimidade.
     O carro parou em frente ao restaurante, eles desceram e entraram. O
lugar era muito bonito, com msica ao vivo. Rafael havia reservado mesa.
     Uma vez acomodados, ele procurou conversar sobre assuntos do
momento. Havia notado que Marina no gostara de falar sobre
comportamento. Por qu? Era como se ela desejasse impor distncia. Ele,
percebendo isso, decidiu contemporizar.
     Logo ela sentiu-se  vontade novamente e o jantar decorreu agradvel.
Alguns casais danavam, e Rafael convidou-a a ir  pista.
     -- Eu no sei danar -- esquivou-se ela.

     -- No creio. Voc no quer danar comigo.

     -- No se trata disso.  que nunca me permiti freqentar bailes. No
tinha tempo. Trabalhava e estudava duro. Assim, nunca aprendi.

     -- Voc se privou da coisa mais gostosa desta vida.

     -- Tanto assim?
     -- Mas ainda est em tempo. Venha, vou ensinar-lhe. Esta msica
lenta  fcil.
     Ela meneou a cabea negativamente, mas Rafael levantou-se, pegou
sua mo e puxou-a.
     -- Vamos. Voc vai adorar.
     Os msicos tocavam um blues muito conhecido e Marina decidiu
experimentar. Na pequena pista de dana, Rafael enlaou-a e ela deixou-se
conduzir ao ritmo do som. Ela conhecia e apreciava aquela msica, por isso
no teve nenhuma dificuldade.
     Quando a banda parou, Rafael disse sorrindo:
     -- Voc deslizou muito bem. Tem ritmo,  malevel, tem todas as
qualidades de uma grande danarina.
     -- No brinque. Foi a primeira vez que me atrevi a danar.
     -- Custo a crer.
     Os msicos comearam a tocar um samba. Sem dizer nada, ele a
enlaou e comearam a danar. No incio ela se atrapalhou um pouco, mas
logo depois acertou o passo e dali para a frente tudo deu certo.
     -- Voc nasceu para danar. Eu no disse?
     -- Confesso que gostei. Danar  muito bom. Eu gosto muito de
msica, e danar  integrar-se de corpo e alma a ela.
     --  isso. Voc definiu muito bem.
     Voltaram  mesa, porquanto o jantar estava sendo servido.
     Depois da sobremesa, voltaram a danar. Marina esqueceu-se de tudo,
deixando-se conduzir por ele nos vrios ritmos.
     Rafael danava muito bem. Era leve, conduzia-a com segurana.
Marina, rosto corado pelo exerccio, estava feliz.
     Passava das duas horas quando Rafael a deixou na porta de casa.
     -- Foi uma noite muito agradvel -- disse ela, estendendo a mo para
despedir-se. -- Obrigada.
     -- Se gostou mesmo, podemos repetir a dose. Foi to bom que nem vi
o tempo passar.
     -- Voc viu que horas so? Acho que abusamos.
     -- Nada disso. Os momentos felizes devem ser multiplicados.
Conheo lugares muito agradveis, bonitos, com boa comida, boa msica.
Quero lev-la a todos eles. Vou ligar combinando.
     -- Obrigada. Boa noite.
     -- Boa noite.
     Ela entrou e ouviu o rudo do carro dele distanciando-se. Marina
estava leve, feliz como havia muito tempo no se sentia. Procurou no
fazer rudo e subiu para o quarto.
     Alegre, cantarolando uma das msicas que ouvira, tomou um banho
rpido e foi se deitar. Logo adormeceu.
     Rafael foi para casa pensando em Marina. Era uma mulher
maravilhosa. Enquanto danavam, ele sentira vontade de apert-la nos
braos e beij-la. Conteve-se com esforo. Sabia que, se ela notasse o que
ele estava sentindo, no se encontraria mais com ele.
     Ela parecia ser diferente das mulheres que conhecera. Havia nela
alguma coisa que impunha distncia. Talvez o fato de no querer se
apaixonar nem casar fosse o motivo. Mas, por outro lado, por que uma
mulher que vibrava ao sabor da dana demonstrando tanta sede de viver,
tanto fogo interior, decidira fechar o corao? Medo pela traio e
abandono do pai? Ou teria ela tido alguma experincia desagradvel que a
fizera alimentar esse desejo?
     Ela era saudvel, isso no lhe parecia natural. Seria excitante tentar
descobrir o que se escondia naquele corao. Ela era inteligente, perspicaz.
Para atingir seu objetivo, ele teria de ser paciente, ir devagar, conquistar
sua confiana aos poucos.
     Mas ele estava disposto a conseguir isso. Pensando bem,
     essa tarefa no era difcil, porquanto divertira-se muito naquela noite.
     Chegando em casa, deitou-se, mas demorou para pegar no sono. Em
sua cabea, a lembrana daqueles momentos reapareceriam e ele sorria
satisfeito.
     Comeou a fazer planos para lev-la aos lugares da moda e decidiu
comear a escolher os prximos passeios j no dia seguinte.
     Tendo resolvido isso, sentiu-se mais calmo e logo em seguida
conseguiu adormecer.




     CAPTULO 10




     O sol estava se escondendo, colorindo o cu de matizes alaranjados,
quando Maria Eugnia entrou em casa apressada, sem notar a beleza da
tarde nem o perfume delicado das flores que perfumavam o jardim.
     Dirigiu-se para o quarto de Dionsio ansiosa.
     -- Como est ele? -- indagou a Elvira.
     -- Est bem. No tem mais febre.
     Ela aproximou-se do bero onde o menino dormia e colocou a mo
sobre sua testa.
     -- , parece que cedeu. Ele tomou toda a mamadeira?
     -- S a metade. A garganta ainda deve estar irritada.
     -- J devia ter passado. Faz mais de um dia que est tomando os
remdios. Desde que ele nasceu, h quase dois anos, nunca demorou tanto
para sarar.
     --  assim mesmo, Dona Maria Eugnia. Ele j melhorou,  s
questo de tempo.
      O menino acordou e, vendo-a debruada no bero, sorriu e disse:
     -- Mame...
     Imediatamente Maria Eugnia o tomou nos braos, beijando-o
delicadamente no rosto. O menino passou a mo em torno do pescoo dela,
apertando-a de encontro ao peito, e Maria Eugnia beijou-o novamente.
Depois sentou-se no sof com ele no colo, acariciando seus cabelos
crespos.
     Henrique entrou no quarto e olhou-os satisfeito.
     -- Vejo que ele j est melhor -- disse, aproximando-se.
     -- J. Mas ainda no est se alimentando direito. Fique com ele. Vou
at a cozinha ver alguma coisa para ele comer. Tomou s metade da
mamadeira e no almoo no comeu nada.
     Henrique segurou o menino, mas ele estendeu os bracinhos dizendo:
     -- Eu quero a mame.
     -- Ela j volta. O papai vai brincar com voc.
     Henrique apanhou alguns brinquedos e sentou-se no cho com o
menino. Enquanto Dionsio se entretinha, ele o observava satisfeito.
     Logo o menino faria seu segundo aniversrio, e a cada dia ficava mais
bonito. Aprendera a falar muito cedo, revelando um senso de observao e
uma inteligncia acima da mdia.
     Henrique ficava impressionado com o apego que desde os primeiros
dias ele demonstrara por Maria Eugnia. Obrigada por Adele a cuidar do
menino, no comeo ele vira que ela o fazia de m vontade.
     Observando as atitudes dela, Henrique notava que ela rejeitava
Dionsio, o que o preocupava muito. Embora ela desejasse ficar com ele o
mnimo possvel, o menino chorava quando ela se afastava e s se
acalmava quando ela o colocava no colo.
      medida que ele foi crescendo, notava-se claramente quanto era
apegado a ela. Quando estavam juntos, ele passava a mozinha em seu
rosto e dizia em sua linguagem infantil:
     -- Mam linda!
     Ele demonstrava tanto afeto que Maria Eugnia se comoveu de
verdade. Ele era to pequenino, to dependente de seus cuidados, seu rosto
iluminava-se quando a via, e ela no resistiu.
     Ela esqueceu sua origem, os momentos de tristeza que passara por
causa de sua existncia, e rendeu-se ao amor que desabrochou em seu
corao.
     A cada dia esse amor tomava conta de sua vida. Ela modificou suas
atitudes radicalmente. A vida social que desfrutara em Paris estava
completamente esquecida.
     Adele observava satisfeita. Ela conseguira tudo quanto desejava. At a
maneira de Maria Eugnia trat-la modificara-se. Ela tornara-se mais
segura e, se concordava com tudo que a me dizia no que se referia 
empresa, quando se tratava de Dionsio ela reagia, dizendo que era
suficiente para cuidar dele.
     Maria Eugnia voltou carregando uma bandeja.
     -- Veja o que a mame trouxe para voc.
     Ele meneou a cabea negativamente:
     -- Num qu.
     Ela colocou a bandeja sobre a mesinha, pegou-o no colo e disse:
     --  um mingau que voc adora. Est muito gostoso.
     -- Se ele no quiser, eu como -- disse Henrique.
     -- No, papai. Esse eu fiz para o Dionsio. Ele vai comer tudo para
ficar grande e com sade.
     -- Tem dodi.
     -- Eu sei. Mas precisa comer para passar logo. Vamos.
     Ela comeou a conversar e brincar, e o menino aos poucos foi
comendo. Henrique olhava embevecido.
     Depois de certificar-se de que ele no queria mesmo comer mais,
Maria Eugnia entregou-o a Elvira para que lavasse suas mos e mudasse
sua roupa.
     Vendo que ela se afastava, Dionsio reclamou:
     -- Qu mame!
     -- Vou tomar um banho e j volto -- disse ela.
     Esse apego de Dionsio fazia-a sentir-se amada, desejada. Ela amava
Henrique e ele a tratava com amor, carinho e respeito, mas ela muitas vezes
questionava em seu ntimo se ele teria se casado com ela se no fosse filha
de Adele e herdeira de sua fortuna.
     Ele era um homem bonito, inteligente, e ela notava como mulheres o
olhavam com admirao. Ela no se via como uma mulher atraente. Desde
sua adolescncia, esse medo a perseguia. Havia notado quanto s pessoas
se modificavam com ela quando descobriram seu sobrenome.
     Esse pensamento a fizera sofrer durante o perodo em que esperavam
Dionsio. Por isso, o amor do menino tornou-se muito importante para ela,
fazendo desabrochar seu lado afetivo, bloqueado pelo medo de estar sendo
usada.
     A pureza de uma criana sem medo de demonstrar seus sentimentos
eliminava todas as suas dvidas.
     Ela tomou um banho, arrumou-se e passou pelo quarto de Dionsio,
que havia dormido. Colocou a mo em sua testa e, notando que estava sem
febre, desceu para esperar o jantar.
     Assim que chegou  sala, o telefone tocou. A criada atendeu. Maria
Eugnia ouviu-a dizer:
     -- Vou ver se ela pode atender.
     Voltando-se para Maria Eugnia, ela continuou baixinho:
     --  para a senhora.
     -- Quem ?
     --  um homem, parece estrangeiro. Disse que se chama Pierre.
     Maria fez um gesto de desagrado. Nos ltimos tempos ela no gostava
de lembrar-se de suas escapadas com Pierre. Mas foi atender.
     -- Pronto.
     -- Como vai, Maria Eugnia?
     -- Bem, e voc? Jamille est bem?
     -- Estamos muito bem.
     -- Voc lembrou-se de ns depois de tanto tempo. Como vai essa
cidade maravilhosa?
     -- Bem, como sempre. Mas ns acabamos de chegar ao Brasil
precisamente a So Paulo. Meu primeiro pensamento foi de ligar para voc.
No suportava mais a saudade.
     Maria Eugnia sentiu um aperto desagradvel no peito. Eles nunca lhe
disseram que planejavam conhecer o Brasil.
     -- Quanto tempo pretendem ficar em So Paulo?
     -- No sei. Temos bastante tempo. O que desejo  v-la hoje mesmo.
Voc no me sai do pensamento.
     -- No ser possvel.
     -- Como no? Voc parece evasiva... No est querendo me ver?
     Ela tentou contornar:
     -- No  isso. Meu filho est doente, no posso deix-lo no momento.
     -- Finalmente o menino nasceu! Eu vi a foto na revista.
     Maria Eugnia estremeceu. O tom dele pareceu intencional.
     Sentiu medo. Alm de Clia, Adele, Henrique e ela, Pierre era o
nico, a saber, de seu segredo.
     Tentou afastar o temor. Procurou dar  voz um tom mais alegre e
respondeu:
     -- Eu gostaria tambm de v-los, porm meu filho est com febre e
precisa de meus cuidados. No vou poder sair.
     -- J sei. No teria como justificar sua sada para seu marido. Eu
compreendo. No fui  sua casa porque sei que seu marido poderia no
gostar. Vou deixar o telefone do hotel. Espero uma ligao sua amanh.
     Ela anotou o numero, depois disse:
     -- Se ele melhorar, amanh eu ligo.
     -- No vou esperar muito. Se voc no ligar, vou at sua casa. No d
para esperar mais.
     -- Est bem. De qualquer forma, eu ligo.
     -- Estarei esperando.
     Maria Eugnia desligou o telefone preocupada. O tom de Pierre
pareceu-lhe meio inquisidor, muito diferente do que ele usava em Paris.
     Naquele instante ela comeou a pensar em quanto fora imprudente,
deixando que ele descobrisse seu segredo. Arrependia-se sinceramente de
haver se envolvido naquela aventura.
     Tentou afastar o medo. Ela estava prejulgando. Pierre nunca tinha lhe
dado motivo para suspeitar de sua amizade. Ela estava mudada, no era
mais aquela mulher insatisfeita, nervosa, intil.
     Agora sua vida tomara outro rumo. Havia Dionsio que se tornara o
motivo principal de sua vida. Ele precisava de uma boa me, e ela jamais
deixaria de cumprir esse papel.
     A presena de Pierre e Jamille no lhe traria nenhum problema. Ele
gostava de aventuras, no acreditava que a amasse como dizia.
     Notando quanto ela havia mudado, perderia o interesse.
     Depois, era muito provvel que eles fossem embora logo e tudo
voltasse a ser como antes.
     Henrique aproximou-se:
     -- O que foi? Parece preocupada. Quem era ao telefone?
     -- Pierre. Ele e Jamille acabam de chegar a So Paulo. Querem nos
visitar.
     -- Voc sabe que no gosto deles.
     -- Eu tambm no gostei que eles estivessem aqui. Preferia no v-
los. Vo querer sair divertir-se, e eu agora no tenho mais vontade de voltar
quelas noitadas.
     -- Fico feliz em saber.
     -- Porm acho que no vou poder esquivar-me. Pelo menos teremos
que receb-los algumas vezes em casa e sair para mostrar-lhes a nossa
cidade.
     -- Vai ser desagradvel.
     -- Mas, quando estvamos em Paris, eles me levaram para conhecer
todos os lugares.
     -- Diga-lhes que naquele tempo voc estava de frias, mas que hoje
tem compromissos. Que voc precisa acordar muito cedo por causa de
Dionsio.
     -- Essa  minha inteno. Pretendo v-los o menos possvel.
     -- Quanto tempo eles pretendem ficar?
     -- No sei. Ele no disse. Mas logo ficaremos sabendo. Esto
passeando. Certamente pretendem conhecer outros Estados do Brasil.
Penso que no vo demorar.
     -- Seria um alvio. O jantar est sendo servido. Vamos.
     Ele passou o brao sobre a cintura dela e foram para a sala de jantar.
Henrique estava contente. Felizmente Maria Eugnia mostrava que estava
realmente mudada. Abenoada hora em que Adele tivera a idia de
arranjar-lhes um filho. Dionsio conquistara Maria Eugnia, equilibrara seu
casamento e os tornara felizes.
     Enquanto isso, Pierre e a esposa conversavam nas luxuosas
dependncias do hotel onde haviam se hospedado.
     Jamille andava de um lado para o outro, irritada:
     -- No sei se fizemos bem em vir para c. Voc afirmou que Maria
Eugnia viria correndo nos receber e hospedar-nos em sua casa. Mas, pelo
jeito, voc estava enganado. Ela no mostrou nenhuma pressa em nos ver.
     -- Ela ficou surpresa Talvez o marido estivesse por perto. No
acredito que tenha nos esquecido. Afinal, nos a levamos a todos os lugares
da moda.
     Jamille suspirou nervosa:
     -- Isso era no tempo em que tnhamos dinheiro. Alis, graas a voc
ficamos sem nada.
     -- No precisa me lembrar disso. Eu estava ganhando e pensei em
multiplicar nossa fortuna. Foi uma infelicidade. Mas eu jurei que iria
consertar. No acredita em mim?
     -- Vir a este fim de mundo, cheio de gente inculta, na esperana de
recuperar o que perdemos,  uma iluso. Quem garante que ela vai pagar?
     -- Se eu falar o que sei, eles vo perder muito mais. Garanto que vo
pagar o que eu pedir. Dinheiro no lhes falta.
     -- Tem certeza de que sua suspeita  fundamentada?
     -- Claro que tenho. Ela usava aquela barriga falsa. Com que inteno?
     -- Ela podia desejar tanto um filho que fingia estar grvida.
     -- Nada disso. Eu li naquela revista que o nascimento desse filho veio
consolidar a fortuna da famlia. H gato escondido a. Ela usava barriga
falsa. Esse filho que ela tem no pode ser dela.
     -- E se for? Ela pode ter tido esse menino depois que voltou de Paris.
     -- Nada disso. No daria tempo. Voc viu a idade do garoto?
     -- Voc precisa fazer alguma coisa rpido. Estamos gastando o resto
do dinheiro que temos para ficar neste hotel alguns dias. O que faremos
quando acabar?
     -- Estou certo de que ela vai nos hospedar em sua casa. Voc vai ver.
     -- E se isso no acontecer?
      -- Tomarei minhas providncias.
      -- Poderamos ter ficado em um hotel mais barato.
      -- Nada disso. Eles no podem saber que estamos quebrados. Deixe
comigo e no se preocupe. Sei o que estou fazendo.
      Na manh do dia seguinte, logo cedo, Pierre no quis tomar caf no
quarto como Jamille. Desceu para o refeitrio.
      O garom colocou na mesa os bules de caf e leite e indicou a farta
 mesa onde se encontravam tentadoras guloseimas.
      Antes que ele se afastasse. Pierre perguntou:
     -- Minha esposa e eu queremos conversar com algum que conhea
bem a cidade e possa nos orientar.
     -- O senhor pode falar com Milena. Ela faz atendimento aos turistas.
Saindo do refeitrio,  a primeira porta  direita.
     Pierre tomou seu desjejum calmamente e depois foi procurar Milena.
Ela era uma morena bonita, muito bem vestida, sorriso amvel, olhos
espertos, que o atendeu prontamente.
     Pierre mostrou-se gentil. Disse que estava no Brasil pela primeira vez
e viera a So Paulo para rever alguns conhecidos, mas precisaria de
algumas informaes.
     -- O que deseja saber? -- indagou ela, olhos brilhantes de interesse.
     -- Trata-se do Dr. Henrique Silveira Couto.
     -- Eu os conheo. Ele  casado com a filha da presidente das
Organizaes Malta.
     -- Isso mesmo. Ns nos conhecemos a dois anos em Paris e, como
estamos em So Paulo, gostaria de obter o endereo deles. Ela sorriu
levemente e respondeu:
     -- Estamos aqui para fornecer apenas informaes tursticas, no
pessoais.
     Pierre j esperava por essa resposta. Ele aproximou-se de Milena:
     -- Vou ser sincero com voc. Minha esposa est querendo muito rever
esses conhecidos. Diz que so pessoas de projeo social.
     -- Ela est certa. Alm de projeo, eles tm credibilidade. Muita
gente famosa gostaria de privar da sua amizade.
     Pierre fixou seu olhar no dela e disse com ar sonhador:
     -- Como voc  linda!
     Ela surpreendeu-se:
     -- Como disse?
     -- Ficaria aqui horas olhando voc.
     Pierre fitava-a com admirao. Milena sentiu-se valorizada por ele a
estar admirando. Um homem fino, rico. Ela suspirou, pensando:
     Pena que ele  casado!
     Lidando com turistas o tempo todo, Milena sonhava que um dia um
deles se apaixonaria por ela e a levaria para conhecer o mundo, como num
conto de fadas.
     -- Pensando bem, no vejo problemas em fornecer-lhe o endereo
deles. Espere um momento.
     Ela foi  sala contgua e pouco depois voltou entregando um papel a
Pierre:
     -- Aqui est.
     -- Obrigado. Vou ligar para l e marcar uma visita. Quando nos
encontramos em Paris, a Sra. Maria Eugnia estava esperando um filho.
     --  verdade.  um lindo menino. Ela queria muito ser me, mas
demorou para isso acontecer.
     -- Ter um filho -- disse Pierre, cortando seus pensamentos --  o
sonho de muitas mulheres.
     -- Essa criana no representou apenas isso. Foi muito mais.
     -- Por qu?
     -- Ouvi dizer que ele veio em boa hora. Se ela no tivesse tido esse
menino, sua me, Dona Adele Figueira Rocha, perderia o cargo de
presidente das Organizaes Malta.
     --  mesmo? E isso  muito importante?
     -- O senhor no conhece as empresas deles?
     -- No.
     -- Pois  como estou lhe dizendo. Foi muita sorte. s vezes fico
pensando... Por que ser que tudo d certo para alguns enquanto para outros
s acontecem problemas? Veja s o caso dessa Maria Eugnia. Alm de
nascer rica, ter uma vida maravilhosa casou com um homem lindo,
charmoso, que vive em volta dela o tempo todo, e ainda teve um filho lindo
no momento em que precisou dele.
     -- A vida  assim mesmo. Mas uma mulher como voc no deve
perder as esperanas. Um dia vai aparecer algum para voc. Ai, se eu no
fosse casado!
     Milena corou de prazer. Aquela conversa logo pela manh a fez
pensar que ganhara o dia. Pierre despediu-se beijando levemente a mo que
ela lhe estendia.
     -- Voltaremos a nos ver -- disse ele sorrindo.
     Ele voltou para o quarto, onde Jamille, estendida no sof, folheava
uma revista.
     -- Como voc demorou! Aonde foi?
     -- Cuidar da nossa vida. J sei tudo que preciso saber.
     Em poucas palavras contou o que ouvira de Milena, depois finalizou:
     -- Tenho certeza de que por trs dessa histria h um plano muito
bem forjado para que eles pudessem conservar o poder e a presidncia
dessas empresas como sempre tiveram.
     -- Se isso for verdade, eles tero todo o interesse em defender esse
segredo.
     -- No tenho nenhuma dvida. Por que Maria Eugnia ficaria tanto
tempo fora do Brasil, usando uma barriga postia? Estou certo de que ela 
estril. O que eles fizeram foi uma farsa.
     Ele esfregou as mos, satisfeito:
     -- Estamos feitos para o resto da vida.
     Jamille olhou-o maliciosa e respondeu:
     -- Voc nunca me disse como descobriu que a barriga dela no era
natural.
     -- Tambm voc nunca me contou como conhece to bem os
problemas de Jean.
     -- Voc sabe que no sou curiosa. O que vai fazer? At agora ela no
nos telefonou.
     -- Estou de posse do endereo. Vou ligar e dizer que iremos visit-los
esta tarde.
     -- Ela no se mostrou receptiva.
     -- Deve estar com medo. Melhor. Assim tudo ser mais fcil.
     Enquanto isso, Maria Eugnia tentava expulsar a preocupao pela
chegada de Pierre e Jamille. Mas ela sentia que aquela visita no lhe traria
nada de bom.
     Sabia que deveria ligar-lhes, mostrar-se alegre, receb-los com
atenes, porm a lembrana da sua estada em Paris estava muito distante
dela naquele momento.
     Agora, tendo mudado sua vida, reconhecia que se deixara levar pela
revolta, cometendo atos dos quais se arrependia profundamente.
     Henrique a rodeava de carinhos e atenes. Com a chegada de
Dionsio, tornara-se mais acessvel, mais dedicado, empenhando-se em
voltar para casa e desfrutar ao mximo a companhia deles.
     Ela no queria de forma alguma perder essa felicidade que haviam
conquistado, e a presena de Pierre e Jamille fazia-a recordar-se de um
tempo que ela desejava esquecer.
     Durante toda a manh ela sentiu-se inquieta. Andava de um lado para
o outro pensando no que fazer. Elvira aproximou-se com Dionsio.
     Maria Eugnia notou que ele estava agitado, choroso. Preocupada,
colocou a mo em sua testa.
     -- Ele est sem febre, mas no me parece bem.
     -- Ele acordou assim hoje.
     -- Talvez seja bom lev-lo ao mdico.
     Elvira hesitou um pouco, depois respondeu:
     -- Ele no est doente. Acho que esta com quebranto.
     -- O que  isso?
     -- A senhora sabe: olho gordo, inveja.
     -- No acredito nessas coisas.
     -- Pois devia acreditar. Esta noite tive um sonho negativo e tambm
amanheci inquieta. Parece que vai me acontecer alguma coisa ruim.
     Maria Eugnia olhou-a admirada. Ela tambm estava sentindo-se
assim. Tentou no dar importncia.
     -- No vai acontecer nada. Foi s um sonho.
     Elvira ficou pensativa durante alguns instantes, depois disse:
     -- Olha, Dona Maria Eugnia, quando me sinto assim, vou at a casa
da Dona Eunice. Ela me d um passe e tudo isso desaparece.
     --  uma benzedeira?
     -- No.  uma mdium esprita. Ela tem um centro onde trata das
pessoas. Minha me  voluntria l. Dionsio est abatidinho, e quando fico
perto dele me sinto mal.
     --  melhor lev-lo ao mdico. De fato, d para notar que ele no est
se sentindo bem. A garganta dele no sarou ainda.
     -- Est bem melhor. Sinto que no  de mdico que ele est
precisando. A senhora poderia lev-lo  casa de Dona Eunice. Ela mora
nesta rua, no prximo quarteiro.
     -- No vou fazer isso. Vamos ligar para o Dr. Oscar.
     Maria Eugnia foi ao telefone e falou com o mdico, que prontificou-
se a atend-los dali a meia hora. Depois, voltando-se para Elvira, ordenou:
     -- Voc vai comigo. Apronte-o. Vou mandar tirar o carro.
     Maria Eugnia chamou um dos empregados e determinou:
     -- Se algum ligar, diga que fui levar meu filho ao mdico.
     Uma vez no carro, apesar de preocupada com Dionsio, ela sentiu-se
aliviada por haver deixado aquele recado. Se Pierre ligasse, saberia que o
menino estava doente, e ela teria uma boa desculpa para evitar a companhia
deles.
     Diante do mdico, Maria Eugnia externou sua preocupao. Ele
procedeu a um cuidadoso exame, depois do qual disse:
     -- A senhora no precisa se preocupar. Ele melhorou muito de ontem
para hoje. A infeco da garganta cedeu. Est tudo bem.
     -- Mas ele no est querendo comer. Diz que di.
     -- Do jeito que est evoluindo, logo estar curado.
     -- Se o senhor lhe receitar um fortificante, talvez ele se alimente
melhor.
     O mdico sorriu e meneou a cabea negativamente:
     -- Seu filho tem excelente sade, apesar desse resfriado. Est bem
nutrido e, pelo que sei dele, tem um apetite invejvel. Fique tranqila: ele
est bem.
     Uma vez no carro, Elvira no se conteve:
     -- Eu no disse que o mdico no ia dar jeito?
     -- Esse mal-estar  do resfriado. O Dr. Oscar garantiu que logo ele
estar bem.
     Elvira notou que Dionsio estava com sono e acomodou-o no colo
com carinho. Ele adormeceu, porm Maria Eugnia notou que no era um
sono tranqilo. Seu cenho se contraa e ele se remexia como se quisesse
livrar-se de alguma coisa que o incomodava. De vez em quando seu corpo
estremecia e ele abria os olhos assustado.
     Elvira no desistia de seu propsito de lev-lo a Dona Eunice. Quando
estavam passando em frente  casa onde ela morava, Elvira pediu:
     -- Dona Maria Eugnia, vamos parar aqui e levar Dionsio para Dona
Eunice. Ela mora nessa casa bonita.
     Maria Eugnia hesitou.
     -- No gosto de incomodar os outros. Nem a conheo.
     -- Vai gostar dela.  uma pessoa muito boa e vai nos atender com
muito carinho.
     Vendo que Maria Eugnia estava indecisa, continuou:
     -- No custa nada. Vai levar s alguns minutos. Por favor.
     -- Est bem. Vou fazer o que me pede.
     Elvira indicou a casa e o motorista parou diante do porto principal.
     -- Fale voc com ela -- disse Maria Eugnia, constrangida. -- Ns
ficaremos no carro.
     Elvira desceu, tocou a campainha e conversou com uma moa, que
entrou novamente na casa. Pouco depois, uma senhora de meia-idade
aproximou-se de Elvira.
     Enquanto conversavam, Maria Eugnia, de dentro do carro, viu uma
senhora alta, elegante, cabelos louros. Notou logo que era pessoa de classe.
     Em seguida, Elvira aproximou-se do carro e pediu:
     -- Vamos entrar. Ela vai nos receber.
     Maria Eugnia entregou Dionsio a Elvira e desceu. Eunice esperava-
as do lado de dentro do porto. Estendeu a mo assim que ela se
aproximou.
     -- Como vai?
     -- Eu vou bem. Desculpe incomod-la em casa. Mas Elvira insistiu.
     -- Entre -- respondeu ela com simplicidade.
     Elas entraram e foram conduzidas a uma sala. Eunice acomodou-as
gentilmente.
     Era uma casa muito bonita, ambiente agradvel. Havia flores naturais
nos diversos vasos arrumados com arte. Maria Eugnia no se conteve:
     -- Que aroma agradvel! Que beleza de flores!
     Eunice sorriu:
     -- Elas perfumam nossa vida, enchem de beleza nossos olhos.
     Depois, aproximou-se de Elvira e colocou a mo na testa de Dionsio,
que, ainda adormecido, remexia-se inquieto.
     -- Que menino lindo! -- comentou.
     -- Ele no est bem -- comentou Elvira. -- Tenho sentido muita
angstia quando estou perto dele.
     Eunice continuava alisando a cabecinha dele, que abriu os olhos e
comeou a chorar convulsivamente. Maria Eugnia, sentada ao lado delas
no sof, levantou-se assustada.
     -- No se preocupe. Isso no  nada. Ele vai ficar bem. Sente-se, por
favor, e faa uma orao.  disso que ele precisa -- determinou Eunice,
olhando Maria Eugnia fixamente nos olhos.
     Ela sentou-se novamente e, sem desviar os olhos do menino, comeou
a rezar em silncio.
     -- Como  o nome dele?
     -- Dionsio -- respondeu Elvira.
     Ela fixou os olhos sobre ele e murmurou uma prece em que pedia a
cura de Dionsio. Maria Eugnia notou que os olhos dela estavam fixos e
no piscavam.
     Eunice estendeu as mos para cima e ficou mais alguns instantes em
silncio. Depois comeou a passar as mos sobre Dionsio delicadamente.
Aos poucos ele foi se acalmando, at que adormeceu novamente. Mas
Maria Eugnia notou que dessa vez seu sono era tranqilo.
     Depois, Eunice disse para Elvira:
     -- V para a sala ao lado com o menino. Preciso conversar com sua
patroa.
     Ela obedeceu. Quando se viu a ss, Eunice sentou-se ao lado de Maria
Eugnia no sof. Colocou sua mo sobre a dela e disse:
     -- Voc est angustiada, e passou isso para o menino.
     -- De fato. Hoje no estou muito bem. Mas no entendo. Como
Dionsio pode ter sido afetado? Eu o amo muito e jamais faria alguma coisa
para prejudic-lo.
     -- Eu sei. Porm as crianas sofrem muito a influncia do ambiente
familiar. Voc precisa saber que, quando pensamos, lanamos  nossa volta
energias conforme a qualidade dos nossos pensamentos. Suas preocupaes
criaram um ambiente energtico negativo que influenciou o menino.
     -- O que posso fazer para que isso no acontea?
     -- Evite alimentar pensamentos desagradveis.
     Maria Eugnia passou a mo nos cabelos, preocupada. Como evitar o
medo que se instalara desde a chegada de Pierre?
     Eunice continuou:
     -- s vezes no entendemos o que nos acontece, nos deixamos
arrastar pela revolta e acabamos cometendo atos dos quais nos
arrependemos mais tarde.
     Maria Eugnia olhou-a admirada. Como ela podia saber disso? Eunice
prosseguiu:
     -- Esse menino trouxe luz  sua vida. Voc mudou para melhor.
Contudo a vida est trazendo  tona assuntos mal resolvidos do passado, e
voc precisa enfrent-los com coragem para venc-los.
     Maria Eugnia no suportou a presso e comeou a chorar. Soluava
desesperada, e Eunice deixou que ela desabafasse. Quando se acalmou um
pouco, Maria Eugnia disse:
     -- Desculpe. Estou descontrolada.
     -- Voc est com medo de que seu segredo seja descoberto.
     Maria Eugnia tentou conter um grito de susto.
     -- Como  senhora sabe? Quem lhe contou isso?
     -- Um amigo espiritual que deseja ajud-la. Foi ele quem a trouxe
aqui hoje.
     -- Como pode ser isso? Ningum sabe. Minha famlia conhece o
principal, mas no sabe o erro que cometi. Se meu marido descobrir, no
vai me perdoar.
     Ela voltou a soluar desesperada. Eunice segurou a mo dela com
fora e disse:
     -- Embora haja pessoas tramando contra voc, devo dizer-lhe que a
ajuda espiritual que a protege  muito grande. Voc precisa confiar. No
pode perder a calma nem imaginar o pior.
     -- Mas no sei o que fazer. Como lidar com isso?
     -- Acalme-se. Quando estamos fazendo nosso melhor, a vida nos
protege. Voc est se dedicando a esse menino com muito amor. Ele lhe foi
dado como um acrscimo da bondade divina para ajud-la a conquistar uma
vida melhor. Para isso, eles precisaram da cooperao de muitos. E, agora
que tudo est caminhando bem, vo ajudar para que o fruto desse esforo
no se perca. Entretanto, devo avisar que o sucesso desse projeto depende
de voc, da forma como vai aceitar os fatos e escolher suas atitudes.
     Maria Eugnia estava fascinada. As palavras de Eunice calavam fundo
em seu esprito. Olhando os olhos dela, teve a sensao de que a conhecia.
Ento, como que movida por uma fora maior, comeou a falar de sua vida.




     CAPTULO 11




     Enquanto Eunice segurava sua mo, Maria Eugnia falava com
naturalidade, sentindo-se segura, confiante, sem entender por que ela
expunha seus sentimentos mais ntimos como nunca havia feito com
ningum.
     Contou a Eunice como fora penoso conviver com sua me, do medo
que tinha por no se sentir capaz de satisfazer as espectativas dela a seu
respeito. Do casamento, do filho que no chegara, da possibilidade de sua
me deixar de ser a scia majoritria e ter de deixar a presidncia e do
plano que ela lanara mo para obter o que desejava. Contou tudo, at o
telefonema de Pierre. E finalizou entre lgrimas:
     -- Agora, analisando o que aconteceu em Paris, reconheo quanto
estive errada. E, o que  pior, percebo que Pierre no  confivel. Quando o
atendi ao telefone, senti uma sensao de perigo iminente que no sei
explicar. Por enquanto ele no fez nada para que eu me sentisse assim.
Chego a pensar que estou exagerando, mas esse medo no me deixa.
     -- Voc est certa: essas pessoas no esto bem-intencionadas. Ele
perdeu grandes somas no jogo.
     -- Pierre gosta de jogar.
     -- No s de jogar, mas tambm de gastar. Sua situao financeira 
muito ruim. Ele est atrs de dinheiro.
     Eunice no usou a palavra "chantagem" para no a assustar ainda
mais.
     -- Meu Deus! Ele no apreciava nosso pas. Certa vez disse que
nunca viria at aqui.
     -- Ele sabe que vocs so pessoas de posses.  isso que ele veio
buscar. Trata-se de indivduo sem escrpulos e de pssimas antecedentes.
     -- Estou perdida. Meu marido vai descobrir tudo, e nosso casamento
pode ir por gua abaixo.
     -- Vamos pedir ajuda aos nossos amigos espirituais. Estou certa de
que vo inspir-la em suas decises. Voc precisa manter a calma.
     -- No sei se vou conseguir. Eu errei e estou sendo castigada.
     -- Deus no castiga ningum. Se permite alguns desafios,  para que
seu esprito amadurea.
     -- Me ajude, por favor. Sinto que a senhora pode fazer isso.
     -- Vamos orar e pedir ajuda. Procure relaxar, esquecer suas
preocupaes por alguns momentos. Imagine que estamos sentadas  beira
de um lago muito azul, o sol nos envolvendo, as flores recendendo
perfume, enquanto do alto desce um facho de luz azul muito brilhante que
nos envolve.
     Eunice fez ligeira pausa e murmurou sentida prece pedindo a
assistncia dos espritos de luz para inspirar Maria Eugnia e auxili-la a
vencer os desafios que a buscavam.
     Enquanto ela falava, Maria Eugnia foi aos poucos se acalmando, ao
mesmo tempo em que uma paz muito grande a envolveu. Quando Eunice se
calou, ela suspirou e disse:
     -- Que alvio!
     -- A prece nos liga com as dimenses de luz e abre espao para que
os espritos iluminados possam nos envolver e auxiliar.
     -- O que me aconselha a fazer?
     -- No se atemorize. Esse casal vai procur-la em casa. Receba-os
com naturalidade. Em nenhum momento deixe-os perceber que est
receosa. Gostaria que escrevesse neste papel o nome deles, o hotel onde
esto. Vou continuar orando em seu favor.
     -- O que farei se ele mencionar nossos encontros em Paris?
     -- Negue. Faa de conta de que no se lembra. Se ele fizer qualquer
aluso  sua falsa gravidez, negue. Diga que ele est enganado, que estava
grvida e no sabia. Que o filho  seu e de seu marido.
     -- E se ele no acreditar?
     -- Imagine que essa  sua verdade e afirme isso em qualquer hiptese.
Vou dar-lhe meu telefone. Qualquer novidade, me avise.
     Maria Eugnia levantou-se:
     -- No sei como lhe agradecer. Eu estava agoniada, agora estou mais
calma.
     -- Isso. Seu filho est se curando de um simples resfriado. Amanh
estar restabelecido.  um menino lindo. Seu esprito  ligado a voc de
outras vidas. Ele a ama muito. Veio para ajud-la a vencer todos os seus
desafios.
     -- De fato. Ele  muito agarrado comigo. Foi isso que me conquistou.
Hoje chego a esquecer que ele no nasceu de mim.
     -- Melhor assim. Voc j sentiu muito cime da mulher que deu a ele
a oportunidade de nascer. Seja grata a ela. Um dia voc saber por que tudo
precisou acontecer desse jeito.
     -- A senhora mencionou outras vidas. Como pode ser?
     -- Algum dia falaremos sobre isso. Explicarei muitas coisas que voc
precisa saber.
     -- Est bem. Agora temos que ir. Obrigada por tudo.
     Foram para outra sala e Maria Eugnia perguntou a Elvira:
     -- Como est ele?
     -- Dormindo tranqilo. No tem mais aqueles sobressaltos.
     Eunice interveio:
     -- Ele agora vai dormir bastante para se recuperar. No o acordem
nem para comer. Quando ele despertar, estar melhor e com fome.
     Elas agradeceram mais uma vez e saram. Maria Eugnia estava bem
mais calma. Dionsio dormia sereno, e isso aumentava sua sensao de paz.
     -- Viu como ele melhorou? -- disse Elvira quando colocou Dionsio
na cama e ele nem acordou.
     -- Vi. Obrigada por ter nos levado l. Essa mulher  maravilhosa.
     -- Ela tem me ajudado muito. Eu sabia que a senhora ia gostar.
     Uma das criadas aproximou-se:
     -- Esse senhor ligou e deixou este recado.
     Maria Eugnia apanhou o papel, mas antes de ler j sabia que era de
Pierre. Ele repetia o nmero do telefone do hotel e pedia que ela ligasse.
     Decidida, ela apanhou o telefone e ligou. Jamille atendeu e Maria
Eugnia esforou-se para mostrar-se alegre.
     -- Jamille? Que prazer ouvi-la!
     -- Est tudo bem? Pierre disse que voc foi ao mdico.
     -- Devo desculpas a vocs. Acontece que meu filho est doente e
precisei lev-lo ao mdico. Sou muito apegada a ele. Quando tem qualquer
problema, fico desesperada.
     -- Entendo. Acho que no viemos em boa hora. Mas, desde que voc
nos deixou, temos nos lembrado muito dos tempos que passamos juntos.
Foi maravilhoso! Pensamos em repetir a dose.
     -- Naquele tempo, meu filho ainda no tinha nascido. Agora preciso
cuidar dele e no posso ausentar-me durante muito tempo. Mas Henrique e
eu teremos muito prazer em receb-los em nossa casa esta noite para jantar.
Assim poderemos conversar.
     Jamille riu e respondeu:
     -- Est bem. Iremos. Mas estou notando que voc mudou muito. Est
mais caseira, dona de casa.
     -- Tem razo. O nascimento de meu filho mudou minha vida. Agora
meu maior prazer  ficar com ele.
     Jamille ficou calada alguns segundos, depois perguntou:
     -- Ele j deve estar grandinho. Quando nos encontramos em Paris,
voc j estava grvida dele.
     -- Vou confessar uma coisa. Eu tive muita dificuldade para
engravidar. No que houvesse algum impedimento. Mas  que eu temia a
deformidade do corpo. Tinha horror de engordar. Se por um lado desejava
a maternidade, por outro no queria engordar.
     -- Pelo que me recordo, voc estava grvida em Paris, no estava?
     Naquele momento, Maria Eugnia pensou:
     Ela sabe. Pierre lhe contou sobre a barriga postia.
     Respondeu procurando dar  voz um tom de brincadeira:
     -- Estava. Porm colocava uma cinta para dissimular e fingia que no.
Mas agora est tudo bem. Depois que Dionsio nasceu, meu corpo voltou
ao normal.
     -- Ainda bem. Eu tambm nunca quis filhos por causa disso.

     -- Jantamos s oito. Estamos esperando vocs. Anote meu endereo.
     Jamille fingiu que anotou. Depois que desligou o telefone, ficou
pensativa. Pierre podia ter se enganado.
     Uma hora depois, quando ele entrou, Jamille foi logo dizendo:

     -- Maria Eugnia ligou e nos convidou para jantar esta noite.

     Pierre lanou-lhe um olhar vitorioso.
     -- Ainda bem. Se ela no tivesse ligado, iramos  sua casa assim
mesmo. O que foi que ela disse?
     Jamille relatou toda a conversa e finalizou:
     -- Estou pensando que embarcamos em uma canoa furada.
     -- Por que? Quando liguei, ela ficou muito nervosa. Percebi que
estava com medo.
     -- Pois hoje ela estava calma, alegre. Disse que, quando o filho
adoece, ela fica desesperada. Essa pode ser a causa do nervosismo que voc
notou. Toda me fica neurtica quando o filho est doente.
     -- Que filho, que nada! Ela usava uma barriga postia em Paris.
     -- Alis, volto a lembrar que voc nunca me contou como foi que
descobriu isso.
     -- No preciso dizer. Voc pode imaginar perfeitamente.
     Ela fez uma careta, fingindo cime:
     -- Traidor!
     -- Aquilo foi providencial. Pode tornar-se nossa salvao.
     -- E se voc estiver enganado? Ela podia mesmo estar usando uma
cinta para esconder a barriga. Afinal, ns circulvamos pela noite, amos a
lugares da moda.  compreensvel que ela fizesse isso.
     -- O que eu vi no me pareceu uma cinta. Depois, ela ficou muito
encabulada quando percebeu que eu vi. Pediu-me que guardasse segredo.
Isso quer dizer que, se os outros soubessem, poderia ser perigoso.
     Jamille meneou a cabea negativamente e respondeu:
     -- Qualquer mulher no lugar dela ficaria envergonhada. Talvez
estivesse interessada em conquist-lo e queria encobrir essa cinta.
     -- No creio. Se ela estivesse grvida, eu teria percebido. No notei
nada.
     -- Espero que esteja certo, porque nosso dinheiro est acabando. No
sei o que ser de ns se no conseguirmos dela o que pretendemos.
     -- Eu sempre consigo o que quero. Acalme-se. Nesta noite temos que
fingir que continuamos to ricos como antigamente. Voc vai a esse jantar
com suas jias e todos os seus atributos.
     -- Jias que so to falsas quanto nossa ostentao.
     -- No gosto quando fala assim. D azar. Voc precisa acreditar que
vamos conseguir.
     -- Estou me esforando. Mas esta histria tem alguma coisa que no
bate. Afinal, aonde voc foi?
     -- Dar uma volta pela cidade. E no gostei nada. Estou fazendo um
sacrifcio imenso de estar aqui. Isso far com que eu aumente o preo. Eles
vo pagar caro por isso.
     Jamille deu de ombros e retomou a revista que estava folheando.

     Depois que falou com Jamille, Maria Eugnia ligou para Henrique
informando-o que teriam convidados para o jantar. E justificou:
     -- No tive alternativa. Eles estavam decididos a vir nos visitar. Ento
eu me antecipei. Assim eles nos visitam e vo embora. No creio que se
demorem por aqui.
     -- Est bem. Estarei em casa a tempo de receb-los.
     Pouco antes das sete, Henrique j havia retornado ao lar.
     -- Voc levou Dionsio ao mdico?
     -- Sim. O Dr. Oscar disse que era apenas um resfriado e logo ficar
bom.
     -- Como ele est?
     -- Dormindo tranqilo. Acho que se recuperando.
     -- Ainda bem. Estava preocupado com ele.
     -- Eu tambm.
     Maria Eugnia no contou que levara o menino  casa de Eunice.
Preferiu no dizer nada.
     s oito, Pierre e Jamille chegaram. A criada conduziu-os  sala de
estar, onde Henrique e Maria Eugnia estavam. Ambos levantaram-se para
receb-los. Aps os cumprimentos, acomodados na sala, Pierre tomou:
     -- Fico feliz em v-los to bem. Maria Eugnia remoou, est mais
bonita. E que casa linda vocs tm!
     -- De fato. Estamos muito bem.

     -- A maternidade fez bem a Maria Eugnia -- comentou Jamille.

     Apesar de a visitante ter dito isso com naturalidade, Maria Eugnia
notou uma ponta de ironia. Porm no se intimidou. Estava disposta a
varrer aquele passado desagradvel e desvencilhar-se daquela amizade.

     -- Voc tambm est tima -- respondeu Maria Eugnia sorrindo.

     Henrique ofereceu uma bebida. Eles aceitaram um copo de vinho.
Enquanto bebericavam, saboreando alguns salgadinhos que a criada
colocara sobre a mesinha, Henrique perguntou:
     --  a primeira vez que vm ao Brasil?
     -- Sim -- respondeu Jamille, olhando nos olhos de Henrique ao
mesmo tempo em que pensava:
     Como ele est bonito! Eu nunca havia notado. Esta viagem est
comeando a ficar interessante...
     -- Quanto tempo pretendem ficar em nossa cidade? -- indagou
Henrique.

     Nos olhos de Pierre havia um brilho indefinvel quando disse:
     -- Depende.
     -- Do qu? -- indagou Maria Eugnia.

     -- Do que encontrarmos aqui. No temos pressa. Estamos passeando.
     -- Nossa cidade tem lugares muito bonitos. Tenho certeza de que
sabero apreciar. Lamento no poder cicerone-los como gostaria.
Infelizmente, no momento estamos empenhados em um projeto em nossa
empresa que absorve todo o tempo.
     -- Mas Maria Eugnia poder nos mostrar tudo -- disse Jamille
sorrindo.
     -- Verei o que posso fazer -- respondeu ela. -- Acontece que meu
filho ainda  muito pequeno, muito apegado a mim, e est adoentado. Para
ser sincera, atualmente estou desatualizada dos acontecimentos sociais.
Desde que ele nasceu, afastei-me da vida social.
     -- No  possvel! -- disse Pierre. -- Voc adorava a noite, os sales,
o movimento. Sempre achei que a maternidade fosse uma priso, mas no
esperava que fizesse isso com voc, sempre to alegre.
     -- Mas eu continuo alegre. Agora mais do que antes. Meu filho trouxe
uma motivao nova para minha vida.
     Henrique aproximou-se, passou o brao sobre os ombros de Maria
Eugnia e disse:
     --  verdade. Dionsio trouxe-nos uma motivao maior para viver.
Vocs nunca pensaram em ter filhos?
     Jamille teve ligeiro sobressalto:
     -- Deus nos livre! Nem fale uma coisa dessas!
     -- Jamille no gosta de crianas. Enquanto pequenas do muito
trabalho; depois que crescem, muitos problemas. Eu concordo com ela. Ns
optamos por no ter filhos. Vivemos muito bem, livres, sem precisar
sacrificar nossos prazeres por causa deles.
     -- Vocs se enganam -- tornou Maria Eugnia. -- Ns no estamos
nos sacrificando pelo nosso filho. Ao contrrio: ficar com ele d-nos um
prazer muito grande, uma alegria que nunca encontrei nos sales que
freqentamos em nenhum lugar do mundo.
     -- J vi que voc est mesmo apaixonada pelo seu filho -- disse
Pierre.
     -- Estou mesmo. Ele  muito lindo e inteligente.
     -- Ele se parece com quem? -- indagou Jamille.
     Maria Eugnia apanhou um porta-retratos sobre uma das mesas e
levou-o a Jamille:
     -- Veja voc mesma. Com quem acha que se parece?
     Ela segurou o porta-retratos por alguns segundos, depois disse:
     -- Ele  a cara do pai.
     Maria Eugnia sorriu triunfante.
     -- Vou mostrar-lhe uma coisa.
     Ela saiu da sala e voltou em seguida trazendo um lbum de
fotografias. Abriu-o e deu-o a Jamille.
     -- Veja esta foto.
     Jamille olhou. Era uma foto antiga de um menino pequeno. No rodap
da pgina estava escrito:

     HENRIQUE EM SEU PRIMEIRO ANIVERSRIO

     Maria Eugnia aproximou o porta-retratos com a foto de Dionsio e
perguntou:
     -- E ento?
     -- Parecem a mesma pessoa -- comentou ela, admirada. -- Como
podem ser to parecidos?
     -- Porque sou o pai dele, ora. Do que se admira?--disse Henrique e
continuou: -- Mas, se reparar bem, ver que possui a boca e a expresso
dos olhos iguais s de Maria Eugnia.
     Pierre aproximou-se da esposa. Os dois olharam as duas fotos e
tiveram de concordar.
     A criada avisou que o jantar ia ser servido, e eles se encaminharam
para a sala de jantar. Pierre observava as obras de arte, o bom gosto da
decorao, o luxo e o conforto daquela manso. Seus olhos brilharam de
cobia.
     A semelhana das fotos deixou-o um tanto inseguro quanto  filiao
do menino. No havia dvida de que ele era filho de Henriqu. Mas a
semelhana dele com Maria Eugnia no era nada evidente.
     O jantar decorreu de maneira formal, uma vez que tanto Jamille
quanto Pierre estavam com receio de que o plano que haviam idealizado
no desse certo.
     Henrique estava sendo absolutamente formal, fazendo as honras da
casa, tentando ser educado com pessoas que no apreciava e as quais
desejava que fossem embora o quanto antes. Maria Eugnia, atenta em
fingir alegria e calma, no querendo que eles notassem quanto a presena
deles a incomodava, no estava nada comunicativa.
     Aps o jantar, os casais sentaram-se na sala para conversar.
     Pierre e Jamille faziam perguntas sobre os costumes brasileiros,
fingindo interesse e tentando ao mesmo tempo descobrir o que pudessem
sobre a vida do casal.
     A certa altura, Elvira aproximou-se discretamente de Maria Eugnia e
disse baixinho:
     -- Desculpe se a estou interrompendo, porm Dionsio acordou e est
chorando, chamando pela senhora.
     -- Viu se est com febre?
     -- Ele est normal. Estava dormindo sereno, mas de repente acordou
gritando e chamando pela senhora.
     Maria Eugnia levantou-se:
     -- Com licena, preciso ver meu filho.
     Jamille levantou-se imediatamente:
     -- Posso acompanh-la? Gostaria muito de conhec-lo.
     Maria Eugnia hesitou um pouco, mas concordou:
     -- Venha comigo.
     Elas subiram ao quarto do menino e Jamille, embora fingisse
indiferena, observava todos os detalhes da casa. Dentro dela, um
pensamento de raiva a incomodava. Por que eles tinham tudo aquilo,
viviam no luxo, enquanto ela e o marido tinham de ficar sem nada? No era
justo. Maria Eugnia no sabia valorizar o que possua. O mesmo se
aplicava ao marido, um prosaico pai de famlia que, apesar de todo o poder
que possua, contentava-se em trabalhar e em viver aquela vidinha limitada,
sem aproveitar tudo quanto o dinheiro podia lhes dar. Era bem verdade que
viviam no luxo, tinham conforto, bom gosto. Mas para qu, se continuavam
acomodados, sem aproveitar os bens que possuam?
     Ela e Pierre, sim, tinham gosto requintado, sabiam dar valor  posio,
ao poder social, a tudo que o dinheiro pode comprar. Tinham como regra
mais importante que as pessoas valem pelo que possuem. Para eles, no ter
mais dinheiro, serem pobres, era o pior dos castigos, e fariam qualquer
coisa para voltar a ter os bens que malbarataram.
     Assim que elas entraram no quarto de Dionsio, ele, ainda soluando,
disse:
     -- Mame linda... Quelo voc!
     Maria Eugnia correu para ele e tomou-o nos braos. Beijando seu
rostinho com carinho, foi dizendo:
     -- Estou aqui, meu filho. Acalme-se.
     Aos poucos ele foi parando de chorar. Maria Eugnia continuava a
acarici-lo.
     -- Ele j comeu? -- perguntou ela a Elvira.
     -- Eu trouxe a mamadeira, mas ele ainda no tomou. Acho que teve
um pesadelo. Estava dormindo tranqilo e de repente acordou gritando e
chamando a senhora.
     Maria Eugnia, lembrando-se de algumas frases que Eunice dissera,
perguntava-se intimamente se aquele nervosismo do menino estava sendo
ocasionado pela presena daquelas pessoas desagradveis.
     Devido s circunstncias, sentia que o ambiente da casa estava um
tanto pesado, pois dava para notar que nenhum dos quatro estavam 
vontade.
     -- Ele precisa alimentar-se. Vamos ver se consigo que ele tome a
mamadeira.
     Sentou-se na poltrona, acomodou o menino no colo e e ofereceu-lhe a
mamadeira. Ele a olhava fixamente com adorao e logo comeou a
mamar.
     Jamille observava tudo em silncio. Era difcil imaginar que aquela
criana no fosse filho deles. Era muito provvel que Pierre houvesse se
enganado.
     -- Desculpe, Jamille. Foi o que eu lhe disse: Dionsio  muito
apegado a mim, mais do que ao pai. E agora, que est doente, exige mais
minha presena. Foi por isso que eu lhe disse que no momento no posso
ausentar-me.
     -- Entendo -- respondeu ela devagar. -- Mas penso que voc no
pode se anular dessa forma. Ele est monopolizando voc. Se est fazendo
isso agora que  pequenino, j pensou o que far quando estiver mais
velho?
     -- Ele fez mais por mim do que estou fazendo por ele. Deu-me amor,
felicidade, motivao para viver. Voc no deve falar do que no conhece.
Penso que, se voc tivesse um filho, talvez no precisasse perambular pelos
sales em busca de entretenimento para passar o tempo. Sei o que estou
dizendo. Durante muito tempo foi o que fiz, mas, quando voltava para casa,
na solido do meu quarto, quando os rudos dos sales desapareciam, eu
sentia o peso da solido, da infelicidade, do vazio que era minha vida
naquele tempo.
     Jamille remexeu-se na cadeira, inquieta. Ela muitas vezes sentira um
vazio depois das orgias em que se envolvia na nsia de encontrar alguma
coisa que a motivasse a viver.
     Na verdade, havia muito tempo chegara  concluso de que a vida no
valia a pena, de que tudo no passava de uma luta inglria, em que vence
quem  mais forte, mas essa vitria era intil, porquanto incapaz de dar-lhe
felicidade.
     De repente, sentiu uma ponta de inveja de Maria Eugnia, com sua
vida de me, esposa, dona de casa, voltada ao amor de sua famlia. Ela no
sabia o que era isso.
     Desde muito cedo sua me, uma mulher rica, descendente de uma
famlia importante, cujo casamento fora arranjado pelas convenincias das
famlias, ensinara-lhe a valorizar o nome, o dinheiro, o poder, as
aparncias.
     Seus pais relacionavam-se educadamente. Nunca os vira discutir nem
trocar carinhos. Conheceu Pierre em uma festa e comearam a sair juntos.
A famlia dele era muito rica. Freqentavam os lugares da moda.
     At que, uma noite, o pai de Pierre fechou-se em seu gabinete e deu
um tiro na cabea. Ningum nunca soube por qu. Ele deixou uma breve
nota, despedindo-se da famlia.
     A partir da, a me de Pierre fechou-se em uma vila que possuam na
Itlia e nunca mais freqentou a sociedade. Trs anos depois do casamento
de Pierre e Jamille, em uma fria madrugada, eles receberam a notcia de
que, vitimada por uma pneumonia, ela havia falecido.
     Filho nico, Pierre continuou vivendo a vida de sempre, em meio aos
amigos, gastando muito em noitadas, levando vida frentica. Dessa forma,
dilapidou toda a fortuna que herdara dos pais.
     Todos esses pensamentos passavam pela mente de Jamille enquanto
observava Maria Eugnia dando mamadeira ao filho, olhos brilhantes de
afeto, coisa que em sua vida nunca conseguira sentir.
     Seu relacionamento com o marido era o que esperava que fosse.
Ambos gostavam de viver intensamente todas as sensaes que a vida
podia oferecer, sem desejar nada mais do que isso.
     De repente, Jamille sentiu-se cansada de tudo isso. A intimidade com
Pierre era morna, convencional, e por isso ambos haviam combinado
buscar em outros braos as sensaes que no sentiam juntos.
     Diante dos amigos, vangloriavam-se de ter um casamento aberto,
moda que estava pegando na Europa. Aceitavam a vida como se no
houvesse nada melhor do que estavam conseguindo obter.
     A perda do dinheiro fizera-os sair um pouco desse comodismo e sentir
medo do futuro pela primeira vez. Haviam perdido a nica coisa que
valorizavam: o dinheiro. Como suportar a pobreza, a humilhao?
     Dionsio   acabou   de    mamar    e   Maria    Eugnia   acariciava-o,
murmurando palavras de carinho, querendo que ele se aquietasse.
     Na sala, Henrique fazia o possvel para manter conversa com Pierre,
falando sobre livros, teatro, costumes. Eles no tinham nada em comum.
     Por outro lado, Pierre procurava levar o assunto para as empresas de
Henrique, na tentativa de saber o mximo a respeito. Porm, como no
dispunha de nenhum conhecimento sobre o assunto, que considerava
montono, no obtinha xito.
     Quando Maria Eugnia e Jamille desceram, acompanhadas de Elvira
carregando Dionisio, ambos levantaram-se educadamente.
     -- Ele est bem? -- indagou Henrique.
     -- Sim -- respondeu Maria Eugnia. -- No tem febre, mas continua
muito nervoso, o que significa que ainda no est se sentindo bem.
     Elvira sentou-se no cho ao lado do menino com alguns brinquedos,
procurando entret-lo.
     -- Ele no tira os olhos de voc -- comentou Jamille.
     -- Ele quer ver se estou aqui. Quando est indisposto, s se acalma
quando estou por perto.
     -- Essa  questo de disciplina -- comentou Pierre. -- Meus pais, por
exemplo, quando eu era criana, nunca permitiram minha presena quando
recebiam visitas.
     -- Aqui em casa ns valorizamos o bem-estar do nosso filho. Tenho
certeza de que nossos amigos, quando nos visitam, compreendem isso.
     -- Claro -- apressou-se a dizer Jamille, sorrindo. -- Tambm sou
partidria da educao mais aberta. Quando eu era criana, fui muito
discriminada pelos meus pais, exigentes, que nunca permitiram minha
presena na mesa s refeies antes dos doze anos. E, mesmo depois, eu
era proibida de falar, emitir opinio nas conversas dos adultos. Acho que 
por isso que odeio minha infncia. S passei a existir e fazer parte da
famlia depois dos dezoito anos.
     -- Felizmente, os costumes mudaram muito -- comentou Maria
Eugnia. -- Mas eu s fao o que acho bom para ns. Meu filho vem
sempre em primeiro lugar.
     Meia hora depois, o casal despediu-se, para alvio de Henrique e
Maria Eugnia. Quando se viram sozinhos, Henrique comentou:
     -- Ainda bem que se foram. Eu no sabia mais o que dizer.
     -- De fato. Eles no tm nada a ver conosco. No entendi como pude
estreitar tanto essa amizade em Paris. Acho que estava fora de mim.
     -- Eles no disseram at quando vo ficar. Certamente ainda voltaro
a nos procurar.
     -- No creio que fiquem muito tempo mais. Eles no tm nada que
fazer por aqui. Depois, ns no os encorajamos a ficar.
     -- Fao votos de que assim seja.
     Assim que entraram no txi que Henrique chamara para eles, Pierre
desabafou:
     -- Que gente mal-educada! Com os carros na garagem, nem sequer
tiveram a gentileza de nos levar para o hotel.
     -- Deu para ver que no gostam de ns.
     -- Isso no me importa. Eu tambm no gosto deles. Mas vo pagar
muito caro por isso.
     Jamille ficou pensativa por alguns segundos, depois disse:
     -- Quer saber? Acho que viemos ao lugar errado. Fizemos uma
despesa intil. Eles no tm segredo nenhum. Voc est enganado. No
vamos conseguir nada.
     Pierre fechou o cenho e respondeu:
     -- Voc  que pensa. No vou desistir.
     -- A criana  a cara dele, e o apego que o garoto tem com ela nos faz
crer que  a verdadeira me. Depois, ela tem uma paixo por ele que
certamente no teria se fosse filho adotivo.
     -- Mesmo que esse menino seja filho legtimo deles, eu possuo outros
trunfos.
     -- Quais?

     -- Ele me parece careta e antiquado. O que diria se soubesse que sua
mulher o traiu comigo?

     -- O que pretende fazer? Quer levar um tiro no traseiro? Acho que ele
seria bem capaz de fazer isso.
     Pierre olhou-a arqueando as sobrancelhas, sorrindo malicioso quando
respondeu:
     -- Ele no vai precisar saber de nada. Quem vai nos dar o que
precisamos  ela. J pensou quanto vale para ela manter o casamento? Acha
que Maria Eugnia gostaria que o marido descobrisse suas escapadas em
Paris?
     -- Ser que isso vai dar certo?
     -- Tenho certeza. Voc vai ver s.
     -- Precisa ser rpido. Nosso dinheiro est no fim.
     -- Pode deixar. Sei como fazer.
     Chegando ao hotel, Jamille foi para o quarto e Pierre desceu para o
bar. Enquanto bebia seu vinho preferido, imaginava o que faria para
conseguir o que pretendia.




     CAPTULO 12




     Marina chegou a casa no fim da tarde e encontrou Oflia preocupada.
     -- Aconteceu alguma coisa? -- indagou.
     -- Sim. O Ccero chegou da escola indisposto e foi para o quarto. Fui
atrs dele, procurei conversar, mas ele comeou a chorar e dizer coisas sem
sentido. A Rute chegou para a aula e Rosa lhe contou o que estava
acontecendo. Ela foi at o quarto e pediu que a deixasse sozinha com ele.
Esto l h mais de dez minutos.
     -- Vou ver o que est havendo.
     Marina subiu ao quarto do irmo e entrou. Ccero estava deitado e
Rute, em p do lado da cama, mantinha a mo sobre a testa dele. Olhos
fechados parecia rezar.
     Ccero, tambm de olhos fechados, estremecia de vez em quando.
Marina, admirada, no entendeu nada. Rute abriu os olhos, fez-lhe ligeiro
sinal para esperar e fechou novamente os olhos.
     Depois de alguns minutos, Ccero abriu os olhos. Rute retirou a mo
de sua testa e perguntou:
     -- Como se sente?
     -- Aliviado. No sei o que foi. Senti uma angstia, parecia que eu ia
morrer. O ar me faltava, no conseguia ficar parado.
     -- J passou. Voc tem mediunidade. Sabe o que  isso?
     -- No.
     -- H algum tempo voc vem sentindo essas coisas, no ? Acho que
desde os doze ou treze anos.
     --  verdade. Mas antes no era forte. Passava logo. Agora parece
que cresceu.
     -- Sua sensibilidade est se abrindo. Voc e mdium.

     Marina interveio:
     -- Ser? Custo a crer. Ccero sempre foi um menino equilibrado.
     -- Mediunidade no  sinal de desequilbrio.
      Marina lembrou-se das conversas que tivera sobre isso com Clia e
Isaura quando estava na fazenda e dos livro, que lera sobre o assunto.
     -- Desculpe. No foi isso que quis dizer.  que nunca notei nada
diferente em Ccero.
     -- Ele est muito sensvel. Talvez a mudana de vida tenha apressado
o desenvolvimento de sua sensibilidade. Mas, seja como for, noto que ele
possui essa caracterstica.
     -- Como pode saber?
     -- Hoje, quando cheguei aqui, ele estava sendo envolvido pelo
esprito de uma mulher muito triste e chorosa. Ela conversou comigo e
consegui acalm-la. Com oraes, ela foi socorrida e levada. S ento
Ccero voltou a seu estado normal.
     Marina sentou-se ao lado da cama, sem saber o que dizer. Sabia que
essas coisas aconteciam, mas nunca imaginou que fosse ocorrer dentro de
sua casa.
     -- No sei o que dizer Rute. Estou vendo que conhece o assunto. O
que me aconselha?
     -- Estudar. H muitos livros a respeito, pesquisas, centros de estudos
onde h orientao prtica de mediunidade.
     Marina aproximou-se de Ccero, alisou-lhe os cabelos e disse:
     -- Por que voc nunca me disse o que estava sentindo?
     -- Tive medo. Pensei que estivesse ficando louco. Tantos
pensamentos estranhos passam pela minha cabea. H ocasies em que
estou bem, junto com meus amigos, mas de repente tudo muda.  como se
eu fosse outra pessoa: sinto enjo, raiva, vontade de brigar. Tento controlar,
mas nem sempre consigo. Por favor, Dona Rute, tire isso de mim. No
quero sentir essas coisas.
     -- Acalme-se. No tenho e ningum tem o poder de impedir que sua
sensibilidade se manifeste. Ela  uma condio natural de todos, embora
cada um tenha um tempo certo para que aparea. Mas ser mdium  uma
bno. Voc no precisa ter medo.
     -- Mas eu tenho. No quero esse negcio de espritos.
     --  por isso que o aconselho a estudar o assunto.  o nico caminho
para que voc aprenda a lidar com sua sensibilidade e possa utiliz-la em
seu benefcio. Com o tempo, perceber que ser mdium  penetrar os
segredos do universo.  descobrir as leis da vida,  tornar-se mais lcido e
sbio.
     Marina olhava-o dividida. Por um lado, sabia que Rute estava sendo
sensata, aconselhando o melhor. Por outro, no queria que o irmo sofresse
tantos conflitos.
     Rute colocou a mo sobre o brao de Marina e disse:
     -- Ele  um esprito forte e tem como lidar com isso. Voc precisa
confiar e auxili-lo. Tenho certeza de que ele veio para o seu lado porque
voc pode fazer isso.
     Marina suspirou e abraou-a com carinho.
     -- Obrigada, Rute. Voc tem sido uma amiga do corao. Seguirei seu
conselho. Pode indicar-me alguns livros para comear?
     -- Posso. Mas gostaria de fazer mais. Tenho uma amiga que  uma
mdium muito boa, tem um grupo de estudos. Gostaria que vocs fossem a
uma sesso l para uma consulta espiritual.
     -- O que acha Ccero? Vamos?
     -- Eu vou se Dona Rute for junto.
     -- Est bem, irei. Mas antes preciso conversar com ela e saber quando
poderemos ir. Agora, levante-se da. No pensa que vai escapar da nossa
aula hoje.
     -- Isso mesmo -- reforou Marina. -- Vamos descer. Estamos
esperando voc l.
     Elas saram e imediatamente Ccero levantou-se, foi lavar-se e
pentear-se para descer. Sentia-se leve, alegre. Nem se lembrava do mal-
estar que sentira.
     Mais tarde, sozinha em seu quarto, Marina lembrou-se daquela mulher
com a qual sonhara duas vezes e que lhe falara sobre reencarnao. Tinha
certeza de que no havia sido um sonho comum. Aquele contato fora to
real que ela nunca mais o esqueceu.
     As conversas com Clia e Isaura na fazenda, sobre vida aps a morte,
mediunidade, reencarnao, talvez no fossem coisas do acaso, mas
mensagens que a vida estava lhe mandando para que estudasse o assunto.
     O telefone tocou e ela atendeu. Era Rafael convidando-a para ir ao
teatro.
     -- No sei se poderei ir. Ccero no passou bem hoje.
     -- Trata-se de uma comdia inteligente e muito boa. Vamos fazer o
seguinte: passarei em sua casa as oito, ento veremos; se no quiser ir,
ficaremos conversando.
     -- Venha mesmo. Ccero adora voc. Alis, voc J conquistou todos
aqui em casa.
     -- Ainda bem, porque a tem sido um osis para mim. Adoro sua me.
     As oito em ponto, Rafael chegou e foi recebido com alegria. Rosa foi
chamar Marina, que desceu em seguida. Depois dos cumprimentos,
sentaram-se na sala e Rafael perguntou:
     -- Ento, como est o Ccero?
     O garoto apareceu no limiar sorrindo e respondeu:
     -- Estou timo. Tanto que vou dar uma volta.
     Rafael olhou para Marina admirado:
     -- Ele no estava doente?
     Oflia entrou para cumpriment-lo e Rafael levantou-se para abra-
la. Desde que ele fora quela casa pela primeira vez, havia mais de um ano,
tinham ficado amigos.
     Talvez por viver distante da prpria famlia, Rafael sentia-se bem com
o carinho de Oflia, com a curiosidade de Ccero, sempre questionando as
coisas, e com a inteligncia esclarecida de Marina.
     Ela era to espontnea que diante dela ele no precisava recorrer s
costumeiras anlises de comportamento para saber logo o que ela queria
dizer ou fazer. Nem se precaver contra os costumeiros jogos femininos,
cheios de subterfgios e intenes ocultas, que ele odiava.
        Marina era direta, simples e prtica, ao contrrio dele, que questionava
os menores gestos das pessoas, querendo descobrir que havia atrs de cada
uma de suas atitudes.
        Habituado a ser muito valorizado pelas mulheres, a princpio Rafael
ficara um pouco desapontado notando que ela no pretendia conquist-lo,
mas depois de algum tempo sentiu-se aliviado e  vontade.
        Por outro lado, Marina gostava da companhia dele, de sua inteligncia
arguta, sua cultura, bom humor e discrio, nunca tendo enveredado pelo
caminho da conquista.
        Eles saam juntos com freqncia e Marina apreciava poder freqentar
teatros, cinemas, concertos e restaurantes em sua companhia. Alm de
Rafael ser muito agradvel, ela sentia-se bem por circular pela noite
acompanhada.
        Foi Oflia quem respondeu:
        -- Ccero estava pssimo. Chegou em casa abatido, plido, foi para o
quarto e no queria ver ningum. Quando Rute chegou para a aula, foi ao
quarto dele ver como estava. No sei o que ela fez, mas, depois que ela e
Marina desceram, ele apareceu todo animado, como se no tivesse nada.
Comeu muito bem e foi passear coisa que s faz quando est de bom
humor.
        Rafael olhou para Marina e considerou:
        -- Deve ter sido uma crise emocional. Na idade dele acontece muito.
Nesses casos, ateno e uma boa conversa costumam resolver.
        -- Desta vez foi mais do que isso -- tornou Marina. -- Sente-se.
Quero conversar sobre o que aconteceu.
        -- Vou fazer um caf bem fresquinho -- disse Oflia, deixando a
sala.
     -- Fale Marina. O que foi?
     -- Em nossas conversas nunca falamos sobre isso. Voc acredita que
haja vida depois da morte?
     -- Acredito. Em meu trabalho tenho deparado com casos que me
fizeram refletir muito sobre isso. Por que pergunta?
     -- Porque quando cheguei no quarto de Ccero encontrei Rute com a
mo na testa dele, conversando. Ele estava chorando angustiado. Ela
confortou-o, rezou e ele melhorou. Ento ela explicou que ele  mdium e
que as emoes desagradveis que ele estava sentindo eram de um esprito.
     -- E ele?
     -- Sentiu-se aliviado ao saber disso. Sem entender o que estava
acontecendo, teve medo de estar enlouquecendo. Ainda bem que Rute
entendia do assunto.
     -- O sexto sentido  uma realidade. Todos ns temos. Penso que
precisamos aprender mais sobre nosso emocional e a espiritualidade.
     -- Os sonhos tambm so intrigantes. Por duas vezes sonhei com uma
mulher que, embora no a tenha visto antes, pareceu-me muito familiar.
Estvamos em um jardim lindo, onde as flores, a vegetao, possuem cores
muito vivas e belas. Conversamos, mas no me recordo de tudo que
falamos. S sei que ela falou em reencarnao. Mas estou certa de que
esses no foram sonhos comuns. Eram to reais! Eu ainda me emociono
quando me recordo deles.
     -- Os sonhos sempre me fascinaram. So estados diferenciados de
conscincia, em que muitas variveis interferem. Na minha profisso so
reveladores. s vezes retratam situaes que a pessoa prefere no ver.
Estud-los  parte do meu trabalho. Tenho lido sobre viagens astrais e tive
alguns pacientes que chegaram a ver seu corpo dormindo na cama enquanto
eles circulavam pelo quarto, com leveza e extraordinrio bem-estar.
     -- Enquanto eu estava fora, tive ocasio de ter sobre isso, mas saber
que meu irmo  mdium e precisa aprender a lidar com sua sensibilidade
me preocupa um pouco.
     --  uma coisa nova para voc. O desconhecido assusta um pouco.
Por outro lado, poder descobrir os segredos da vida, obter provas de que a
vida continua aps o morte,  uma bno. Ter essa certeza muda todos os
nossos conceitos e atitudes. A reencarnao  uma chave maravilhosa para
entender as desigualdades sociais, porque ela revela os resultados de nossas
escolhas de outras vidas. Eu tive muitos casos que me fizeram pensar que
tudo isso seja verdade. Mas h em mim ainda um lado que duvida um
pouco.
     --  o que acontece comigo. Eu no procurei esse caminho, mas j
que aconteceu aqui, com meu irmo, estou disposta a buscar provas e
aprender como essas coisas funcionam, para ajudar Ccero. Rute tem uma
amiga mdium que dirige um grupo de estudos espirituais. Inclusive, faz
sesses espritas. Ela quer nos levar para uma consulta.
     -- Nesse caso quero ir com vocs. Tenho muitas perguntas sem
resposta dentro de mim. Casos que ocorreram com pessoas amigas, com
pacientes, com a vida nos hospitais.
     Oflia voltou  sala com uma bandeja e serviu caf com bolo. Depois
foi para o quarto ver televiso.
     -- E sua me, o que pensa a respeito?
     -- Ela sempre freqentou a igreja catlica. Pensei que no fosse
gostar do que aconteceu. Rodeei um pouco para contar-lhe, mas fiquei
surpresa, porque, quando terminei, ela disse: Sempre desconfiei que esse
menino tinha mesmo algum encosto. Desde pequeno ele tem todos os
sinais. Quando eu via que ele estava atormentado, precisava lev-lo a uma
benzedeira. Ela rezava na cabea dele e a melhora era imediata. No dia
seguinte ele acordava bonzinho.
     -- A sabedoria popular... Sua me  uma grande mulher.
     -- Ela  uma mulher simples, fez apenas o primeiro grau, mas possui
uma bondade que eu respeito e admiro. Tenho muito orgulho de ser sua
filha.
     -- Estou muito interessado no caso de Ccero. H certos fatos que
presenciei que a medicina no explica e que sugerem a interveno
espiritual. Certa vez, quando fazia residncia em um hospital, um paciente
de meia-idade que sofreu um acidente de carro estava em coma. Sua esposa
aproximou-se dele e disse palavras de carinho, pedindo que ele no a
deixasse que voltasse para ela e os filhos.
     Marina ouvia com interesse e ele prosseguiu:
     -- Como mdico, eu sabia que um paciente em coma no sabe o que
acontece  sua volta. Querendo acalm-la, pedi que sasse e afirmei que no
estado em que ele se encontrava no poderia ouvir nada do que ela estava
dizendo. Mas ela se recusou, afirmando que o traria de volta e que ele no
iria embora. Como o estado dele era grave e j era madrugada, deixei-a
ficar sentada ao lado da cama. Mais tarde, uma enfermeira me chamou
dizendo que o paciente dera sinal de melhora. Corri a examin-lo, e de fato
ele estava saindo do coma. As primeiras palavras dele, ainda atordoado,
foram: Alzira, voc me chamou e eu voltei. Agora no vou mais embora.
     -- Quer dizer que ele ouviu o que ela lhe dissera?
     -- Tudo indica que sim. Ela olhou-me triunfante, contente, como se
dissesse: Viu? Eu no disse? Pela medicina, ele nunca poderia ter
registrado as palavras dela. Muitas vezes fiquei me perguntando se
realmente somos espritos e desse modo podemos viver fora do corpo
conservando todos os nossos sentidos.
     -- Essa seria a nica explicao.
     -- Vi pacientes em fase terminal que diziam estar recebendo a visita
de seus parentes mortos. Um deles at sabia o dia em que ia morrer. Viu o
esprito de um tio que prometeu busc-lo naquela data. E ele realmente
morreu no dia previsto.
     -- Nesse caso, os mdicos poderiam estudar esses fatos com mais
facilidade.
     -- Alguns at o fazem, ou pelo menos respeitam quem cr na vida
aps a morte, mas infelizmente o preconceito ainda  grande e muitos no
mencionam esses casos, com receio de serem confundidos com
curandeiros. Depois que me especializei em psiquiatria, muitas vezes,
durante o tratamento de um paciente, vi que ele se transformava, como se
fosse outra pessoa: a postura, a voz. E alguns diziam coisas inteligentes que
iam alm da cultura e do conhecimento que eles possuam. Havia um que,
durante um acesso de fria, comeou a destruir tudo  sua volta e no
conseguamos cont-lo para colocar a camisa-de-fora. Uma das
enfermeiras chegou e entrou no quarto, apesar de querermos impedi-la. Ela
estendeu a mo para ele e com voz firme mandou que parasse. Ele olhou-a
e ela continuou falando, dizendo que no queria colocar a camisa-de-fora,
mas, se ele continuasse rebelde, querendo destruir tudo, ela seria forada a
fazer isso e a dop-lo.
     -- Mulher corajosa!
     -- Na hora fiquei apavorado. Achei que ele ia agredi-la e me
preparava para intervir quando surpreendentemente ele comeou a chorar,
soluando e dizendo que ia embora porque ela era mais forte do que ele.
Ento ela tomou seu brao e conduziu-o para a cama. Ele soluou durante
algum tempo. Depois disse que ela o havia libertado. Que no era ele quem
estava furioso, mas seu perseguidor, que queria acabar com ele. Contou que
via o que estava acontecendo, mas no conseguia reagir. Disse que, quando
ela entrou e o enfrentou, das mos dela saram raios de luz azul muito
fortes, que o imobilizaram.
     -- Que coisa impressionante!
     -- De fato. Durante alguns dias no consegui pensar em outra coisa.
Fui procur-la. Ento descobri que ela era esprita praticante. Seu guia
espiritual a mandara ir e atender o caso. Ele a ajudara no processo.
     -- Temos muitas coisas a aprender. Desta vez no vou perder a
chance.
     -- Nem eu. Afinal,  mesmo muito bom descobrir o que vai nos
acontecer depois da morte, uma vez que esse  o caminho de todos ns.
     Eles ainda continuaram conversando sobre o assunto. Quando Rafael
se despediu, ficou combinado que ele os acompanharia ao centro de
estudos espirituais.
     O encontro foi marcado para dois dias depois. Rute, Marina, Rafael e
Ccero deveriam estar l pontualmente s oito da noite. Dez minutos antes,
chegaram ao local.
     Era um casaro antigo em um bairro de classe mdia. No porto, um
moo os recebeu fazendo-os entrar no jardim bem cuidado. Subiram os
degraus que conduziam  varanda e entraram no hall, onde uma moa os
recebeu e os conduziu a um salo com filas de cadeiras e ao fundo uma
mesa grande, rodeada de cadeiras. Sobre a mesa, alguns livros, blocos de
papel, canetas. Atrs, encostado na parede, um mvel sobre o qual havia
um vaso com flores, bandeja com jarras de gua e copos.
     Ccero agarrou o brao de Rute. Marina viu e perguntou:
     -- O que foi Ccero?
     -- Acho que no vou ficar. Estou todo arrepiado. Vocs ficam. Vou
esper-los no jardim.
     -- Nada disso -- tornou Rute. -- No tenha medo. Aqui voc est
protegido. Nada de mal vai lhe acontecer.
     Eles foram convidados a sentar-se em uma das fileiras. Quase todas as
cadeiras estavam ocupadas. O ambiente era acolhedor e alegre.
     Uma moa aproximou-se de Rute e perguntou:
     -- Quem vai passar com Dona Eunice?
     -- Ccero -- respondeu Rute. -- Mas Marina, irm dele, e o Rafael
gostariam de conversar com ela para uma orientao.
     -- Est bem. A reunio vai comear. Eu chamarei quando for o
momento de vocs entrarem.
     As luzes foram apagadas, ficando acesa apenas uma lmpada azul.
Uma msica suave encheu o ar. Um senhor sentado  cabeceira da mesa
pediu que todos se concentrassem e fez ligeira prece solicitando a presena
e a proteo dos amigos espirituais para os trabalhos da noite.
     Depois, as luzes foram acesas e um rapaz levantou-se e comeou a
falar sobre a necessidade da orao como elemento de ligao com os
espritos de luz. Sua voz vibrante e emocionada, suas palavras ditas com
convico impressionavam enquanto ele afirmava que a ajuda espiritual
est  nossa volta o tempo todo, que somos ns que fechamos nosso
corao a ela quando nos afundamos no negativismo e que a orao renova
nossas energias e oferece campo a que a ajuda espiritual possa atuar em
nossas vidas.
     Marina sentia uma alegria interior, um bem-estar muito grande.
Parecia-lhe j haver estado em um lugar como aquele.
     O rapaz sentou-se e logo depois uma moa se levantou e comeou a
contar uma experincia que tivera fora do corpo. Eles estavam muito
interessados, porm naquele momento foram chamados para a consulta.
     Eles acompanharam a moa por um corredor at uma pequena sala
onde atrs de uma mesa Eunice estava sentada.
     Rute ia ficar fora, mas a moa pediu que ela tambm entrasse. Eunice
estendeu a mo a eles olhando nos olhos de cada um. Depois pediu que se
sentassem em frente da mesa.
     Ccero olhava-a admirado. Ela sorriu:
     -- Voc est vendo um amigo espiritual. Esta aqui para nos ajudar.
     -- Ele est sorrindo para mim. Parece que j o conheo.
     -- Vocs fazem parte do nosso grupo.
     -- Mas  a primeira vez que venho aqui  disse Ccero, admirado.
     Eunice sorriu:
     -- Isso no quer dizer que no tenhamos nos encontrado antes. Voc
veio aqui por causa da sua sensibilidade. Est na hora de estudar as leis
csmicas e os fenmenos de influncias. Voc precisa aprender a equilibrar
suas energias, a escolher bem seus caminhos.
     -- Eu tambm gostaria de estudar tudo isso -- interveio Marina.
     -- Eu sei. Voc est pronta, s precisa recordar um pouco. Quanto ao
senhor, j poderia ter desenvolvido seu enorme potencial curador se no
tivesse ignorado os chamados que a vida lhe fez.
     Ela fez uma pausa, depois perguntou:
     -- Quem  Olinto ou Olvio?
     -- Olinto, meu av paterno -- respondeu Rafael.
     -- Um senhor alto, bonito, cabelos castanho-claros, queixo quadrado,
olhos alegres.
     --  ele! -- exclamou Rafael, emocionado.
     -- Pois ... Ele diz que tem procurado auxiliar seu pai, mas que ele 
teimoso e no atende aos conselhos que lhe d. Diz que adora Diva porque
ela tem muita pacincia com ele.
     Rafael no conseguiu impedir que algumas lgrimas rolassem pelas
suas faces. Quando conseguiu falar, disse:
     -- Diva  minha me!
     Marina e Ccero no continham a emoo. Naquele momento tiveram
provas de que a vida continua aps a morte. No s a presena do av de
Rafael, mas tambm as palavras que ele dissera, mencionando o nome da
nora causaram-lhes grande impresso.
     Eunice olhou fixamente para Marina e continuou:
     -- Est aqui o esprito de uma moa. Diz que se chama Norma.  sua
amiga de outras vidas e pede que lhe diga o seguinte: Est tudo certo. No
existe erro. Voc cumpriu a promessa que me fez. Conte comigo sempre.
Farei o que puder para que seja muito feliz.
     Marina lembrou-se com muita clareza do sonho naquela tarde na sala
de espera do Dr. Moura, do jardim onde conversara com uma mulher que
lhe dissera ser sua amiga de outras vidas e que quando chegasse o momento
ela se recordaria da reencarnao.
     Surpreendida, emudeceu. Eunice perguntou:
     -- O recado fez sentido para voc?
     -- Sim -- respondeu Marina.
     Notando que os demais a olhavam curiosos, ela esclareceu:
     -- Certa vez sonhei com ela, que me disse as mesmas palavras.
Nunca mais esqueci esse sonho.
     -- Foi uma viagem astral, no foi um sonho. Vocs se encontraram
no astral enquanto seu corpo dormia. Eu gostaria que
     Ccero se matriculasse em nosso curso de mdiuns. L ele ter aulas
tericas sobre as leis csmicas e prticas para conhecer as energias que nos
rodeiam.
     -- Est bem -- concordou ele.
     Eunice prosseguiu:
     -- Quanto a vocs dois, vou indicar-lhes alguns livros e, se desejarem,
podero freqentar nossa sesso de estudos uma vez por semana.
     Os dois concordaram. Eunice levantou-se e estendeu-lhes a mo.
     -- Tive muito prazer em conhec-los. Se quiserem, podero tomar um
passe na sala ao lado. Vo com Deus.
     Eles agradeceram e saram. Foram  sala indicada e cada um sentou-se
onde lhes indicaram, enquanto duas pessoas -- uma diante, outra atrs --
levantaram as mos e pouco depois as passaram pelo corpo deles sem os
tocar. Uma msica suave enchia o ar e um delicado perfume das rosas que
estavam no vaso sobre a mesinha deu-lhes agradvel sensao de bem-
estar.
     Enquanto Ccero teve uma crise de choro, Rafael intimamente
prometia a si mesmo estudar a espiritualidade com persistncia, Marina
sentia que uma brisa gostosa a envolvia e que aquela energia lhe era
familiar. Num misto de reconhecimento e de saudade que ela no podia
traduzir em palavras, permitiu que duas lgrimas de felicidade lhe
banhassem a face, na certeza de que finalmente havia reencontrado seu
caminho.
     Eles saram em silncio, cada um imerso em seus pensamentos. Uma
vez na rua, Rute no se conteve:
     -- E ento? Gostaram?
     -- Eu senti arrepios o tempo todo. Como  que ela sabia tudo sem eu
dizer nada? -- tornou Ccero.
     -- Como voc est se sentindo agora? -- perguntou Rute.
     -- Leve, muito bem -- respondeu Ccero. -- Tanto que estou at com
fome.
     -- Nesse caso, vamos comer alguma coisa -- convidou Rafael. --
Aqui perto h um lugar muito bom.
     Uma vez ao carro, Rafael comentou:
     -- Essa mulher tem uma mediunidade espantosa! Depois das provas
que ela nos deu, no h do que duvidar.
     -- De fato -- interveio Marina. -- Como ela poderia saber sobre a
moa do meu sonho e das palavras que havamos conversado?
     -- Vocs se admiram, mas para Eunice, que v os espritos e ouve o
que eles dizem,  s narrar os fatos -- respondeu Rute.
     -- Mas nem todos os mdiuns so como ela. Eu mesmo j deparei
com alguns que afirmam coisas que nunca aconteceram e at confundem a
cabea das pessoas ingnuas -- aventou Rafael.
     -- De fato. Eunice  pessoa lcida, ntegra e muito generosa, o que lhe
garante a presena e a ajuda de espritos iluminados. Alm disso, seu
temperamento prtico e ativo no permite que se perca nas iluses e nos
dramas do mundo. Lder nata, ai pessoas rendem-se ao seu carisma.
Contudo, ela conserva a cabea no lugar e tem uma enorme capacidade de
trabalho.
     -- Ela passa mesmo uma sensao de confiana -- tornou Rafael. --
A partir de hoje, vou me dedicar a estudar esses fenmenos. Afinal, morrer
 o destino de todos ns. Pensando nisso, no d para entender por que a
maioria das pessoas prefere ignorar esse assunto.
     -- Talvez o medo seja maior do que a necessidade -- comentou
Marina.
     -- O medo -- interveio Rute --, quando no  provocado por uma
situao real de risco, pode ser dissipado pelo conhecimento dos fatos. H
inmeras provas da sobrevivncia do esprito aps a morte. Quando voc as
descobre, fica mais fcil vencer o medo e olhar o futuro com mais
otimismo.
     Durante todo o tempo em que estiveram juntos, comentaram os
acontecimentos da noite.
     Passava das onze quando Rafael, depois de deixar Rute em casa, levou
Marina e Ccero. Este despediu-se rapidamente de Rafael, dizendo alegre:
     -- Mame deve estar nos esperando ansiosa. Vou contar-lhe as
novidades.
     Ele entrou depressa. Marina estendeu a mo a Rafael.
    -- Obrigada por nos ter acompanhado. Seu apoio foi muito importante
para mim. Apesar de gostar de Rute, eu me sentia um pouco insegura.
Ccero  um menino sensvel; eu temia que ele se impressionasse demais.
    -- Voc sabe quanto aprecio a companhia de vocs. Eu iria junto em
qualquer lugar. Porm, confesso que no esperava o que nos aconteceu.
Sinto em meu corao uma sensao boa, que renovou minha motivao.
    -- Voc nunca me pareceu desmotivado. Tem uma viso otimista de
tudo.
    -- Esse  um trabalho que realizo diariamente, tentando melhorar
minhas condies de vida. Tenho aprendido que o otimismo no s nos
ajuda a viver melhor, mais felizes, como tambm contribui para a
manuteno da sade fsica e mental. Acontece que, lidando com os
problemas humanos, sendo confidente de pessoas altamente iludidas,
pessimistas, irresponsveis, que se comprazem nas mesmas posturas sem
que eu possa, por mais que tente faz-las perceber o que esto fazendo com
suas vidas e assumir o comando de seu mundo inferior, tudo isso acabou
desgastando minha boa vontade.
    Marina colocou a mo sobre o brao dele, olhando-o nos olhos.
    -- Nunca notei que voc se sentia assim.
    -- Quando me formei, estava cheio de planos, de ideais, acreditando
que meus conhecimentos, meu amor pela profisso e o desejo de tornar as
pessoas mais felizes seriam suficientes para conseguir um bom
desempenho.
    -- Mas voc conseguiu.  um profissional respeitado, escreveu livros,
tem ajudado as pessoas.
    -- Tenho tentado, mas a grande verdade  que ningum muda
ningum. As pessoas me procuram em busca de orientao para suas vidas,
porm poucas so as que realmente ouvem meus argumentos e tentam
coloc-los em prtica. A maioria vai  consulta em busca de algum remdio
que em um passe de mgica a livre de todas as preocupaes. Quando voc
identifica a origem dos problemas e sugere o que fazer para venc-los, no
aceitam.
     Ele fez ligeira pausa e, notando que Marina o ouvia com ateno,
continuou:
     -- Por comodismo, no querem reconhecer que foi sua maneira
inadequada de ver as coisas que criou as situaes problemticas que as
impedem de ter uma vida feliz.
     -- Isso no deve entristec-lo. Voc est dando o melhor de si, usando
seus conhecimentos para seus clientes. Mas a responsabilidade de fazer ou
no o que voc aconselha  deles. No depende de voc.
     -- Eu sei disso. O que quero lhe dizer  que, nesta noite, a descoberta
da reencarnao como uma possibilidade de aprendizagem fez-me recobrar
o entusiasmo pelo meu trabalho. Entendi que minha funo  apenas
mostrar as vrias opes que a pessoa tem naquele momento. Se ela
escolher o melhor, tudo bem. Mas, se continuar no mesmo caminho, um dia
ela vai tomar conscincia do que eu quis lhe mostrar e vai fazer o mais
adequado. Esta noite descobri que minha funo  apenas mostrar a quem
se sente perdido um caminho mais adequado s circunstncias, sem me
preocupar com o que cada um escolheu. Esta noite tive a certeza de que a
vida cuida de cada um muito melhor do que eu. Diante dos que me
procuram, sou apenas uma chance de mudana que eles usam se quiserem.
     Os olhos de Rafael brilhavam e Marina sentiu-se comovida com suas
palavras. Geralmente ele no falava de seus sentimentos pessoais. Era a
primeira vez que expunha seus pensamentos ntimos, suas expectativas
diante do trabalho no qual dedicara toda a sua vida.
     -- Voc  um homem maravilhoso -- disse ela, levantando-se na
ponta dos ps e beijando-o delicadamente na face.
     Ele abraou-a, respondendo comovido:
     -- No. Voc  que tem enchido minha vida de alegria e de felicidade.
     Emocionado, beijou-a nos lbios. Marina sentiu o corao bater
descompassado enquanto uma sensao de prazer a invadia.




     CAPTULO 13




      Maria Eugnia atendeu o telefone e, ouvindo a voz de Pierre, sentiu
um aperto no peito.
     -- Preciso v-la com urgncia, a ss, no em sua casa -- disse ele.
     -- Infelizmente, voc sabe, no posso sair, por causa do meu filho.
     -- D um jeito. Tenho um assunto muito importante para conversar
com voc. Garanto que  do seu interesse.
     -- O que ? Pode me dizer por telefone?
     -- De forma alguma. Espero voc esta tarde no meu hotel. Jamille vai
sair em excurso e eu estarei esperando. Ela quis escapar:
     -- Eu no posso. Meu marido pode no gostar.
     -- Antes voc no pensava assim. Se no vier, vou procur-lo e contar
tudo que houve entre ns em Paris.
     Maria Eugnia sentiu as pernas bambas. O corao disparou.
     -- Est bem. Irei -- respondeu com voz sumida.
     -- s duas horas. No se atrase. Estou em uma situao de
emergncia. Se no vier at as duas e quinze, vou procurar seu marido. No
estou brincando.
     -- Pode esperar. Irei.
     Ela desligou o telefone e deixou-se cair em uma poltrona. Mais do que
nunca lamentou a leviandade daqueles tempos. Mas era tarde. Precisava
enfrentar a situao.
     No duvidava que Pierre estivesse procurando tirar vantagem da
situao. S no sabia como, se queria dinheiro ou se queria divertir-se 
custa dela, exigindo que lhe desse a mesma ateno de antes.
     Ela no aceitaria nenhuma das duas hipteses. Porm, o que fazer se
ele levasse para frente s ameaas?
     Ela no queria de maneira alguma colocar em risco seu
relacionamento com Henrique. Eles estavam vivendo a melhor fase de seu
casamento. Maria Eugnia amava o marido e no queria perd-lo.
     Por um momento ocorreu-lhe que o mais sensato seria contar-lhe tudo
e acabar de vez com a chantagem de Pierre. Mas como Henrique reagiria se
soubesse que havia sido trado? Certamente a desprezaria, talvez at a
deixasse.
     No. Henrique nunca poderia saber a verdade. Angustiada, Maria
Eugnia compareceu ao hotel de Pierre na hora marcada. No saguo, pediu
 recepcionista que o avisasse de sua chegada e foi aguardar na sala de
estar.
     Pouco depois, Pierre chegou elegante como sempre, e cumprimentou-
a srio, deixando transparecer tristeza em sua fisionomia.
     -- O que deseja de mim? -- indagou ela.
     -- O que temos que conversar no pode ser dito aqui. Melhor irmos a
meu quarto.
     -- No. Prefiro outro lugar.
     -- Nesse caso, vamos ao jardim-de-inverno. H esta hora est vazio.
     Maria Eugnia acompanhou-o tentando controlar a inquietao. O
local era muito bonito, cheio de plantas ornamentais e caprichada
decorao. Realmente, no havia ningum por perto.
     Ele conduziu-a a um canto discreto, onde se sentaram nas
aconchegantes poltronas.
     -- E ento? -- indagou ela.
     Ele suspirou triste, depois disse:
     -- Resolvi vir ao Brasil conversar com voc porque estamos
atravessando uma situao desesperadora. Eu perdi tudo, estou arruinado.
     Ela no escondeu a surpresa:
     -- No parece... Vocs esto vivendo como sempre. Este hotel  dos
mais luxuosos.
     -- Para mim,  o estilo de vida que desfrutei durante toda a minha
vida. Quando descobri que havia perdido tudo, pensei em suicdio. Jamille
impediu-me no momento exato. Por ela, resolvi continuar vivendo, mas no
tenho estrutura para viver na pobreza. Por isso resolvi vir v-la e pedir
ajuda.
     -- A mim? Por mais que eu deseje ajud-los, no sei como poderia.
Minha me cuida de todo o nosso dinheiro.
     -- Informei-me sobre suas empresas. Elas possuem vastos recursos.
Creia que, se no fosse pela aflitiva situao em que nos encontramos
nunca me atreveria a incomod-la. Se quer saber, no temos nem dinheiro
para pagar o hotel.
     -- No sei o que dizer.
     -- Pea a seu marido.
     -- Voc sabe que ele no simpatiza muito com voc.
     -- Fale com sua me.
     -- Ela  uma mulher difcil. Nunca consegui enfrent-la.
     -- Estou desesperado. Se no puder ajudar-me, vou procurar seu
marido. Ele, apesar de no gostar de mim, diante dos fatos vai querer ver-
me longe daqui.
     Maria Eugnia empalideceu:
     -- O que pretende fazer? Contar-lhe as loucuras que fiz em Paris?
     -- Se for preciso...
     Maria Eugnia sentiu vontade de esbofete-lo, mas conteve-se. Ele
continuou:
     -- No quero apelar para o escndalo. Sei que sua me daria tudo para
que eu no falasse sobre aquela barriga postia que voc usava em Paris.
     Ento era isso! Ele sabia o segredo de sua famlia e pretendia arrancar
dinheiro deles. Maria Eugnia sentiu a cabea turvar-se e esforou-se para
no desmaiar.
     Pierre, notando sua palidez, teve certeza de que suas suspeitas tinham
fundamento. Olhou em volta e foi at a mesinha, onde havia uma jarra de
gua e copos. Serviu-se e voltou at Maria Eugnia:
     -- Beba isto. Vai sentir-se mais calma.
     Ela segurou o copo com mos trmulas e bebeu alguns goles. Estava
to assustada que no se atreveu a contestar o que ele dissera.
     Pierre continuou:
     -- Olhe, eu no quero prejudicar ningum, muito menos voc, de
quem guardo boas lembranas. Mas estou desesperado. Se me arranjar
algum dinheiro, vou embora e nunca mais ouvir falar de mim.
     Maria Eugnia tomou o resto da gua, tentando ganhar tempo. No
sabia o que dizer. Quando se acalmou um pouco, perguntou:
     -- Quanto voc quer?
     -- Voc sabe... Devido  situao, estou cheio de dvidas. Quero
pagar tudo e ter dinheiro para recomear.
     -- Se voc continuar levando a vida que sempre teve, no haver
dinheiro que chegue. Estar sempre pobre.
     -- Eu pretendo trabalhar -- mentiu ele. -- Tenho idia de voltar a
Paris e abrir um negcio. Jamille vai me ajudar.
     -- Quanto?
     -- Cinco milhes de dlares.
     Maria Eugnia olhou-o assustada:
     -- Tudo isso?  impossvel! Nunca conseguirei arranjar dinheiro.
     -- Pois  do que preciso. Esse valor no significa nada diante do
patrimnio das empresas de sua famlia.
     Maria Eugnia torcia as mos desesperada. Pierre continuou:
     -- Olhe, vou dar-lhe um prazo para conseguir o dinheiro. Mas lembre-
se de que, quanto mais tempo eu ficar neste hotel, mais estarei gastando.
Esse valor pode aumentar.
     Maria Eugnia levantou-se. Apesar de sentir as pernas bambas, queria
sair dali o quanto antes, no ver mais aquele olhar malicioso e falso de
Pierre. Sua proximidade a enojava.
     -- Preciso ir embora. Meu filho ainda no est bem.
     -- Est certo. Daqui a dois dias volto a ligar para saber se j tem
dinheiro.
     --  impossvel arranjar tanto dinheiro em to pouco tempo.
     -- No posso esperar mais. Se no conseguir, irei procurar sua
famlia.
     -- No... Vou ver o que posso fazer. No faa nada sem falar comigo.
     -- Est bem. Lembre-se: daqui a dois dias, neste mesmo horrio.
     Maria Eugnia saiu sem se despedir. Ao entrar no carro, o motorista
perguntou:
     -- A senhora est bem? Est to plida!
     --  um ligeiro mal-estar. Vamos para casa. Preciso descansar.
     Durante o trajeto, Maria Eugnia procurava desesperadamente uma
soluo. Porm, quanto mais refletia, menos acreditava na possibilidade de
conseguir o que Pierre exigira.
     Ela nunca precisou pensar em dinheiro porque sempre tivera tudo e
todas as suas necessidades satisfeitas. Mas, apesar disso, sabia que cinco
milhes de dlares era uma quantia vultosa at para os recursos de sua
famlia.
     Depois, que desculpas arranjar para solicitar essa soma? Tanto
Henrique quanto Adele eram inteligentes e no se deixariam ludibriar com
facilidade. Teria de lhes contar.
     No entanto, preferia morrer a ter de contar ao marido que o trara e 
me que fora leviana a ponto de deixar que Pierre conhecesse to
importante segredo.
     Sua cabea doa e ela nem sequer conseguia raciocinar direito.
Chegou em casa e foi diretamente para o quarto. No queria que ningum
notasse seu nervosismo. Uma vez l, atirou-se na cama e rompeu em
soluos.
     Elvira bateu  porta e Maria Eugnia no abriu. Ela bateu novamente.
     -- Quem ? -- indagou Maria Eugnia.
     -- Elvira. Preciso falar com a senhora.
     Maria Eugnia levantou-se rapidamente e foi abrir. Em sua
perturbao, nem havia perguntado de Dionsio. Teria piorado?
     Vendo sua fisionomia perturbada, Elvira perguntou:
     -- Aconteceu alguma coisa? A senhora est doente?
     -- No. Estou com dor de cabea. Dionsio est bem?
     -- Ele estava at meia hora atrs. De repente, acordou chorando
desesperado, chamando pela senhora. Custou para que se acalmasse. Mas
ele est inquieto, estremece de vez em quando.
     -- Viu se a febre voltou?
     -- Ele no est com febre; s inquieto, nervoso, irritado.
     -- Vou v-lo.
     Elas foram ao quarto de Dionsio, que, em p no bero, esforava-se
para sair. Vendo-as chegar, disse chorando:
     -- Mame, quelo voc.
     Maria Eugnia pegou-o no colo e acariciou-lhe os cabelos.
     -- Estou aqui, filho. No chore. Estou aqui.
     As lgrimas desceram pelo seu rosto e ela sentou-se, embalando o
menino com carinho. Elvira no se conteve:
     -- Aconteceu alguma coisa? A senhora est muito abatida.
     -- Aconteceu, sim, Elvira. Mas, infelizmente, no posso lhe dizer o
que . E, por favor, no conte a ningum que estou com problemas. Nem a
Henrique.
     -- Mas ele vai perceber seu nervosismo.
     -- Preciso me controlar. Vou me deitar, levo Dionsio comigo.
Quando Henrique chegar, diga-lhe que estou com dor de cabea, tomei
remdio e desejo dormir.
     -- Nesse caso,  melhor que eu fique com Dionsio.
     -- Ele vai chorar de novo. Sabe como  agarrado comigo.
     -- Ento ficarei com a senhora.
     -- Est certo.
     Elas voltaram para o quarto de Maria Eugnia com Dionsio. Ela
deitou-se com o menino e Elvira sentou-se do lado da cama. O quarto em
penumbra favorecia a calma.
     Dionsio, abraado a ela, sentia-se mais calmo, mas no dormia. Elvira
colocou o cavalinho de pelcia em suas mos e ele sorriu.
     -- Nunca vi uma criana to apegada  me -- comentou Elvira. -- A
senhora no estava bem e ele sentiu. S pode ser isso. Antes de a senhora
sair, ele estava alegre, bem-disposto. Tudo comeou de repente. Eu no
conseguia descobrir por qu. Mas, quando a senhora chegou abatida, logo
vi que ele havia pressentido alguma coisa.
     -- Eu preferia que ele no sentisse isso. No quero que ele sofra por
nada deste mundo.
     -- Eu tambm. Esse anjinho no merece sofrer.
     -- Se depender de mim, ele ser sempre muito feliz.
     Elvira ficou calada por alguns instantes. Depois, notando que apesar
de aparentar calma Dionsio estremecia de vez em quando, ela disse:
     -- Acho que seria bom lev-lo a Dona Eunice. Ele ainda est agitado.
     -- Agora no estou disposta a sair. Vamos ver. Se ele no melhorar,
iremos amanh.
     Naquela noite, Maria Eugnia no desceu para jantar. Pretextando dor
de cabea, continuou deitada na penumbra, afirmando a Henrique que no
era nada e logo estaria bem.
     Ele cuidou pessoalmente de Dionsio e ficou largo tempo brincando
com ele, tentando distrai-lo para que Maria Eugnia pudesse descansar.
     Quando Henrique foi se deitar, ela fingiu que estava dormindo, porm
no conseguiu pegar no sono naquela noite. De vez em quando, vencida
pelo cansao, ela adormecia, mas era acometida de pesadelos nos quais
Pierre aparecia cobrando seu dinheiro, ameaando ir aos jornais contar seu
segredo. Ela acordava aflita, corpo coberto de suor, desesperada.
     Apesar disso, na manh seguinte levantou-se antes que Henrique
acordasse, tomou um banho e maquiou-se tentando dissimular seu
abatimento.
     Foi ver Dionsio.
     -- Ento, Elvira, como ele passou a noite?
     -- Dormiu, mas seu sono no foi tranqilo. Estremecia de vez em
quando e acordava choroso. Eu o pegava no colo e o ninava. Quando ele
adormecia, eu o recolocava na cama. Acho que fiz isso umas trs vezes.
     Maria Eugnia colocou a mo na testa dele. A temperatura estava
normal. Lembrou-se de que Eunice lhe dissera que o menino era sensvel s
emoes dela. Precisava controlar os pensamentos. Mas como?
     Esforou-se por aparentar alegria. Durante o caf da manh, Henrique
perguntou se ela estava melhor. Respondeu que estava muito bem.
     Depois que ele saiu, Elvira comentou:
     -- A senhora no est bem. Quando chega perto de mim, sinto um
desespero, uma angstia que no sei explicar. Acho que seria bom irmos
conversar com Dona Eunice.
     -- Talvez mais tarde. No quero incomod-la a esta hora da manh.
     -- Ela  muito boa; no vai reparar. Eu falo por causa de Dionsio. Se
ele estiver sentindo o que eu estou, seria bom alivi-lo.
     -- Talvez voc tenha razo. Acha mesmo que ela no vai se
incomodar?
     -- Acho. Vou ligar para ela e contar o que est acontecendo?
     -- Faa isso.
     Elvira se foi e voltou pouco depois:
     -- Ela disse que estava pensando em ns e esperando que fssemos
v-la. Viu como ela ? Sentiu que no estamos bem.
     -- Ento vamos agora mesmo.
     Eunice recebeu-as com carinho. Depois de pedir que elas pensassem
em Deus, aproximou-se de cada um, impondo as mos em orao.
     Depois pediu que Elvira fosse para outra sala com o menino, pois ela
precisava conversar com Maria Eugnia.
     Quando se viu a ss com ela, disse:
     -- Aconteceu o que voc temia.
     -- Sim. Aconteceu e eu no sei o que fazer. Estou desesperada. Ele
sabe meu segredo e pediu cinco milhes de dlares para no contar nada.
Eu no tenho como arranjar esse dinheiro. No sei o que fazer.
     Eunice fechou os olhos por alguns instantes, depois disse:
     -- Estou vendo uma pessoa que pode ajud-la.  uma mulher bonita,
elegante, alta, cabelos escuros. Possui tanto carisma, que todos lhe
obedecem.
     -- A senhora est descrevendo minha me.
     -- Essa mulher tem sentido prtico,  habilidosa e muito poderosa.
     --  mesmo minha me. Ela chama-se Adele.
     --  essa mesmo. V procur-la e conte-lhe tudo, sem omitir nada.
     -- Mas ela vai me recriminar. Vai ficar contra mim. No terei foras
para contar-lhe a verdade.
     --  sua nica sada.
     Maria Eugnia chorava desesperada.
     -- No terei coragem. Ela vai ficar desapontada comigo.
     -- Voc est sofrendo as conseqncias de suas atitudes passadas.
Falar com sua me, reconhecer seus enganos  uma forma de reabilitao
diante de sua prpria conscincia.
     -- Minha me no vai entender.
     -- Ao contrrio. Sua me a ama muito, embora sempre tenha sido
rgida na disciplina. Querer tudo direito  o jeito dela. V imediatamente ter
com ela, abra seu corao com sinceridade, fale dos seus sentimentos, de
como ama seu marido e seu filho. Garanto que ela vai ficar do seu lado e
vai ajud-la a resolver tudo.
     -- Tremo s de pensar que terei de enfrentar seu julgamento.
     -- Deixe o orgulho de lado. Ele no serve para nada. Abra seu
corao e ver que tudo vai dar certo.
     Eunice colocou a mo sobre a cabea de Maria Eugnia e murmurou
sentida prece pedindo aos espritos de luz que a ajudassem a ter coragem de
enfrentar aquela situao.
     Depois perguntou:
     -- Sente-se melhor?
     -- Sim. Aquele desespero desapareceu. Farei o que me aconselha. Irei
procurar minha me agora mesmo.
      s duas da tarde, Maria Eugnia entrou no escritrio de Adele. Desde
que conversara com Eunice, refletira muito e acabara chegando  concluso
de que no lhe sobrava outra alternativa seno falar com a me.
      Ao entrar na sala dela, sentia o corao oprimido, as pernas bambas,
mas esforava-se para controlar a ansiedade.
      Vendo-a entrar, Adele levantou-se e, depois de trocarem leve beijo na
face, ela fixou-a firme, dizendo:
      -- Voc no parece bem. Aconteceu alguma coisa com Dionsio?
      -- No. Ele est bem.
      -- Sente-se. Voc nunca me procura aqui. Deve ter alguma coisa sria
para me dizer. O que ?
      Maria Eugnia teve vontade de arranjar uma desculpa, no dizer nada
e ir embora. Mas a lembrana de Pierre e de suas ameaas a fez controlar-
se.
      -- Sente-se. Voc est plida. Est doente?
      -- No. Preciso conversar com voc.
      -- Pode falar.
      -- Antes de chegar no ponto em que as coisas esto, preciso dizer que
durante toda a minha vida sempre foi muito difcil contar-lhe meus
pensamentos ntimos. E, se decidi falar-lhe agora, foi porque estou
encrencada e preciso de sua ajuda. Peo que me oua e no me interrompa,
por favor.
      -- Fale. Seja clara.
      -- A senhora  uma pessoa brilhante, bonita, admirada, de sucesso,
enquanto eu sempre fui uma sombra a seu lado. Eu a admiro, mas
reconheo que no tenho sua capacidade e, por mais que tenha me
esforado, nunca consegui o que sempre desejei que era poder ser melhor
do que sou para que voc me admirasse e sentisse orgulho de mim.
     Adele olhava-a surpreendida, como se a estive vendo pela primeira
vez. Maria Eugnia fez breve pausa e falou de sua infncia, de sua
frustrao e revolta por no poder ser me, da inveja que sentia das outras
mulheres.
     -- Foi muito penoso e difcil aceitar sua proposta para salvar a
empresa. Ter de imaginar que Henrique ia manter relaes com outra
mulher, ainda que desconhecida, atormentou meus dias. Ter de usar aquela
barriga postia era uma humilhao e uma prova viva da minha
incapacidade como mulher.
     Adele teve vontade de intervir, porm conteve-se. Sentia que Maria
Eugnia precisava daquele desabafo.
     -- Quando fomos para Paris, a depresso tomou conta de mim. Eu no
tinha vontade de sair nem de divertir-me. Porm, uma noite, sa para jantar
com um casal de franceses que havia conhecido num desfile de moda. Os
dois eram incurveis apreciadores de bares, festas e eventos sociais. A
paixo deles pela cena noturna parisiense acabou me contagiando, e ento
decidi esquecer tudo e aproveitar o tempo me divertindo, porque sabia que
quando regressasse teria de suportar uma criana que era filho de Henrique
com outra mulher. Henrique no gostou de meus novos amigos e no
desejava sair com eles, mas, talvez no querendo que eu voltasse 
depresso, permitiu que eu continuasse saindo sozinha com eles. Ento
mergulhei em noitadas nas quais bebia, me divertia, esquecendo todos os
problemas. Henrique tentou mostrar-me que eu estava exagerando, mas no
lhe dei ouvidos. Eu estava cheia de dio, de revolta contra ele, contra voc,
contra a empresa, contra o filho que queriam impingir-me. Pierre me
envolvia com galanteios. Ele e Jamille, apesar de casados, se permitiam
relacionar-se com outros parceiros. Uma noite aconteceu o pior. Deixei-me
envolver e acabei na cama com Pierre, em seu apartamento. Naquele
momento eu no sentia culpa. Ao contrrio: achava que tinha o direito de
fazer isso, tanto quanto Henrique o fizera.
     Maria Eugnia falava olhos perdidos nas lembranas, lgrimas
correndo livremente pelo seu rosto, e Adele, plida, olhos marejados, no
se atrevia a intervir. Ela continuou:
     -- Na ocasio, Pierre descobriu que eu no estava grvida. Porm eu
no lhe disse por que usava uma barriga postia. Pensei que tudo ficaria
nisso. Pouco depois voltamos ao Brasil e Dionsio nasceu. Foi ento que
tudo mudou em minha vida. Essa criana fez o milagre de despertar em
mim meu melhor lado. Seu apego, seu amor por mim, preferindo estar
comigo a estar com qualquer outra pessoa, seus bracinhos em volta do meu
pescoo, seus olhos brilhando de alegria e de amor quando me via tudo isso
fez com que eu o amasse de verdade, como se ele houvesse nascido de
mim. Eu mudei. Hoje me envergonho das atitudes passadas. Voc me deu
tudo, Henrique sempre foi um marido carinhoso, adorvel, educado,
respeitoso, e eu reconheo hoje que amo minha famlia com sinceridade.
Dionsio tornou-se indispensvel  minha vida.
     Adele aproximou-se e abraou-a comovida. A sinceridade de Maria
Eugnia tocou seu esprito e ela reconheceu pela primeira vez que talvez
houvesse subestimado os sentimentos da filha.
     -- Voc falou que precisa de ajuda. O que est acontecendo agora?
Por que est me contando tudo isso?
     -- Porque estou sendo ameaada por Pierre. Eles vieram procurar-me.
So de famlia rica, mas perderam todo o dinheiro. Esto na misria. Pierre
pediu-me cinco milhes de dlares. Se eu no pagar, ele vai procurar
Henrique e contar-lhe tudo. Notei que ele andou investigando nossa famlia
e, embora eu no houvesse lhe contado nada, descobriu nosso segredo.
     Adele esforou-se para controlar-se. Como de hbito, sempre que
tinha um problema para resolver, ela no se permitia perder a calma. Sabia
que as boas solues s aparecem quando a pessoa no se descontrola.
     -- Ele est fazendo chantagem. Era de se esperar.
     -- No quero que Henrique saiba o que fiz. Ele pode no querer mais
viver comigo. Eu amo meu marido. No quero perd-lo. Eu estava louca.
Estou muito arrependida.
     -- Acalme-se, minha filha. No se deixe levar pelo desespero. Vamos
pensar em uma forma de resolver isso.
     -- Voc vai me ajudar?
     -- Claro! Sou sua me. Eu a amo. Depois, h nossas empresas. No
vou permitir que um casal de vigaristas destrua o que levamos uma vida
para construir.
     -- Me perdoe por ter sido to ingnua e provocar tudo isso.
     -- Culpar-se agora no vai resolver nada. Precisamos buscar a sada.
     -- Ele me deu prazo at amanh  tarde.
     Adele pensou um pouco, depois disse:
     -- Vamos fazer o seguinte: voc vai se recompor arrumar-se, sair
daqui muito bem. Imagino que no comeu nada hoje.
     -- Estou sem fome.
     -- Vou pedir um lanche e voc vai se alimentar.
     Adele ligou para secretria e mandou trazer um lanche. Enquanto
esperavam, ela levou Maria Eugnia  sala contgua, onde havia um lugar
de descanso e um toucador, e colocou-a diante do espelho.
     -- Veja como voc est. Acontea o que acontecer, precisa manter a
dignidade. No pode se permitir esse descontrole, que sempre leva ao
fracasso. Precisa reagir. Voc errou, mas sua vida no acabou por causa
disso. Ao contrrio: voc gosta da vida que tem, ama seu marido, seu filho.
Essa  sua verdade agora. No deve deixar-se destruir por um chantagista
qualquer. Lave o rosto e trate de se maquiar.
     Maria Eugnia abraou a me, dizendo emocionada:
     -- Obrigada por ter me ouvido e no me condenar. Agora compreendo
e admiro sua maneira de ser. O que eu pensava ser indiferena era
equilbrio, lucidez.
     Adele sorriu e em seus olhos passou um brilho maior. Mas limitou-se
a responder:
     -- Vamos, arrume-se. Fique linda e decente. Pense nas pessoas que
voc ama.
     A secretaria trouxe o lanche e Adele colocou tudo sobre a mesa onde
costumava tomar suas refeies. Pouco depois, Maria Eugnia apareceu na
sala bem maquiada e sua aparncia estava bem melhor.
     O fato de haver desabafado, de ter sido ouvida e compreendida a
confortava. A ajuda da me tornava-a confiante de que haveriam de vencer
esse problema.
     Mais calma, sentou-se  mesa e comeu o lanche, tomou o suco de
frutas e sentiu-se revigorada. Adele serviu-se de uma xcara de caf e
sentou-se ao lado dela.
     -- Agora voc vai anotar o nome desse casal, o hotel onde esto.
     -- Voc pretende ir falar com eles?
     -- Ainda no sei. At amanh  tarde temos tempo. Quero tomar
algumas providncias. Obter informaes sobre eles. Enquanto isso v para
casa e proceda como sempre. Seja natural. Nem eufrica nem preocupada.
     -- Se Pierre voltar a ligar, o que lhe direi?
     -- Ele deu-lhe um prazo. No vai ligar, vai esperar. Em todo caso, se
ele ligar a qualquer pretexto, no receba nem ele nem a esposa em sua casa.
Espere, porque eu, assim que puder, irei v-la para combinarmos o que
vamos fazer.
     Maria Eugnia despediu-se da me, aliviada e refeita, sentindo dentro
de si uma fora nova. Ela havia se tornado uma mulher feliz e saberia
conservar essa conquista.
     Depois que ela se foi, Adele ligou para um advogado que, alm de
amigo pessoal, era a quem ela confiava todos os seus segredos, pedindo
que fosse imediatamente a seu escritrio.
     Quando ele chegou, meia hora depois, Adele recebeu-o com largo
sorriso. O Dr. Bernardo Gouveia era um homem de classe, bem-sucedido
em sua carreira profissional, que havia sido colega de Adele na
universidade.
     Naquele tempo, ele fora apaixonado por ela, mas no chegou a
declarar-se porquanto Adele aceitou o pedido de casamento de Aurlio
Carlos da Rocha, um rico empresrio, e ele, embora de famlia de classe
mdia alta, era recm-formado, estava iniciando a carreira e achava que
ainda no tinha condies de dar a Adele a posio que ela merecia.
     Alm do mais, ela parecia apaixonada, feliz, e isso bastou para que ele
ocultasse seus sentimentos. Porm continuaram amigos. Adele sabia que
podia confiar nele.
     Desde que assumira a direo da holding das empresas da famlia,
Bernardo havia sido seu conselheiro e amigo, a ponto de Aurlio muitas
vezes sentir-se enciumado. Quando isso acontecia, Aurlio procurava
controlar-se, porque reconhecia que o carisma de Adele fazia com que as
pessoas a admirassem e ele observava envaidecido a admirao que ela
despertava, por sua classe, lucidez, facilidade com que sabia dizer as
palavras certas no momento certo.
     Depois dos cumprimentos, ela sentou-se no sof ao lado de Bernardo e
foi direto ao assunto, como era seu costume:
     -- Minha filha est sendo chantageada e eu preciso que nos ajude.
     Ele colocou-se  disposio e Adele contou-lhe toda a verdade. Alm
de Clia, ele era o nico que conhecia a origem de Dionsio. Quando ela
terminou, ele perguntou apenas:
     -- O que quer que eu faa?
     -- Seria interessante investigar essas pessoas.
     -- Tenho alguns informantes. Temos pouco tempo.
     -- Se precisar, darei um jeito de dilatar o prazo.
     Adele entregou-lhe os nomes, endereo do hotel, telefone, e ele saiu
imediatamente para tratar do assunto.
     Quando se viu sozinha, Adele continuou pensando, tentando descobrir
a melhor soluo.




     CAPTULO 14




      Maria Eugnia chegou em casa e foi logo saber como Dionsio
estava. O apoio que recebeu da me a deixara mais confiante. Durante o
trajeto, foi pensando em quanto estivera enganada com relao  Adele.
     Percebeu que suas        atitudes de rebeldia muda, obedecendo
passivamente s ordens da me, mas guardando a raiva no corao, eram
fruto do orgulho, que a impedia de ver as coisas como so.
     Ela sentia cime do sucesso de Adele porque se habituara a ver-se
limitada e incapaz. Ela no era to fraca quanto sempre pensara. Ao
contrrio: soubera enfrentar seus medos e desnudar seus sentimentos
ntimos, sem receio da crtica que temera durante toda a vida. Reconhecia
que Adele sabia mais, tinha mais experincia e, ao invs de recrimin-la,
oferecera apoio, ajuda.
     Apesar de a situao no haver se modificado, ela se sentia diferente:
mais adulta, mais forte, mais confiante.
     Dionsio brincava com um carrinho e, vendo-a, foi correndo abra-la.
     -- Mame linda!
     O rosto de Maria Eugnia iluminou-se e ela pegou-o no colo, beijando
suas faces rosadas.
     -- Como est meu prncipe hoje?
     -- Ta bem. No tem cavalo banco.
     Maria Eugnia lembrou-se da histria que lhe contara de um prncipe
montado em um cavalo branco e sorriu encantada.
     -- Acho que temos de comprar um cavalo. Um prncipe no pode
andar a p.
     Ela ficou brincando com ele at que Elvira foi busc-lo para tomar
banho. Maria Eugnia foi para o quarto e telefonou para Eunice.
     -- Estou ligando para agradecer seu conselho. Deu tudo certo.
     -- Eu sabia. Sua me a ama muito.
     -- Quando cheguei l, estava nervosa, com medo, mas decidida a
fazer o que a senhora disse. Comecei a falar, abri meu corao, coloquei
meus sentimentos e, por fim, contei tudo. Ela ouviu em silncio, no me
recriminou, e at me abraou. Nunca havamos tido uma conversa to
sincera.
     -- Fico contente. Nunca se esquea de que sua ligao espiritual com
ela vem de outras vidas. H muito ela vem trabalhando pelo seu progresso
e para que encontre a felicidade.  hora de voc perceber isso.
     -- Eu senti que ela me ama e apia. Disse que vai me ajudar. Pediu o
nome deles e o telefone do hotel. Mas quer pensar na maneira melhor de
agir. Mandou-me para casa e ficou de dar notcias.
     -- Tenho certeza de que estamos sendo auxiliados pelos espritos
amigos. Vamos confiar e esperar que acontea o melhor. Continuarei com
minhas preces. Se houver alguma novidade, me avise.
     -- Est bem. Mas quero lhe dizer que conhecer a senhora foi a melhor
coisa que me aconteceu. Nunca vou esquecer o que est fazendo por mim.
     -- Vamos agradecer s foras divinas. Elas  que nos protegem e
ensinam.
     Maria Eugnia desligou o telefone e foi novamente brincar com
Dionsio, estar com ele ajudava-a a manter a calma e conter a ansiedade
para esperar.

     Aps o almoo, Pierre entrou no quarto do hotel e encontrou Jamille
mal-humorada.
     -- Acho que ela no vai ligar.
     -- Claro que vai.
     -- O que vai fazer se ela no quiser pagar?
     -- O que prometi. Falar com o marido, contar tudo. Depois, ainda h a
me. Estive me informando sobre ela. Tem fama de grande dama, bem-
vista na melhor sociedade.
     -- Onde conseguiu as informaes?
     -- Com a moa do turismo. Ela sabe tudo sobre as pessoas.
     -- O que me preocupa  o que faremos se eles no derem o dinheiro.
     Pierre sorriu quando respondeu:
     -- Voc vai ver. Logo mais, ela estar aqui com o dinheiro.
Cuidaremos de transferir para nossas contas e iremos embora.
     Passava das trs quando o telefone tocou no quarto deles. Pierre
correu a atender.
     -- Sr. Pierre?
     -- Sim.
     -- Estou no saguo ao hotel e vim em nome de Dona Maria Eugnia.
Preciso falar com o senhor.
     --  melhor vir a meu quarto.
     -- Est bem.
     Pierre desligou o telefone e olhou triunfante para Jamille:
     -- Eu no disse? Ela mandou um portador, acho que para trazer o
dinheiro. V para a outra sala. Vou receb-lo sozinho.
     Ela foi imediatamente, e Pierre olhou-se no espelho. Fazia questo de
estar sempre impecvel. Sorriu satisfeito.
     A campainha tocou e ele foi abrir.
     -- Sou o Dr. Bernardo Gouveia, advogado das Organizaes Malta --
disse ele em um francs perfeito.
     -- Entre, por favor. Queira sentar-se.
     Uma vez acomodados, Bernardo disse com voz firme:
     -- O senhor est chantageando Dona Maria Eugnia, minha cliente
scia das empresas que represento.
     Pierre sorriu, tentando dissimular a irritao:
     -- O senhor no deveria usar palavras to fortes. Afinal, apenas pedi a
uma amiga, com a qual tive ntima ligao em Paris, que me socorresse em
uma situao difcil.
     -- A pedido de minha cliente, fiz uma investigao sobre sua vida. E,
pelo que descobri, acho at que estou sendo educado demais.
     Pierre levantou-se nervoso:
     -- Vamos ao que interessa. Trouxe o dinheiro?
     -- Por que acha que vamos pagar?
     -- Porque posso revelar a origem daquele menino que ela diz ser seu
filho, e isso pode mudar toda a situao financeira deles.
     -- Escute bem o que vou lhe dizer. Esse menino  filho legtimo de
meus clientes e h o hospital, o mdico, as enfermeiras que a atenderam na
hora do parto, pessoas que, se for preciso, certamente no se negaro a
testemunhar isso. Por outro lado, mediante as informaes sobre voc que
me foram prestadas por nosso gerente em Paris, estive em seu consulado
esta manh e descobri que voc est sendo procurado pela policia francesa
por haver se envolvido em algumas falcatruas.
     Pierre empalideceu.
     -- Isso  mentira! Est querendo intimidar-me. Mas eu no vou
aceitar. Se no me derem o dinheiro, irei procurar os jornais e contar tudo.
     -- Para seu prprio bem,  melhor no fazer nada disso.  bom saber
que a Interpol est  sua procura com um mandado de priso e o consulado
est preparando tudo para mand-lo de volta  Frana.
     -- No pode ser! O senhor est mentindo!
     -- Estou dizendo a verdade. Pode crer. Depois,  bom saber que meus
clientes so pessoas influentes, respeitadas, cuja palavra  sempre muito
considerada. Se a esse mandado de priso se juntar a queixa de extorso,
sua situao em nosso pas talvez lhe valesse alguns anos de priso aqui,
antes de cumprir a pena na Frana.
     Pierre a custo tentava controlar o nervosismo. Bernardo continuou:
     -- Contudo, Dona Maria Eugnia  pessoa bondosa. Apesar de o
senhor chantage-la, no deseja seu mal e conseguiu que sua me, Dona
Adele, muito indignada, no desse queixa.
     Pierre deixou-se cair em uma cadeira, passando a mo nos cabelos,
assustado. Nunca imaginou que eles pudessem descobrir o que fizera em
Paris. Ele sabia que a polcia o estava procurando. Essa fora uma das razes
que o fizeram vir ao Brasil, um pas que para ele significava o fim do
mundo, onde ningum poderia encontr-lo.
     Ele no queria ser preso e deportado para a Frana, onde, alm de
trapaas e dvidas de jogo, havia crimes mais graves que ele temia que
fossem descobertos. Se tivesse algum dinheiro para deixar o hotel e ir para
outro pas da Amrica do Sul, onde ningum pudesse encontr-lo, fie se
livraria da priso.
     -- Quero falar com Maria Eugnia -- disse ele, nervoso.
     -- Isso no  possvel. Estou autorizado a cuidar de tudo.
     -- Estou sem dinheiro. Preciso pagar o hotel e ir para um lugar onde
no possam me encontrar. Pea a ela que me ajude, que arranje algum
dinheiro.
     -- Isso no ser possvel. O melhor que tem a fazer  voltar para seu
pas, responder pelo que fez e ficar livre. Ento poder recomear sua vida.
     Pierre olhou-o com incredulidade. Ele nunca faria isso.
     -- Vou seguir seu conselho. Voltarei para a Frana. No farei nada
contra Maria Eugnia. Mas eu queria que o senhor lhe pedisse que em
nome dos bons tempos em Paris ela me mandasse algum dinheiro para eu
sair deste hotel de maneira civilizada, pagando as despesas.
     Bernardo levantou-se:
     -- Est bem. Falarei com ela e verei o que posso fazer. Adeus, Sr.
Pierre.
     Assim que ele saiu, Jamille voltou  sala. Ela tentara ouvir a conversa,
mas conseguira captar apenas algumas palavras soltas.
     -- E ento? Pelo Jeito, ele no trouxe o dinheiro.
     -- No. Nem vai trazer. Estamos perdidos.
     -- Como assim? Voc no disse que ia conseguir?
     -- Eles foram investigar nossa vida e descobriram que a polcia est
me procurando.
     -- Polcia? O que voc fez desta vez?
     -- Deve ter sido por causa daquelas jias de Nicole. Eles acham que
fui eu quem as roubou.
     Jamille estremeceu assustada:
       -- Foi voc?
       -- Ela me deu as jias. Voc sabe que ela tinha uma queda por mim.
       -- Mas ela apareceu morta no apartamento. Afinal, o que foi que voc
fez?
       -- Ns dois j conversamos sobre isto em Paris. Dei-lhe minha
palavra de que no tive nada com aquilo. Ela no escolhia suas amizades.
Tinha outros amantes. Qualquer um deles pode t-la matado.
       -- Espero mesmo que esteja falando a verdade. No quero nem pensar
que voc possa ter feito uma besteira daquelas. E agora, o que faremos?
Como vamos sair daqui?
       -- O advogado vai falar com Maria Eugnia e ver se consegue pelo
menos algum dinheiro para podermos pagar o hotel e irmos embora.
       -- Acha que ela vai dar depois do que voc fez?
       -- Acho. Mas, em todo caso, vamos arrumar as malas e deixar tudo
pronto para irmos embora.
       Mais uma vez, Jamille arrependeu-se de ter continuado a viver com
ele. Depois que ele perdeu tudo e meteu-se em complicaes, vrias vezes
ela pensou em abandon-lo. Jean no era rico, mas ao lado dele ela pelo
menos no passaria necessidade.
       Por que se deixara iludir, acreditando que Pierre poderia arranjar
dinheiro com aquela histria de Maria Eugnia?
       Ainda havia o caso de Nicole. Se ele estivesse metido naquele crime,
ela poderia ser considerada cmplice. Estremeceu s de pensar nisso.
Naquele momento, decidiu ir embora antes que tudo ficasse pior.
       Foi para o quarto, arrumou todas as suas coisas. Ela havia escondido
algum dinheiro. Mesmo assim, foi  valise onde ele guardava o que lhes
restava e apanhou quase tudo. Depois colocou suas duas malas na sala e
disse:
       -- J estou pronta.  melhor voc ir arrumar suas coisas. Voc no
gosta do jeito que eu fao.
       Ele foi para o quarto. Jamille pegou o telefone e chamou o camareiro.
Foi at o quarto e disse a Pierre:
       -- Estou com fome. Vou descer e comer alguma coisa.
       Voltou  sala, apanhou as malas e foi para o corredor, onde o
camareiro j estava chegando.
       -- Vou viajar com uma amiga, mas meu marido vai ficar. Leve
minhas malas para baixo.
       Minutos depois, ela pegou o elevador e desceu. No saguo, recolheu
as malas, dirigiu-se  porta de sada e tomou decidida o caminho da rua.
       No quarto, Pierre arrumou as malas e foi verificar o dinheiro na valise.
Assustado, percebeu que havia sumido. Nervoso, foi para sala e viu que
Jamille no estava, nem suas malas.
       Imediatamente ligou para a recepo.
       -- Aqui fala Pierre, do 1512. Viu se minha esposa saiu?
       -- Sim. Faz uns cinco minutos.
       Ele desligou nervoso. Jamille fora embora levando todo o dinheiro.
Um acesso de raiva o dominou. Teve vontade de quebrar tudo  sua volta.
Aquela ordinria merecia que ele lhe desse uma boa lio. Mas onde
encontr-la?
       Ele precisava sair dali, ir embora, mas como? Chamou o camareiro.
Quando ele chegou, disse com naturalidade:
       -- Voc acompanhou minha esposa com as malas?
       -- Sim, senhor.
       -- O que ela lhe disse?
       -- Que ia viajar com uma amiga. O senhor no sabia? -- estranhou
ele.
       -- Claro que sabia. S que me esqueci de perguntar para onde.
    -- Isso ela no disse.
    -- Nesse caso, vou esperar que ela telefone. Pode ir.
    Ele se foi e Pierre sentou-se sem saber o que fazer. A prudncia lhe
dizia que seria bom ir embora dali o quanto antes, mas como sair com as
malas sem pagar o hotel?
    Ele adorava suas roupas finas, no se conformava em ir embora e
deix-las no hotel. O melhor seria manter a calma e esperar alguma notcia
de Maria Eugnia. O advogado deixara um carto sobre a mesa, para que
ele ligasse. O homem no queria que Pierre falasse com Maria Eugnia. Em
razo dos acontecimentos, ele achou melhor no irritar aquele advogado.
    Bernardo saiu do hotel e foi direto ao escritrio, onde Adele o
aguardava.
    -- E ento, como foi? -- perguntou ela assim que o viu.
    -- Tudo bem. Acho que esse no nos incomodar mais.
    Em poucas palavras, ele contou como fora seu encontro com Pierre.
Finalizou:
    -- Trata-se de um escroque da pior espcie. Agora s falta o ltimo
telefonema para meu amigo Homero.
    -- Pode ligar agora.
    -- Se voc me permite,  o que farei.
    Ele apanhou o telefone, ligou e, depois dos cumprimentos, disse:
    -- Deu tudo certo. Trata-se de um sujeito perigo. Acho que agora 
hora de voc ligar para aquele seu amigo do consulado e avisar, porque ele
est pensando em fugir.
    -- Vou falar com ele j.
    -- Obrigado pela sua ajuda. Eu lhe devo essa.
    -- Voc no deve nada. J me ajudou tantas vezes...
    Bernardo desligou o telefone sorrindo.
     -- Pronto Adele. Acho que tudo est resolvido. Pode falar com Maria
Eugnia.
     -- Obrigado, Bernardo. No sei o que seria de mim sem voc.
     -- Eu tambm no sei o que seria de mim sem voc.
     Ele disse isso srio, olhos brilhantes, nos quais Adele notou uma
chama de emoo.
     -- Voc  um grande amigo.
     -- Eu gostaria de ser mais do que isso.
     Ela sorriu, pensou um pouco e disse:
     -- Apesar de tudo, s vou dar esse assunto por encerrado depois que
esse canalha tiver sido levado de volta para a Frana.
     -- Deixei um dos meus homens no hotel vigiando. Se ele tentar
escapar, saberemos. Os seguranas do hotel no vo deix-lo sair com as
malas. E, pelo que sei, Pierre est sem dinheiro para pagar as despesas.
     -- Ele pode deixar a bagagem e ir.
     -- No creio. Pelo que observei, ele  esnobe e apegado s aparncias.
No vai querer ir embora s com a roupa do corpo.
     -- Temo que ele queira vingar-se de alguma forma.
     -- No ter tempo para isso. Fique tranqila. Agora preciso ir. Mas
antes penso que nossa vitria merece comemorao. Quer jantar comigo
esta noite?
     -- Vamos ver. Se at a noite ele estiver devidamente preso, ento
aceitarei seu jantar de comemorao. Seno, fica transferido para quando
realmente pudermos comemorar.
     -- Combinado. Mais tarde ligarei para dar-lhe notcias.
     Depois que ele se foi, Adele ligou para Maria Eugnia contando tudo
que aconteceu. Finalizou:
     -- Voc pode ficar tranqila. Esse no vai mais nos incomodar.
     -- Tem certeza? E se ele fugir e procurar Henrique? No quero que
ele saiba de nada.
     -- No ter tempo para isso. Logo mais ser preso e extraditado.
Depois disso, nunca mais poder entrar em nosso pas.
     -- S vou descansar quando souber que ele j est longe e no mais
poder voltar.
     -- Bernardo est a postos e, assim que tiver mais notcias, vai me
ligar.
     -- Se souber algo mais, me ligue.
     -- No se preocupe. Tudo est sob controle.
     Maria Eugnia desligou e foi para o quarto. Sentia-se aliviada. Ela
receava o pior. Pensava que Deus no a ajudaria, uma vez que no era
merecedora.
     Entretanto, ela fora poupada, sinal de que Deus no a havia condenado
por ter errado tanto. Nesse momento teve conscincia de que precisava
agradecer.

     No estava habituada a rezar, mas sentia que, tendo sido poupada,
recebera perdo, talvez por ter se arrependido. Juntou as mos e murmurou
sentida prece na qual agradecia a Deus, aos espritos superiores e a Eunice
a ajuda que recebera. E, tocada por um sentimento de gratido, decidiu que
nunca mais faria nada do que pudesse se envergonhar. Ao mesmo tempo,
procuraria estudar a espiritualidade, para entender melhor a vida.

     Enquanto isso, no hotel, Pierre havia traado um plano. Esperaria a
noite descer e ento tentaria fugir levando sua bagagem. Arrumou-se e
desceu ao restaurante para comer. Depois, passeou pelo hotel atento ao que
precisaria fazer para escapar.
     Havia notado que de madrugada o vigia da entrada de servio dormia
em sua cabine. Era por ali que ele pensava escapar. Depois tomaria um txi
e iria para uma estao qualquer.
     Para isso, o dinheiro ia dar. Depois venderia seu relgio ou talvez at
seus anis. Com isso contava ir para longe. O Brasil era muito grande.
Talvez fosse para o Amazonas. L ningum o acharia. Estando livre,
decidiria o que fazer de sua vida. O importante era escapar da polcia
francesa.
     Voltou para o quarto disposto a descansar para estar bem-disposto
quando chegasse  hora de partir. Colocou as malas ao lado
     do sof e recostou-se nele. Estirou as pernas sobre uma banqueta e
pegou no sono.
     Acordou com o toque insistente da campainha. Levantou-se assustado
e, ainda meio sonado, foi atender. Eram dois homens.
     -- O senhor  Pierre Legrand?
     -- Sim. O que querem?
     Eles no responderam e foram entrando, olhando tudo. Pierre j havia
sado do estado de dormncia e logo percebeu que estava em perigo.
Tentou sair, mas eles o seguraram.
     -- Interpol. Voc est preso.
     -- Deve ser um engano. Sou um cidado francs. No pode prender-
me desta forma. No fiz nada.
     -- Isso voc vai dizer l.
     -- Veja as malas.  verdade. Ele estava preparado para fugir.
     Um deles tirou um revlver e apontou-o para Pierre, que, plido, no
sabia o que fazer. O outro pegou as algemas, mas Pierre pediu:
     -- Por favor. Deixem-me calar os sapatos e colocar o palet.
     -- Se tentar qualquer gracinha, passo fogo.
     Trmulo, Pierre calou os sapatos, vestiu o palet e eles o algemaram.
        -- O que vo fazer com minhas malas?
        -- Ficaro guardadas no hotel. A no ser que tenha dinheiro para
pagar a conta.
        -- No tenho. O que vo fazer comigo?
        -- Chega de conversa. Estamos a servio da polcia francesa.
        -- Mas preciso das minhas coisas.
        -- Vamos andando.
        Entre os dois, com o revlver apontado em suas costas, Pierre
arrependeu-se amargamente de haver procurado Maria Eugnia. Uma raiva
surda invadiu-o e ele pensou:
        Vou me vingar. Aquela maldita vai me pagar.
        Quando eles saram do hotel, despertando a curiosidade dos que
estavam por perto, um rapaz que estava no saguo sorriu satisfeito.
Acompanhou-os e viu quando puseram Pierre no carro e o levaram.
Imediatamente, apanhou seu carro do outro lado da rua e os seguiu.
        Dentro do carro, Pierre tentou sua ltima jogada:
        --Vocs so meus compatriotas. Ser que no haveria um jeito de
resolvermos isso de outra maneira?
        -- O que voc sugere? -- indagou um.
        -- Bem, estou sem dinheiro, mas tenho este relgio de ouro que vale
muito.
        -- Pensei que fosse nos oferecer alguns milhes -- brincou o policial.
-- Pois saiba que nem mesmo se tivesse esses milhes deixaramos de
lev-lo. Nicole era minha prima e foi um prazer para eu ter vindo busc-lo
aqui.
        -- Voc est enganado. No tenho nada a ver com a morte dela.
        --  melhor calar essa boca, seno posso perder a calma. Estou louco
para vingar a morte de minha querida prima. Seria um prazer acabar com
sua raa aqui mesmo. Afinal, estamos to longe... Quem iria saber?
       Pierre calou-se assustado. No havia nada a fazer. Dentro em breve
estaria de volta  Frana, preso, sem dinheiro sequer para contratar um bom
advogado.
       O carro parou diante do consulado da Frana. O porto abriu-se e eles
entraram. O rapaz que os seguia parou diante do porto. Viu quando eles
desceram e entraram na casa. Ele colocou o carro em movimento e
rapidamente afastou-se do local.
       Pouco depois, Bernardo ligou para Adele:
       -- Pode se preparar para nosso jantar de comemorao.
       -- Verdade? Tudo certo?
       -- Tudo. Passarei em sua casa as oito e contarei todos os detalhes. H
esta hora nosso homem deve estar profundamente arrependido de haver se
metido em nosso caminho.
       -- Isso merece mesmo uma comemorao. Estarei esperando.
       Assim que desligou o telefone, Adele ligou para a filha.
       Na casa de Maria Eugnia, o casal estava se dirigindo  mesa para
jantar. Quando o telefone tocou, Henrique disse:
       -- Deixe que eu atendo.
       Maria Eugnia apressou-se a dizer:
       -- Nada disso, querido. Eu mesma atendo. Pode se acomodar, que j
vou.
       Ela apanhou o telefone:
       -- Como vai, me?
       -- Certamente voc no pode falar agora. Mas deu tudo certo. Pode
comemorar.
       -- Obrigada, mame. No sabe como me sinto feliz.
       -- Eu tambm. Depois contarei os detalhes. Vou jantar com Bernardo
para comemorar.
       -- D um abrao nele por mim.
     Ela ia continuar, mas viu que Henrique se aproximava e conteve-se.
     -- Adeus, mame. Divirta-se.
     -- Ela vai a alguma festa?
     -- Vai jantar com o Dr. Bernardo. Parece que ganharam uma causa e
vo comemorar.
     Henrique sorriu malicioso:
     -- Bernardo continua apaixonado por Adele. No sei por que ele no
se declara.
     -- Acho que tem medo de que ela no o aceite.
     Henrique pensou um pouco, depois disse:
     -- Quer saber? Acho que ele tem chance.  o homem perfeito para
agradar Adele. Nem sei por que ela ainda no percebeu isso.
     -- Talvez mame no seja inclinada ao casamento. Com papai, apesar
de viverem bem, nunca notei da parte dela vontade de dedicar-se ao lar. Ao
contrrio. Quando estavam juntos, ela era a cabea de tudo. Foi por isso
que ele a colocou na presidncia. Ele no fazia nada sem que ela aprovasse.
Sempre duvidei que ela houvesse casado com ele por amor.
     -- Ele era muito apaixonado por ela. Via-se isso em seus olhos
quando a fitava.
     -- Mas ela, apesar de ter sido uma esposa exemplar, no era dada a
manifestaes de afeto.
     -- Talvez voc esteja enganada. Adele no me parece uma mulher
indiferente. Ao contrrio. Em tudo que faz, coloca muita paixo, muita
garra.
     -- Pode ser. Ento talvez nunca tenha amado meu pai de verdade.
Vamos jantar antes que a comida esfrie.
     Abraados, foram juntos para a sala de jantar.
     CAPTULO 15




        Marina entrou em casa correndo, tentando controlar a emoo.
Aquele beijo inesperado fizera seu corao descompassar. Uma
incontrolvel sensao de alegria a dominou.
     Foi para o quarto, tirou os sapatos e sentou-se na cama, pensativa.
Vrias vezes Oflia lhe dissera que Rafael se sentia atrado por ela, porm
no levara a srio essa opinio. Eles eram apenas bons amigos. Gostavam
de conversar, sair juntos, tinham afinidade, mas nunca notara nele algo
mais.
     Como haviam chegado quele beijo? Por que se emocionara tanto?
Por que correra para dentro de casa sem dizer nada? No teria sido melhor
ter esperado para conversar?
     Mil pensamentos tumultuados a envolviam. Rafael era um homem
maravilhoso. Bonito, elegante, culto e de temperamento encantador.
Qualquer mulher se sentiria feliz em namor-lo.
     Quando saam juntos, Marina notava quanto s mulheres tentavam
atrair a ateno dele. Nesses momentos, ela sorria orgulhosa por ele preferir
sua companhia. Mas isso era apenas vaidade, no amor. Estaria se
apaixonando por ele?
     A esse pensamento, recordou-se do beijo, e seu corao bateu mais
forte. Certamente se sentia atrada por ele. Sua proximidade, seu perfume,
seus olhos vivos, seu sorriso amigo, tudo isso a agradava muito.
     Ela nunca havia amado. Lembrou-se do relacionamento com
Henrique. Ela sentira prazer naquela relao, mesmo sem o amar. O que
estava sentindo agora no seria a mesma coisa, apenas uma excitao dos
sentidos?
     Precisava pensar analisar seus verdadeiros sentimentos. Depois, no
tinha certeza de nada. O que aquele beijo teria representado para Rafael?
No teria sido somente uma tentao do momento pela proximidade?
     Eles haviam tido uma noite muito agradvel, tinham conversado
muito, falado de seus sentimentos ntimos, de sua maneira de ver a vida,
agora diante da ptica da espiritualidade, que lhes abrira novas portas ao
entendimento.
     O beijo fora espontneo, aconteceu naturalmente. Mas o que ele
significava de fato?
     Ela preparou-se para dormir, mas os pensamentos agitados
continuavam e ela demorou a pegar no sono. Acordou um pouco mais tarde
na manh seguinte. Olhando a hora, levantou-se apressada.
     Tomou um banho e desceu para o caf. Ccero estava  mesa
conversando com Oflia, relatando as experincias da noite anterior.
Vendo-a chegar, Oflia comentou:
     -- Pelo que Ccero diz essa senhora  boa mesmo.
     -- De fato. Gostei muito dela.
     -- Ccero me disse que vai freqentar um curso de mediunidade.
Quero ir com ele.
     -- Voc? Nunca pensei que se interessasse por esse assunto.
     -- Eu nunca disse, mas de vez em quando vejo a alma de meu pai.
     -- Por que nunca disse nada?
     -- Voc estudou,  formada. No queria que risse de mim.
     -- Eu nunca faria isso.
     Marina havia tomado uma xcara de caf com leite, comido um
pedao de bolo. Levantou-se apressada. Oflia cobrou:
     -- No vai me contar o que ela disse a voc?
     -- Agora estou atrasada. Depois conversaremos.
     Ela saiu e Oflia comentou:
     -- No sei por que ela corre tanto. Desse jeito pode ficar doente. No
deu tempo nem para eu lhe dizer quanto voc melhorou.
     -- Depois eu mesmo falo. Hoje, quando Dona Rute vier, quero fazer-
lhe algumas perguntas. Ela entende de mediunidade.
     -- Trate de estudar. Ela fica alegre quando voc aprende a lio.
     -- Deixe comigo.
     Oflia sorriu. Ver os filhos contentes era seu melhor incentivo. Foi
para a cozinha programar alguma coisa gostosa para o almoo.
     Marina chegou ao escritrio e j encontrou sobre sua mesa algumas
peties e um contrato para analisar.
     Guardou a bolsa e sentou-se disposta a colocar toda a ateno no
trabalho. No foi fcil. De vez em quando se surpreendia pensando em
Rafael. Como seria o relacionamento deles dali para frente? O que ele lhe
diria sobre aquele beijo?
     Talvez se justificasse, dizendo que fora uma tentao do momento e
at se desculpasse, uma vez que era um homem muito educado. E tudo
continuaria como antes.
     Mas ela sabia que nada poderia ser como antes. Aquele beijo
despertara nela uma necessidade de amar e ser amada. Ainda que fosse
apenas uma necessidade fsica, ela existia e estaria presente entre eles.
     Marina levantou-se, tomou um copo de gua, depois um caf, e
esforou-se para focar sua ateno no trabalho. Precisou de todo o seu
esforo para conseguir.
     Ligou para a me e avisou que no iria almoar em casa. Precisava
adiantar seu trabalho, o que lhe valeu uma reprimenda de Oflia,
preocupada com sua sade.
     -- Voc no vai ficar sem almoo. Trate de comer alguma coisa.
     -- Pode deixar. Vou mandar buscar um lanche.
     Ela desligou o telefone e mergulhou no trabalho, tentando no desviar
a ateno.
     Passava das seis quando ela deixou o escritrio e desceu. Ao sair 
rua, encontrou Rafael esperando.
     -- Rafael! Por que no subiu?
     Ele beijou-a levemente na face e respondeu:
     -- No quis atrapalhar. Vim porque temos que conversar.          Ela
concordou e notou que ele estava tenso.
     Caminharam at o carro em silncio. Uma vez acomodados, ele disse:
     -- Depois eu a trarei de volta para apanhar seu carro.
     Ele ligou o carro e foi dirigindo devagar.
     -- Aonde vamos? -- indagou ela.
     -- No sei.
     -- Noto que voc est tenso. Talvez pelo que aconteceu ontem  noite.
     Eles tinham entrado em uma rua sossegada. Rafael parou o carro,
olhou para ela e disse:
     -- No consegui dormir nada esta noite.
     -- Nem eu.
     -- No sei o que est pensando a respeito de ontem. Preciso ser
sincero. H muito descobri que estou apaixonado por voc. Como sei que
voc no sente o mesmo por mim, tentei conter-me o mais que pude, com
medo de perder sua amizade. Ontem no resisti. Foi mgico, porque, ao
contrrio do que eu pensava, voc correspondeu. Acha que estou sonhando
demais?
     Marina olhou o rosto emocionado de Rafael e sentiu desabrochar em
seu peito um sentimento de amor imenso. Teve vontade de abra-lo, de
beij-lo. Olhando em seus olhos, respondeu:
     -- No. Se isso for um sonho, no quero acordar.
     Ele a abraou e beijou seus lbios vrias vezes. Permaneceram
abraados, em silncio, sentindo o corao bater forte e uma sensao de
plenitude que dispensava palavras.
     Depois de beij-la de novo, Rafael tornou:
     -- Voc no imagina quanto desejei este momento. Nunca conheci
uma mulher que me tocasse tanto quanto voc. A seu lado sinto-me 
vontade para ser eu mesmo, o que jamais aconteceu antes.  prazeroso
estar com voc, que respeita minhas opinies, mas fala o que pensa sem
representar papis to a gosto das mulheres.
     -- Foi s por isso que se apaixonou por mim?
     -- No. Sua beleza foi o que me atraiu a princpio. No nego que
desde o primeiro dia senti vontade de beij-la. Mas voc cortou logo
qualquer chance mostrando que no estava nem um pouco interessada em
manter comigo um relao afetiva. Conformei-me e at gostei de ser
apenas seu amigo. Tivemos momentos bons juntos, nos quais trocamos
idias, nos conhecemos melhor. Mas uma noite em que fomos danar,
tendo-a nos braos, rosto alegre, cheio de vida, empolgada pela msica,
descobri quanto voc representava para mim.
     -- Eu no sabia. No notei nada.
     -- Foi difcil controlar. Mas voc em nenhum momento demonstrou
nada alm de amizade. Confesso que cheguei a um ponto em que tive
muito medo de perd-la. Ento preferi no dizer nada.
     Marina acariciou o rosto dele.
     -- Eu estava apaixonada e no sabia. Ontem, quando me beijou, senti
muita emoo. Fiquei confusa, sem entender os meus sentimentos. Cheguei
a imaginar que voc o fizera cedendo a uma tentao do momento, o que
pode acontecer entre um homem e uma mulher, mesmo quando no h
amor.
     Ele segurou a mo dela e levou-a aos lbios. Depois disse:
     -- Entre ns sempre houve muito mais do que isso.
     -- Passei a noite me perguntando o que voc me diria a respeito. Mas,
assim que nos vimos hoje, eu soube a verdade.
     Ele beijou-a novamente e eles ficaram algum tempo abraados em
silncio. Rafael cortou o silncio dizendo baixinho:
     -- Quero passar o resto de minha vida com voc.
     Ela sorriu e perguntou:
     -- Est me pedindo em casamento?
     -- Entenda como quiser. Sei que essa palavra provoca em voc uma
reao contrria.
     -- No  a palavra, mas o que as pessoas fazem quando se casam.
Talvez porque eu tenha tido um exemplo triste dentro de casa. Meu pai nos
abandonou para viver com outra mulher. Minha me era esposa dedicada,
mas passiva, e ele sempre abusava dela, o que me enraivecia. Quando ele
saiu de casa, dei graas a Deus. Mas eu era pequena, e mame estava
grvida de Ccero. Mas, embora fssemos pobres e mame trabalhasse
muito para manter a casa, pudemos viver em paz. Foi naquele tempo que
prometi a mim mesma que nunca me deixaria iludir por um homem, que
dedicaria minha vida a estudar e me formar para poder dar conforto e bem-
estar  minha famlia.
     -- O que voc conseguiu brilhantemente.
     Marina ficou pensativa por alguns instantes, lembrando-se do contrato
com Adele.
     -- O que foi? Voc ficou distante...
     -- Nada. Apenas algumas recordaes do passado.
     -- O passado passou. Estamos vivendo hoje e temos todo um futuro
pela frente. O que quero  viver a seu lado, com ou sem casamento. Voc
decide como deseja fazer isso.
     -- Vou pensar. Talvez um contrato sem data de vencimento, mas que
possa ser desfeito se for o caso.
     -- Por que est dizendo isso? Eu quero ficar com voc para sempre.
     Ela riu e respondeu:
     -- No fale assim. Eu amo voc, voc me ama. Hoje queremos ficar
juntos para sempre. Se isso acontecer, ser bom. Porm, se em qualquer
momento deixarmos de ter prazer em viver um ao lado do outro, teremos o
direito de escolher outro caminho.
     -- Do jeito que voc fala, parece que no confia em nossos
sentimentos.
     -- No  nada disso. O que quero dizer  que ficar junto s  bom
enquanto h amor. No quero que voc se julgue preso a meu lado pelo
resto de seus dias. Somos livres. Embora vivendo juntos, cada um precisa
conservar sua individualidade, ser aquilo que .
     Ele beijou-a delicadamente na testa e respondeu:
     -- Voc no existe! E por isso que tenho certeza de que seremos
muito felizes juntos.
     Naquela noite, quando entraram em casa, Oflia estudava na sala. Ela,
notando o progresso de Ccero, que havia perdido quase todo o sotaque
interiorano e adquiria vocabulrio, decidira estudar tambm. Queria que os
filhos se orgulhassem dela e pedira a Rute que a ensinasse.
     Vendo-os entrar, Oflia notou logo que estavam diferentes. Ela
gostava de Rafael e suspeitava que por trs daquela amizade havia um
sentimento maior. Por isso no se surpreendeu quando Marina disse:
     -- Me, eu e Rafael estamos namorando.
     Oflia levantou-se e abraou-os contente:
     -- Eu sabia que isso ainda ia dar casamento. Estou muito feliz por
vocs.
     -- Como  que a senhora sabia? -- indagou Rafael.
       -- Ora, meu filho... Voc acha que no notei como voc olhava para
ela?
       Ele riu bem-humorado e respondeu:
       -- E eu pensei que estivesse disfarando bem... Mas me tem o sexto
sentido.
       -- Marina nunca namorou srio, e eu temia que ela ficasse solteirona.
       -- Se depender de mim, isso no acontecer.
       -- Isso  um acontecimento. Precisamos comemorar. Vou buscar uma
garrafa de vinho.
       Oflia foi  despensa e Rafael abraou Marina.
       -- Sua me ficou feliz.
       -- Ela o aprecia muito.
       Pouco depois, Oflia voltou com uma bandeja com copos e uma
garrafa e pediu a Rafael que a abrisse. Ele obedeceu e serviu. Depois deu
um copo a cada um, dizendo:
       -- Eu brindo a este momento de felicidade.
       -- Que nossas vidas continuem sempre assim felizes -- completou
Oflia.
       -- Que nosso amor nos traga felicidade -- tornou Marina.
       Tocaram os copos e beberam. Depois Rafael abraou as duas e beijou-
as na face.
       -- Obrigado por me deixarem entrar para esta famlia, que eu adoro.
       Oflia trouxe alguns salgadinhos e eles continuaram conversando mais
algum tempo. Rafael despediu-se e Marina o acompanhou at a porta.
       Quando ela voltou, Oflia disse alegre:
       -- Estou certa de que vocs sero muito felizes.
       Marina foi para o quarto e preparou-se para dormir, porm um
pensamento a incomodava: o segredo que guardava sobre seu contrato com
Adele.
     Rafael era um homem bom, sincero. Ela sentia que o amava. Seria
justo para com ele no lhe contar a verdade?
     Ele a admirava, orgulhava-se dela, julgava-a uma mulher vencedora.
O que pensaria se um dia viesse a descobrir que ela se prestara a ter um
filho em troca de dinheiro?
     Pela primeira vez arrependeu-se de haver concordado com Adele.
Decidiu que no contaria nada a ele. No teria coragem. Porm, como
iniciar um relacionamento srio com uma mentira?
     Talvez fosse melhor acabar com o namoro. Assim no teria de dizer
nada. Eles continuariam amigos como sempre foram. Mas ao mesmo
tempo, tendo encontrado o amor, deveria passar o resto da vida sozinha?
     O que faria quando seu irmo assumisse a inteira responsabilidade por
sua vida e sua me morresse?
     Naquele momento percebeu quanto amava Rafael e queria viver ao
lado dele, usufruindo de sua companhia. Sua cabea doa e ela permaneceu
largo tempo virando na cama preocupada. Por fim, cansada, adormeceu.
     Sonhou que estava em um jardim muito lindo. Lembrou-se de que j
havia estado ali. Olhou em volta procurando algum. Logo viu a mesma
moa com a qual sonhara outras vezes, que a abraou com carinho.
     -- Estou contente em v-la.
     -- No sei como vim parar aqui. Estava inquieta, e este lugar tem o
dom de me acalmar.
     -- Vamos passear um pouco. Venha.
     Ela a abraou e juntas elevaram-se, volitando sobre os jardins,  luz
das estrelas. Marina sentia um prazer muito grande e uma sensao de que
seu peito se dilatava enquanto olhava as luzes l embaixo, da cidade que
dormia.
     Depois, Marina notou que estavam na rua de sua casa. Desceram e
adentraram o quarto. Ela pde ver o prprio corpo adormecido na cama.
     Emocionada, agarrou-se  sua companheira, que lhe disse sorrindo:
     -- No tenha medo. Tudo isso  natural. Voc vai voltar para seu
corpo e recordar nosso encontro. Lembre-se: tudo est certo. Voc fez o
que prometeu fazer. No h nada errado.
     Marina olhou-a preocupada e ela repetiu:
     -- Lembre-se: tudo est certo. Voc fez o que prometeu fazer. No h
nada errado.
     Marina remexeu-se na cama e acordou sentindo ainda o prazer que
desfrutara no sonho. Em seus ouvidos ainda soavam as ltimas palavras de
sua amiga espiritual:
     -- Lembre-se: tudo est certo. Voc fez o que prometeu fazer. No h
nada errado.
     Ela sentou-se na cama emocionada, sentindo aquela sensao de
felicidade, e pensou:
     No foi sonho. Eu a encontrei de novo. Suas palavras me
confortaram. Conversamos sobre vrias coisas. Por que no consigo me
recordar de tudo?
     Marina deitou-se novamente, sentindo-se mais calma. Com relao a
Rafael, decidiu no dizer nada, apenas esperar os acontecimentos. Antes
precisava entender por que lhe diziam que no havia nada errado em sua
atitude, apesar de haver recebido dinheiro de Adele, o que de certa forma
era constrangedor.
     Lembrou-se de Eunice. Ela talvez pudesse esclarecer suas dvidas.
     Dois dias depois, conforme haviam combinado, Marina e Rafael
compareceram a uma reunio no centro de estudos espirituais dirigido por
Eunice. Aps a conversa que haviam tido com ela, eles resolveram comear
a estudar.
     Durante o trajeto, Marina contou-lhe da experincia astral em
companhia da amiga espiritual que Eunice mencionara. Disse que na volta
vira seu prprio corpo adormecido na cama.
     -- Fiquei assustada, mas minha companheira afirmou que no
precisava ter medo, que aquilo era natural.
     -- Que maravilha! Eu gostaria muito de experimentar isso.
     --  uma sensao maravilhosa, voc deslizando sobre os lugares, sob
a luz das estrelas, vendo a cidade l embaixo, e ao mesmo tempo dentro do
corao uma alegria que no d para explicar em palavras.
     -- O que mais ela lhe disse?
     -- Durante o sonho eu entendia tudo que ela dizia, mas assim que
acordei no consegui me lembrar de nada.
     Ela no mencionou as palavras que ainda soavam claras aos seus
ouvidos, para no chamar a ateno dele sobre o assunto que a preocupava.
     Assim que entraram no prdio, inscreveram-se para participar do
grupo de estudos. Como faltava meia hora para iniciar, passaram na
pequena livraria na sala ao lado.
     Eunice saiu de uma das salas e, vendo-os, aproximou-se para
cumpriment-los. Depois, perguntou por Ccero.
     -- Ele est bem -- respondeu Marina. -- Vir amanh para o curso de
mediunidade. Minha me decidiu vir com ele.
     Eunice sorriu.
     -- Vai ser bom para ela, que j possui algum conhecimento sobre a
vida espiritual.
     -- Fiquei surpresa quando ela disse que viria com ele. Nunca foi
ligada aos assuntos religiosos.
     -- No se admire. So coisas do esprito dela. Interessou-se porque
sentiu que ns estamos aqui aprendendo sobre os fenmenos naturais da
vida e no criando ou seguindo uma religio.
     -- Esse foi o motivo pelo qual decidi vir aprender aqui -- considerou
Rafael.
     Marina consultou o relgio e viu que ainda faltavam vinte minutos
para iniciar o curso. Perguntou:
     -- A senhora est muito ocupada agora?
     -- No. Terminei o atendimento.
     -- Tive uma experincia fora do corpo anteontem e gostaria de fazer-
lhe algumas perguntas. Serei rpida.
     -- Est bem. Vamos entrar.
     Rafael fez meno de acompanh-las, porm Eunice tornou:
     -- Prefiro falar com ela a ss. Tambm tenho um recado pessoal a
dar-lhe.
     -- Fiquem  vontade. Vou escolher alguns livros.
     Elas entraram e se acomodaram. Antes que Marina comeasse a falar,
Eunice disse:
     -- Vocs tm muita afinidade. Entendem-se bem e certamente tero
uma unio feliz e proveitosa. O amor de vocs vem de outras vidas. Quanto
a isso, tudo bem. Voc  uma pessoa leal e est preocupada porque guarda
um segredo no corao e no tem coragem de lhe contar.
     Marina olhou-a surpreendida.
     -- Como sabe?
     -- Sua amiga Norma est me contando.  com ela que voc tem se
encontrado quando sai do corpo.
     -- Isso mesmo. Rafael se declarou e eu descobri que o amava
tambm. Meu segredo envolve outras pessoas e prometi no contar a
ningum. Mas as dvidas me incomodam. No quero comear um
relacionamento com uma mentira.
     -- Norma est me dizendo que j lhe falou sobre isso.
     -- Ela diz que  grata porque eu lhe prestei um servio e cumpri o que
havia prometido. Afirmou que tudo est certo, no h nada errado.
     -- Ela est repetindo isso para mim. Ento, qual  a dvida?
     -- Mas  que recebi dinheiro para prestar esse servio.  isso que me
incomoda.
     -- Voc prejudicou algum?
     -- No. Ao contrrio: ajudei uma famlia a resolver um problema. Eu
concordei em prestar esse servio porque precisava do dinheiro. Meu pai
nos abandonou quando eu era criana e minha me estava grvida de
Ccero. Eles moravam no interior. Eu estudei, me esforcei, sempre
pensando em lhes proporcionar uma vida melhor. Minha me costurava at
altas horas para nos sustentar. Eu queria que ela pudesse ter uma vida
melhor e meu irmo pudesse estudar ser algum na vida.
     -- Os motivos so nobres. Sabe minha filha, h ainda muito
preconceito com relao a dinheiro. Entretanto, ele  necessrio para fazer
o bem, desenvolver a cincia, aliviar o sofrimento humano. No h mal em
querer melhorar de vida, ter dinheiro. Ele  valor, e em si no  bom nem
mau. Depende do uso que fazemos dele.  um bem quando usado com
inteligncia a favor do progresso e um mal quando  acumulado sem
proveito ou em prejuzo dos outros.
     -- Suas palavras me fazem bem.
     -- Norma est dizendo para voc no se preocupar. Quando for
oportuno, a vida resolver isso para voc. Guarde seu corao em paz. Viva
sua vida e seja feliz.
     Marina levantou-se, olhos marejados:
     -- Obrigada, Dona Eunice. Suas palavras me devolveram a paz.
     -- V com Deus, minha filha.
     Ao deixar a sala, Marina sentia-se alegre e bem-disposta. Rafael a
esperava. Vendo-a, disse:
     -- Veio bem na hora. Comprei dois livros. Depois lhe mostro.
     Ela segurou o brao dele e disse:
     -- Vamos. No quero perder nada desta aula.
     Alegres e bem-dispostos, entraram na sala, onde muitas pessoas j
estavam acomodadas esperando. Procuraram dois lugares e sentaram-se.
     Um rapaz jovem, alto, claro, entrou na sala e postou-se diante de
todos, dizendo:
     -- Vamos unir nossos pensamentos buscando alcanar nossos
objetivos de progresso e luz. Juntos pedimos  Inteligncia Universal que
abra nossa mente a fim de que, mais lcidos, possamos entender melhor o
que a vida quer nos ensinar agora.
     Ele fechou os olhos e ficou em silncio durante alguns segundos.
Depois, abriu-os e tornou:
     -- Hoje vamos falar sobre as mensagens que os fatos da vida nos
trazem e como entend-las.
     Olhos brilhantes, ele comeou a discorrer sobre o assunto, e tanto
Rafael quanto Marina -- que havia estranhado um professor to jovem para
um assunto to profundo -- ficaram presos a suas palavras, que os faziam
pensar, maravilhados com que ele se expressava.
     Durante quinze minutos ele discorreu e todos na sala, como que
magnetizados, ouviam atentos. Depois, ele parou, sorriu e convidou:
     -- Agora vamos passar s perguntas.
     Imediatamente algumas pessoas levantaram a mo e ele as foi ouvindo
uma a uma, esclarecendo dvidas, expondo situaes, deixando que
tirassem a prpria concluso.
     No fim, agradeceu a ateno de todos e encerrou a reunio com uma
prece de gratido aos amigos espirituais.
     Rafael e Marina deixaram o local entusiasmados. Foram tomar um
lanche e durante o tempo todo trocavam idias sobre o tema da noite. Eles
no viram que o esprito de Norma os abraava satisfeito, envolvendo-os
com pensamentos de alegria e paz.




     CAPTULO 16




      Seis meses depois destes acontecimentos, voltamos a Paris, onde
Pierre se encontrava preso,  espera de julgamento. As provas contra ele
avolumavam-se dia a dia e ele estava desesperado.
     Os amigos que antes o ajudavam a dissipar sua fortuna haviam
desaparecido, o nome de sua famlia execrado e os parentes que lhe
restavam o recriminavam, recusando-se a ajud-lo.
     Sem dinheiro para pagar um bom advogado para defender-se, Pierre a
cada dia sentia mais medo de ser condenado. Era intolervel suportar os
trs companheiros de cela, a precariedade das instalaes sem privacidade,
sempre cheirando a desinfetante barato, e a humilhao do descaso e da
maldade alheia.
     Alm do trfico de drogas e da suspeita de assassinato de Nicole, a
polcia suspeitava que ele tambm houvesse assassinado Jamille, uma vez
que ela desaparecera sem deixar vestgios e Pierre dizia no saber de seu
paradeiro.
     Para eles era inadmissvel que uma mulher que fora ao Brasil com o
marido e desconhecia o idioma daquele pas decidisse desaparecer sem um
motivo justo. O mais provvel era que ela soubesse demais e ele acabara
por mat-la a fim de proteger-se.
     Pierre, quando pensava nela, sentia seu dio crescer. Jamille o
abandonara no momento mais difcil de sua vida depois de haver
desfrutado a seu lado de uma vida faustosa, freqentando lugares de luxo.
     Claro que o abandonara com medo de ser acusada de cumplicidade.
No entanto, alm de roubar todo o seu dinheiro, ela ainda o deixara em uma
situao delicada. Como ele poderia provar que ela ainda estava viva,
morando no Brasil?
     A quantia de dinheiro que ela possua daria quando muito para viver
durante um ms, isso com muita economia, o que ele acreditava que ela no
conseguiria fazer.
     O que ela faria quando o dinheiro acabasse? Voltar  Frana seria
impossvel, uma vez que no dispunha de recursos. Como era incapaz de
trabalhar, certamente acabaria se prostituindo.
     O dio de Pierre era ainda mais violento contra Maria Eugnia. Com
aquele ar de pessoa de bem, havia lhe preparado aquela armadilha. Ela e
certamente sua me, uma executiva esperta e experiente.
     Quando pensava nelas, parecia-lhe sufocar. Ento levantava-se e
andava pela cela de um lado para o outro como fera enjaulada, o que
irritava os companheiros, que ameaavam agredi-lo.
     Aquilo no podia continuar. Ele precisava fazer alguma coisa.
Enquanto ele sofria por viver naquele inferno, Maria Eugnia desfrutava de
sua vidinha sossegada com a famlia, naquela manso maravilhosa,
posando de dama impoluta da melhor sociedade. Ele precisava agir. Eles
tinham de pagar pelo que lhe fizeram.
     Pensando em tudo, decidiu mudar sua atitude dentro da priso. Tendo
se mostrado agressivo, revoltado, ele s havia piorado a situao. Era
vigiado constantemente e os carcereiros olhavam-no com raiva.
     Tinha de engolir a raiva e procurar contornar os fatos. Sempre soubera
lidar com as pessoas de qualquer nvel. Comeou por mostrar-se educado
com todos, conformado com a situao, mostrando-se triste pela ingratido
da companheira.
     Os carcereiros, aliviados por no terem de vigi-lo constantemente,
comearam a trat-lo melhor. E aos poucos seus colegas de cela tambm
foram mudando com ele.
     Um dia foi procurado por Jacques, um advogado que a Justia havia
designado para defend-lo no julgamento que estava marcado para dali a
trs meses.
     Com a presena do advogado, Pierre pde deixar a cela para conversar
a ss com ele em sala privada. Contou-lhe sua verso dos fatos, dizendo-se
inocente.
     O advogado deixou claro que, como seu defensor, precisava saber
toda a verdade. Pierre continuou negando aquele crime e afirmando que
usava drogas para consumo prprio.
     -- H o desaparecimento de sua esposa -- insistiu Jacques.
     -- Ela me deixou quando descobriu que eu estava sendo procurado
pela polcia. No sei onde ela est.
     -- Acha que voltou  Frana?
     -- De modo algum! O dinheiro que tirou de mim no daria para tanto.
Imagino que ela ainda deva estar no Brasil. Mas no sei onde.
     Jacques coou a cabea desanimado.
     -- Diante das suspeitas que a polcia tem sua palavra no vale nada.
Temos que arranjar uma prova de que ela est viva.
     -- No sei como fazer isso. O Brasil  um pais muito grande.
     -- Voc disse que tem amigos l. No poderia escrever, pedir
informaes dela? Ela pode ter ido procur-los.
     -- No creio. Eles no simpatizavam muito com ela.
     --  sua nica chance. Escreva uma carta a eles, pea informaes.
Talvez saibam de alguma coisa.
     Pierre olhou-o pensativo. Uma idia passou pela sua cabea e ele
respondeu:
     -- Est bem. Traga-me papel e envelope e escreverei.
     Depois que Jacques se foi, Pierre voltou  cela pensativo. Sua situao
continuava ruim, mas encontrara um meio de vingar-se de Maria Eugnia.
     No dia seguinte, Jacques levou o que ele pedira e ficou de buscar a
carta dali a um ou dois dias. Sentado em um canto da cela, Pierre colocou o
papel sobre a mesa e comeou a escrever.



     Dr. Henrique Silveira Couto, estou lhe escrevendo para fazer uma
confisso. Estou apaixonado por Maria Eugnia e sei que sou
correspondido. Quando vocs estavam em Paris, eu e ela nos apaixonamos
e nos tornamos amantes. Em nossos momentos de intimidade, descobri que
ela no estava grvida, usava uma barriga postia.
     Quando vocs voltaram ao Brasil, sofri muito com a separao. Desde
ento pensei em ir v-la em seu pas. Quando estivemos em sua casa meses
atrs, eu pretendia reatar nossa ligao, porm ela no quis, por causa do
menino que diz ser seu filho.
     Fiquei desesperado. Minha mulher descobriu tudo e me abandonou.
Deixou o hotel onde nos hospedvamos e levou todo o meu dinheiro.
     Ento fui procurado pelo advogado de sua sogra, que me ameaou
dizendo que, se eu no desistisse de interferir na vida de Maria Eugnia,
eles me denunciariam  polcia francesa.
     No acreditei, mas na mesma noite fui procurado por dois policiais
que me prenderam e me levaram ao consulado da Frana. Fui deportado e
continuo preso, acusado de crimes que no cometi. H inclusive suspeita de
que eu tenha matado minha esposa.
     Sem dinheiro, sem amigos, desprezado, estou esperando pelo
julgamento. Recorro a voc para que me ajude. No tenho a quem pedir
auxlio. Se no me ajudar, serei forado no julgamento a contar toda a
verdade. S assim conseguirei provar minha inocncia. Certamente os
jornais no pouparo vocs, cuja empresa  muito conhecida por aqui.
Afirmo que meu nico crime foi amar uma mulher e no conseguir
esquec-la.
     Aguardo uma resposta sua. Por favor, me ajude.
     Pierre Leblanc


     Leu tudo novamente e, satisfeito, colocou a carta no envelope j
sobrescritado e o fechou. Maria Eugnia haveria de sentir o peso de sua
vingana. Henrique era um homem srio e no toleraria a traio da
mulher. Certamente a repudiaria.
     No dia seguinte, o advogado chegou, Pierre entregou-lhe a carta e
disse contente:
     -- Acho que vai dar certo.
     --  bom mesmo, porque a amiga de Nicole vai testemunhar contra
voc e est disposta a vingar a morte dela.
     -- Ela tem raiva porque eu no quis ter relaes com ela, Est
mentindo por causa do cime.
     -- Acho bom voc pensar bem, ver se descobre um libi, porque sua
situao neste caso no  das melhores.
     Pierre ficou srio.
     -- Vou pensar doutor. Vou pensar.
     Depois que o advogado se foi, Pierre sorriu satisfeito. Alm de vingar-
se, certamente Henrique tentaria abafar o escndalo e se empenharia em
livr-lo da condenao.

     Dois dias depois, uma sexta-feira, Henrique ligou para Adele
satisfeito, para comunicar-lhe a boa notcia: finalmente, depois de meses de
negociao, havia fechado vultoso negcio com uma empresa alem de
grande porte.
     -- Eles assinaram o contrato do jeito que ns queramos. Deu tudo
certo.
     -- timo. Parabns! Voc conseguiu! Temos que comemorar.
Venham jantar comigo esta noite. Quero saber todos os detalhes.
     -- Falarei com Maria Eugnia.
     -- Diga-lhe para trazer Dionsio. Estou com saudade. Vou convidar
Bernardo. Ele nos ajudou muito nesta negociao.
     -- Est bem. Iremos.
     Adele desligou o telefone e ligou para Bernardo, que ficou radiante
no s com a notcia, mas com o convite.
     O jantar na casa de Adele era servido s oito horas. s sete e meia,
Bernardo j havia chegado, tendo levado uma belssima caixa com rosas.
Pouco depois, Henrique e Maria Eugnia tambm chegaram, trazendo
Elvira e Dionsio.
     O clima era de festa. Antes do jantar, o menino atraiu todas as
atenes com suas gracinhas, seu linguajar muito particular, seu jeito
carinhoso de tratar a todos.
     Depois, Elvira levou-o  copa, onde deveria servir-lhe o jantar
enquanto na sala os adultos se acomodavam para comer.
     A conversa fluiu alegre. Na hora da sobremesa, brindaram com
champanhe. Todos estavam felizes. Maria Eugnia, depois do problema
que havia enfrentado com Pierre, tinha mudado sua maneira de relacionar-
se com a me.
     Ela comeara a interessar-se pelos negcios e a dar opinio,
demonstrando inteligncia e clareza, o que estreitou ainda mais a amizade
entre elas.
     Finalmente Maria Eugnia entendera que uma empresa no era como
imaginara, apenas uma mquina de fazer dinheiro, mas sim uma
organizao que dava oportunidade de emprego para muitas pessoas, que
no trabalho desenvolviam sua capacidade de inteligncia e ao mesmo
tempo ganhavam seu dinheiro para sustentar a famlia com dignidade.
     Ela descobriu que Adele geria aquela organizao exigindo disciplina
e esforo prprio, mas atuando com generosidade e justia, oferecendo
cursos de especializao aos mais esforados e apoio nos momentos em
que algum estivesse em um momento difcil.
     Sentiu-se orgulhosa ao perceber que Adele era muito respeitada por
seus funcionrios, que se sentiam bem por trabalhar para uma pessoa que
admiravam.
     Passava das dez quando Maria Eugnia quis ir embora. Eles se
despediram, porm Adele, que estava particularmente alegre naquela noite,
pediu ao Bernardo que ficasse mais um pouco.
     -- Estou sem sono. Vamos conversar.
     -- Voc no gostaria de sair um pouco? Poderamos ir danar em
algum lugar.
     -- No. Prefiro ficar em casa. Vamos ao jardim de inverno ouvir
msica.
     Uma vez l, Bernardo perguntou:
     -- O que voc quer ouvir?
     -- Escolha voc.
     Ela sentou-se em uma poltrona e logo um blues encheu o ar. Bernardo
parou diante dela, depois curvou-se, dizendo:
     -- Quer danar comigo?
     Ela levantou-se e comearam a danar. A msica os envolveu e
Bernardo disse emocionado:
     -- Parece que o tempo no passou que estamos no clube, danando
como antigamente. Eu fico me perguntando: o que teria acontecido se eu
no fosse to tmido?
     Adele riu contente.
     -- Quer fazer crer que naquele tempo estava interessado em mim?
     -- Eu estava muito apaixonado.
     Adele afastou-se um pouco e olhou-o nos olhos:
     -- Por que nunca me disse nada?
     -- Acho que voc sempre soube.
     -- Na verdade, houve um tempo em que desconfiei, mas depois achei
que estava enganada. Voc sempre foi discreto, nunca demonstrou.
     A msica acabou. Adele serviu-se de mais champanhe enquanto ele
escolhia outro disco. Logo Sinatra comeou a cantar uma msica romntica
e Bernardo enlaou-a novamente. Danaram alguns instantes em silncio,
at que Bernardo disse:
     -- Esconder esse amor foi difcil para mim.
     -- Voc teve vrios relacionamentos. Por que nunca se casou?
     Ele apertou-a de encontro ao peito e disse ao seu ouvido:
     -- Porque nunca consegui amar outra mulher.
     Havia tanta paixo na voz dele que Adele estremeceu. Separou-se de
Bernardo e foi sentar-se no sof. Ele a seguiu e sentou-se a seu lado,
preocupado.
        -- Desculpe. Acho que me excedi. Voc no me deu liberdade para
isso.
        Adele olhou-se sria e respondeu:
        -- No se desculpe. Saber que voc me amou desse jeito me
emociona e me leva de volta ao passado. Talvez, se voc tivesse sido mais
ousado, minha vida tivesse sido diferente.
        Bernardo olhou-a admirado:
        -- Por que est dizendo isso? Acha que eu teria alguma chance?
        -- No sei. O que sei  que meu casamento no foi o que todos
pensam.
        Bernardo surpreendeu-se:
        -- Por qu? Vocs pareciam to felizes! Alias, foi esse pensamento
que me confortou. Apesar de tudo, o que eu mais desejava era que voc
fosse feliz. O Dr. Aurlio era um homem de sucesso, bonito, respeitado,
rico.
        -- Aurlio era tudo isso mesmo, socialmente. Na intimidade era frio,
insensvel. Tudo que ele fazia era planejado. Para poder viver com ele,
precisei sepultar meu lado apaixonado, meu temperamento ardente, cheio
de vida.
        Bernardo segurou a mo dela na tentativa de apoi-la. Olhos perdidos
no tempo, Adele continuou:
        -- J na lua-de-mel ele mostrava-se irritado sempre que eu tinha
alguma atitude exuberante, espontnea. Dizia que era falta de educao.
Ensinava a maneira e a hora de rir, de falar, at de chorar. Mas voc me
conhece, sabe que sou uma mulher prtica. Coloquei meus sentimentos de
lado e procurei analisar a personalidade dele. Jurei a mim mesma que ele
haveria de mudar o tom que falava comigo e me fazer respeitar. Eu sabia
que para ele os negcios eram mais importantes e ele admirava as pessoas
que conseguiam obter sucesso em seus empreendimentos.
     Ela fez ligeira pausa e, notando que Bernardo a ouvia com interesse,
continuou:
     -- Estudei, me preparei e aos poucos fui tomando conta dos negcios.
A princpio ele no me levou a srio, at que provei que sabia o que estava
fazendo e consegui inverter a situao. Ele passou a no fazer nada sem me
consultar e acabou confiando em minha capacidade, deixando a parte mais
importante em minhas mos. Quando ele adoeceu, falou-me do testamento
de seu pai e da esperana que colocava sobre Maria Eugnia. Para ele,
essas empresas eram mais importantes do que a prpria famlia.
     -- Foi por isso que voc contratou Marina?
     -- No. Se Renato fosse um homem capaz, talvez eu houvesse lhe
proposto uma sociedade. Mas, irresponsvel e jogador, ele iria causar
muitos problemas.
     -- De fato. Tem razo.
     -- Acontece que gostei de ter dirigido as empresas. Aprendi muito
com isso, desenvolvi minha criatividade, observei melhor o ser humano,
pude exercitar meus conhecimentos e desenvolver um bom trabalho, dando
oportunidade a outras pessoas de crescerem comigo.
     -- Sempre admirei a forma como voc lidera seus funcionrios.
     -- Eu os respeito. Foi mais para continuar a fazer este trabalho que eu
quis ficar na presidncia da nossa organizao.
     Bernardo apertou a mo dela com carinho, levou-a aos lbios e beijou-
a.
     --  por isso que eu ainda amo voc.
     -- Eu me tornei uma mulher sem amor.
     --  engano seu. Tudo que voc faz  com amor. O capricho, a
dedicao, o gosto pela arte, tudo revela sensibilidade.
     -- Esta  uma noite de comemorao. Vamos danar Bernardo,
esquecer o passado.
     Ela levantou-se e ele a enlaou com carinho. A msica suave os
embalou enquanto danavam em silncio.
     Bernardo sentia o corao bater descompassado, e a emoo tomou
conta dele. Aquele amor tanto tempo guardado desejava expressar-se e ele
cedeu.
     Apertou-a de encontro ao peito e beijou seus lbios com paixo. A
emoo contagiou Adele, que se entregou quelas sensaes, que faziam
seu corpo estremecer de prazer. Abraou-o tambm, correspondendo a suas
carcias.
     Continuaram se beijando at que Adele, puxando-o pela mo, levou-o
at seu quarto, onde, inebriado, Bernardo lhe disse, com voz que a paixo
enrouquecia:
     -- Se soubesse como sonhei com este momento! Ter voc em meus
braos era o que eu mais desejava na vida.
     Emocionada, Adele sentiu que estava despertando novamente para o
amor, como nunca imaginou que conseguiria.
     Beijou-o com carinho. Fechou a porta enquanto ele a esperava com os
braos abertos. Ela aninhou-se neles e juntos foram para a cama viver
aquele momento de amor.
     Na manh seguinte, Adele acordou e olhou Bernardo adormecido a
seu lado. Sentou-se na cama pensativa. A lembrana dos momentos de
amor que tinham desfrutado encheu seu peito de calor.
     Lembrava-se de ter tomado mais champanhe que o habitual, o que
certamente a fizera romper a barreira do convencional.
     Bernardo abriu os olhos e, vendo-a, sorriu.
     -- Estou sonhando ou aconteceu mesmo?
     -- Aconteceu. Ns danamos, tomamos champanhe, conversamos, e
acabamos aqui.
     Ele sentou-se na cama, olhando-a srio:
     -- Est arrependida?
     -- No. Mas me assusta um pouco notar que perdi o controle.
     Ele alisou o rosto dela com carinho.
     -- O amor precisa ser celebrado.
     -- Quero ser bem sincera com voc. O que aconteceu ontem foi
inesperado. Preciso pensar avaliar melhor meus sentimentos.
     -- Pois eu estou seguro do que sinto. Nunca lhe falei do meu amor
porque voc no deu chance. Sempre tratou-me como amigo. Eu no queria
estragar essa amizade. Porem, ontem senti que voc tambm me quer.
Talvez seja difcil a uma mulher como voc entregar-se ao amor. Habituada
a liderar, a falar de acordo com o momento e agir conforme seus objetivos
pode ser assustador deixar fluir livremente as emoes, perder o controle.
Contudo, voc continua a ser a mesma pessoa, capaz de agir como sempre
fez s que mais completa capaz de amar e ser amada. Isso no a deixa
feliz?
     Adele sorriu:

     --  verdade. Quando acordei e o vi deitado do meu lado, senti um
pouco de medo de perder minha liberdade, minha privacidade, conquistada
duramente. Mas agora comeo a pensar que pode valer a pena deixar um
pouco de lado  lder e ser apenas mulher.

     Bernardo abraou-a e beijou-a nos lbios diversas vezes.
     -- A vida no  apenas trabalho, sucesso profissional, manter acesa a
chama de um ideal, mas tambm alegria, prazer, amor. So momentos
como os que vivemos ontem que nos impulsionam a produzir mais e
melhor em todos os outros objetivos. Hoje me sinto como um leo, cheio
de fora, de otimismo. Estou certo de que tudo que eu fizer hoje vai dar
certo.
     -- Eu tambm.
     -- Hoje  sbado. Que tal passarmos o fim de semana em algum lugar
agradvel, longe de tudo e de todos?
     Os olhos de Adele brilharam maliciosos.
     -- Seria maravilhoso. Aonde iremos?
     -- Voc escolhe. Podemos tomar um avio e ir ao Rio de Janeiro ou a
alguma cidade do sul, ou ainda sairmos de carro, sem destino, parando
onde nos parecer melhor.
     -- Gostei da ltima opo.
     -- Quanto tempo vai levar para se arrumar?
     -- Meia hora, Mas antes vamos tomar o caf da manh.
     -- Faremos isso pelo caminho. Vamos nos arrumar rapidamente.
Conheo um lugar delicioso, onde tomaremos nosso caf da manh. Ento,
passaremos em meu apartamento, onde pegarei algumas coisas. Depois,
sairemos pelo mundo, sem rumo. Apenas ns dois, livres para fazemos o
que nos der vontade.
     Ambos saram da cama e arrumaram-se rapidamente. Adele, rosto
corado de prazer, parecia uma adolescente rumo  aventura. Havia muitos
anos que no se lembrava de haver sentido tanta motivao e alegria para
um passeio.
     Era muito bom no ter de pensar em atender aos compromissos do dia,
buscar solues para os problemas empresariais que se multiplicavam,
desafiando sua criatividade e sua eficiente equipe.
     Antes de meia hora, estavam saindo. Adele chamou a criada e disse:
     -- Vou viajar e s volto amanh  noite. Cuide para que tudo esteja
sob controle.
     Depois, juntos, foram para o carro, olhos brilhantes, rostos corados,
sorriso fcil, alegria no corao.
     CAPTULO 17




      Na segunda-feira, Henrique chegou ao escritrio antes das nove.
Tinha um encontro importante com um importador e precisava estudar a
proposta que ele lhe fizera.
     Sua secretria colocara algumas cartas abertas sobre a mesa, incluindo
uma que, por ser pessoal, ela no abrira. Henrique apanhou o envelope
manuscrito e, no reconhecendo a letra, olhou o remetente e estremeceu:
     PIERRE LEGRAND
     O carimbo era de uma priso em Lyon. Revirou a carta entre os dedos,
pensativo. A carta fora enviada de uma priso. Pierre estaria preso? Por que
lhe escreveria?
     Curioso, rasgou o envelope, apanhou a folha de papel dobrada, abriu-a
e comeou a ler.  medida que lia, seu rosto foi enrubescendo e seu cenho
foi se fechando. Quando terminou, estava plido.
     Ento era isso? Maria Eugnia chegara a apaixonar-se por aquele
patife? Entregara-se a ele, traindo sua confiana?
     Talvez Pierre estivesse mentindo. Mas como duvidar, se ele sabia que
Maria Eugnia no estava grvida? S podia ter descoberto isso se tivesse
mesmo tido intimidade com ela.
     Henrique passou a mo trmula nos cabelos, como para afastar
aqueles pensamentos dolorosos que o deixavam arrasado.
     Maria Eugnia mudara muito depois do nascimento de Dionsio. Mas
essa histria escabrosa ocorrera antes, quando ela se mostrara insensvel,
ftil, revoltada.
     Algumas lgrimas corriam pelo rosto de Henrique, e ele no se
importava em enxug-las. Ele fora um marido fiel. Aceitara relacionar-se
com Marina para ajudar Adele e tambm, por que no dizer, pela
possibilidade de poder ser pai, o que de outra forma seria impossvel.
     Maria Eugnia teria feito isso para vingar-se dele? Quando em Paris,
ela deixara transparecer sua revolta por ele haver aceitado a proposta de
Adele. Mas Pierre dizia que ela estava apaixonada; que, quando ele estivera
no Brasil tentando reconquist-la, ela s no foi com ele para no deixar
Dionsio.
     Henrique reconhecia que ela, de fato, apegara-se muito ao menino.
Essa justificativa era perfeitamente provvel. Nesse caso, ela no o amava
mais. Preferia o amor daquele patife desclassificado ao dele, que sempre
fora um marido dedicado e honesto.
     Pierre estava preso, dizendo-se inocente, mas Henrique no acreditava
nisso. Alm do mais, ameaava-o, pretendendo contar essa histria infeliz
aos jornais de Paris, cidade onde eles tinham uma filial da empresa, eram
conhecidos e respeitados.
     Uma raiva surda tomou conta de Henrique. Se naquele momento
Pierre aparecesse em sua frente, certamente no responderia pela sua vida.
     Ele precisava tomar uma atitude. Mas qual? De que adiantaria
pressionar Maria Eugnia, jogar em seu rosto toda a sua revolta, se ela era
me dedicada de seu filho e, alm disso, Dionsio s se sentia bem ao lado
dela?
     Por causa do menino, deveria Henrique engolir a raiva e fazer de
conta que nada havia acontecido? Certamente no conseguiria. De uma
forma ou de outra, acabaria falando.
     Poderia separar-se de Maria Eugnia, mas tinha certeza de que
Dionsio sofreria muito com isso. Ele amava muito o menino e desejava
que ele fosse feliz. Por outro lado, ele no queria deixar a casa e perder a
convivncia com seu nico filho.
     Agoniado, Henrique levantou-se, andando de um lado para o outro da
sala. Mil pensamentos contraditrios passava pela sua mente.
     E se Pierre fizesse mesmo o que estava prometendo? Se ele fosse aos
jornais contar a triste histria, alm do escndalo havia a possibilidade de
descobrirem que Dionsio no era filho de Maria Eugnia, portanto Adele
teria de deixar a presidncia das empresas e talvez at tivessem de
responder na Justia por haverem burlado a lei.
     Ele precisava fazer alguma coisa, mas no podia assumir essa
responsabilidade sozinho. Por mais que lhe doesse, teria de procurar Adele
e contar-lhe tudo. Juntos, talvez pudessem encontrar uma sada.
     Queria fazer isso imediatamente, porm tinha aquela entrevista
importante logo mais. Sentiu vontade de cancelar aquele encontro, mas
controlou-se. A pessoa havia vindo de longe e ele no podia deixar de
atend-la. Cancelar a entrevista daria impresso de desorganizao, e ele
no poderia fazer isso.
     Respirou fundo e decidiu ver Adele depois que se livrasse do
compromisso. Estava difcil esperar, mas no tinha outro recurso.
     Apanhou a proposta de negcio e tentou examin-la novamente, mas
estava difcil. No conseguia entender o que estava lendo. Precisou de um
esforo muito grande para conseguir fixar a ateno no trabalho, atender a
pessoa, mostrar-se amvel e bem-disposto, quando se sentia angustiado,
aflito, inquieto.
     Respirou aliviado quando deu a tarefa por terminada. Apesar das
circunstncias, embora no houvesse sido brilhante, tinha conseguido o
indispensvel.
     Olhou o relgio. Estava na hora do almoo e Adele gostava de
almoar em paz e no tratar de nenhum assunto desagradvel nessa hora.
        Henrique ficou indeciso. Seria melhor esperar um pouco mais, porm
sua ansiedade no o deixou. Foi procur-la.
        Encontrou a sogra na sala de refeies, contgua  sala em que ela
trabalhava. Vendo-o, ela disse:
        -- Henrique! Se tivesse vindo um pouco mais cedo, me faria
companhia. Voc j almoou?
        -- No, obrigado.
        -- Nesse caso, vou mandar trazer algo para voc.
        -- No  preciso. Estou sem fome. Vim porque temos um assunto
muito srio para conversar.
        Adele lanou um olhar sobre ele e considerou:
        -- Voc no parece bem. Aconteceu alguma coisa?
        -- Sim. Mas no quero interromper seu almoo. Vou esperar na outra
sala.
        -- J terminei -- disse ela, levantando-se. -- Venha, vamos
conversar.
        Foram para a outra sala e sentaram-se um diante do outro.
        -- E ento? -- indagou Adele.
        -- Aconteceu uma coisa horrvel. Nem sei como comear...
        -- Pelo comeo, com certeza.
        -- Quando estvamos em Paris, antes de Dionsio nascer, conhecemos
um casal de franceses. Eu no os apreciava, porm Maria Eugnia tornou-
se muito amiga deles.
        -- Eu sei. Esse casal esteve aqui alguns meses atrs.
        -- Sim. Eles foram nos visitar uma vez, depois desapareceram sem se
despedir, o que me deixou aliviado. Nunca gostei de Pierre. Hoje, ao
chegar ao escritrio, encontrei uma carta dele que me perturbou muito.
        Adele sentiu que alguma coisa grave estava acontecendo. Disse
apenas:
     -- Deixe-me l-la.
     Sem dizer mais nada, Henrique tirou a carta do bolso e entregou-a em
silncio. Adele comeou a ler e procurou conservar a calma. Quando
terminou, olhou para Henrique sria e perguntou:
     -- Voc no acreditou no que esse patife disse, acreditou?
     -- Eu gostaria que fosse mentira, porm os detalhes mencionados me
fizeram crer que est dizendo a verdade.
     -- Ele mente. Deseja vingar-se de ns porque o entregamos  polcia
francesa, com a qual ele tinha contas a ajustar.
     Henrique admirou-se:
     -- Vocs o mandaram prender? Por que no me contaram nada?
     -- Achamos que no valia a pena perturb-lo com esse mau-carter.
Ele procurou Maria Eugnia, tentou fazer chantagem. Pediu cinco milhes
de dlares. Quando estavam em Paris, ele descobriu que Maria Eugnia no
estava grvida, pesquisou e soube quanto era importante para ns o
nascimento de um filho. Descobriu que ela tivera um menino e pela idade
deduziu que ele no era legtimo. Pressionado pelas dvidas, veio  procura
dela para arranjar dinheiro.
     -- Por que vocs no me contaram? Como puderam esconder tudo
isso de mim?
     -- Eu pedi a ela que no lhe contasse nada. No queria que voc
pensasse que Maria Eugnia pudesse ter tido um caso com esse sujeito.
     -- Mas eu penso que ela teve, sim. Ele s poderia ter percebido que
ela no estava grvida se tivesse tido relacionamento ntimo.
     -- No acredite nisso. Voc sabe como Maria Eugnia era descuidada.
No pode esquecer que minha filha era amiga da esposa dele, que pode ter
notado isso e contado a ele.
     -- Mas Pierre diz que tiveram um caso e que Maria Eugnia o amava.
     -- No posso crer em um disparate desses. Maria Eugnia casou-se
com voc por amor e nunca deixou de am-lo.
     -- Voc no sabe, eu nunca lhe contei, mas quando estvamos em
Paris ela mudou muito. Vivia revoltada, juntou-se a esse casal e a outros
amigos, saa todas as noites e voltava de madrugada.
     -- Voc no a acompanhava?
     -- A princpio, sim, mas eu no gostava desses amigos e no queria
sair com eles. Ela andava mal-humorada, enciumada por causa de Marina.
Naquele tempo cheguei a pensar que ela nunca perdoaria o fato de eu ter
tido relacionamento com outra, ainda que no fosse por amor. Eu no
queria sair com esses amigos, trabalhava o dia inteiro e no podia ir dormir
de madrugada todas as noites.
     -- Voc no podia ter permitido que ela levasse essa vida.
     -- Acho que tem razo, mas naquele tempo ela queixava-se de ficar
sozinha no apartamento o dia inteiro.  noite queria sair, espairecer. Eu
tambm gosto de sair  noite, mas no para ficar at a madrugada, tendo
que trabalhar no dia seguinte. Deixei de acompanh-la, permiti que ela
sasse com eles. Acho que foi um erro. Revoltada como estava com nossa
situao, ela deixou-se envolver por Pierre, que se aproveitou.
     -- Eu no acredito que ela tenha chegado a tanto.
     -- O que ele diz na carta  muito plausvel e de acordo com os
problemas que vivemos naquele tempo. O que me di foi ele dizer que
Maria Eugnia o ama e s no o acompanhou por causa de Dionsio. Como
ele podia saber quanto ela  apegada a ele?
     -- Ele esteve em sua casa, viu como  o relacionamento deles.
Aproveitou a deixa.
     -- Estou desesperado. Eu amo minha esposa. Estamos casados h oito
anos e nunca a tra. Como ela pde fazer isso comigo?
     -- Repito: ela o ama, sempre o amou. Quando ele fez a chantagem,
ela ficou desesperada e me procurou. Ento chamei Bernardo, contei o que
estava acontecendo e lhe pedi que tomasse informaes de Pierre. Ele
entrou em contato com nossa filial em Paris e pediu a Marcel que
investigasse a vida dele. Descobrimos que era procurado pela polcia
francesa, por suspeita de assassinato, inclusive.
     -- Assassinato?
     -- Sim. De uma moa com a qual se relacionava. Desconheo os
detalhes. Mas isso foi o suficiente para podermos nos livrar dele. Bernardo
procurou-o no hotel, disse que sabamos de tudo a respeito dele e que a
polcia francesa j tinha ordem de priso contra ele. Bernardo aconselhou-o
a ir embora o quanto antes, a fim de evitar a priso. Disse que no amos
dar-lhe nenhum dinheiro, mesmo porque ele estava enganado e Dionsio 
filho de Maria Eugnia.
     -- Ele acreditou?
     -- No sei. Mas, assim que Bernardo saiu de l, deixou um segurana
vigiando o hotel e veio para c. Telefonou a um amigo seu no consulado
avisando onde Pierre estava. Ele foi preso e deportado. Alguns dias depois,
soubemos que a polcia francesa estava suspeitando que ele houvesse
assassinado Jamille, sua mulher.
     -- Ela veio com ele. No a levaram tambm?
     -- No. Nosso vigia viu que, logo que Bernardo deixou o hotel,
Jamille saiu carregando uma mala, tomou um nibus e desapareceu. Como
ningum sabe onde ela est  polcia suspeita de Pierre, mas ns sabemos
que ele no a matou.
     -- Estou perplexo. Apesar de tudo isso, ele est nos ameaando. Se
ele levantar suspeita sobre a origem de Dionsio, pode nos prejudicar.
     -- Eu sei. Temos que impedir isso de qualquer maneira.
     -- Ele quer que o ajudemos. Mas penso que isso est fora de
cogitao.
     -- Eu tambm no estou disposta a ajudar esse canalha. Vou ligar
para Bernardo e pedir que venha aqui agora. Juntos encontraremos a
soluo.
     Meia hora depois do telefonema, Bernardo chegou. Colocado a par
dos acontecimentos, leu a carta de Pierre com ateno. Depois comentou:
     -- Esse sujeito  pior do que eu pensava. Espero que voc no tenha
acreditado no que ele escreveu.
     -- Confesso que estou transtornado. Quando estvamos em Paris,
Maria Eugnia mudou muito de comportamento. Estava revoltada,
maldosa, ftil, irreconhecvel. Ela saa com eles todas as noites. Bebia
demais. Deve ter se deixado envolver por esse canalha.
     Bernardo colocou a mo no brao de Henrique e disse em tom firme:
     -- Est claro que ele est com raiva e desejou vingar-se. Alm de no
haver conseguido o dinheiro, Maria Eugnia nos procurou e ele acabou
preso. Acha pouco? Eu no acredito em nada do que est nesta carta.
     Henrique suspirou nervoso. S de imaginar Maria Eugnia nos braos
daquele pilantra j o deixava fora de si.

     -- Eu tambm no acredito nele -- interveio Adele. -- Estou certa de
que Maria Eugnia saber desmentir tudo isso. O que me preocupa agora 
o que vamos fazer para evitar que ele cumpra a ameaa.
     -- Vou entrar em contato com meu amigo do consulado. Trata-se de
um advogado muito capaz, de confiana. Posso procur-lo, falar da carta.
Depois vou investigar os passos da esposa de Pierre. Penso que ainda est
no Brasil. Sem dinheiro, no acredito que ela tenha voltado a Paris.
     -- O que pretende com isso? -- perguntou Adele.
     -- Penso que, se ela deixou o marido, deve estar com medo ou com
raiva dele. Pierre contou  polcia que ela havia ido embora e levado todo o
dinheiro que lhes restava. Acredito que ela poder nos ser de grande valia.
     -- Acha mesmo? -- perguntou Henrique.
     -- Ela pode saber tudo sobre ele e nos contar.
     -- Talvez -- tornou Adele.
     -- No sabemos quanto dinheiro ela tinha. Pode at j ter acabado.
Alm disso, no fala nossa lngua e pode estar em dificuldade -- afirmou
Bernardo.
     Henrique ficou alguns instantes pensativo, depois disse:
     -- Quanto  carta,  melhor no responder.
     -- Tambm acho -- concordou Bernardo.
     -- No ser perigoso? -- indagou Adele, temerosa. -- E se ele optar
pelo escndalo?  um maneira de consolidar sua vingana.
     -- No creio -- tornou Bernardo. -- Ele teria muito a perder agindo
assim. Estou certo de que vai dar um tempo, talvez mandar outra carta.
Precisamos agir depressa. Vou sair agora e tomar todas as providncias.
     -- Boa sorte -- desejou Adele.
     -- Mantenha-nos informados -- pediu Henrique.
     Bernardo concordou, despediu-se e saiu. A fisionomia triste de
Henrique, sentado na poltrona, preocupou Adele.
     -- Vamos tomar um caf -- disse ela. -- Voc precisa reagir. No
pode deixar-se levar pelas maldades daquele canalha.
     -- Estou tentando. Mas est difcil.
     -- Procure se acalmar antes de falar com Maria Eugnia.
     -- No vai ser fcil. Sempre que penso nisso, meu sangue ferve.
     -- No est sendo precipitado?
      -- No. Em Paris, vrias vezes tentei mostrar a ela que Pierre era um
escroque, mas ela o defendia ardorosamente. Nunca aceitou minhas
ponderaes. Devia mesmo estar apaixonada por ele.
      -- Por que se martiriza dessa forma? Esse sujeito como todo
malandro, devia ser bom de conversa.  fcil imaginar que ele deve ter
coberto Maria Eugnia de elogios, fazendo-a deslumbrar-se. Ela sempre foi
retrada. Bonita, mas no acreditava na prpria beleza.
      -- Pode ser. L ela parecia outra pessoa: altiva, vaidosa, ousada,
provocante, segura de si.
      -- Ele soube envolv-la, pensando em tirar proveito do nosso
dinheiro. No acredito nessa histria de amor dele, e dela muito menos.
Pense nisso, Henrique. Mesmo que ela tenha se deixado envolver, isso
passou. Depois que Dionsio nasceu, ela tornou-se outra pessoa, mas desta
vez para melhor. Isso voc no pode negar.
      -- De fato. Mas  isso que di mais. Nosso relacionamento nunca
esteve to bom. Ela  perfeita em tudo, carinhosa, e alm do mais ama
Dionsio de verdade. Confesso que eu temia que ela nunca viesse a aceit-
lo.
      -- Pense nisso. Acalme-se. Maria Eugnia o ama de verdade.
Ningum pode fingir um sentimento desses o tempo todo. Ela tem dado
constantes provas de quanto ama voc e Dionsio. No  justo que voc
esquea isso e acredite nas palavras de um desclassificado.
      Ela levantou-se, aproximou-se do genro, colocou a mo em seu ombro
e continuou:
      -- Venha, vamos tomar um caf. Voc precisa comer alguma coisa.
      Ele acompanhou-a pensativo. Tomaram caf. Para content-la,
Henrique comeu alguns biscoitos.
     Adele desviou o assunto, perguntando sobre o encontro de negcios
que ele tivera pela manh. Com isso, mergulharam nos assuntos das
empresas.
     Uma hora depois, Bernardo voltou. Adele e Henrique o rodearam
ansiosos.
     -- Primeiro fui falar com Adauto e o encarreguei de procurar Jamille.
Foi ele quem ficou vigiando o hotel e viu quando ela saiu e tomou o
nibus. Ele foi at a empresa de nibus ver se descobre alguma coisa.
Depois fui ver meu amigo no consulado. Ren ouviu-me atentamente. Em
seguida ligou para Paris e falou com a polcia. Pierre continua preso, e
parece que a suspeita de assassinato est cada dia mais forte. H uma amiga
da moa morta que prestou depoimento contra ele. Pierre est encrencado e
no sair to cedo.
     -- O que faremos agora? -- perguntou Adele.
     -- Temos que esperar -- respondeu Bernardo. -- Vamos ver se
Adauto descobre alguma coisa.
     -- Vou esperar no escritrio. Preciso me ocupar -- disse Henrique. --
Se souberem de mais alguma coisa, liguem.
     -- Fique calmo, tudo vai ficar bem -- disse Adele.
     -- Isso mesmo -- reforou Bernardo. -- Enquanto as notcias no
chegam, vamos continuar tentando achar uma soluo melhor.
     Henrique os abraou e saiu. O apoio de Adele, a ajuda de Bernardo
tiveram o dom de acalm-lo um pouco. Talvez tivesse se precipitado, dado
demasiado crdito s palavras de Pierre. Ele no merecia confiana.
     Maria Eugnia, ao contrrio, depois que voltaram de Paris, nunca lhe
dera motivos para suspeitar de seu afeto.
     Durante o trajeto, pensou que talvez fosse melhor no contar nada a
ela. Mas no sabia se conseguiria ficar calado. De volta ao escritrio,
esforou-se para mergulhar no trabalho e esquecer um pouco a
preocupao.
     Passava das cinco quando Bernardo ligou.
     -- E ento? -- indagou Henrique.
     -- Bem, Adauto conversou com o motorista que trabalha no horrio
em que Jamille deixou o hotel. Ele lembrou-se dela porque ela foi at o fim
da linha e tentou conversar com o cobrador, que teve dificuldade para
entender o que ela dizia. Por fim, um dos passageiros, que ouviu a
conversa, entendeu que ela perguntava se sabiam de uma penso modesta.
Eles indicaram uma nas proximidades. Mas o motorista no sabe se ela foi
mesmo para l.
     -- E Adauto foi at a tal penso?
     -- Sim. De fato, ele encontrou-a, mas no a abordou porque no fala
francs e pediu-me que arranjasse um tradutor. No deseja assust-la.
     -- Eu gostaria de falar com ela.
     -- Eu tambm. Passarei a dentro de quinze minutos e iremos juntos.
     Henrique desligou o telefone satisfeito. Avisou a secretria que iria
embora e desceu para esperar Bernardo. Ele chegou antes do tempo
previsto e ambos se dirigiram ao local onde Adauto os esperava.
     -- E ento? Ela est l dentro? -- indagou Bernardo.
     -- Est. Saiu, comprou algumas coisas e voltou.
     -- Ns dois vamos entrar -- disse Bernardo. -- Voc continua
vigiando. No sei se convm que ela o conhea, pelo menos por enquanto.
     Eles entraram e perguntaram por Jamille, mas a mulher que os recebeu
disse que no conhecia ningum com esse nome. Ento Henrique explicou
que era uma mulher francesa e descreveu-a.
     -- Ah! Vocs esto falando da professora Claire.
     -- Professora?
     -- Ela d aulas de francs. De portugus sabe pouco, mas dizem que 
tima para ensinar francs. Tem muitos alunos.
     -- Ela est? -- indagou Bernardo.
     -- Est. Quer que v cham-la?
     Henrique interveio:
     -- Sou amigo dela h muito tempo. Temos muitas coisas para
conversar. Prefiro ir ao quarto dela. Onde ?
     -- Venham comigo.
     Eles a acompanharam, subiram  escada e seguiram por um corredor.
Pararam diante de uma porta. A mulher bateu, dizendo:
     -- Claire, visita para voc.
     Ningum respondeu. Ela bateu mais forte e por fim a porta abriu um
pouco e o rosto de Jamille apareceu pela fresta. Ela perguntou:
     -- Quem ?
     Henrique adiantou-se, dizendo em francs:
     -- Sou eu, Jamille, o marido de Maria Eugnia. Preciso muito falar
com voc.
     -- V embora -- respondeu ela em francs. -- No tenho nada a
dizer. H muito me separei de Pierre. Seja o que for que ele tenha feito, no
tenho nada com isso.
     -- Eu sei -- respondeu Henrique. -- No desejamos fazer-lhe mal.
Precisamos da sua ajuda, e podemos ajud-la tambm.
     Ela abriu a porta e eles entraram. O quarto modesto, as roupas de
Jamille no lembravam nem de longe a vida faustosa que levava em Paris.
     Ela fechou a porta e olhou em volta dizendo:
     -- Vejam a que ponto fiquei reduzida por causa de Pierre. Eu o odeio.
Ele desgraou minha vida.
     -- Este  o Dr. Bernardo, advogado, meu amigo.
     Bernardo apertou a mo que ela lhe estendia e disse:
       -- No estou aqui como advogado, mas como amigo.
       -- Sentem-se, por favor -- pediu ela designando um sof onde eles se
acomodaram.
       Jamille pegou uma cadeira e sentou-se na frente deles. Dirigindo-se a
Bernardo, comentou:
       -- Quando eu ainda estava com Pierre no hotel, voc foi falar com
ele.
       -- Sim -- respondeu ele. -- Voc deve saber que ele inventou uma
histria para arrancar dinheiro de Maria Eugnia.
       -- Sei. Mas nunca concordei com isso. Eu sabia que no ia dar certo.
Fiz muitas coisas em minha vida, mas nunca fiz nada contra a lei. No
quero me envolver com a polcia. Quando escutei o que voc dizia a Pierre,
descobri que a polcia francesa estava atrs dele e fiquei apavorada. Foi
ento que tomei a deciso de deix-lo.
       -- Voc sabe por que a polcia o estava procurando?
       -- Sei. Suspeita de assassinato. Ele se diz inocente. Houve um tempo
em que acreditei. Mas depois comecei a juntar os fatos e cheguei 
concluso de que ele pode ser culpado. Tive medo de ser enquadrada como
cmplice.
       -- Se voc tivesse ficado com ele, isso realmente poderia ter
acontecido. Mas seu desaparecimento preocupou a polcia. Eles suspeitam
que voc tenha sido assassinada tambm.
       Ela persignou-se, dizendo:
       -- Deus me ajude! Que horror!
       -- Felizmente isso no aconteceu -- disse Henrique.
       -- O que aconteceu com ele?
       -- Est preso em Lyon,  espera do julgamento. A polcia est
juntando provas. Voc acha que ele teria mesmo assassinado a moa?
       Ela deu de ombros:
     -- No sei. Ele teve um caso com ela. Ficou enrabichado. Nosso
casamento era livre. Tanto eu quanto ele podamos manter relaes sexuais
com outros parceiros. Isso no significava nada para ns. Mas com ela
Pierre se enrolou. Ele s queria ficar com Nicole, deu na vista e eu cheguei
a chamar a ateno dele. Ela era livre e no gostava que ele ficasse pegando
no p, vigiando com quem ela saa. At que uma dia ela apareceu morta no
quarto onde morava.
     -- Como ele reagiu? -- indagou Bernardo.
     -- Ficou assustado. Eu perguntei se havia sido ele. Na vspera eu o
tinha visto muito nervoso, andando de um lado para o outro, no se podia
falar com ele. Naquela noite, sa com algumas amigas e quando voltei o dia
j estava amanhecendo. Ele no estava em casa. Chegou pouco depois, eu
j estava deitada. Ele fechou-se no banheiro e ficou l durante muito
tempo. Ouvi o barulho do chuveiro. Depois, no se deitou. Ficou sentado
na poltrona da sala. Eu peguei no sono, estava cansada.
     -- O que aconteceu depois? -- indagou Henrique.
     -- Dois dias depois estourou a bomba. O corpo dela foi encontrado no
quarto, mas, segundo o laudo da polcia, ela havia sido morta na noite a que
me referi. Confesso que isso mexeu muito comigo. Tive medo de que ele
houvesse cometido aquele crime. Falei com ele, que negou tudo e me
proibiu de falar sobre isso. Ele segurou meu brao e disse: Nunca mais
repita isso. Sou inocente. Quer que polcia suspeite de mim? Ningum pode
saber do meu relacionamento com ela. Pensei que talvez eu estivesse
errada. Pierre no me parecia capaz de cometer um crime daqueles. Mas
um ms depois ele foi intimado para depor e ficou apavorado. Ento
preparou nossa vinda para o Brasil.
     -- O que ele lhe disse na ocasio? -- perguntou Henrique.
     -- Bem, ele contou a histria da barriga falsa de Maria Eugnia e
disse que poderia lucrar muito dinheiro com isso. Eu duvidei. Nunca
acreditei muito nisso. Quando estivemos em sua casa, vi como Maria
Eugnia tratava o filho. Jamais teria tanto apego se o menino fosse de outra
mulher. Pierre estava blefando. Fiz tudo para demov-lo, mas ele insistia. E
deu no que deu.
     -- O que pretendiam fazer se recebessem o dinheiro? -- indagou
Bernardo.
     -- Voltar  Frana no estava nos planos dele. Pretendia procurar um
lugar onde pudssemos ter uma vida boa, luxuosa, como sempre tivemos.
     -- Mas voc preferiu deix-lo e trabalhar para viver -- lembrou
Henrique.
     -- . Quando deixei o hotel, no sabia o que fazer, nem para onde ir.
Antes eu peguei o dinheiro todo. Achei certo, uma vez que foi ele quem
botou fora todo o nosso dinheiro, no jogo e em outras coisas mais. Quando
cheguei aqui, fui recebida por pessoas simples, mas bondosas, que me
acolheram com simpatia, me ajudaram. Eu nunca trabalhei e no sabia
como fazer isso. Uma estudante que mora aqui sugeriu que eu desse aulas e
eu aceitei. Ela mesma arranjou-me alguns alunos. Foi ento que comecei a
aprender o que  viver.
     -- Voc sentiu-se til -- disse Henrique.
     -- Mais do que isso. O dinheiro que ganhei no era muito, mas teve
um sabor diferente. Eu me senti viva digna. As pessoas me tratavam com
respeito, me convidavam para participar de suas vidas, fiz amigos, conheci
famlias. Eu mudei.
     -- Voc est com uma aparncia melhor, remoou -- tornou
Henrique.
     -- Por isso peo-lhes que me deixem em paz. No quero mais me
envolver com Pierre nem viver nada daquela vida. Estou feliz aqui como
nunca fui em toda a minha vida. Tenho pensado muito e hoje percebo
quanto eu estava errada.
     -- Como eu disse, no queremos prejudic-la -- disse Henrique,
estendendo-lhe a carta de Pierre.
     Ela a apanhou e,  medida que lia, seu rosto se contraa. Por fim,
entregou-a a Henrique, dizendo:
     -- Isso  bem dele.  bom em inventar histrias, desde que possa tirar
algum proveito delas. Espero que no acredite em nada do que ele diz a.
     -- O que sabe a respeito? -- perguntou Henrique.
     -- O suficiente para dizer que Maria Eugnia jamais gostou de Pierre.
Ela gostava de sair, divertir-se, conhecer a noite de Paris, brilhar nas festas
e nos teatros da moda, mas no era uma mulher devassa. Ao contrrio.
Muitas vezes eu a vi rodeada por homens que se sentiam atrados pelo seu
brilho. Mas ela apenas ria, e nunca se interessou por nenhum deles.
     -- Acha que ele est mentindo?
     -- Tenho certeza. Ele inventou isso para vingar-se dela por no lhe ter
dado o dinheiro. Isso  muito dele.
     Henrique respirou aliviado. O que Jamille dizia combinava mais com
o temperamento de Maria Eugnia.
     -- Obrigado por nos ter recebido. Gostaria de retribuir sua gentileza,
oferecer-lhe uma ajuda. Talvez uma casa em um lugar melhor, mais de
acordo com seu nvel.
     -- No faa isso comigo. Eu preciso viver aqui, aprender lies de
simplicidade. No quero dizer que morar bem, no luxo, no conforto seja um
mal, ao contrrio. Mas no momento, para mim,  muito proveitoso viver
aqui, onde tenho aprendido a apreciar amigos sinceros, que tm prazer em
ficar do meu lado. Obrigada por querer me ajudar. Se Maria Eugnia me
perdoar, eu gostaria at de conservar sua amizade. Mas, no momento,
prefiro viver aqui.
     Henrique levantou-se:
     -- Vou deixar meu carto. Se precisar de alguma coisa, ligue.
     Eles despediram-se e saram.
     -- Vamos embora -- disse Bernardo a Adauto -- No temos mais
nada a fazer aqui.
     Pouco depois, Bernardo e Henrique despediram-se de Adauto e foram
para o carro. Bernardo deixou Henrique no escritrio e despediu-se,
dizendo:
     -- Esquea este desagradvel incidente. V para casa em paz, abrace
sua mulher com o carinho de sempre.
     Ele se foi e, pouco depois, Henrique pegou o carro e foi para casa.
Ainda no estava seguro sobre qual atitude tomar. Pensaria quando
chegasse ao lar.




     CAPTULO 18




      Rafael e Marina saram do centro de estudos espirituais comentando
a aula da noite. Fazia alguns meses que eles estavam freqentando essas
aulas, e a cada dia sentiam-se mais entusiasmados.
     Durante esse tempo, eles ficaram mais unidos e apaixonados. Marina
nunca havia amado antes, e o fato de ser correspondida enchia seu corao
de alegria. A cada dia apreciava mais as qualidades de Rafael, sua
inteligncia, sua maneira carinhosa de ser que no anulava sua firmeza
quando necessrio.
     Naquela noite, como faziam quando saam da aula, foram tomar um
lanche, durante o qual a conversa decorreu animada. Foi na volta, dentro do
carro parado diante da casa dela, que ele a abraou e beijou seus lbios com
amor. Depois disse, olhando nos olhos dela:
     -- Quero casar com voc. A cada dia fica mais difcil ir embora.
Quero passar a seu lado o resto dos meus dias. Vamos marcar a data.
     Marina hesitou um pouco e ele perguntou:
     -- Voc no quer?
     -- Quero. Eu amo voc.
     -- Senti que voc hesitou um pouco, mas disse que quer. H alguma
coisa que a est preocupando?
     -- Eu trabalhei toda a minha vida para reunir a famlia, e agora no
gostaria de separar-me deles.
     -- No pretendo separ-la deles. Eu adoro aqueles dois. Tenho
possibilidade de comprar uma casa maior, onde poderemos viver todos
juntos e com mais conforto. O que me diz?
     Ela sorriu satisfeita e respondeu:
     -- Eles tambm o adoram. Acho que ser a soluo perfeita.
     -- Amanh falaremos com eles e combinaremos detalhes.
     Trocaram mais alguns beijos e depois se despediram. Marina entrou e
a casa estava s escuras. Foi direto para o quarto, mas sentia-se inquieta.
Preparou-se para dormir e deitou-se. Porm um pensamento a incomodava.
     Ela amava Rafael, tinha certeza de que seria feliz com ele, mas o que
ele pensaria se um dia descobrisse seu segredo?
     Ele a tinha em conta de uma mulher de coragem que havia batalhado e
conquistado posio com o prprio esforo. Mostrava-se orgulhoso de v-
la obter sucesso profissional. O que diria se descobrisse que ela fizera
aquele contrato com Adele, sujeitando-se a ter um filho com um
desconhecido e renunciar ao beb em troca de dinheiro?
     Havia algum tempo que esse pensamento a incomodava. Entendia-se
to bem com Rafael, eram to afins, que um falava o que o outro estava
pensando. Guardar esse segredo at para ele comeou a ficar pesado,
fazendo-a sentir-se mal. Vrias vezes pensou em abrir seu corao, em
contar-lhe tudo, mas recuava. Era um segredo que prometera guardar por
toda a vida e que envolvia outras pessoas.
     E se um dia ela e Rafael no se entendessem mais, se separassem no
correria o risco de que ele, por qualquer razo, acabasse falando demais?
     Tinha certeza de que ele era um homem srio, honesto, interessado em
agir no bem. Mas em sua profisso havia visto vrios casos de separao
judicial em que um casamento que comeara perfeito acabara em brigas e
muitos sofrimentos.
     Ela no queria ocultar dele seu segredo, mas ao mesmo tempo temia
as conseqncias de dizer a verdade. E se ele no aceitasse e rompesse o
compromisso?
     Mil pensamentos passavam pela sua mente e ela revirava-se no leito,
insone. Por fim, decidiu rezar, pedir ajuda aos espritos de luz. Sentou-se na
cama, elevou o pensamento e fez sentida prece, pedindo inspirao.
     Depois, deitou-se novamente. Ento lembrou-se de Eunice, em quem
confiava, e decidiu procur-la no dia seguinte para pedir-lhe ajuda. Tinha
certeza de que ela saberia mostrar-lhe o que precisava fazer.
     Tendo decidido isso, sentiu-se mais calma, virou-se para o lado e
finalmente adormeceu.
     Henrique chegou em casa e encontrou Maria Eugnia bem disposta,
brincando com Dionsio. Beijou-os ligeiramente na face e foi para o quarto.
     Ela pediu que Elvira tomasse conta de Dionsio e foi ter com ele.
Aproximou-se dizendo:
     -- Voc no est bem. Aconteceu alguma coisa?
     -- No aconteceu nada. Estou um pouco indisposto.
     Ela aproximou-se mais, abraando-o e encostando o rosto em seu
peito.
     -- Parece triste. No gosto de v-lo assim.
     -- Vai passar. Vou tomar um banho.
     Ele foi ao banheiro e ela ficou esperando. Mais tarde, enquanto ele se
vestia, ela ficou falando, contando as ltimas gracinhas de Dionsio. Mas
Henrique, olhar distante, parecia nem ouvir.
     Ela aproximou-se dele, abraando-o de novo, e tentou beij-lo nos
lbios. Henrique no suportou e desvencilhou-se dela.
     Chocada, Maria Eugenia disse:
     -- Por que fez isso? Est zangado comigo?
     Sem poder conter-se mais, Henrique tirou a carta de Pierre do bolso
do palet e entregou-a a ela, dizendo:
     -- Veja voc mesma.
     Com mos trmulas, ela apanhou a carta e,  medida que lia, seu rosto
cobria-se de palidez. A surpresa foi tanta que ela se sentou na cama para
no cair. Depois, comeou a chorar convulsivamente.
     Henrique no se conteve:
     -- Voc no tem nada para dizer? Isso faz-me pensar que  verdade.
Voc ama aquele patife.
     Essas palavras tiveram o dom de arrancar Maria Eugnia do choque e
ela rebateu:
     -- Isso  mentira! Eu nunca amei Pierre. Ele quis vingar-se porque
ns no quisemos dar-lhe dinheiro. Mame e o Dr. Bernardo sabem de
tudo.
     Henrique aproximou-se dela e colocou-lhe a mo nos ombros:
     -- Voc diz que no o ama, mas pode me jurar que nunca teve um
caso com ele?
     Ela soluava desesperada, sem conseguir falar, e ele continuou:

     -- Naquele tempo voc estava irreconhecvel. Parecia outra mulher,
com raiva de mim por causa da gravidez arranjada. Vrias vezes notei que
voc me odiava. Isso veio-me  lembrana ao ler esta carta.
     Maria Eugnia meneou a cabea negativamente e respondeu:

     -- No  verdade. Eu sempre amei voc. Eu estava cime.

     --  absurdo. Eu nem conhecia a moa. Se a vir na rua, nem saberei
quem  ela. Tudo foi feito de modo a no pr em perigo nosso
relacionamento. Foi apenas um negcio.
     -- Agora eu entendo isso. Mas naquele tempo eu morria de cime.
Ficava imaginando voc nos braos dela. Isso me atormentava. Mas eu
nunca amei outro homem alm de voc.
     Ele pareceu mais calmo e ficou pensativo por alguns instantes. Depois
perguntou:
     -- Voc no o amava, mas responda com sinceridade: teve um caso
com ele? Foi assim que ele descobriu que usava barriga postia?
     Maria Eugnia levantou-se, respirou fundo, aproximou-se do marido e
respondeu:
     -- Sim. No posso negar isso. Eu estava revoltada, havamos bebido.
Fazia tempo que ele estava me cortejando. Uma noite, cedi aos seus
impulsos. Acho que fiz isso por vingana, porque depois me senti menos
rancorosa com relao a nosso caso. Mas eu juro: nunca amei Pierre.
     Henrique sentou-se na cama, cabisbaixo e triste. Maria Eugnia
apressou-se em dizer:
     -- Foi apenas uma vez. Mais tarde, arrependi-me muito. Odiei o que
aconteceu. Depois que Dionsio nasceu, me dei conta de quanto eu fora
mal-agradecida. Voc me deu o privilgio da maternidade. Esse menino 
tudo que eu mais amo nesta vida. Por favor, Henrique, me perdoe. Estou
envergonhada, arrependida. Voc sempre foi um timo marido. Eu  que
me comportei como uma criana mimada e caprichosa.
     As lgrimas desciam pelo rosto dela, mas Henrique, perdido em seu
mundo ntimo, arrasado, triste, abalado, nem notava.
     Ela colocou a mo sobre o ombro dele.
     -- Olhe para mim, Henrique. Diga que me perdoa.
     -- Deixe-me, Maria Eugnia. Preciso pensar.
     -- Por favor, sei que cometi um erro muito grave, mas naquele tempo
eu estava louca. Voc  testemunha de que eu mudei. Voltei a ser a pessoa
que sempre fui ou ainda muito melhor do que antes. Diga que me perdoa.
     -- Agora no posso. Vou sair um pouco, esfriar a cabea. Depois
conversaremos.
     Ele levantou-se, apanhou o palet e saiu. Maria Eugnia atirou-se na
cama, soluando desconsolada.


     Os dias que se seguiram foram um tormento para Maria Eugnia.
Henrique no voltara a falar no assunto, mas afastara-se dela, indo dormir
no quarto de hspedes.
     Ela tentara vrias vezes quebrar o gelo, aproximar-se, conversar com
ele, mas Henrique evitava-a e pedia que o deixasse em paz.
     No sabendo mais como proceder, Maria Eugnia foi  procura de
Adele, para desabafar e pedir conselhos.
     -- Ele no fala comigo, me. Sai de manh muito cedo e s volta
tarde da noite. No tem comido em casa. Vai para o quarto de hospedes e
no atende quando bato  porta. Estou desesperada. Ele no quer mais
saber de mim.
     -- Calma, minha filha. Precisa ter pacincia. Infelizmente ele
descobriu o que voc fez e est sofrendo com isso. Perdeu a confiana.
Questiona os prprios sentimentos.
     -- Se ele no me perdoar, no poderei mais viver.
     -- No seja dramtica. O que esperava depois do que fez?
     Desesperar-se no v, melhorar a situao. Pense que Henrique a ama,
a admira por ser uma boa me. D um tempo para que ele reencontre o
equilbrio.
     -- Acha que isso vai acontecer?
     -- Henrique  um homem inteligente. Tem discernimento. Ama a
famlia. Acredito que no vai destruir tudo por um momento de loucura que
voc cometeu. Depois, ele sabe que voc est arrependida, que no voltar
a fazer novamente. Tudo isso vai pesar e ele acabar perdoado. Nesses
casos, o tempo  o melhor remdio. Voc precisa ser paciente, esperar.
     Apesar dos conselhos de Adele, Maria Eugnia no se acalmou.
Chegou em casa e Dionsio correu a abra-la, querendo brincar. Porm ela
no se sentia disposta para isso.
     Abatida pelas noites mal dormidas, rosto vincado de preocupao, ela
sentou-se no quarto do menino enquanto as lgrimas desciam pelo seu
rosto.
     Dionsio abraou-a, dizendo triste:
     -- Mame t zangada comigo?
     Ela abraou-o e apressou-se a responder:
     --No querido. Estou com dor de cabea.
     -- Mame t dodi -- respondeu ele, alisando o rosto dela com
carinho.
     Elvira aproximou-se e Maria Eugnia pediu que ela levasse Dionsio
para tomar lanche e depois o colocasse para dormir, como ele fazia todas as
tardes. Depois foi para o quarto. Elvira levou o menino e depois de algum
tempo foi procur-la:
     -- Ele dormiu. A senhora no almoou, no comeu nada. Posso
buscar um lanche, um suco?
     -- Estou sem fome.
      -- No pude ficar sem comer. Vou buscar assim mesmo.
      Pouco depois, Elvira voltou e colocou a bandeja sobre a mesinha.
      -- Desculpe me meter, mas  que eu gosto muito da senhora. Vi que o
Dr. Henrique tem dormido no quarto de hspedes e que os dois esto
tristes. At Dionsio anda choroso e irritado.
      -- As coisas no esto bem entre ns -- respondeu Maria Eugnia,
triste.
      -- Tenho sentido que o ambiente aqui est tumultuado, triste. Por que
a senhora no procura Dona Eunice? Ela pode ajudar.
      -- Acho que no tem remdio.
      -- Tudo tem remdio quando Deus ajuda. A senhora gostou dela.
      -- Gostei. Ela deu-me bons conselhos. Ela me passou o nmero do
telefone, mas no sei se ainda o tenho.
      -- Eu sei de cor. Vou ligar e a senhora conversa com ela.
      Elvira fez a ligao e passou o telefone para Maria Eugnia.
      -- Dona Eunice?  Maria Eugnia, me de Dionsio. Lembra-se de
mim?
      -- Claro, minha filha.
      -- Aconteceram algumas coisas e eu gostaria de conversar com a
senhora. Posso ir  sua casa?
      -- Voc est angustiada, aflita... Prefiro que v ao centro de estudos.
L terei mais recursos para ajud-la.
      -- A que horas poderei ir?
      -- Esteja l s sete e meia. Vou dar-lhe o endereo. No  longe
daqui.
      Maria Eugnia anotou tudo.
      -- No deixe de ir -- pediu Eunice. -- Estarei esperando.
      Ela agradeceu e desligou. Depois perguntou a Elvira:
     -- Sabe como funciona esse centro de estudos?
     --  um lugar onde ela atende as pessoas. Eu j estive l fazendo um
tratamento espiritual. Foi muito bom. Se eu pudesse, iria com a senhora.
     -- No. Voc precisa ficar com Dionsio.
     Cinco minutos antes da hora combinada, Maria Eugnia entrou no
centro de estudos. Atendida por uma moa, deu o nome e foi conduzida a
uma sala onde Eunice a esperava.
     Vendo-a entrar, abraou-a dizendo:
     -- Como est, minha filha?
     -- Mal, Dona Eunice. Meu casamento est desmoronando e no sei o
que fazer.
     -- Sente-se. Vamos conversar.
     -- A culpa foi minha. Eu errei, agora estou pagando pelo meu erro.
     -- No diga isso. Voc est apenas aprendendo uma lio dura, porm
necessria.
     -- Mas estou arrependida. Tenho certeza de que nunca mais farei
aquilo novamente. Isso no basta?
     -- No. A experincia, o conhecimento, tm seu preo. Ningum
conquista a sabedoria sem aprender o valor de cada sentimento.
     -- Preciso de seus conselhos. No sei o que fazer.
     Em poucas palavras, Maria Eugnia contou-lhe tudo entre lgrimas.
Depois finalizou:
     -- Ele no fala comigo, est dormindo no quarto de hspedes. No
quer me perdoar. Eu o amo muito. Ns vivamos to felizes!
     -- Vocs so felizes. Se amam e o amor cobre a multido de pecados.
Vamos confiar. Voc est sendo sincera. No se desespere. No deixe que
um momento de desvario do passado se transforme em uma tragdia.
     -- Mas ele no me perdoa.
     -- Por acaso voc j se perdoou?
     -- Eu?! Claro que no!
     -- Esse  o primeiro passo.
     -- Mas eu no posso me perdoar. Como pude ser to cega? Tinha um
marido maravilhoso e no valorizei isso; acabei me envolvendo com um
patife, chantagista, interesseiro.
     -- No seja to rigorosa com voc. Agora tem o propsito de no
cometer novamente o mesmo erro.  sinal de que j entendeu o que a vida
quis ensinar-lhe. Essa atitude  fundamental.
     -- Mas Henrique no pensa assim.
     -- Essa  a cabea dele. Vamos ver como ele reage.  bom saber que
no adianta voc insistir, querer que ele mude a forma de ver. O que poder
funcionar  voc mudar sua atitude interior para com voc. No momento
em que compreender que voc foi fraca porque ainda no tinha
discernimento para agir melhor, que hoje agiria de outra forma, e deixar
que sua generosidade a perdoe, vai se sentir aliviada. O desespero
desaparecer, dando lugar a uma espera serena dos acontecimentos.
     --  claro que hoje eu no faria mais. Tenho certeza disso.
     -- Ento, minha filha, seja benevolente. Compreenda que voc
cresceu. Voc era uma menina ingnua, mimada, tmida, que no tinha
coragem de ousar diante da personalidade de sua me, uma mulher que
brilha porque tem carisma, beleza, luz. Mas voc tambm tem dentro de si
mesma tudo isso. Seu esprito  luz, beleza, brilho, capacidade. Basta
aprender a valorizar seus potenciais e permitir que eles venham para fora.
     Maria Eugnia soluava sem parar, e Eunice continuou:
     -- Voc no pode sentir-se diminuda porque errou. Esse foi o preo
do crescimento. Agora voc  uma mulher mais experiente, e isso deve
confort-la.
     -- Como seria bom que Henrique pensasse como  senhora!
     -- Faa sua parte. Mostre a ele que esta consciente e sabe o que quer
daqui para frente.
     -- Como farei isso?
     -- No se condene mais. Respeite-se. Pense em voc com amor. No
force a situao com seu marido. D h ele tempo para refletir. Aja como
se no houvesse acontecido nada. Tenha uma postura digna.
     -- Sinto que tem razo. Acha que conseguirei?
     -- Tenho certeza. Vou encaminh-la a um tratamento para
reequilibrar suas energias. Quero que venha duas vezes por semana receber
este tratamento. Estou certa de que esta noite j dormir melhor.
     Ela fez algumas anotaes e entregou-lhe o papel.
     -- Vamos confiar em Deus.
     Maria Eugnia agradeceu e saiu.
     Uma moa esperava-a do lado de fora e ela mostrou-lhe o papel. Em
silncio foi conduzida a uma sala em penumbra, iluminada apenas por uma
luz azul, onde havia algumas cadeiras atrs das quais se encontrava uma
pessoa em p, em orao. Uma msica suave enchia o ar, transmitindo paz
ao ambiente.
     Maria Eugnia foi conduzida a uma cadeira e sentou-se. A moa que
estava atrs dela postou-se em sua frente, estendeu as mos para o alto por
alguns instantes, depois colocou-as sobre a cabea de Maria Eugnia.
     Essa moa era Marina. Havia algum tempo que trabalhava como
voluntria no centro de estudos, doando energias, e sentia-se muito bem
participando desse trabalho.
     Olhos fechados, concentrada na orao, ao postar-se diante da pessoa
a quem deveria doar energias, ela foi envolvida por forte emoo.
Controlou-se e procurou mentalizar luz e amor sobre a paciente, que
soluava sentidamente.
    Quando terminou a doao foi que abriu os olhos e assustada
reconheceu que, j um pouco mais calma sentada  sua frente estava Maria
Eugnia, olhos molhados pelas lgrimas.
    Emocionada, Marina tocou levemente o brao de Maria Eugnia para
indicar que o tratamento havia terminado. Ela levantou-se e Marina
perguntou baixinho:
    -- Sente-se melhor?
    -- Sim. Obrigada.
    Depois que ela saiu Marina no pde continuar.
    -- Vou sair um pouco -- explicou  dirigente da reunio.
    Ela deixou a sala e foi at o toalete, buscando se acalmar. Assim que
entrou, viu Maria Eugnia, que diante do espelho tentava refazer a
maquiagem. Fez meno de sair, porm ela j a tinha visto e perguntou:
    -- Foi voc quem me atendeu naquela sala?
    -- Foi.
    -- Preciso agradecer. Quando cheguei aqui hoje, estava desesperada.
Agora, graas a Dona Eunice e a voc, estou muito melhor. Que Deus as
abenoe.
    Comovida, Marina respondeu:
    -- No precisa agradecer. Vindo aqui, eu tambm tenho recebido
muito mais do que poderia imaginar.
    Maria Eugnia parou em frente  Marina e perguntou:
    -- Ainda parece que chorei?
    Marina sorriu.
    -- Melhorou bem.
    -- Obrigada. Preciso ir. Estou fora de casa h muito tempo e meu
filho  muito apegado. Deve estar sentindo minha falta. Voc tem filhos?
    -- Ainda no. Mas vou me casar logo e pretendo ter.
        --  maravilhoso. Vou indo, mas em breve nos veremos novamente.
Vou fazer meu tratamento certinho.
        -- V com Deus.
        Depois que ela se foi, Marina respirou fundo. O que a vida estava
fazendo com ela, colocando Maria Eugnia em seu caminho?
        Com tantos lugares para ir, tantas pessoas naquela casa, porque Maria
Eugnia se sentara exatamente onde ela estava?
        O que estaria acontecendo para que ela estivesse to aflita e tivesse
chorado tanto?
        Mil pensamentos sem resposta brotavam em sua mente. Tentou afast-
los. Elas nunca poderiam aproximar-se. Havia prometido a Adele que
nunca faria contato com eles.
        Acontecera por acaso, e ela no deveria dar tanta importncia a isso. O
fato de Maria Eugnia freqentar o centro de estudos no significava que
manteriam uma relao de amizade. Isso nunca poderia acontecer entre
elas.
        Um sentimento de perda envolveu-a e ela procurou empurr-lo para
fora. Maria Eugnia dissera que o filho era apegado a ela. Sinal de que se
amavam de verdade. Esse pensamento confortou-a.
        Talvez fosse melhor deixar de ir ao centro de estudos por algum
tempo. Mas tanto ela quanto o resto da famlia estavam to entrosados l,
que logo ela descartou essa idia.
        Oflia e Ccero estavam na escola estudando mediunidade e sentindo-
se muito felizes. Rafael e ela preferiam as pesquisas cientficas e sentiam-
se bem doando energias como voluntrios.
        Marina esforou-se para no dar demasiada importncia quele
encontro. Ningum poderia saber, e tudo ficaria como estava.
        Quando deixou o toalete, encontrou Rafael no corredor.
        -- Voc est bem? Disseram que saiu antes de acabar.
     -- No foi nada. Eu me comovi no atendimento a uma pessoa e fui
espairecer um pouco. Estou bem.
     Ele a abraou e saram. Foi mais tarde, deitada em sua cama, que
Marina voltou a pensar em Maria Eugnia.
     Apesar de no querer dar importncia quele encontro, intimamente se
perguntava:
     Por que a vida colocara Maria Eugnia em seu caminho?
     Talvez fosse para lembr-la de que, mesmo tentando esquecer, ela
tivera aquele filho. Por que faria isso?
     Nos ltimos tempos ela se questionava se seria justo para com Rafael
casar-se com ele sem lhe contar esse segredo. O que ele pensaria dela se
um dia a verdade viesse  tona? Como conservar a confiana sabendo que
ela mentira sobre um fato to importante?
     Sua cabea estava cheia de dvidas. Ela ainda no tinha a certeza de
que seria melhor contar e enfrentar a reao dele. Tinha medo de faz-lo
partilhar desse segredo que no lhe pertencia, e depois, se algum dia se
separassem, ele pudesse revel-lo a outros. Rafael era confivel. Mas, ao
mesmo tempo, ela sabia que a garantia de um segredo est em nunca o
confiar a ningum.
     -- No vou contar nada -- decidiu.
     Esforou-se para dormir.




     CAPTULO 19
      Maria Eugnia chegou em casa decidida a conversar com Henrique.
Como no dia anterior, ele esteve fora durante o dia inteiro e no foi para
casa na hora de jantar.
     Apesar de triste, ela procurou agir como de costume: brincou com
Dionsio, esforou-se para expulsar da mente os pensamentos de medo e de
insegurana.
     Ela havia errado, mas entendia que naquele tempo era inexperiente e
estava insegura, julgando-se menos pelo fato de ser estril, querendo provar
a si mesma que era capaz de ser amada mesmo assim.
     Era vaidade, iluso. Mas reconhecia que, dentro desse processo, no
conseguira agir melhor. J agora, depois de tudo, estava certa de que no
teria se deixado levar por Pierre nem por ningum. Arrependia-se, mas isso
no mudaria o fato em si e seria impossvel voltar atrs. Por isso no
adiantava nada continuar martirizando-se pelo que no tinha remdio.
     Ela estava certa de que durante todos aqueles anos de casamento tinha
dado provas suficientes de amor ao marido. Se ele no pudesse perdoar,
compreender seu momento de fraqueza, ela no poderia fazer mais nada.
Apesar da tristeza que esse pensamento lhe provocava, Maria Eugnia
sentia que no lhe restaria outro caminho.
     Passava das onze quando finalmente Henrique chegou. Vendo-a lendo
na sala, disse um boa-noite e subiu para o quarto de hspedes.
     Maria Eugnia levantou-se e foi atrs dele. Bateu  porta e entrou. Ele
havia tirado o palet e olhou-a surpreendido.
     -- Quero falar com voc -- disse ela com voz calma.
     -- Estou cansado. Quero dormir.
     -- Serei rpida.
     -- Est bem.
     Ele designou uma poltrona e sentou-se na outra.
        -- Pensei em tudo quanto aconteceu e preciso dizer-lhe que lamento
muito ter agido daquela forma. Essa atitude fez-me rever toda a minha
adolescncia e juventude, quando me sentia incapaz de ser para meus pais a
pessoa que eles esperavam que eu fosse. O brilho e o sucesso de minha
me, a quem eu sempre admirei, me fazia desejar ser igual a ela, mas ao
mesmo tempo eu olhava para mim e acreditava no ter capacidade para
isso.
        -- Voc sempre foi tmida -- comentou ele.
        -- No era timidez, era falta de f em minha capacidade. Eu pensava
que, por mais que fizesse, nunca conseguiria ser o que ela gostaria que eu
fosse.
        -- Mas Adele nunca exigiu nada de voc. Sempre a amou e a aceitou
como voc .
        -- Isso eu percebi h bem pouco tempo. Mas na minha cabea eu
imaginava que para ser amada teria de ser igual, ou melhor, do que ela. Eu
queria que ela me admirasse. Quando o conheci, me apaixonei, superei um
pouco isso. Seu amor deu-me alegria e certa segurana, embora eu no
houvesse mudado minha maneira de me ver. Depois do nosso casamento,
ao invs de querer brilhar para agrad-la, acrescentei essa necessidade
como condio a que voc continuasse me amando.
        -- Eu no sabia que voc se sentia assim...
        -- Eu dissimulava at para mim mesma. Quando descobri que no
poderia ser me, fiquei arrasada. Senti-me aleijada e intil. O fato de
precisar ter um filho para assegurar a continuidade de mame como
presidente das empresas fez-me sentir a ltima das mulheres. Pela primeira
vez minha me dependia de mim para alguma coisa, e eu no tinha como
atend-la.
        -- Voc no  culpada por isso.
     -- Mas eu me senti muito mal. A custo dominei o cime, a raiva
daquela desconhecida que era mais competente do que eu, que podia dar-
lhe o filho que tanto queramos. Quando estvamos em Paris, eu odiava
aquela barriga postia, porque ela lembrava minha incapacidade.
     -- Por que nunca se abriu comigo? Eu teria compreendido.
     -- Era humilhante. E, depois, eu estava revoltada com a vida, com a
situao, impotente para mudar os fatos.
     Henrique passou a mo nos cabelos, pensativo, e pediu:
     -- Continue.
     -- Com o que estou dizendo no pretendo justificar o que fiz. A
vontade de provar a mim mesma que as pessoas poderiam gostar de mim
fez-me mergulhar na vaidade. Quando me recordo das festas, onde bebia
demais, provocava a ateno dos homens propositadamente, sinto
vergonha. Porm, a verdade  que nunca aceitei a corte de nenhum deles. O
que aconteceu com Pierre foi um envolvimento ocasional, eu diria at certa
curiosidade, que eu justificava como vingana por voc ter se relacionado
com outra.
     -- Isso me machucou muito, porquanto jamais imaginei que pudesse
acontecer.
     Maria Eugnia suspirou fundo e considerou:
     -- Em mim tambm est doendo. Principalmente agora, que posso ver
com clareza quanto estava iludida, enganada. Descobri que dentro de mim
h uma mulher que ama a famlia. Que, apesar de minhas fraquezas, tenho
sido uma boa esposa, me dedicado a voc oferecendo o melhor de mim,
principalmente depois que Dionsio nasceu e eu aprendi o valor do amor
materno.  um sentimento que encheu minha alma de felicidade, desde que
tomei essa criana em meus braos e ele segurou meu dedo com sua
mozinha pequenina.
    Henrique baixou os olhos tentando encobrir uma lgrima prestes a
cair. Maria Eugnia, olhos brilhantes de emoo, continuou:
    -- Com ele descobri que o mais importante  o amor, porque ele
alimenta nossa vida, d motivao e faz com que tudo fique mais belo.
    -- Foi pena ter acontecido o que aconteceu.
    -- Eu lamento ter machucado voc, mas ao mesmo tempo reconheo
que essa experincia fez-me crescer e enxergar as coisas boas que a vida
me deu e que antes eu no via. Voc, mame e at a desconhecida que
concordou em emprestar seu corpo para que eu pudesse desfrutar esta
conquista merecem minha gratido. Dionsio ensinou-me a viver e a
valorizar minha vida.
    Henrique, cabea baixa para que Maria Eugnia no percebesse sua
emoo, no sabia o que responder.
    -- Era isso que eu precisava dizer-lhe. Eu continuo sempre a mesma
mulher que o ama e que ama nosso filho. Nada  mais importante para mim
do que continuarmos juntos como sempre. Mas eu sei que essa  uma
deciso que depende de voc. Pense, analise. Se puder entender e perdoar,
estarei esperando. Mas, se sentir que no  capaz de esquecer, ento
aceitarei sua deciso sem reclamar. S peo que no me separe de Dionsio.
Isso eu no poderia suportar. A minha parte eu j fiz, agora fica com voc.
Tem todo o tempo para decidir.
    Ela levantou-se e deixou o quarto. Henrique, tomado de emoo,
deixou que o pranto corresse pelo seu rosto e os soluos desabafassem sua
mgoa durante algum tempo.
    Depois, um tanto aliviado, sentiu-se cansado, foi ao banheiro, lavou o
rosto, colocou o pijama e deitou-se. Queria dormir descansar. Parecia-lhe
que estava vazio incapaz de raciocinar. Fechou os olhos e em seguida
adormeceu.
     Maria Eugnia passou no quarto de Dionsio, que dormia, beijou seu
rostinho corado e foi para seu quarto.
     Apesar de a situao continuar a mesma, ela sentia-se diferente.
Dentro dela despontara uma fora viva que a fazia levantar a cabea com
dignidade. Pela primeira vez estava segura de que adotara a postura
adequada.
     A conscincia de seu erro, a anlise de seus sentimentos haviam
acabado com o peso da culpa que a atormentava, deixando em seu lugar a
certeza de que ela no era mais a criana dependente da aprovao da me,
incapaz de resolver seus prprios conflitos, mas sim uma mulher corajosa,
consciente de sua prpria fora para escolher o caminho mais adequado.
     O que ela mais queria era que Henrique a compreendesse e perdoasse.
Mas, se ele no conseguisse fazer isso, ela seria forte o bastante para aceitar
sua deciso.
     A certeza de seu amor por ele confortava-a e ao mesmo tempo dava-
lhe coragem para continuar esperando que ele conseguisse vencer o
orgulho e deixasse o amor falar mais alto. Pensando no amor que os unia,
ela sentia um brando calor envolver seu corao.
     Aprontou-se para dormir. Antes de deitar-se, ajoelhou-se ao lado da
cama e fez uma orao, agradecendo a Deus por haver lhe mostrado todas
essas coisas e haver lhe permitido experimentar a grandeza do amor em sua
vida. Depois, deitou-se e em seguida adormeceu.
     Nos dias que se seguiram, Maria Eugnia procurou ser natural,
fazendo tudo que sempre fizera. Henrique continuou calado, s
conversando o essencial, no vindo almoar em casa.
     Em seus encontros de trabalho com Adele e Bernardo, ele no
mencionara mais o assunto. Ela, discreta, esperava que ele se abrisse.
     Uma tarde, Henrique estava no escritrio de Adele quando Bernardo
chegou dizendo:
     -- Hoje conversei com Ren. Tenho notcias de Pierre.
     Os dois o olharam curiosos e ele continuou:
     -- Parece que a situao dele se complicou. A testemunha de
acusao foi concludente e seu depoimento coincide com alguns dados que
a polcia tinha. O julgamento est marcado para daqui a uma semana.
     Adele ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:
     -- Ele deve estar com medo. Voc acha que ele poder cumprir a
ameaa que fez contra ns?
     -- No creio. Primeiro,  a palavra de um marginal, possvel
assassino, contra a de pessoas de bem, como vocs. Depois, ele deve estar
to preocupado em defender-se que no ter tempo de pensar em outra
coisa.
     -- Voc acha que, se descobrirem que Jamille est viva, isso poder
ajud-lo em sua defesa?
     -- Quanto ao crime em julgamento, no. Eu conversei com Ren
sobre ela, mas ele prefere s falar sobre isso  polcia francesa depois do
julgamento. Por enquanto, apesar das dvidas quanto ao paradeiro de
Jamille, no h ainda uma acusao formal sobre seu desaparecimento.
     Adele voltou-se para Henrique e perguntou:
     -- Voc est to calado... O que acha?
     -- Quero esquecer que esse sujeito existe.
     -- Eu tambm, mas no momento ele est nos ameaando. Mesmo que
no o faa,  uma possibilidade que no podemos ainda desprezar.
     -- Esse sujeito nunca me enganou. Mesmo sob o verniz social, nunca
o aceitei.
     -- Noto que voc ainda no superou o que aconteceu -- tornou Adele.
-- Conversou com Maria Eugnia sobre isso?
     -- Sim. Mostrei-lhe a carta de Pierre naquele mesmo dia.
     Adele olhou-o, tentando penetrar seus pensamentos. Como ele
continuasse calado, ela disse:
     -- Ela no me procurou, por isso pensei que voc no lhe tivesse dito
nada. Mas, se ela sabe e no veio falar comigo, deve estar to arrasada que
no tem coragem para nada.
     Henrique olhou-a srio e respondeu:
     -- Voc est enganada. Quando lhe contei, ela ficou desesperada. Mas
eu precisava refletir. Ento, decidi me afastar dela durante o dia e ficar no
quarto de hspedes  noite.
     -- No entendo por que Maria Eugnia no me procurou. Ela deve
estar doente, deprimida.
     -- No est. Uma noite ela quis conversar comigo. Abriu-se, falou de
seus conflitos ntimos na juventude e, por fim, disse que lamenta seu erro,
porque machucou a ns dois, mas entendeu tambm que esse erro a fez
amadurecer, perceber todas as coisas boas que a vida lhe deu. Por fim,
disse que no ia me pressionar para perdo-la porque isso  uma coisa que
s depende de mim. Disse que ela sempre foi uma esposa boa, fiel, me
dedicada do Dionsio, a quem ama como filho, e que est disposta a aceitar
qualquer que seja minha deciso. S me pediu que no a separe do menino.
     Quando ele se calou, Adele, que ouvia surpreendida, olhos brilhantes
de emoo, respondeu:
     -- Finalmente minha filha se tornou mulher!
     -- Ela me surpreendeu -- continuou Henrique. -- Mas, por outro
lado, jogou todo o peso da deciso sobre mim. Foi ela quem errou. Eu no
fiz nada.
     -- Mas ela j se colocou, e o fez com dignidade. Tenho certeza de que
o que Maria Eugnia mais deseja  que voc esquea o que aconteceu e
volte para sua famlia com o mesmo carinho. Mas ela sabe que isso s
poder acontecer quando voc vencer seu orgulho, seu cime, sua mgoa.
E isso  um trabalho interior que s depende de voc. Ela no tem como
fazer isso.
     -- Do jeito que voc fala, parece fcil, mas eu no sei o que fazer.
Quando penso nela com aquele patife, meu sangue ferve.
     Adele aproximou-se e colocou a mo em seu brao.
     -- D um tempo para voc. Enquanto no tiver certeza do que fazer,
no faa nada.
     -- Sei que  um assunto de famlia -- interrompeu Bernardo --, mas,
como vou fazer parte dela, posso dar uma sugesto?
     Henrique olhou-o surpreendido.
     -- Pode claro. Como amigo,  como se voc j fosse mesmo da
famlia.
     Bernardo olhou para Adele e pediu:
     -- Posso contar?
     -- Eu conto. Eu e Bernardo decidimos viver um namoro que no
pudemos ter na juventude. Vamos nos casar.
     O rosto de Henrique iluminou-se um pouco.
     -- Ainda bem que temos uma boa notcia! Eu sempre me perguntei
por que vocs ainda no tinham percebido quanto seriam felizes juntos.
Parabns!
     -- Obrigado. Mas vamos  minha sugesto. Tenho um amigo
psiquiatra, o Dr. Rafael Vilardi. Ele  maravilhoso na soluo de problemas
emocionais.
     -- Eu no estou doente. Estou arrasado, mas no louco -- reclamou
Henrique.
     -- No seja preconceituoso. Ele  um profissional experiente que
pode ajud-lo a entender melhor suas emoes. Depois, sinto que voc e
Maria Eugnia se amam. E tm um filho maravilhoso que precisa do apoio
de ambos. Vocs esto sofrendo por um acontecimento que, apesar de
doloroso, passou e no tem nenhuma possibilidade de se repetir. Tomar
uma deciso errada neste momento pode fazer com que sejam infelizes pelo
resto da vida.
     -- Eu no sei se quero me separar dela.
     -- timo. Mas que vida ser a de vocs se continuarem juntos e voc
guardar no corao tanta mgoa? Acha que seriam felizes?
     -- Bernardo tem razo. Maria Eugnia, no sei como, conseguiu
manter uma atitude firme, mas voc est muito machucado. Nunca passou
por um problema emocional mais grave e no sabe como lidar com isso.
Seja humilde, Henrique. Procure a ajuda de um bom profissional para
recuperar o equilbrio.
     Henrique ficou pensativo e Bernardo interveio:
     -- Vamos falar com ele. Alm de um profissional competente,  uma
pessoa agradvel. Voc vai gostar de conversar com ele.
     -- Est bem. Irei.
     Adele abraou-o satisfeita:
     -- O que mais desejo  que todos sejamos felizes. Estou certa de que
conseguiremos.
     -- Vou ligar para ele e saber quando poder receber-nos.
     Bernardo apanhou sua pasta, procurou a agenda e ligou. A secretria
atendeu e passou o telefone para Rafael, Depois dos cumprimentos,
Bernardo disse:
     -- Tenho um amigo que est passando por um problema difcil e eu
gostaria que voc conversasse com ele e o ajudasse.
     -- Est bem. Preciso consultar minha agenda.
     -- Sei que ela est lotada, como sempre, mas o caso  urgente. Veja o
que pode fazer.
     -- Um momento.
     Bernardo ficou esperando. Pouco depois, Rafael disse:
     -- Se  urgente, posso atend-lo depois do meu expediente. L pelas
sete horas. Tudo bem?
     -- Obrigado. Eu sabia que podia contar com voc. Estaremos a s
sete. Vou aproveitar a ocasio para abra-lo e apresentar Henrique
pessoalmente.
     Bernardo despediu-se e desligou o telefone, satisfeito.
     -- Geralmente, o consultrio do Dr. Vilardi vive lotado. A espera para
consulta costuma ser de um a dois meses.
     -- Ele foi muito gentil de estender o horrio para atend-los. --
considerou Adele.
     -- De fato. Somos amigos h alguns anos, desde quando ele tratou de
um empresrio que faliu, caiu em depresso e tentou o suicdio. Felizmente
no conseguiu seu intento. Na poca eu prestava servio para aquela
empresa. Acompanhei o trabalho de Rafael, cujo resultado me surpreendeu.
O empresrio conseguiu aceitar a situao e ter motivao para recomear.
     --  mais fcil quando se trata de perda material -- comentou
Henrique. -- Mas, quando se trata do corao,  pior.
     -- Isso para voc, que valoriza mais a famlia do que o dinheiro --
comentou Bernardo. -- Mas para aquele empresrio, cujo poder, dinheiro,
vinha em primeiro lugar, foi terrvel.
     Adele convidou-os para um caf na sala ao lado.
     -- Voc precisa cuidar da sade -- disse ela a Henrique. -- Suspeito
que no esteja se alimentando bem. Vou pedir um lanche para ns.
     -- No  preciso. Apenas um caf -- respondeu Henrique.
     -- Eu tambm estou com fome -- mentiu ela. -- Quase no almocei.
Vocs vo fazer-me companhia. Depois, h alguns assuntos da empresa
sobre os quais eu gostaria de conversar com vocs.
     Henrique, depois de receber apoio deles e ter se alimentado um pouco,
sentiu-se melhor.
     Pouco antes das sete, Henrique e Bernardo entraram na clnica de
Rafael. Meia hora depois, foram conduzidos  sala do mdico.
     Rafael abraou Bernardo, que apresentou Henrique. A sala era
espaosa e decorada com bom gosto. Rafael pediu que se sentassem em um
canto da sala, onde havia poltronas confortveis. Uma vez acomodados,
Bernardo disse:
     --  melhor deix-los  vontade. Vou esperar l fora.
     -- No  preciso -- tornou Henrique. -- Voc sabe mais da minha
vida do que eu mesmo. Prefiro que fique.
     Bernardo olhou indeciso para Rafael, que concordou.
     -- Fique. Quero conhecer a situao, e voc poder ajudar.
     Henrique hesitou. Ele no queria contar o segredo de Adele. Mas
como explicar o caso omitindo esse detalhe? Rafael esperava com
tranqilidade.
     -- No sei como comear -- disse Henrique, por fim. -- Acontece
que h em nossas vidas um assunto delicado, um segredo que no posso
mencionar porque envolve a vida de outras pessoas.
     Bernardo interveio:
     -- Talvez voc no possa omitir esse ponto.  importante que Rafael
conhea toda a verdade. Tenho certeza de que o que voc lhe contar jamais
sair destas quatro paredes. Eu o conheo e sei que pode confiar nele.
     -- Sua dvida  natural. Voc no me conhece. Mas posso garantir
que saberei respeitar sua vontade. O objetivo do meu trabalho  facilitar
que voc perceba todos os lados da questo e possa tomar a melhor
deciso. Para isso, preciso conhecer todos os fatos e descobrir e mostrar-lhe
at aqueles que voc ainda no percebeu.
     Bernardo completou:
     -- Quando estamos envolvidos em uma situao desagradvel, no
enxergamos com clareza. O Dr. Rafael  mestre em nos abrir os olhos
nessas horas. Agora, penso que ficar mais  vontade sozinho com ele. Vou
esperar l fora.
     Bernardo levantou-se e saiu. Rafael esperou calmo que Henrique
falasse. Este comeou a contar como conhecera Maria Eugnia, o namoro,
o apoio de Adele, o casamento. Contou tudo.
     Rafael ouvia em silncio. Quando Henrique fazia uma pausa, ele
mostrava-se interessado, dizendo:
     -- Continue, por favor.
     Aos poucos, Henrique foi sentindo que Rafael o estava apoiando e foi
perdendo a inibio. Nos momentos em que ele hesitava, Rafael colocava a
mo em seu brao para dar-lhe foras e ele prosseguia. Contou tudo, sem
omitir nenhum detalhe.
     Terminou falando de sua decepo, do medo de perder o amor de
Maria Eugnia, da raiva que sentia quando imaginava a esposa nos braos
de Pierre.
     Por fim, calou-se. O desabafo fez-lhe bem. Mas sentia-se vazio,
incapaz de qualquer sentimento.
     Rafael levantou-se, colocou-se diante de Henrique e disse:
     -- Voc est sem energias, mas foi bom ter falado sobre seus
sentimentos. Primeiro, vou ministrar-lhe energias de refazimento. Feche os
olhos e relaxe. Voc est cansado, muito cansado. No precisa tomar
nenhuma deciso agora. Eu estou aqui e vou ajud-lo. Comece imaginando
uma bola de luz azul muito brilhante. Ela est em sua frente. Concentre-se
nela enquanto vou ajud-lo a receber energias vitalizantes.
     Rafael levantou as mos e elevou seu pensamento, pedindo ajuda
espiritual para Henrique. Depois, colocou as mos sobre sua cabea,
irradiando luz, calma, fora, alegria, paz.
     Continuou mentalizando isso, passando as mos em volta do corpo de
Henrique, sem toc-lo, durante alguns segundos. Depois, levantou
novamente as mos, recebeu novas energias e colocou-as sobre a cabea de
Henrique. Tocou levemente no brao dele, que abriu os olhos e disse:
     -- Que coisa boa! Senti um calor agradvel, como se algum estivesse
me abraando e dizendo que era para eu ficar em paz. Nunca nada assim.
     Rafael sorriu:
     -- Meditao, relaxamento, orao ajudam mesmo.
     -- O que me aconselha?
     -- Devo dizer-lhe que est casado com uma mulher esclarecida. Em
meio ao conflito, ela conseguiu tomar a atitude adequada. Raras
conseguem. Esse  o ponto positivo de tudo quanto me contou.
     -- Ela me surpreendeu. Falou comigo no como uma pessoa culpada,
errada, aflita, mas como quem reconhece que cometeu um erro, se
arrependeu e tomou a deciso de nunca mais repeti-lo. Alm disso, lembrou
sua dedicao como esposa e me e afirmou que eu deveria levar isso em
considerao.
     -- Ela est certssima.
     -- Eu reconheo tudo isso. Mas, quando penso nela nos braos de
Pierre, a raiva reaparece com toda a fora.
     --  isso que vamos precisar trabalhar. Por hoje  melhor ficarmos
por aqui. V para casa, descanse. Quando se lembrar desse fato
desagradvel, leve seu pensamento para outra coisa, de preferncia algo
que lhe seja agradvel.
     -- Meu filho! Ele  para mim a alegria maior.
     -- Isso mesmo. Aproxime-se dele, sinta seu amor, d seu afeto. Vai
fazer-lhe bem. Desejo v-lo daqui a trs dias. Pode ser as sete, como hoje.
Aqui tem meus telefones. Se no se sentir bem durante esse tempo, ligue-
me, seja a hora que for.
     Henrique despediu-se e saiu. Do lado de fora, Bernardo, vendo-o,
perguntou:
     -- Como voc est?
     -- Cansado, porm mais calmo. Devo voltar daqui a trs dias.
     -- Quer jantar ir a algum lugar?
     -- No. Se voc me deixar no estacionamento, eu agradeo. Desejo ir
para casa.
     Uma vez no carro, Bernardo perguntou:
     --Voc gostou dele?
     -- Teve a pacincia de me ouvir. Ao final, disse que eu estava
precisando receber energias positivas. Mandou-me pensar em uma bola de
luz, fechar os olhos, e fez uma imposio de mos.
     -- No sabia que os mdicos usavam esse tipo de tratamento. O que
voc sentiu?
     -- No incio, nada. Depois comecei a sentir um calor agradvel, que
foi muito bom. Depois da tenso dos ltimos dias, acho que relaxei. Sinto-
me vazio, cansado, e no vejo a hora de estender-me na cama e descansar.
     -- Acho que, para um primeiro encontro, foi muito bom. Tenho
confiana de que estamos no caminho certo.
     Henrique chegou em casa mais cedo do que nas noites anteriores e,
apesar de cansado, foi procurar Dionsio, que, vendo-o, correu para ele de
braos abertos.
     -- Papai! Papai!
     Henrique abraou-o com carinho, enquanto, olhos brilhantes, Dionsio
dizia:
     -- Tem saudade. Voc tem presente?
     Sempre que Henrique se ausentava por alguns dias por causa do
trabalho, ao voltar costumava trazer um presentinho para ele. Lembrou-se
ento de que, tendo chegado tarde todas as noites, o menino imaginara que
ele estivesse viajando.
     -- Hoje no trouxe nada. Mas terei uma surpresa para amanh.
     -- Oba! Viu mame? Amanh tem presente.
     Maria Eugnia, que observava a cena, sorriu.
     -- J jantamos. Eu no sabia se voc viria para o jantar. Mas vou
mandar esquentar e servir.
     -- Obrigado, mas no precisa. Estou sem fome.
     -- Vou  copa preparar um lanche. Acho que voc no comeu nada.
     Ela saiu e Henrique ficou brincando com o filho. Ele no olhara
diretamente para Maria Eugnia, mas notou que ela estava arrumada e seu
rosto sereno. Henrique no sabia por que, mas no conseguia encar-la de
frente.
     Aquilo era uma bobagem, porquanto fora ela quem cometera o erro,
no ele. Por que se sentia envergonhado? Talvez por julgar que por am-la
muito estava sendo condescendente demais com o que ela fizera. Afinal,
um marido trado precisa reagir, mostrar-se ofendido, provar que tem brios.
Mas ele no se sentia com foras para isso.
     Lembrou-se das palavras de Rafael e procurou concentrar toda a sua
ateno em Dionsio, que tentava mostrar-lhe como funcionava um
brinquedo novo que a me comprara.
     O menino, em sua linguagem engraada, tentava descrever como o
brinquedo funcionava e Henrique acabou rindo porque, quando ele no
encontrava as palavras, fazia gestos eloqentes demonstrando seu
entusiasmo.
     Quando Maria Eugnia voltou e convidou-o a comer, Dionsio foi
junto. E Henrique dividiu com ele parte do sanduche. Depois perguntou ao
garoto:
     -- J so quase dez horas. Voc no devia estar dormindo?
        -- Eu estava com sono, mas voc cheg e eu esqueci.
        -- Vou lev-lo para a cama.
        Eles subiram e Maria Eugnia os acompanhou, preparando Dionsio
para dormir. Henrique deu um beijo na testa do menino, um boa-noite para
Maria Eugnia e Elvira, que estavam no quarto, e foi para o quarto de
hspedes.
        Depois de acomodar Dionsio, Maria Eugnia foi para o quarto.
Notando que Henrique parecia melhor, por um momento ela alimentou a
esperana de que ele fosse dormir no quarto do casal. Mas isso no
aconteceu.
        Ela suspirou triste. Precisava ser paciente. Ele ter voltado mais cedo,
ter brincado com o menino e aceitado o lanche que ela havia preparado
indicava que sua atitude estava se modificando. Ela sabia que no poderia
fazer outra coisa seno esperar.




        CAPTULO 20




         A partir daquela noite, Henrique voltou a almoar em casa e chegar
em casa na hora do jantar. Porm, sua atitude para com Maria Eugnia
continuava a mesma: s conversava o essencial e continuava dormindo no
quarto de hspedes. Em contrapartida, ele apegara-se mais a Dionsio,
ficando com o menino durante a maior parte do tempo em que estava em
casa.
     Maria Eugnia continuava indo ao centro de estudos espirituais, onde
recebia o tratamento de renovao energtica. Quando se sentia triste,
procurava Eunice para desabafar e buscar conselhos.
     Colocada a par dos acontecimentos, a mdium dissera:
     -- Seja paciente. Ele precisa desse tempo e est amparado pelos
espritos de luz.
     -- Bom, de certa forma, ele melhorou. Pelo menos agora almoa,
janta em casa e brinca com Dionsio. Mas de mim ele no se aproxima. s
vezes penso que deixou de me amar.
     -- No  verdade. Por am-la  que ele sente dificuldade em entender
o que houve. Ainda ontem, um amigo espiritual a quem pedi que auxiliasse
seu caso me disse que ele est sendo ajudado. Eu peo-lhe que evite
pensamentos de medo, de insegurana. Para obtermos bons resultados, 
preciso que voc coopere. Pensamentos de confiana na interveno
espiritual facilitam a ligao dos espritos de luz com vocs. Lembre-se de
que voc valoriza sua famlia e merece que a harmonia seja restabelecida
em seu lar. Fique firme na sua postura, confie em Deus e espere.
     Esses encontros com Eunice, s energias que recebia naquela casa
acalmavam Maria Eugnia e davam-lhe foras para ficar firme e esperar.
Contudo, ela comeou a observar que uma vez por semana, s quartas-
feiras, Henrique avisava que no iria jantar. Isso comeou a intrig-la.
Aonde Henrique estaria indo?
     Ele comparecia s sesses de terapia com Rafael, que por vezes
duravam mais de uma hora. Ao sair de l, preferia jantar em algum lugar,
para no incomodar a rotina da casa. Era tambm uma forma de respirar
um pouco, ter momentos de reflexo sobre as conversas que estava tendo
em terapia.
     Naquela noite, a sesso fora mais fundo e ele conseguira perceber
melhor o prprio conflito.
     Rafael lhe perguntara como estava seu relacionamento com a esposa,
ao que ele respondeu:
     -- No mudou nada. Eu s converso com ela o essencial. Assim
mesmo, no consigo olhar nos olhos dela.
     -- O que aconteceria se voc a encarasse?
     -- No sei. Algo desagradvel.
     -- Entre nisso e sinta como  isso.
     -- No quero. Me sinto um fraco. Ela  culpada e eu  que sinto
vergonha. Porque sou uma pessoa sincera, honesta, enquanto ela...
     -- Ela traiu sua confiana.
     -- Isso mesmo.
     -- E, por isso, ela precisa ser castigada. Um marido no pode aceitar
uma atitude dessas. Ela tem que sofrer pagar pelo que fez.
     -- Mas seu corao no deseja separar-se dela. Voc a ama!
     Os olhos de Henrique encheram-se de lgrimas e ele gritou
desesperado:
     -- Eu a amo, apesar de tudo! Sou um fraco! Tenho que reagir.
     -- No. Voc tem que amar. Essa  sua verdade. Voc a ama.
     -- Mas eu no quero isso. Eu no posso am-la.
     -- Por qu?  isso que sua alma quer.
     -- No, eu no posso. No  direito.
     -- Voc perdeu a confiana e teme que ela faa a mesma coisa de
novo?
     Ele pensou um pouco e meneou a cabea negativamente:
     -- Isso, no. Ela mudou muito, no seria capaz.
     -- Nesse caso, o que o impede de continuar amando-a?
     -- No sei... Um marido no perdoa uma ofensa dessas!
     -- Voc no  um marido. Voc  um homem que ama,  amado e
entende que o erro que sua mulher cometeu foi ocasional e no se repetir.
     -- Mesmo assim...
     -- Feche os olhos, esquea o orgulho, sinta quanto voc a ama.
     Henrique obedeceu. Rafael esperou alguns instantes, depois
continuou:
     -- Seu corao no deseja a separao. Mas seu orgulho acha que
deve assumir o papel do marido, e  esse papel convencional que o est
pressionando a no perdoar.  sua vaidade que deseja castig-la, faz-la
pagar pela dor que est sentindo.  essa a raiva que voc sente quando
pensa no fato.
     --  verdade. Fico com muita raiva.
     -- A raiva  uma fora natural, mas que precisa ser canalizada
devidamente para no nos fazer mal nem prejudicar os outros. A
indignao, a raiva, quando utilizadas adequadamente, podem nos
impulsionar para frente.  a mesma fora que nos faz reagir s injustias,
defender as causas difceis, enfrentar perigos e vencer.
     -- Talvez. Mas eu no sei fazer isso.
     -- Est bem. Ento volte para casa e separe-se dela. Quem ter a
guarda de seu filho? Como ser sua vida depois disso?
     Henrique estremeceu:
     -- No! Eu no saberia viver longe de Dionsio. Tambm no teria
coragem de separ-lo dela. Ele  mais ligado a ela do que de mim. Sofreria
muito.
     -- Todos sofreriam. Mas seu orgulho estaria satisfeito. Ela estaria
sendo castigada.
     -- Eu sofreria mais. Meu filho no tem culpa de nada. Ele tambm
seria castigado.
     -- Ento reconhea que voc no quer a separao.
     Ele pensou um pouco e respondeu:
     -- No, eu no quero. Todos iramos sofrer.
     -- Repita isso.
     Ele repetiu.
     -- Diga de novo.
     Henrique obedeceu. At que gritou emocionado:
     -- Eu no quero me separar deles!
     As lgrimas corriam pelo seu rosto e Rafael, em silncio, entregou-lhe
a caixa de lenos. Henrique apanhou um e enxugou os olhos, porm as
lgrimas teimosamente continuavam a cair.
     -- Chore -- tornou Rafael. -- Jogue fora toda a sua mgoa.
     Henrique permitiu que as lgrimas corressem. Quando elas pararam,
enxugou o rosto.
     Rafael colocou a mo no brao dele e disse:
     -- Ficou claro que vocs se amam e todos sofreriam com a separao.
Pense no que  mais importante para voc: satisfazer seu orgulho, sufocar
seus sentimentos, ou compreender que errar  humano e faz parte do
amadurecimento pessoal.
     -- Compreender seria a melhor soluo. Mas ainda no sei se posso
conseguir.
     -- Hoje conseguimos analisar melhor a situao. Mas, apesar disso,
voc no precisa decidir nada ainda. V para casa, comece a observar o que
voc mais gosta quando est l. Por ora, chega.
     Henrique levantou-se.
     -- Lembre-se de que pode me ligar se precisar.
     Despediram-se e Henrique saiu. Foi andando at o estacionamento,
apanhou o carro e foi para casa. No parou para comer. Estava sem fome e
achava que sua aparncia no estava das melhores.
     Chegou em casa e foi direto para o quarto de hspedes. No sentia
vontade de ver ningum. Felizmente Maria Eugnia estava no quarto de
Dionsio e no o viu chegar.
     Ele fechou a porta, foi ao banheiro e olhou-se no espelho. Seus olhos
estavam vermelhos e ele lavou o rosto tentando melhorar a aparncia.
     Percebia que estava sensvel. As palavras de Rafael estavam vivas em
seu esprito.
     O que  mais importante: satisfazer seu orgulho, sufocar seus
sentimentos, ou compreender que errar  humano?
     Estirou-se na cama.
      Voc acha que, como marido, deve castig-la.
      sua vaidade que deseja isso.
     Ele no podia ver, mas naquele momento o esprito de Norma
aproximou-se dele e colocou a mo em sua testa. De seu corao saa uma
luz azul que envolveu Henrique, enquanto ela lhe dizia:
     -- A vaidade  m conselheira. No d importncia ao orgulho. Deixe
falar seu corao.
     Henrique no ouviu, mas comeou a lembrar-se de Maria Eugnia
com Dionsio pequenino nos braos, emocionada, beijando-o com amor.
     Um calor agradvel invadiu seu peito, e outros momentos de carinho e
alegria vieram  sua lembrana.
     O esprito de Norma continuava com a mo sobre a testa dele. Agora,
de seu corao saa uma energia cor-de-rosa que o envolvia inteiramente.
     Henrique percebeu que amava profundamente Maria Eugnia e
Dionsio. Era uma sensao de plenitude que enchia seu peito de alegria e
prazer.
     Em meio a essa sensao, adormeceu e sonhou que estava em um
jardim muito florido, onde o ar era perfumado, e uma jovem mulher
aproximou-se dizendo:
     -- Como vai, Henrique?
     -- Voc? -- respondeu ele. -- H quanto tempo!
     Depois de abra-la, ele perguntou:
     -- Eu sei que nos conhecemos, mas de onde?
     -- De antes de voc reencarnar. Somos amigos h muito tempo.
     -- Eu no entendo o que diz. Reencarnar?
     -- Nascer na Terra. Voc nasceu de novo; eu, no. Mas isso no
importa. Quero que se sinta bem. Vou lev-lo a um lugar muito lindo. Voc
vai gostar.
     Ela passou seu brao no dele e ambos saram deslizando por sobre os
jardins. O cu coberto de estrelas encantava Henrique, enquanto aquela
sensao prazerosa no peito dava-lhe uma alegria inexplicvel.
     Durante algum tempo eles voltaram sobre uma cidade, depois
voltaram ao jardim e ela perguntou:
     -- E ento? Como voc se sente?
     -- Flutuando. Eu gostaria de ficar aqui com voc.
     -- Ainda no  hora. Voc precisa voltar.
     Henrique lembrou-se dos problemas com Maria Eugnia e seu rosto
contraiu-se.
     -- No entre novamente na tristeza. Pense que nada acontece por
acaso. Os desafios da vida so preciosas oportunidades de amadurecimento.
Lembre-se de que o entendimento eleva, traz discernimento, amadurece,
enquanto o julgamento limita, dificulta, atrai sofrimento.
     Henrique acordou, mas as ltimas palavras dela ainda soavam em seus
ouvidos:
     Lembre-se de que o entendimento eleva, traz discernimento,
amadurece, enquanto o julgamento limita, dificulta, atrai sofrimento.
     Em sua lembrana estavam vivas as cenas do sonho. Ao recordar,
sentia novamente a emoo gratificante daqueles momentos.
     Aquele no lhe parecia um sonho comum. O rosto da mulher
desenhou-se novamente em sua lembrana, e ele pensou:
     Eu a conheo. Mas de onde?
     Ela lhe pedira entendimento. Como poderia entender a traio da
esposa? Lembrou-se das palavras que Maria Eugnia lhe dissera:
     O que aconteceu com Pierre foi um envolvimento ocasional que eu
justificava como vingana por voc ter se relacionado com outra.
     Ao pensar nisso, a mgoa de Henrique reapareceu e ele franziu o
cenho.
     Est doendo em mim tambm.
     Eu lamento ter machucado voc, mas reconheo que esta experincia
fez-me crescer, valorizar as coisas boas que eu tenho.
     Continuo a mesma mulher que sempre o amou e amou nosso filho.
     Henrique remexeu-se na cama, inquieto. Lembrou-se dos tempos de
namoro, do casamento, de como ela se tornara dedicada depois do
nascimento de Dionsio.
     Ele sentia-se indeciso, inseguro. As frases do sonho misturavam-se s
de Rafael e a tudo que Maria Eugnia lhe dissera. Ele queria dormir
esquecer, descansar.
     Henrique no notou que o esprito da mulher com o qual havia
sonhado estava postado  sua cabeceira. Mos estendidas, ela orava
pedindo a Deus que o ajudasse a encontrar a paz.
     Aos poucos ele foi se acalmando e finalmente conseguiu adormecer.
     Acordou no dia seguinte com as batidas na porta do quarto.
Assustado, olhou o relgio e viu que passava do meio-dia. Levantou-se de
um salto e abriu a porta. Maria Eugnia tornou:
     -- Desculpe ter batido na porta. Mas voc no costuma dormir tanto.
Fiquei preocupada. Voc est bem?
     -- Custei a dormir e perdi a hora. Vou tomar um banho rpido e sair.
     -- Est bem. Vou mandar tirar o almoo. Ou prefere um caf
reforado?
     -- Estou sem fome. Um caf  o suficiente.
     Ela acenou afirmativamente e desceu. Henrique foi para o chuveiro.
Depois do banho, notou que se sentia muito melhor. A inquietao dos
ltimos dias lhe havia passado.
     Parecia-lhe haver acordado de um pesadelo. Sentou-se para tomar
caf. Dionsio, vendo-o, correu para ele, que o tomou no colo.
     -- Papai lindo! Quelo fic com voc.
     -- Eu tambm quero s que preciso ir trabalhar. Mas voc vai ficar
comigo at eu acabar de comer.
     -- Oba! Eu quelo do seu po!
     Henrique riu contente e deu um pedao de po a ele.
     -- S isso? -- reclamou o menino.
     -- Voc vai almoar.
     -- No. Eu j comi, no , mame?
     -- .
     -- Coma esse e, se quiser mais, eu darei.
     Henrique terminou de comer e Dionsio o acompanhou at a porta.
     -- Quelo fic com voc!
     -- Agora no pode. Papai vai trabalhar. Hoje, quando eu voltar,
prometo que vamos brincar muito.
     -- Demola...
     -- Olha, enquanto eu no chegar, brinque com Elvira.
     -- Eu brinco com mame.
     Henrique saiu apressado e Maria Eugnia abraou Dionsio, enquanto
ele reclamava que queria brincar com o pai.
     Henrique chegou ao escritrio e colocou todo o empenho nos assuntos
de trabalho. Pela primeira vez, depois de ter recebido a carta de Pierre, ele
conseguiu interessar-se e resolver as pendncias da empresa sem que seus
problemas pessoais interferissem. No fim da tarde, pediu um lanche e
resolveu ficar at mais tarde para pr em dia o que deixara para trs.
     Eram sete horas quando Maria Eugnia entrou no centro de estudos
espirituais para o tratamento habitual. Ela havia ido um pouco mais cedo,
porquanto pretendia ser atendida em primeiro lugar para que Henrique a
encontrasse em casa quando voltasse do trabalho. Como o tratamento s
comearia s sete e meia, ela foi  livraria com a inteno de comprar um
livro para estudar espiritualidade.
     Rafael e Marina estavam l. Eles costumavam freqentar a livraria do
centro, interessados em continuar seus estudos do assunto.
     Vendo-a entrar, Marina estremeceu e tratou de dissimular o
nervosismo. Notou que Rafael olhava para Maria Eugnia com curiosidade.
     Quando saram da livraria, Marina no se conteve:
     -- Voc conhece aquela moa?
     -- De vista. O marido dela  meu cliente.
     Marina no respondeu e pensou assustada:
     Era muita coincidncia Henrique ser cliente de Rafael. Por que ser
que a vida est nos aproximando? Tenho estudado que todos os
acontecimentos da vida tm uma mensagem. O que  que ela quer me dizer
com isso?
     Ela entrou na sala para o trabalho voluntrio, mas continuava intrigada
com o que acontecera.
     Talvez seja uma forma de a vida me dizer que preciso contar meu
segredo para Rafael antes de nos casarmos. No posso dividir minha vida
com ele sem lhe dizer a verdade. Mas, ao mesmo tempo, como fazer isso?
Ele vai pensar que sou interesseira, que deu meu filho por dinheiro.
     A esse pensamento, ela sentiu-se indisposta. O trabalho ainda no
havia iniciado e ela pediu licena ao dirigente e saiu. No corredor, viu
Eunice, que se despedia de uma pessoa.
     Esperou que ela terminasse e aproximou-se:
     -- Dona Eunice, no estou me sentindo bem.
     Eunice olhou-a e convidou:
     -- Entre na minha sala. Vamos conversar.
     Ela obedeceu. Marina abriu seu corao. Disse tudo que estava
pensando e perguntou:
     -- O que Rafael pensar se souber o que eu fiz?
     -- Primeiro vamos falar de voc. Sente-se mercenria por haver
aceitado a proposta de Adele?
     Ela hesitou um pouco e respondeu:
     -- Confesso que aceitei a proposta pelo dinheiro. Como eu lhe disse
antes, no foi para que eu pudesse desfrutar de uma vida folgada sem
trabalhar. Foi pela chance de alcanar meus objetivos, de poder tornar-se
independente, dar conforto  minha me, que nos sustentou costurando at
altas horas, proporcionar uma vida melhor a meu irmo. Fiz minha parte:
desde cedo procurei me preparar, estudei muito para me formar, dei o
melhor de mim no trabalho.
     -- O que voc fez prejudicou algum?
     -- No. Ao contrrio. Foi triste ter de separar-me do meu filho, mas
por outro lado, alm de ajudar Adele a proteger o patrimnio de sua
famlia, proporcionei a outra mulher a alegria da maternidade, e a um
homem o direito de ser pai. Soube que eles formam uma famlia feliz e se
amam muito.
     -- Se voc pensa assim, do que tem medo?
     -- Temo que Rafael me veja como uma mercenria. Alm disso, no
sei se tenho o direito de revelar a outro esse segredo que no diz respeito s
a mim.
     Eunice colocou a mo sobre a de Marina.
     -- Acalme seu corao. Se voc no sabe o que fazer agora, no faa
nada. Espere que a vida se encarregar de mostrar-lhe o prximo passo.
     -- Penso que isso j est acontecendo. Essa moa est freqentado
esta casa. H pouco nos encontramos na livraria. Notei que Rafael a olhava
com certa curiosidade. Quando lhe perguntei se a conhecia, ele disse que o
marido dela  seu cliente. Fiquei apavorada. O que a vida quer me mostrar
com isso?
     -- Voc no tem nada a temer. Ore e confie. Tenho acompanhado o
caso de Maria Eugnia. S posso dizer-lhe que ela e o filho se amam de
verdade.
     -- A senhora o conhece?
     -- Sim. Eles moram perto da minha residncia e ela me procurou
porque o menino estava indisposto. Ele  muito lindo e saudvel. Foi
apenas um pouco de energia pesada que o envolveu.
     Marina emocionou-se e algumas lgrimas desceram pelo seu rosto.
     -- Minha filha, no se entristea nem entre em pensamentos
negativos. O esprito que reencarnou atravs de voc  ligado a esse casal.
Voc foi o instrumento que a vida utilizou para que ele pudesse voltar a
ajud-los nesta encarnao. Voc ainda ter outros filhos que lhe daro
muitas alegrias. Por isso, ligue-se com a luz, confie e deixe a vida mostrar-
lhe o que quer de voc.
     -- Suas palavras me aliviam. Adele, quando me pediu que aceitasse,
disse-me tudo isso.
     -- Meus amigos espirituais esto dizendo que essa mulher  uma
pessoa confivel e  muito grata a voc por tudo que fez. No pense mais
nisso. Se um dia sentir que deve contar toda a verdade a Rafael, faa-o sem
medo. Voc no fez nada do que tenha de se envergonhar.
     Marina agradeceu as palavras e despediu-se. Aquela conversa fez-lhe
sentir-se muito bem.
     Do lado de fora, Rafael a esperava.
     -- Vi que voc saiu depressa de nossa sala. O que foi? Sentiu-se mal?
     -- Foi uma indisposio ligeira. J passou.
     Ele abraou-a.
     -- Tenho notado que s vezes voc fica pensativa, parece preocupada.
Est com algum problema?
     -- Nada de especial. J passou.
     -- Voc  muito importante para mim. Farei tudo para v-la feliz. Se
precisar de alguma coisa, no se acanhe.
     -- Obrigada, mas est tudo bem.
     Eles saram e foram tomar um lanche, como de costume.
Conversaram, trocaram idias sobre vrios assuntos, e Rafael no tocou
mais no assunto.
     Marina tinha curiosidade de perguntar-lhe sobre Henrique. Mesmo
sabendo que Rafael nunca lhe contaria nada sobre as sesses de terapia, ela
gostaria de saber como era o pai de seu filho, por que ele estava procurando
ajuda psiquitrica. Mas conteve-se. Nunca havia feito pergunta sobre
nenhum cliente, e certamente Rafael estranharia seu repentino interesse por
Henrique.
     Mais tarde, sozinha em seu quarto, Marina decidiu que nunca lhe faria
perguntas sobre isso.
     Deitou-se, mas, apesar de haver decidido esquecer o encontro daquela
noite, ele no lhe saa da cabea. Ela sentia que o crculo estava se
fechando. Primeiro o fato de ela ter de fazer tratamento energtico em
Maria Eugnia. Segundo, Henrique, em meio a tantos psiquiatras, haver
escolhido exatamente Rafael.
     Ela no provocara a aproximao deles. Alis, preferia mesmo
continuar distante. A possibilidade de aproximar-se do filho deixava-a
assustada. Como reagiria se estivesse frente a frente com ele? Por mais que
procurasse no se emocionar, como seria?
     Depois, havia a promessa formal que fizera a Adele. No desejava
dar-lhe motivos para duvidar de sua palavra. Adele fora to correta, to
franca na hora do acordo e to delicada no trato e no cumprimento do que
lhe prometera que ela queria corresponder a essa confiana fazendo sua
parte.
     Aquele caso estava encerrado. O que precisava fazer era esquecer o
passado, seguir adiante, tocar sua vida. Rafael aparecera, soubera
conquistar sua confiana, seu amor. Ao lado dele, pela primeira vez Marina
pensou em formar uma famlia.
     A lembrana da gravidez, do nascimento de Dionsio, da emoo que
sentira, provocara nela o desejo de ser me, de poder dar todo o amor que
sentira dentro de si ao ouvir pela primeira vez o choro do menino.
     A dificuldade, a dor que sentiu ao separar-se dele fizeram-na avaliar
como seria feliz se pudesse t-lo a seu lado, v-lo crescer. Mas no podia
voltar atrs. Teve de engolir a dor e tocar a vida para frente, pensando no
bem que faria  me e ao irmo.
     Mas foi essa experincia que a fez desejar casar, ter outro filho do
qual no precisasse separar-se.
     Reconheceu que, embora tenha feito tudo por causa do dinheiro, o
benefcio maior foi o fato de faz-la mudar sua forma de pensar e perceber
que mais importante do que uma carreira bem-sucedida era o sentimento de
amor que aquela criana despertara em seu corao.
     Rafael insistira para marcarem a data do casamento. Ela queria esperar
mais. Porm, naquele momento decidiu.
     No dia seguinte marcariam a data, que seria o mais breve possvel.
Eles se amavam, tinham recursos financeiros para manter uma famlia. Por
que esperar mais?
     Logo estariam casados, ela teria outros filhos e tudo estaria esquecido.
Fazendo planos para o futuro, Marina finalmente adormeceu.
     Na tarde seguinte, quando deu a notcia a Rafael, ele ficou muito feliz.
     -- Dia destes me ofereceram uma casa muito bonita no Planalto
Paulista. Hoje mesmo podemos ir v-la. Se voc gostar, fecharei o negcio.
     Ela riu satisfeita:
     -- Voc no me contou que estava procurando casa para ns.
     -- De fato, quando algum me falava de alguma para vender, eu logo
pensava em ns. H alguns dias me ofereceram essa. Penso que pode
servir.
     -- Voc foi v-la.
     -- No. Vi apenas algumas fotos. Mas vou marcar, e iremos hoje
mesmo v-la.
     -- J est tarde. Marque para amanh. Antes temos que marcar a data.
     -- No precisamos de muito tempo. Podemos dar entrada nos papis
amanh mesmo.
     -- Assim, depressa?
     -- No temos por que esperar mais. Vamos ver a casa, depois iremos
a uma agncia de viagens para escolher onde passaremos nossa lua-de-mel.
     -- Est bem. Hoje  noite conversaremos com mame.
     -- Se gostarmos da casa, poderemos levar Ccero e ela para dar
opinio. Quero que eles gostem da casa, uma vez que vo morar conosco.
Seremos uma famlia muito feliz.
     Marina passou a mo delicadamente no rosto dele, acariciando-o.
     -- Eu amo voc!
     Ele beijou-a longamente nos lbios. Casar-se com ela era o que ele
mais queria.
     Saram do escritrio e foram para a casa de Marina. Estavam
radiantes, e Oflia notou logo:
     -- O que aconteceu? Vocs esto iluminados.
     -- Hoje vamos marcar a data do casamento -- disse Rafael.
     -- Para quando ser? -- perguntou Oflia.
     Sentados na sala, Rafael falou dos planos para o futuro: a compra da
casa, o desejo de morarem juntos. Oflia resistiu:
     -- Voc  como um filho para mim. Ccero o aprecia e respeita. Mas
penso que quem casa precisa de privacidade. Vocs devem morar sozinhos.
Ns ficaremos aqui, mas estaremos sempre juntos.
     -- De forma alguma, Dona Oflia. Eu adoro estar junto de vocs. Ns
temos rara afinidade. Nos entendemos, ficamos felizes juntos.
     -- Concordo. Mas ainda penso que um casal deve morar s.
     -- Isso funciona quando as pessoas no tm afinidade. Eu sentia
muito a falta de minha famlia por vivermos sempre to longe. Estou muito
feliz em pensar que estaremos todos juntos, vivendo em uma casa linda,
com alegria e amor. Sei que Marina deseja o melhor para a senhora e para
Ccero. Eu gostaria de contribuir para que vocs sejam felizes a cada dia.
     -- Me, Ccero  muito jovem. Juntos poderemos oferecer-lhe a
segurana de que precisa at poder resolver por si mesmo como levar a
prpria vida. Depois, tudo que eu sempre quis nesta vida foi viver ao lado
de vocs, retribuir de alguma forma tudo que voc fez por mim, com seu
amor, sua dedicao, costurando at tarde para nos sustentar.
     -- No sei... Eu posso cuidar de mim. No quero ser um peso para
vocs.
     -- A senhora  tima em cuidar no s de si, mas tambm de todos
ns, da casa, da comida, de tudo. Ao lev-la conosco, estamos tambm
pensando em ter uma boa administradora de nossa casa. Eu trabalho, estou
muito tempo fora; Marina tambm. Quer que deixemos nossas coisas aos
cuidados de pessoas estranhas?
     Oflia baixou a cabea pensativa. Marina olhou para Rafael, que
piscou o olho malicioso. Ele havia tocado no ponto fraco dela.
     -- De fato -- respondeu Oflia. -- Uma casa sem boa administrao
 um abuso. Olhando desse ponto de vista, seria bom mesmo eu ir.
     -- Voc sabe me, que eu no entendo nada de casa. Depois, como
Rafael disse, eu trabalho fora o dia inteiro. Quem iria cuidar das nossas
coisas?
     -- Est certo. Iremos. Levaremos a Rosa. Ela nos ajudar. Vamos
comemorar. Vou buscar uma garrafa de vinho.
     Eles brindaram. O jantar foi servido e no se cansavam de fazer
planos para o futuro. Nenhum deles viu que o esprito de Norma os
abraava satisfeito, mas todos se sentiam felizes. Aquele era um momento
de alegria e paz.




     CAPTULO 21




      Trs meses depois, em uma tarde ensolarada, Rafael e Marina
reuniram os amigos em um local bonito e espaoso para formalizarem a
unio civil, onde depois seria servido um jantar. Tudo havia sido
programado com bom gosto e capricho.
     Marina chegou ao local, onde j estavam os convidados reunidos, ao
lado do irmo, que a acompanhava orgulhoso. Estavam felizes.
     Rafael havia comprado  casa que mencionara, depois de haver levado
toda a famlia para v-la. Era uma casa espaosa, bonita, confortvel,
construda no meio de um belo jardim, com seis quartos e demais
dependncias, oferecendo conforto e espao para os filhos que certamente
viriam.
     Quando Marina entrou no salo segurando o brao de Ccero, os
msicos comearam a tocar uma msica romntica. Rafael, olhos
emocionados, esperava-a no fundo, ao lado do juiz e do escrivo, prximos
a uma mesa cheia de flores.
     Quando eles estavam prximos, Rafael foi receb-la e eles postaram-
se diante da mesa do juiz.
     Ccero colocou-se ao lado da me e da famlia de Rafael, que havia
comparecido para a cerimnia. Haviam chegado na noite anterior e, embora
desejassem ficar em um hotel a fim de no incomodar, Marina e Oflia no
o permitiram.
     Conhecendo-os, elas entenderam por que Rafael sentia tanta saudade
da famlia. Os pais, Diva e Jos Lus, eram pessoas educadas e de classe,
mas muito simples. Irradiavam simpatia e conquistaram logo a todos.
     Ronaldo, irmo mais velho de Rafael, era um tanto reservado, porm
gentil e carinhoso. J Dora, adolescente, sorriso fcil, irreverente, de bom
humor e muita disposio, animou o ambiente.
     O casal de noivos, rodeado pelos familiares, ouviu as palavras do juiz,
que discorreu alguns minutos sobre a vida de casado e, depois das
perguntas de praxe, os declarou marido e mulher.
     Ento, Eunice aproximou-se e tomou a palavra, proferiu belssima
prece pedindo a proteo divina para o casal, enquanto a msica tocava
baixinho, emocionando os presentes.
     Depois comearam os cumprimentos. Os clientes e amigos de ambos
aproximavam-se para abra-los. A certa altura, Rafael tocou o brao de
Marina e disse:
     -- Quero apresentar-lhe um amigo especial: o Dr. Bernardo Gouveia,
acompanhado de sua noiva, Adele Figueira Rocha.
     Marina olhou assustada. Teria ouvido bem? Levantou o olhar e seus
olhos cruzaram-se com os de Adele, que, sorrindo, abraou-a dizendo:
     -- Prazer em conhec-la.
     Marina, trmula, murmurou um "obrigada" e Adele continuou
olhando-a nos olhos:
     -- Desejo que voc seja muito feliz e que tudo continue dando certo
em sua vida.
     Marina no conteve as lgrimas e abraou-a:
     --  uma felicidade para eu t-la aqui no dia do meu casamento.
     Adele retribuiu o abrao com carinho. Marina gostaria de fazer-lhe
muitas perguntas sobre Dionsio, se eles estavam felizes. Mas conteve-se.
Bernardo cumprimentou-a:
     -- Voc soube escolher. Rafael  um homem sbio.
     -- Por que acha que o escolhi? -- respondeu ela, sorrindo.
     Bernardo e Adele se afastaram para que outros pudessem
cumprimentar o casal. Marina, embora dando ateno aos convidados e
dissimulando seu interesse, observava-os o tempo todo.
     Rafael apresentou Bernardo e Adele a seus pais e irmos, e depois
levou-os at Oflia.
     -- Esta  a me de Marina. Oflia  minha segunda me.
     Observando Adele conversar animadamente com Oflia, Marina
sentiu aumentar sua emoo. Se sua me soubesse! Mas ela nunca iria
saber.
     Marina pensava mais uma vez no fato de a vida coloc-la frente a
frente com seu passado justamente quando ela imaginava que houvesse
resolvido esse assunto para sempre.
     Ela havia decidido no contar a Rafael aquele pedao de sua vida.
Mas agora, diante dessa realidade, a dvida reapareceu: estaria agindo bem
ficando calada?
     E se um dia um desses fatos inesperados os colocasse diante da
verdade?
     Marina estremecia s de pensar nisso. Mas foi Adele quem desfez
suas dvidas. Enquanto Rafael conversava com Bernardo, ela se aproveitou
de um momento em que Marina estava no toalete retocando a maquiagem e
foi at ela conversar.
     -- Tenho acompanhado sua vida  distncia -- disse Adele. -- Eu
sabia que voc seria uma vitoriosa.
     -- V-la aqui hoje me comoveu e trouxe muitas recordaes.
     -- Para mim tambm. Quando Bernardo me convidou para vir, senti
vontade de v-la, saber como foi essa experincia em sua vida. E saber
como voc est agora.
     -- Estou bem. Amo Rafael, minha famlia o adora. Penso que seremos
felizes juntos. Antes eu no pensava em casamento. Mas, depois daquele
tempo, senti despertar em mim o desejo de ser me, ter um filho e poder
dar-lhe o amor que senti e no pude expressar.
     Adele ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:
     -- Essa experincia a humanizou. Devo dizer que, depois disso, todos
ns mudamos. Maria Eugnia tornou-se outra mulher. A vinda do filho
despertou-lhe o amor materno e ela amadureceu, tornou-se melhor. O que
mais me comove  que Dionsio  mais apegado a ela do que ao pai.
     --  bom saber que esto felizes. Eu temia que ela no o aceitasse.
     -- Ele a fez despertar para o amor. E at eu mudei depois que ele
chegou.
     -- Eu e Rafael freqentamos um centro de estudos espirituais, onde
estudamos e prestamos servio voluntrio. Alguns meses atrs, no
atendimento s pessoas, deparei com Maria Eugnia, chorando na minha
frente.
     -- Como? Voc a conhecia?
     -- Tenho acompanhado as notcias sociais e havia visto fotos dela, do
marido e do menino. Naquela noite a reconheci logo. Mas ela estava muito
aflita. Dona Eunice, aquela senhora que fez a orao na cerimnia do
casamento,  uma pessoa abenoada. Ela fundou e  diretora desse centro,
onde atende a todos com amor. Meu irmo tem mediunidade e ela nos tem
orientado.
     -- Eu no sabia que Maria Eugnia havia procurado esse recurso.
     -- Quando a vi, fiquei assustada, principalmente porque ela estava
chorando. Porm me contive, orei por ela, doei energias para que se
acalmasse, mas tive medo de que fosse algum problema com o menino.
Mas depois procurei Eunice para poder me acalmar. Ela sabe de toda a
minha vida. Para ela no tenho segredos.  minha conselheira espiritual.
Foi  nica pessoa para a qual me abri.
     -- Ns no podemos nos demorar aqui. Eu gostaria de contar-lhe por
que ela estava aflita. O menino est muito bem; o problema  dela com o
marido.
     -- Ela tem ido regularmente ao centro, mas nunca conversamos.
Eunice de vez em quando a recebe em sua sala particular.
     -- Marina, qualquer dia irei procur-la para contar-lhe tudo. Voc faz
parte da nossa famlia, embora no seja aconselhvel nos aproximarmos.
Agora vamos. No podemos chamar a ateno.
     Adele saiu primeiro e Marina pouco depois. Na noite seguinte, os
recm-casados iriam viajar para a Itlia em lua-de-mel. Marina gostaria de
que a conversa com Adele fosse antes disso, contudo no havia tempo para
tal. Tinha vontade de saber mais sobre eles. Adele afirmara que a
preocupao de Maria Eugnia no tinha nada a ver com o filho. Ela
acreditava nisso. Adele era pessoa confivel.
     Apesar da emoo, Marina sentia-se feliz com aquele encontro. Adele
continuava manifestando por ela respeito e apreo. Isso a tranqilizava.
Aceitando aquele contrato, no fizera nada de mau e a experincia os fizera
mudar para melhor.
     A festa decorreu alegre e as brincadeiras com os recm-casados
divertiram a todos. Mais tarde, ao despedir-se, Adele perguntou com
naturalidade:
     -- Soube que vo passar a lua-de-mel na Itlia. Ser maravilhoso.
Quanto tempo pretendem ficar?
     -- Um ms -- respondeu Marina.
     -- No  muito -- aduziu Rafael --, mas foi o tempo que
conseguimos acomodar nosso trabalho.
     Bernardo aproveitou o momento:
     -- Rafael contou-me que voc  uma profissional brilhante. Qualquer
dia trocaremos nossas experincias. Pelo que sei ambos militamos na rea
empresarial.
     --  muita gentileza sua falar em troca, uma vez que eu no teria nada
a acrescentar, mas somente a aprender. Conheo sua capacidade, tenho
acompanhado alguns dos seus casos. A vantagem seria toda minha.
     -- Ouvi falar de voc no tempo em que trabalhava para o
     Dr. Olavo. Alis, na poca voc j era muito conhecida em nosso
meio, e alguns colegas at tentaram contrat-la. Se fosse comigo, eu no
teria deixado voc ir embora.
     Marina corou um pouco, lembrando o que acontecera depois. Ele
continuou:
     -- Agora voc encontrou seu prprio caminho. E, pelo que tenho
ouvido em nosso meio, tem se sado muito bem.
     Marina sorriu contente. Um elogio vindo do Dr. Bernardo era
gratificante.
     Eles se despediram e saram. Uma vez no carro, Adele disse:
     -- Gostei de termos vindo. Voc ficou um pouco preocupado com
nossa proximidade, mas foi bom. Marina  muito correta, e esse encontro
no vai nos prejudicar.
     -- Eu tambm gostei. Eles so gente de bem, esto felizes. Acha que
Rafael sabe?
     -- No. Marina disse que a nica pessoa com a qual ela dividiu esse
segredo  sua conselheira espiritual, Dona Eunice, que fez aquela orao
belssima. Acredito que no falou com mais ningum.
     Adele contou-lhe detalhadamente a conversa que haviam tido no
toalete e finalizou:
     -- Ela ficou assustada reconhecendo Maria Eugnia, vendo-a
angustiada, chorosa. Mas conseguiu conter-se.
     -- No deve ter sido fcil para ela.
     -- Na semana que vem, irei visitar essa senhora. Acho que foi ela
quem aconselhou Maria Eugnia a me contar sobre a chantagem. E tambm
aconselhou-a a se colocar diante do marido, como ela fez.

     -- Ns nos distanciamos da religio. Mas a f conforta e ajuda.
     -- No sou religiosa. No gosto das idias que nos limitam, e todas
essas crenas so limitantes. Prefiro acreditar na fora superior que governa
este mundo, cuida de nossas vidas. Quando sinto necessidade de apoio,
ligo-me diretamente com ela e sempre encontro uma boa resposta.
     -- Voc reparou que, apesar de a situao entre Maria Eugnia e
Henrique continuar ruim, ela tem conseguido manter a serenidade e no se
queixar? Voc se lembra de como ela ficava deprimida durante a
adolescncia?
     -- Lembro. No conversava. Ou ento ficava eufrica, fingia alegria,
o que era ainda pior, porque no convencia ningum. Agora ela tornou-se
mais mulher. Eu pressentia que um filho ia fazer-lhe bem.
     -- Por que vai procurar essa Dona Eunice?
     -- Desejo conhec-la, saber mais sobre o que ela faz ouvir sugestes
de como poderei contribuiu para que o relacionamento deles melhore. Mas
antes vou me informar. Quero ir um dia em que Maria Eugnia no v, nem
Marina.
     Ele calou-se durante alguns minutos, depois disse:
     -- A felicidade dos noivos no a inspirou a marcarmos a data do
nosso casamento?
     -- Sim. Se ainda no marquei,  porque para mim nosso casamento
seria como uma comemorao. E, para que a festa fosse completa, eu
gostaria que Henrique e Maria Eugnia tivessem recuperado a felicidade.
     -- Hoje perguntei a Rafael como est indo o tratamento e ele
respondeu que aos poucos Henrique est tomando conscincia da verdade.
Ele j consegue analisar os fatos sem rancor. Mas ainda tem barreiras para
aceitar o que aconteceu.
     Adele suspirou e respondeu:
     -- Por que os homens no conseguem perdoar um momento de
fraqueza? As mulheres so mais condescendentes, ou mais prticas.
Reconhecem que perdoar, dar uma segunda chance,  melhor do que perder
o companheiro.
     -- No vamos esperar mais. Nosso exemplo de felicidade vai fazer
bem a eles.
     -- Talvez. Vou considerar isso. Vamos ver.
     Dois dias depois, Adele saiu do escritrio no fim da tarde e foi visitar
a filha. Encontrou-a na sala lendo, enquanto Dionsio, sentado no cho,
brincava com um carrinho ao lado de Elvira.
     Vendo-a entrar, Dionsio levantou-se e correu para ela, abraando suas
pernas. Adele sorriu, deixou a bolsa sobre a mesinha e pegou-o no colo,
beijando seu rostinho corado.
     Ele retribuiu beijando-a na face.
     -- Vov, que bom! Voc tem presente?
     -- Eu trouxe dois livros de histria muito lindos.
     -- Oba! Veja mame. Tem cachorro, gato, passalinho.
     Maria Eugnia, que havia se levantado, abraou a me.
     -- Que bom v-la! Veja Dionsio, este outro livro tem castelo,
cavaleiro, prncipe e fadas.
     -- Tem feiticlo?
     -- No sei. Ns vamos ler depois.
     -- Eu quelo agola.
     -- Agora vou conversar com a minha me.
     -- Ela no  sua me, ela  minha av!
     Adele interveio:
     -- Eu posso ser as duas coisas. Sou me dela e sua av. -- Vendo
Elvira aproximar-se, ela continuou: -- Pea a Elvira que leia as histrias
para voc.
     Elvira cumprimentou Adele e apanhou os livros. Dionsio, interessado
em ouvir as histrias, concordou em acompanh-la at o quarto.
     Adele sentou-se no sof ao lado da filha e disse:
     -- O que est lendo?
     -- Fatos Espritas, de Sir William Crookes.
     --  interessante?
     -- Muito. Houve poca em que estavam acontecendo fenmenos de
materializao. Alguns jornalistas foram pedir a opinio desse cientista,
que se interessou, mas disse que s poderia opinar se a mdium que
produzia os fenmenos concordasse em ficar hospedada na casa dele, 
disposio de suas pesquisas, durante certo tempo. S depois disso ele daria
sua opinio.
     -- Curioso. E o que ele descobriu?
     -- Suas pesquisas esto relatadas neste livro, e ele comprovou que h
vida depois da morte, que continuamos vivendo em outras dimenses, que
a reencarnao  um fato.
     Adele olhou-a admirada.
     -- Tem certeza de que ele constatou tudo isso?
     -- Tenho. H no livro uma foto em que ele est de brao dado com o
esprito materializado de uma mulher. Estou quase terminando o livro. Se
voc quiser, posso emprest-lo.
     -- Quero, sim. Deve ser interessante. Agora vamos falar de voc.
Como vo as coisas com Henrique?
     -- Um pouco melhores. Ele vem para casa regularmente, est mais
acessvel a conversas, brinca muito com Dionsio, mas no me procura e
continua dormindo no quarto de hspedes. Acho que ele ainda no
conseguiu me perdoar inteiramente.
     -- Pelo menos continua aqui, melhorou o relacionamento de vocs.
Estou certa de que ele vai acabar voltando para voc e tudo ficar como era
antes.
     Maria Eugnia suspirou:
     -- Isso  o que mais quero. s vezes fica difcil suportar a distncia. 
como se houvesse um muro entre ns que no podemos transpor.
     Adele mudou de assunto:
     -- Por que se interessou em ler esse livro?
     -- Conheci uma senhora que mora nesta rua, Dona Eunice. Ela 
mdium, estuda espiritualidade,  diretora de um centro de estudos
espirituais. Certa vez, Dionsio no se sentia bem. Estava inquieto, choroso.
O mdico no sabia o que ele tinha. Elvira, que conhecia Dona Eunice,
sugeriu que o levssemos l para ela fazer uma orao. Fomos. Foi timo.
Ele melhorou e nos tornamos amigas. Ela tem me aconselhado e ajudado
muito.
     -- Deve ser uma pessoa especial.
     --  mesmo. Inteligente, bondosa, lcida. Tenho freqentado seu
centro para um tratamento energtico, que me faz bem, me acalma,
conforta. Sempre saio de l melhor.
     -- Voc nunca falou sobre isso com Henrique?
     Maria Eugnia olhou-a surpreendida:
     -- No. Ns no temos conversado sobre outros assuntos que no os
necessrios. Depois, no sei se ele acreditaria. Nunca falamos sobre isso.
Por que pergunta?
     -- Porque, como voc sabe, ele tem feito sesses de terapia com o Dr.
Rafael, amigo de Bernardo. Noto que est melhorando, mas talvez o que
est sendo bom para voc fosse bom tambm para ele.
     -- No sei. Eu at gostaria que ele fosse, porque  uma filosofia de
vida que nos faz ver os acontecimentos de uma forma melhor, mas at
agora no tive oportunidade de falarmos sobre isso.
     -- O que essa Dona Eunice a aconselha?
     -- Ela disse que ele precisava de um tempo. Que eu no o
pressionasse. Que tivesse pacincia, continuasse fazendo minha parte como
boa esposa e me, porque no momento oportuno a vida se encarregaria de
fazer o melhor.
     -- Interessante forma de pensar. Entendo que pressionar Henrique
teria mesmo aumentado sua resistncia a perdoar.
     Elas continuaram conversando. Ao despedir-se, Adele pediu  filha o
nmero de telefone do centro de Eunice.
     --  para uma conhecida minha que perdeu o marido e est
inconsolvel.
     -- Tenho certeza de que Dona Eunice saber confort-la.
     Na tarde seguinte, Adele foi visitar Eunice em casa. Ela havia
telefonado se apresentado, dizendo que desejava conhec-la e conversar
sobre a filha. No queria encontrar-se com pessoas conhecidas.
    Assim que Adele entrou, foi conduzida ao escritrio de Eunice, que,
vendo-a, levantou-se sorrindo:
    -- Seja bem-vinda  minha casa.
    --  com prazer que venho cumpriment-la. Sou muito grata pela
ajuda que tem dado a Maria Eugnia. Ela est muito melhor.
    -- Ela tem se esforado e progredido muito. Mas sente-se, por favor
-- tornou Eunice, indicando uma poltrona e sentando-se em outra.
    -- Maria Eugnia me disse que no tem segredos para a senhora.
    -- Senhora, no. Voc, por favor.
    -- Certo. Voc. Sei que Marina e o Dr. Rafael tambm esto
freqentando seu centro de estudos espirituais. Confesso que isso me
surpreendeu, mas ao mesmo tempo me assustou um pouco.
    -- No precisa preocupar-se. Marina  uma mulher especial e
confivel, como deve saber.  um esprito elevado; no h o que temer.
    -- Gosto de Marina. Dela s recebi benefcios. Confio nela, mas o que
me assusta  que a vida est nos aproximando. Por qu?
    -- Isso tambm no  motivo para preocupar-se. A vida promove o
progresso, trabalha em favor da evoluo dos espritos e s age para
melhor.
    -- Voc sabe por que est acontecendo isso?
    -- No.
    -- Voc  mdium, poderia perguntar isso aos seus guias.
    -- No costumo fazer isso porque sei por experincia prpria que eles
s falam o que podem, quando querem. Sei tambm que, quando
precisamos tomar conhecimento de alguma coisa, a verdade nos aparece,
de uma forma ou de outra.
    --  isso que eu temo: que ela aparea e possa nos trazer problemas.
    Eunice meneou a cabea negativamente:
     -- No vai ser assim. Essas revelaes ocorrem dentro de cada um, no
momento em que a pessoa precisa delas. Os espritos so sutis quando
desejam nos mostrar a verdade, e ela pode nos aparecer de vrios modos:
um pensamento inesperado, algum que nos diz uma frase que nos toca um
livro que nos vem s mos, etc. A vida  sbia e no joga para perder.
Quando ela traz um desafio,  porque a pessoa est madura para venc-lo.
     -- Suas palavras so confortadoras. H o fato da chantagem de que
fomos vtimas por parte daquele francs. Voc certamente leu aquela carta.
     -- Conheo o teor da carta de Pierre. Ele ser julgado, condenado por
assassinato. Pegar muitos anos de priso, ser mandado para longe, para
uma ilha de onde no sair vivo.
     -- Quer dizer que ele  culpado mesmo daquele crime?
     -- Sim. E tambm de outro que a polcia ignora que foi ele.
     -- Como sabe?
     -- Vejo-o rodeado por espritos que clamam vingana. Tanto a moa
que ele matou quanto o jovem que ele afogou no Sena esto ao lado dele.
Esses espritos no lhe do sossego. Faro tudo para tir-lo do corpo, isto ,
provocar sua morte.
     -- Que horror! Existe isso?
     -- Do que se admira? As pessoas so livres para escolher o prprio
caminho. A situao em que ele est agora resulta de suas atitudes.
     -- Sempre acontece isso? O assassinado fica ao lado do criminoso?
     -- Nem sempre. Logo depois da morte, esses espritos so assistidos
por amigos do bem, que desejam ajud-los a vencer o momento difcil. Mas
para receber essa ajuda eles precisam concordar em ir para lugares de
tratamento, esforar-se para no guardar rancor, mesmo porque ningum 
vtima e nada ocorre por acaso.
     -- Mas isso no  fcil.
     -- No  mesmo. Os que possuem mais entendimento aceitam, mas os
que no querem so deixados livres para essa experincia, o que certamente
lhes trar mais sofrimentos.
     -- Ento h os que aceitam e no desejam vingar-se. Nesse caso, seu
assassino ficar impune?
     -- De forma alguma! Ao cometer o crime, ele acumulou energias
pesadas e elas vo atrair para ele espritos atrasados que cultivam o mal. A
justia divina responde a cada um conforme o que d.  lei da vida.
     Adele pensou um pouco, depois disse:
     -- Interessante. Sempre questionei a justia. A humana  precria e
parcial, e a divina eu achava tardia e distante. Suas palavras mudam minha
forma de ver. Sinto vontade de entender mais.
     -- Se desejar, posso indicar-lhe alguns livros.
     -- Agradeo muito.
     Adele fez ligeira pausa, depois continuou:
     -- No sei se voc sabe, mas Henrique, meu genro, est fazendo
terapia com o Dr. Rafael. Tem melhorado, mas no seria bom se ele
tambm viesse fazer o mesmo tratamento que Maria Eugnia tem feito em
seu centro?
     -- Seria timo. Ele vir quando for o momento.
     -- Talvez fosse bom Maria Eugnia convid-lo.
     -- Ainda no. Os nossos amigos espirituais esto cuidando do caso
deles.  melhor no interferirmos. Quando eles acharem oportuno, o traro.
     Adele olhou-a admirada.
     -- Sua f me impressiona.
     -- No h nada de estranho. Ela resulta das minhas experincias.
Desde criana tenho convivido com essa realidade. Para mim  natural, faz
parte da minha vida, e eu no saberia mais viver sem esse entendimento. 
confortador saber que a vida continua depois da morte do corpo, perceber
que ningum est s nos momentos de dificuldade. E que existem outros
mundos de diferentes nveis de conhecimento e h lugares onde a felicidade
 constante e todos temos chance de um dia ir viver l.
     -- Voc est descrevendo um mundo maravilhoso. Ser isso mesmo?
     -- Para mim j . Mas infelizmente no h como transmitir minha
certeza a voc. As crenas materialistas do mundo formam uma barreira
que muitos ainda no conseguem transpor. Mas estou certa de que, se voc
buscar a verdade, ela se revelar e todas suas dvidas vo desaparecer.
     Adele olhou-a pensativa. Ela fora quela entrevista interessada em
auxiliar o casamento da filha, porm encontrara muito mais do que isso.
     Ela vira muitas vezes a maldade levar a melhor, pessoas boas sendo
prejudicadas, e nesses momentos costumava questionar Deus, as religies.
Aproveitou o momento para saber mais:
     -- Voc garante que ningum  vtima e que a justia divina responde
a cada um conforme o que d, mas tenho visto pessoas bondosas serem
prejudicadas por malfeitores e muitos canalhas que, apesar de suas
maldades, continuam tendo uma vida boa.
     --  que voc est olhando apenas do ponto de vista material. 
preciso ir mais fundo. Para isso, h que estudar a reencarnao.
     -- Reencarnao? Li algumas coisas sobre isso. Mas considero de
certa forma fantasioso.
     --  primeira vista, pode parecer, porque a maioria das pessoas no se
recorda de haver vivido outras vidas, conservando delas apenas impresses
subjetivas. Quem est mergulhado na maldade poder permanecer assim
durante muito tempo, viver algumas encarnaes onde a vida primeiro tenta
por meio de situaes do dia-a-dia fazer com que essa pessoa perceba seus
pontos fracos e os modifique. Para isso lhe concede um certo tempo, findo
o qual, caso ela esteja resistente, permitir que ela receba as conseqncias
do mal que fez.
     -- Quem est na maldade no se convence facilmente. Eu sei. Nesse
caso, por que esperar tanto tempo?
     -- Porque depois de viver mais algumas encarnaes, mesmo
conservando a maldade, o esprito vai se modificando. As contrariedades,
as doenas, os limites da velhice, a dependncia fsica vo sensibilizando o
esprito mais empedernido, desfazendo suas iluses, mostrando-lhe a
realidade.  assim que a inteligncia divina universal age. Todos os dias
recebemos recados da vida, com os quais ela nos ensina a viver melhor.
Contudo, se resistimos ao bem e permanecemos no mal, ela permitir que
os resultados das nossas maldades nos alcancem.
     -- Mas tenho visto pessoas bondosas que sofrem muito. Voc diz que
no existem vtimas...
     --  medida que vamos desenvolvendo nossa conscincia,
percebemos que o mal no se resume apenas em agredir os outros ou
prejudic-los. Ele vai alm.
     -- Como assim?
     -- Quando voc reencarna, a vida est lhe oferecendo uma
oportunidade de progresso, aprimoramento, mas determina que voc
precisa valorizar isso e cooperar com ela.
     -- De que forma?
     -- Primeiro, cuidando do corpo que lhe foi dado como instrumento de
progresso, sem o qual no poderia viver na Terra. Quando voc se deprime,
quando no se aceita como  ou relaxa com a sade, est no mal.
     -- Nunca pensei nisso. At onde vai esse conceito?
     -- Muito mais longe. Na esfera dos pensamentos,  pior. Quando voc
d importncia a idias negativas, quando entra na maledicncia e no
julgamento dos outros, est no mal.
     -- Estou vendo que no  fcil ficar no bem.
     --  por isso que nos demoramos tanto tempo reencarnando na Terra.
E tem mais. Quando voc entra nas iluses do mundo e quer parecer o que
no , est negando seu esprito, sua verdade. Esse tipo de mal  um dos
mais comuns e  o que traz os maiores sofrimentos. Depois, h a
responsabilidade coletiva. Precisamos retribuir os benefcios que o Planeta
nos oferece, respeitando a natureza e todo ser vivo, tornando o mundo mais
bonito, mais limpo, mais habitvel.
     -- Voc ainda no mencionou a ajuda aos outros. No  fundamental?
     --  prazeroso ajudar os outros, porm a ajuda s funciona quando
sentimos amor no corao. No  fcil ajudar com inteligncia e a favor do
que a pessoa precisa. s vezes, na tentativa de ajudar, metemos os ps
pelas mos, interferimos na vida alheia, e sem querer agravamos seus
problemas.
     -- Tem razo. Eu mesma j tive alguns problemas por causa disso.
     --  por isso que eu disse: s funciona quando sentimos amor no
corao. Em minha experincia, tenho notado que, quando a pessoa
realmente precisa e eu posso fazer alguma coisa em benefcio dela, sinto
intuio, vontade de fazer. Ento fao. Porm, se eu no sentir nada, no
tento.
     -- Obrigada por suas palavras. Elas me esclareceram me fizeram bem.
Vou pensar sobre isso.
     Adele ficou pensativa por alguns instantes, depois levantou-se:
     -- Obrigada tambm por tudo quanto tem feito pelos meus. Gostaria
que me indicasse os livros.
     -- No h do que agradecer. Para mim foi uma alegria receb-la.
Estou certa de que nos veremos muitas vezes.
     Eunice disse essas palavras olhando-a firme nos olhos e Adele de
repente sentiu que um dia, em algum lugar, j havia estado com ela
olhando-a firme nos olhos como naquele momento.
     Eunice escreveu o nome de dois livros em um papel e deu-o a ela,
depois abraou-a com carinho:
     -- Deus a abenoe.
     Adele agradeceu e saiu. No conseguia se esquecer dos olhos de
Eunice e de sua lembrana de estar repetindo uma cena j vivida. Onde
acontecera? Quando? Por mais que tentasse, no conseguiu se lembrar,
porm a cena continuava viva em sua lembrana e ela tinha certeza de que
j a havia conhecido antes.




     CAPTULO 22




      Henrique entrou na sala de Rafael para mais uma sesso de terapia.
Depois dos cumprimentos, ele sentou-se na poltrona e esperou. Rafael
sentou-se em outra na frente dele e, olhando-o, perguntou:
     -- E ento, como vo as coisas?
     -- Mais ou menos. Nos ltimos dias tenho tido dificuldade para
dormir e, quando consigo, tenho pesadelos horrveis.
     -- Quando comeou?
     -- Desde que espaamos nossas sesses de terapia.
     Rafael ficou pensativo por alguns instantes, depois disse:
     -- O que acontece nesses pesadelos?
     -- Estou perdido em um lugar escuro, sinto medo, parece que alguma
coisa de ruim vai acontecer. Tento me esconder, porm aparece uma
mulher plida, enlouquecida, com uma criana nos braos. A presena dela
me causa horror. Por mais que eu tente me esconder, ela sempre aparece.
     -- Ela no disse por que o persegue?
     -- Ela levanta os braos, nos quais a criana parece desmaiada ou
morta, no sei bem, e grita me chama de assassino.
     -- Os sonhos so sempre os mesmos?
     -- No. Embora a mulher seja a mesma e a criana tambm, ela grita
comigo e nem sempre consigo entender o que ela diz. Fico apavorado,
suando frio, em pnico. Acordo preocupado com meu filho vou ao quarto
dele ver se est bem. Mas depois no consigo dormir. Fico angustiado, com
medo de v-la de novo.
     Rafael levantou-se, apanhou um copo de gua e deu-o a ele.
     -- Beba, acalme-se. No tenha medo. No vai acontecer nada.
     -- Eu queria entender. Quando eu estava revoltado, no acontecia
isso. Agora, que estou me sentindo mais calmo e tenho me esforado para
melhorar meu relacionamento familiar, acontece. No sei o que pensar.
Todo o tratamento aqui teria sido intil?
     -- Claro que no! Voc tem aproveitado muito nossas conversas. E,
para ser sincero, acho at que est pronto para ter alta.
     -- Alta? Isso no pode ser. Preciso muito de sua ajuda.
     -- No como terapeuta. Durante minha viagem de lua-de-mel, no o
encaminhei para outro mdico porque achei que esse tempo seria til para
observarmos como se sentiria. Apesar do que me diz, acredito que no
momento voc precisa espaar as sesses, dar tempo para assimilar tudo
que percebeu durante nossos encontros.
     -- Mas eu piorei.
     -- Os pesadelos que tem tido no me parecem causados por
problemas emocionais.
     -- No estou entendendo.
     -- Voc precisa de ajuda espiritual, no teraputica.
     -- Quer me abandonar justamente quando no estou bem?
     -- O que est acontecendo com voc  um assdio espiritual.
        -- O qu? Como  isso?
        -- Algumas vezes tenho mencionado a voc que me dedico aos
estudos da espiritualidade, que envolvem fenmenos de vida aps a morte,
de reencarnao, de comunicao com os espritos.
        -- Tem mencionado seus estudos, porm nunca conversamos sobre
isso.
        -- Chegou o momento de falarmos a respeito.  primeira vista, parece
que esses pesadelos tm a ver com assuntos mal resolvidos de suas vidas
passadas.
        -- Pensa que eu j vivi outras vidas?
        -- Todos ns j vivemos vrias encarnaes no mundo. No lembrar
das outras vidas  um recurso de proteo, uma vez que somos colocados
face a face com desafetos de outros tempos. Assim  mais fcil uma
reconciliao.
        -- Estou admirado. Nunca pensei que um mdico acreditasse em
espritos.
        -- Quem v a vida e a morte face a face tem mais chance de perceber
essa realidade.
        -- Quer dizer que essa mulher do meu sonho existe em algum lugar?
        -- Sim. Mas como, onde ela est agora, precisamos descobrir.
        -- D para explicar melhor?
        -- Ela  um esprito, e o esprito  eterno. Por isso ela deve estar em
algum lugar. Pode estar reencarnada aqui, pode estar nas comunidades
astrais.
        -- Mas ela tem uma aparncia ruim. Deve estar muito mal. E a
criana? Existe tambm?
        -- Tambm. Mas tudo isso pode aparecer em seu sonho da forma
como aconteceu no passado, o que significa que eles agora podem estar
muito diferentes. A criana pode ser adulto, a mulher pode estar melhor.
     -- Tudo isso me parece difcil de entender. Estou confuso.
     --  que o seu pesadelo pode ser a rememorao de um
acontecimento de outras vidas que ficou guardado em seu inconsciente e
alguma necessidade sua trouxe  tona. Talvez tenha relao com os seus
problemas de agora. Claro que hoje tudo j est diferente. Todos mudaram.
Mas em seu sonho aparece como aconteceu naquele tempo.
     -- Agora ficou mais claro. Quer dizer que os assuntos mal resolvidos
ficam no inconsciente?
     -- No s os assuntos mal resolvidos, mas tudo quanto vivemos fica
gravado em nosso inconsciente. Embora estejamos esquecidos de tudo, ele
nos manda as informaes em forma de intuies.  assim que vamos
amadurecendo espiritualmente.
     -- Voc, dizendo isso, fez-me lembrar que, quando eu era estudante,
havia coisas que eu j sabia mesmo antes de o professor ensinar. Eu tinha a
sensao de que conhecia aquele assunto. E era verdade.
     -- Isso  muito comum. Por outro lado, h crenas aprendidas por
meio da educao, regras, costumes, que aceitamos em outras vidas sem
nunca questionar se eram verdadeiras, que ficam arquivadas em nosso
subconsciente, limitando nosso progresso, confundindo nossa cabea, e que
resistimos a modificar. s vezes  preciso um choque, um sofrimento, para
que possamos acordar para a verdade.
     -- Este  um assunto novo para mim. Ontem, em casa, ao entrar na
sala chamou minha ateno um livro sobre a mesa intitulado Fatos
Espritas. Perguntei  criada de quem era e ela informou-me que Maria
Eugnia o estava lendo. Agora voc me fala sobre isso.  curioso.
     -- No. Isso aconteceu porque  chegado o momento de voc estudar
esse assunto. Sua esposa nunca lhe falou sobre isso?
     -- No. Eu consigo entender os problemas que provocaram a crise em
nosso relacionamento. A raiva deu lugar  tristeza porque, apesar do que
passou, eu a amo muito. Depois, o carinho que ela dedica a Dionsio me
comove. Contudo, sinto que h uma barreira entre ns que no consigo
vencer.
     -- Vocs se amam, tm toda uma vida pela frente. Por que no diz a
ela o que vai em seu corao? No foi isso que ela fez?
     -- Foi. Mas, quando me aproximo dela, sinto o peito oprimido e no
consigo quebrar o gelo. Ela no me falou sobre o livro porque no lhe dou
chance de conversar. S trocamos algumas palavras indispensveis.
     -- Voc pode quebrar esse gelo. Ao aproximar-se dela, basta lembrar-
se dos momentos bons que desfrutaram juntos.
     -- Sinto saudade, falta de carinho. Muitas vezes penso em procurar
outra mulher, mas no consigo interessar-me por ningum.
     -- Vocs esto distantes tempo demais. Isso no  bom. Pense bem.
Quantas vezes ns homens temos tido relacionamentos fortuitos e sabemos
que eles sempre deixam um vazio maior em nosso corao? O sexo s
satisfaz nossas necessidades de afeto quando  feito com amor. J pensou
que ela pode acreditar que voc deixou de am-la, se cansar? Nunca pensou
que pode perd-la?
     Henrique olhou-o assustado. Ficou pensativo por alguns instantes,
depois tornou:
     -- Isso seria o caos. Vou tentar me aproximar dela outra vez.
     -- Faa isso. Afinal, voc no quer se separar; ela, muito menos.
Ento por que no tentam desfrutar do amor que tm no corao?
     -- Tem razo. Mas, quanto aos meus pesadelos, o que me aconselha?
     -- Seria um assunto bom para voc iniciar uma conversa com sua
esposa. Talvez ela possa encontrar uma soluo boa.
     -- Por que pensa isso?
     -- Porque ela est estudando esse tema e o livro que voc mencionou
 fruto das pesquisas de um grande cientista.
     -- Isso me surpreende ainda mais. Maria Eugnia nunca foi dada a
estudos cientficos.
     -- As pessoas mudam, amadurecem.
     -- Reconheo que ela mudou muito. Vou tentar falar com ela.
Contudo, ainda penso que preciso continuar tendo terapia.
     Rafael sorriu:
     -- No momento, voc no precisa mais. Porm, como amigo, pode me
procurar quando quiser. Terei o maior prazer em conversar com voc. Mas
no vou tomar o seu dinheiro sem necessidade.
     -- Fico constrangido. Voc  muito ocupado. No  justo tomar seu
tempo dessa forma.
     -- Nesse caso pode me ligar fora do horrio de trabalho. Agora que
vai estudar a espiritualidade, tenho todo o interesse em trocar opinies
sobre isso. Se desejar, posso indicar-lhe alguns livros interessantes.
     -- Seria timo.
     Henrique levantou-se, despediu-se e saiu. Quando foi pagar a
consulta, a secretria no quis receber o que o surpreendeu muito.
     Ele sentira desde o primeiro encontro que Rafael era uma pessoa
confivel. As palavras dele continuavam vivas em sua mente.
     Ele no queria se separar de Maria Eugnia. Ela estava mais mulher,
mais bonita, discreta, porm bem-humorada, e havia momentos em que ele
precisava controlar-se para no abra-la e beij-la.
     Quando isso ocorria, ele se afastava, ia para o quarto, tentando vencer
a atrao que sentia.
     O que ele esperava com essa atitude? Que ela se cansasse dele?
     Que procurasse nos braos de outro o que ele se recusava a dar? No
fora o cime que a levara aos braos de Pierre mesmo sem amor? O que ela
estaria pensando dele, uma vez que fazia meses no a procurava?
     Rafael estava certo: a situao estava durando demais. Haveria ainda
tempo para tentar uma aproximao?
     Ele chegou em casa passava das oito. Vendo Maria Eugnia lendo na
sala, aproximou-se:
     -- Boa noite. Atrasei-me para o jantar. Desculpe.
     -- Boa noite -- respondeu ela colocando o marcador no livro,
fechando-o. -- Vou mandar esquentar e servir.
     Ela levantou-se. Ele apanhou o livro e perguntou:
     -- Este livro  bom?
     Ela olhou-o admirada e respondeu:
     -- timo. Tanto que o estou lendo novamente.
     -- Pelo visto, voc est se interessando pelo espiritismo.
     -- Sim. Estudando a espiritualidade tenho encontrado muitas
respostas a minhas indagaes ntimas. Vou providenciar seu jantar.
     -- Vou lavar as mos, mas depois gostaria de conversar sobre este
assunto.
     Ela olhou-o curiosa.
     -- Aconteceu alguma coisa que despertou seu interesse?
     -- Sim, aconteceu. Mas depois conversaremos.
     Ele subiu as escadas e Maria Eugnia sentiu um brando calor no peito.
Havia um brilho diferente nos olhos de Henrique que a fizera sentir que
alguma coisa havia se modificado.
     Enquanto esperava que a criada esquentasse o jantar e Henrique
descesse, ela elevou o pensamento e agradeceu intimamente a Deus. Havia
muito esperava que ele mudasse de atitude, deixasse aquele olhar
impessoal, frio, com o qual a fitava quando conversavam.
     O fato de Henrique interessar-se pela espiritualidade fazia-a acreditar
que a mudana dele se devia  interveno dos amigos espirituais nos quais
ela confiava:
     Pouco depois, Henrique desceu e disse:
     -- Fui ver o Dionsio, mas ele estava dormindo.
     -- Brincou tanto, correu que ficou cansado. Tomou um banho, comeu
muito bem e adormeceu em seguida.
     -- Eu atrasei e ele no conseguiu me esperar.
     -- Ele tentou, reclamou que voc estava demolando e dormiu.
     Henrique sorriu. Havia muito tempo ele no sorria quando estava a ss
com ela. A criada avisou que o jantar estava servido. Henrique perguntou:
     -- Voc j jantou?
     -- No. Eu estava sem fome.
     -- Ento venha fazer-me companhia.
     Maria Eugnia corou de prazer. E acompanhou-o. Uma vez na sala,
ele segurou a cadeira para que ela se sentasse e sentou-se em seguida.
     Maria Eugnia estava radiante com a mudana dele, mas no se
atrevia a perguntar nada. Durante a refeio, ela relatou as ltimas artes de
Dionsio. Henrique foi se deixando envolver pelo sorriso dela e pelo calor
que lia em seus olhos.
     Depois do jantar, foram para a sala e ele pediu que ela lhe falasse
sobre o livro. Maria Eugnia resumiu o teor da obra. Henrique ouvia-a
admirado com o entusiasmo com que ela falava, evidenciando uma crena
profunda. Quando ele fazia perguntas, ela respondia com clareza,
convico e prazer.
     Impressionado, percebeu quanto ela havia amadurecido. Nem de longe
lembrava aquela menina retrada, tmida, incapaz de dizer no  me e de
manter uma opinio.
     Diante dele agora estava uma mulher firme, lcida, que expunha suas
idias com coragem sobre um assunto to controvertido, com argumentos
prticos e verdadeiros.
     A certa altura, ele disse, olhando-a nos olhos:
     --  surpreendente como voc mudou!
     Sem desviar o olhar, ela respondeu:
     -- Mudei, sim. A vida tem me ensinado muitas coisas. Hoje posso ver
lados que antes eu no via. Mas meus sentimentos ainda so os mesmos.
     Henrique levantou-se e sentou-se ao lado dela no sof. Depois, sem
dizer nada, abraou-a e beijou-a nos lbios com amor, vrias vezes, dando
vazo  emoo que bloqueara durante tanto tempo.
     Quando se acalmaram um pouco, Henrique disse em seu ouvido:
     -- Eu amo voc, Maria Eugnia. Amo muito. Nunca deixei de am-la!
     -- Eu tambm sempre o amei.
     -- Me perdoe se demorei para entender o que nos aconteceu.
     -- No h o que perdoar. O erro ensinou-me muito mais do que os
acertos. Fez-me valorizar todas as coisas boas que a vida me deu: uma me
maravilhosa, dinheiro, um marido que eu amo e um filho que faz a alegria
de minha vida. Descobri que sou uma pessoa feliz. Estou certa de que com
voc aconteceu o mesmo.
     -- Sim -- respondeu ele, beijando-a novamente vrias vezes. Depois,
pegou-a pelo brao. -- Venha, vamos para nosso quarto.
     Abraados,    subiram   as   escadas.   Elvira,   que   os   observava
discretamente, vendo-os entrar no quarto, sorriu contente. Depois foi para o
quarto de Dionsio, sentou-se na cama e fez uma prece de agradecimento a
Deus pela felicidade do casal.
     Mais tarde, no quarto, Henrique e Maria Eugnia na cama, abraados,
trocavam confidncias sobre seus sentimentos.
     Henrique falou sobre as sesses de terapia com Rafael e ela sobre seus
encontros com Eunice.
     -- Houve momentos em que eu temia que nunca me perdoasse --
tornou Maria Eugnia.
     -- Eu tambm imaginei que nunca conseguiria pensar nos
acontecimentos sem que o cime, a dor, a tristeza me dominassem.
     Maria Eugnia beijou a mo dele que segurava entre as suas. Ele
continuou:
     -- Eu estava cego. Na minha imaginao, eu a via como uma mocinha
ingnua, pura, acima de todos os mortais, no como uma mulher que,
apesar de suas qualidades, tinha pontos fracos como qualquer ser humano.
Minha vaidade no suportou a perda dessa iluso. Mas, mesmo ferido em
meu orgulho, eu reconhecia que, embora sofrendo a seu lado, sofreria
muito mais com a separao.
     -- Voc no se separou de mim por causa de Dionsio.
     -- Eu tambm no queria separar-me dele, mas no foi apenas por
isso. Eu no queria perd-la.
     Maria Eugnia debruou-se sobre ele e beijou-o nos lbios com amor.
     -- Apesar do que sofremos,  bom reconhecer quanto nos amamos.
     -- Antes eu tinha por voc um sentimento calmo, acomodado, ao qual
eu estava habituado sem questionar. Mas depois, vendo ruir o conceito que
fazia de voc, a princpio julguei-a leviana. Recordava suas noitadas em
Paris com aqueles amigos fteis e no via mais nenhuma qualidade em
voc.
     -- Eu senti quanto me desprezava.
     -- Mas naquela noite, quando me procurou para conversar e se
posicionou, expondo seus sentimentos ntimos, eu comecei a mudar. Voc
no me pressionou a tomar qualquer deciso, e isso me deu certo alvio. Eu
no estava em condies de decidir nada.
     -- Senti isso. Mas rezava todas as noites para que me perdoasse.
     -- Depois daquela noite, sem querer comecei a observar outros lados
seus, suas qualidades como pessoa, o respeito com que trata nossos
empregados, as mudanas que fez em nossa casa, tornando-a mais
confortvel e mais bonita sem consultar ningum, a discrio natural, a
classe e, principalmente, a excelente me que voc .
     -- Amar Dionsio  fcil. Ele conquista qualquer um. No notou isso?
     --  uma criana adorvel. Ento comecei a sentir-me culpado por
continuar deliberadamente tratando-a com desprezo enquanto voc
continuava imperturbvel cuidando de tudo com amor, mais ainda do que
antes, brincando com Dionsio, procurando tornar a vida dele mais feliz. Eu
a observava disfaradamente e nunca a vi triste ao lado dele. Ento comecei
a notar seu lado melhor, suas qualidades.
     -- Voc disse que aconteceu algo. O que foi?
     -- Hoje fui ver o Dr. Rafael. Fazia quase dois meses que ele vinha
espaando as sesses. Hoje, quando cheguei l, ele me deu alta. Disse que
eu no precisava mais de terapia. Fiquei inseguro.
     Ele foi para mim um amigo, alm de um profissional competente que
me mostrou e fez com que eu encarasse a verdade. Mas, apesar disso, eu
me obstinava em no ceder. Estava difcil sair da postura orgulhosa na qual
eu me colocara.
     -- Ele deve saber o que est fazendo. Voc se acostumou a buscar
ajuda.
     -- Nos ltimos dias tenho tido alguns pesadelos. Contei-os a ele, que
surpreendentemente me disse que eu preciso de ajuda espiritual. Explicou-
me algumas coisas sobre fenmenos de mediunidade, vida aps a morte.
Disse que eu podia procur-lo como amigo, indicou-me alguns livros e,
para surpresa minha, sugeriu que eu conversasse com voc sobre este
assunto.
     -- Ele trabalha como voluntrio no centro de estudos que tenho
freqentado. Nunca conversamos, mas ele deve ter me visto por l.
     -- Fiquei admirado de um mdico me dar essa orientao. Sempre
pensei que espiritismo fosse coisa de gente mais simples, sem instruo.
     -- Pelo contrrio. A vida aps a morte, a comunicao dos espritos, a
reencarnao tm sido pesquisadas por pessoas cultas, cientistas que
procuram entender esses fenmenos. H muitos livros interessantes, como
este que estou relendo, comprovando essa realidade.  que as pessoas mais
simples sentem f e aceitam esses fatos com mais facilidade.
     -- Amanh mesmo vou comprar esses livros e comear.
     Eles continuaram algumas horas mais conversando, at que, vencidos
pelo sono, adormeceram. Naquela noite, Henrique no teve nenhum
pesadelo.
     Na manh seguinte, acordaram alegres. Haviam feito planos para o
futuro, trocado idias sobre as empresas, e Henrique percebeu que, embora
Maria Eugnia nunca tivesse se interessado antes pelos negcios, fez
perguntas, deu algumas idias prticas que at o surpreenderam.
     Ele chegou ao escritrio bem-disposto. Pensou em ligar para Rafael e
contar tudo. Mas era cedo e ele no achou adequado. Ligaria no fim da
tarde. Desejava demonstrar seu reconhecimento. Talvez fosse bom
convid-lo para um jantar em sua casa. Esse relacionamento ele desejava
cultivar. Bernardo dissera que a esposa de Rafael era uma advogada
brilhante, respeitada no meio empresarial.
     No fim da tarde, Henrique foi ao escritrio de Adele e encontrou-a ao
lado de Bernardo. Assim que entrou, ela notou que o genro estava
diferente. Rosto distendido, alegre, bem-disposto, como havia muito no o
via. Esperou que ele falasse. Mas ele primeiro discorreu sobre trabalho. Em
certo momento, Adele disse:
     -- Tenho uma notcia boa para voc. Mas antes quero que me conte
por que voc hoje est com essa cara de felicidade. Ser que aconteceu o
que estou pensando?
     Henrique sorriu:
     -- No se pode ocultar nada de voc! Ontem  noite eu e Maria
Eugnia nos entendemos.
     Adele abraou-o alegre:
     -- J no era sem tempo. No agentava mais v-los to perto e ao
mesmo tempo to distantes. Seria indiscrio perguntar como foi?
     -- No. Mas antes quero saber que notcia boa  essa que voc tem.
     -- Eu e Bernardo marcamos a data do nosso casamento.
     Henrique abraou-os, desejando felicidades. Depois sentou-se ao lado
deles e contou como tudo havia acontecido. Finalizou:
     -- Estou me sentindo em paz. Em tantos anos de casamento, nunca
havamos nos entendido to bem. Foi maravilhoso abrirmos o corao e
dizermos o que sentimos um ao outro.
     -- Foi um encontro de almas -- disse Bernardo, emocionado. -- Esse
 o verdadeiro amor.
     -- Maria Eugnia agora est diferente. Mostrou at interesse pelo
nosso trabalho, fez perguntas sobre as empresas.
     -- Ela est se revelando.  inteligente e est assumindo a prpria vida
-- disse Adele, satisfeita.
     -- Vocs j contaram a ela que marcaram a data?
     Foi Adele quem respondeu:
     -- Ainda no.
     -- Para quando ser?
     -- Em dezembro. Assim teremos tempo para uma viagem.
     Eles continuaram conversando, fazendo planos para o futuro. Meia
hora depois, Henrique foi para casa.
     Ao entrar, seu corao bateu mais forte pensando no prazer de estar
com Maria Eugnia e o filho. Eles o receberam com carinho. Durante meia
hora eles brincaram com o menino. Depois Elvira foi buscar Dionsio para
o jantar.
     Abraada ao marido, Maria Eugnia disse:
     -- As horas no passavam. Eu estava com saudade.
     -- Eu tambm. Estive com Adele e Bernardo. Eles marcaram a data
de casamento.
     Maria Eugnia bateu palmas:
     -- Finalmente! Pensei que ela nunca o aceitaria.
     -- Por que no? Sempre foram excelentes amigos.
     -- Exatamente por isso. Desde os tempos de estudante so apenas
amigos.
     -- Ela preferiu seu pai. Acho que foi uma boa escolha.
     -- Foi. Papai era um homem inteligente, culto, mas de temperamento
muito diferente do dela.
     -- Nunca notei isso.
     -- Eu, sim. Mame  ardente, cheia de vida, faz bem e com
naturalidade vrias coisas ao mesmo tempo.  rpida, enquanto papai era
formal, tudo tinha que estar bem planejado para ele agir. Controlava suas
emoes, no se permitia mostrar sentimentos.
     -- Ele sempre ouvia Adele antes de tomar qualquer deciso.
     -- Ela era to eficiente, ta rpida, capaz, que ele confiava inteiramente
na capacidade dela. Tanto que, ao fundar a holding, ele a colocou como
presidente.
     -- No que fez muito bem, porque ela realmente sabe o que faz. Mas
Bernardo tem temperamento diferente do de seu pai.
     -- Lcido, alegre, cheio de vida, inteligente, gosta de viver bem e em
paz. Acho que essa convivncia far bem a ela. Com meu pai, eles
passavam horas falando das empresas. Com Bernardo ser diferente. Ele 
um homem muito bem informado sobre o que acontece no mundo.
Conversar com ele  sempre muito interessante. Estou certa de que far
minha me feliz.
     Henrique abraou-a satisfeito.


     Na casa de Marina estavam todos reunidos na sala de jantar. Ela havia
conseguido ganhar uma causa complicada e estava radiante. Quando ela
terminou de contar esse acontecimento, Rafael tornou:
     -- Precisamos comemorar. Vamos abrir uma champanhe.
     Rosa trouxe uma garrafa e as taas. Rafael abriu, encheu as taas e
serviu. Ergueu a sua e tornou:
     -- Vamos brindar ao sucesso de Marina e ao de todos ns.
     -- Sim -- concordou ela. -- Principalmente porque este foi um caso
em que pude pr fim a uma tremenda injustia.
     --  vitria do bem! -- exclamou Ccero.
     Eles tocaram as taas e beberam. Nessa hora, Rosa avisou que
chamavam por Rafael ao telefone. Ele apressou-se a atender.
     -- Al.
     -- Sou eu, Henrique.
     -- Como vai?
     -- Desculpe incomod-lo em casa, mas  que tenho uma boa notcia
para lhe dar.
     --  um prazer ouvi-lo. Pode falar.
     -- Ontem, depois que deixei seu consultrio, fui para casa e me
aproximei de Maria Eugnia. Conversamos muito e nos entendemos. Achei
que gostaria de saber. Estou ligando para agradecer. Voc me ofereceu sua
amizade, e pretendo no perder essa oportunidade. Aceitaria vir com sua
esposa jantar em minha casa no prximo sbado?
     Apanhado de surpresa, Rafael respondeu:
     -- Ser um prazer. Mas antes preciso falar com Marina, saber se no
temos outro compromisso.
     -- Fale com ela. Caso no possam, marcaremos outro dia.
     -- Obrigado pelo convite. Estou muito feliz por vocs.
     Henrique desligou e permaneceu sentado ao lado do telefone,
pensativo. Marina aproximou-se e perguntou:
     -- O que foi? Aconteceu alguma coisa?
     -- Sim. No  apenas voc quem tem de comemorar. Eu tambm.
Acabei de saber que um caso difcil de um cliente a quem aprecio muito foi
resolvido.
     -- Eu o conheo?
     -- Mais ou menos. Ele  casado com a filha da Sra. Adele, noiva do
Bernardo. Eles foram ao nosso casamento, lembra-se?
     -- Sim. Sei quem . Que bom! Parabns!
     -- Ele ligou para agradecer e nos convidou para irmos jantar em sua
casa no prximo sbado.
     Marina estremeceu e procurou esconder a preocupao. Jantar na casa
de Maria Eugnia! Ela adoraria ver Dionsio, estar ao lado dele, mas no
poderia ir. Havia prometido a Adele nunca se aproximar do menino.
Precisava manter a promessa.
     Depois, v-lo no seria pior? Reconhecer o que perdera entregando-o
a outra mulher no seria uma tortura intil?
     -- O que foi meu bem? Voc ficou sria de repente.
     -- Nada. Eu estava pensando que formamos uma dupla imbatvel.
     --  porque fazemos o melhor, confiamos na vida e temos Deus no
corao.
     Ela sorriu e, abraados, voltaram  sala de jantar.




     CAPTULO 23
      Na manh seguinte,  mesa do caf, Rafael disse:
     -- Aquele meu cliente vai ligar para confirmar o jantar no sbado. O
que acha?
     -- No sei se poderei ir. H um cliente que vai chegar da Inglaterra na
sexta-feira. Marcamos reunio no sbado e no sei a que horas estarei livre.
     -- Eu gostaria muito de ir. Ele interessou-se pela espiritualidade e a
esposa j est freqentando o centro de estudos. Mas, se voc no pode
neste sbado, marcaremos outro dia.
     -- Est bem.
     Os dois saram para trabalhar.
     Marina, no escritrio, no conseguia manter a ateno no trabalho.
Mais uma vez se perguntava: por que a vida os estava aproximando? Isso
queria dizer que seria melhor ela ir quele jantar? Como enfrentar o
encontro? E se Henrique a reconhecesse? Eles haviam se encontrado no
escuro, mas em momentos de intimidade. Isso no o faria reconhec-la?
     Apesar da vontade de ver o menino, Marina no se sentia com
coragem de enfrentar esse momento. O que diria Rafael se notasse alguma
coisa diferente? No. O melhor seria esquivar-se, evitar qualquer relao
com aquela famlia. Mas como fazer isso, se Rafael estava interessado em
aproximar-se deles?
     Estudioso, Rafael interessava-se muito pelos casos que atendia no
consultrio. Gostava de estud-los sob a ptica da espiritualidade. Ficava
encantado em observar como a vida trabalhava as pessoas, conduzindo-as
para novos caminhos.
     Nesse momento, Marina lamentou no haver lhe contado a verdade.
Se o tivesse feito, agora no teria essa preocupao. Ele entenderia e no
foraria uma proximidade com Henrique.
     Marina sempre fora verdadeira, com exceo desse segredo que s
vezes lhe pesava ao olhar para sua famlia e pensar que fora capaz de
ocultar fatos to importantes.
      tarde, sem conseguir trabalhar, Marina decidiu conversar com
Eunice. Deixou o escritrio e foi at o centro de estudos espirituais, onde
encontrou a mdium trabalhando com algumas voluntrias.
     Eunice, vendo-a, aproximou-se, abraou-a e conduziu-a at sua sala.
     -- Desculpe vir procur-la fora de hora e atrapalhar seu trabalho.
     -- No precisa preocupar-se com isso. Foi bom v-la. Sente-se.
Vamos conversar.
     Marina acomodou-se, depois falou de seu problema e de suas dvidas.
E finalizou:
     -- No sei o que fazer. De um lado, gostaria de ir, mas prometi a
Adele que nunca me aproximaria deles. Depois, tenho medo de ser
reconhecida. No sei se alguma vez eles viram algum retrato meu, se Adele
lhes contou alguma coisa sobre mim. O que pensaria Maria Eugnia se
soubesse que a mulher que est em sua frente, em sua casa, dormiu com
seu marido e  me do filho que ela tem em seus braos?
     -- Voc no dormiu com o marido dela para roubar o amor dele, mas
para beneficiar essa famlia, mesmo a custo de renunciar ao amor dessa
criana que gerou dentro de voc.
     -- No dia do meu casamento, estive conversando com Adele e ela me
contou que Maria Eugnia, apesar de saber que Henrique no me conhecia
e que aceitara o acordo para ajudar a empresa, sentiu cime por ele
relacionar-se comigo.
     -- Na poca ela no quis enfrentar a me. Concordou, mas no de
corao. Porm, hoje pensa diferente. Aprendeu a amar esse menino e
estou certa de que agradece a voc a ddiva de ser me. Ela mesma me
disse o quanto esse fato mudou sua vida. Maria Eugnia melhorou muito
como esposa, como mulher, depois que colocaram Dionsio em seus
braos.
     -- Adele me disse que ela o ama verdadeiramente. E o mais curioso 
que ele  mais apegado a ela do que ao pai.
     -- Ela o levou  minha casa para benzer e notei logo que so espritos
afins. O corpo dele foi gerado dentro de voc, mas ele  mais filho dela do
que seu, porque o esprito dele  ligado ao dela. A amizade deles vem de
outras vidas.
     Marina ficou pensativa durante alguns instantes, depois disse:
     -- Estou arrependida por no haver contado a Rafael. Se o tivesse
feito, agora seria mais fcil no me aproximar deles.
     -- Talvez no. Rafael  um esprito experiente. Perceberia logo que a
vida os est aproximando.
     -- Isso  o que me intriga. Conforme prometi a Adele, nunca tentei
me aproximar. Vi fotos deles nas revistas, tenho me interessado em tudo
quanto diz respeito a eles, mas foi s. Naquele dia em que eu estava doando
energias e a vi sentada na minha frente chorando, foi um choque. Depois,
com tantos profissionais competentes, Henrique foi procurar exatamente
Rafael. No pode ser coincidncia.
     -- No foi mesmo.
     -- O Dr. Bernardo, noivo de Adele, foi quem o levou a Rafael, e
ambos compareceram a meu casamento. Fiquei admirada. Mas Adele
conversou comigo discretamente, deu-me notcias de Dionsio e disse que
estava grata por eu haver aceitado sua proposta. Tenho me perguntado o
que a vida quer com isso. Por que est nos aproximando?
     -- Ela deve ter seus motivos.
     -- Mas eu, o que devo fazer? No posso agora chegar a Rafael e dizer
que ocultei dele um fato to importante porque tive medo de que ele me
julgasse uma mulher interesseira, que se vendeu por dinheiro.
     -- De tudo quanto me disse, esse  o ponto mais importante. Voc
aceitou a proposta de Adele, mas no de corao.
     -- Como assim?
     -- H um lado seu que condena voc mesma por causa do dinheiro
que recebeu. Voc no olhou o lado bom de sua atitude porque v o
dinheiro de forma equivocada. Julga-se mundana porque concordou em
ceder seu corpo, deu a criana que gerou em voc a troco de dinheiro.
     Os olhos de Marina encheram-se de lgrimas e ela as deixou correr
livremente.
     -- Por isso no teve coragem de se abrir com Rafael. Imaginou que
ele a julgaria como voc est se julgando. Ser que ele faria isso mesmo?
Ser que ele tambm tem preconceito com relao a dinheiro?
     Marina olhava-a surpreendida e respondeu:
     -- Mas dinheiro  algo material.
     -- Tudo na Terra  material, inclusive o corpo de carne. Este  o
mundo das formas. O dinheiro serve, assim como tudo que h neste
planeta, para permitir ao esprito interagir com as coisas e viabilizar as
realizaes de amadurecimento interior. Sem ele, assim como sem o corpo
de carne, ningum conseguiria realizar nada neste planeta.
     Marina franziu o cenho, pensativa.
     -- Olhando dessa forma...
     -- Este planeta  apenas um dos lados da realidade. O outro  a
essncia, o que est atrs do mundo material. Dinheiro  valor. Quando
bem utilizado, proporciona progresso, conforto, bem-estar. H pases em
que as pessoas j sabem disso, tanto que, quando algum no consegue
progredir financeiramente, est fazendo alguma coisa errada e no tem a
aprovao de Deus.
     -- Mas aqui as pessoas no pensam assim.
     -- Infelizmente nossa cultura valoriza a pobreza, faz dela uma
qualidade, uma prova de honestidade, sem perceber que tanto a honestidade
quanto todas as boas qualidades so atributos do esprito.  ele quem
comanda o mundo material e  dele que depende o uso bom ou ruim que se
faz de tudo que h aqui. Pense nisso, Marina.  hora de voc aprender os
verdadeiros valores espirituais. Respeitar a matria, seja em que estado ela
estiver,  prprio dos espritos evoludos.
     -- Diante dos valores do mundo, das pessoas, fica difcil pensar dessa
forma.
     -- As pessoas so livres para pensar o que quiserem voc no poder
mudar essa realidade e no  responsvel por isso. O julgamento leviano, a
maldade, ainda esto presentes na sociedade. Diante das leis Divinas, voc
responde apenas por voc, pelas suas atitudes. Voc fez uma troca com
Adele. Dedicou quase um ano de sua vida para permitir que um esprito
reencarnasse, uma mulher estril se tornasse me, pudesse ajudar sua
famlia, educar seu irmo, dar conforto  sua me. O que h de errado
nisso?
     -- Adele fez esse contrato para salvar uma empresa. Um negcio.
     -- Voc sabe quantas famlias vivem dessa empresa? O que seria
delas se a empresa fechasse?
     -- No pensei nisso, e acho que Adele tambm no. O que ela no
queria era perder a presidncia.
     Pode at ser que ela tenha pensado dessa forma, mas a vida
certamente levou o bem de todos em considerao quando permitiu que
vocs conseguissem o que queriam. Voc h de convir que foi um projeto
ousado que tinha grandes probabilidades de no se realizar.
     --  verdade. Eu tive medo, mas Adele estava muito segura.
     -- Adele pensou em salvar o patrimnio da famlia; voc, em cuidar
do bem-estar dos seus. Todos ganharam. At o cunhado de Adele, que
deveria herdar a presidncia das empresas, foi poupado porque, no tendo
capacidade para exercer esse cargo, depredaria toda a fortuna e acabaria na
misria. Assim, como scio, ele ter seus dividendos garantidos pelo resto
da vida.
     -- Foi isso mesmo que Adele disse.
     -- Ns precisamos entender que viver neste mundo  utilizar todos os
recursos que ele nos oferece para o progresso do nosso esprito e o bem-
estar de todos. Voc me disse certa vez que o fato de haver tido essa
criana mudou sua maneira de ver. Antes no desejava se casar. Nunca se
questionou por qu?
     -- O que meu pai fez nos abandonando, mesmo antes de conhecer o
segundo filho, doeu muito. Eu era criana, senti-me impotente para ajud-
los. Mas desde ento firmei o propsito de estudar, trabalhar muito, para
conseguir dar a eles o que meu pai no deu. Durante toda a minha
juventude, s fiz estudar e trabalhar.
     -- Mais uma razo para merecer o dinheiro de Adele.
     -- Confesso que foi a possibilidade de apressar meus projetos que me
fez aceitar esse contrato.
     -- Apesar disso, o fato de gerar uma criana a humanizou. Pense em
tudo isso, olhe esses fatos sob a ptica da espiritualidade. Pense em como
estaria agora  vida de todos vocs, caso houvesse recusado a proposta de
Adele. Voc estaria lutando para conseguir sucesso profissional, talvez no
houvesse se casado; Maria Eugnia continuaria amarga, sofrida, julgando-
se menos por ser estril, talvez at destruindo o casamento; Adele estaria
lutando para orientar o cunhado, tentando cobrir suas dvidas de jogo e
salvar o que pudesse.
     Marina suspirou pensativa. Eunice tinha razo. Adele dissera-lhe que
todos estavam felizes. Ela tambm se sentia assim. Amava o marido,
desfrutava de momentos bons ao lado da famlia.
     -- A senhora tem razo. Mas o que fazer quanto a esse jantar? Penso
que seria melhor no ir, mas o que dizer a Rafael? Terei de contar a ele a
verdade?
     -- Essa deciso  sua. Pense em tudo, sinta seu corao, pea a Deus
que a inspire mostrando o que ser melhor. Depois, observe. Estou certa de
que em determinado momento saber o que fazer.
     Marina despediu-se e saiu. Mesmo no tendo decidido ainda, sentia-se
aliviada. A conversa com Eunice fez-lhe bem. Comeou a pensar que
talvez estivesse sendo injusta na apreciao dos fatos.
     A reunio onde Rafael estava ainda no havia terminado e ela dirigiu-
se  sala de oraes para esper-lo. Aquela sala era um lugar especial no
centro de estudos, onde as pessoas iam meditar conversar com Deus.
     L havia algumas cadeiras, sobre a mesa um vaso com flores frescas,
uma bandeja com uma jarra de gua e alguns copos. Um lugar silencioso,
simples, claro e agradvel.
     Marina sentou-se e comeou a pensar em tudo quanto Eunice lhe
dissera. Viu-se criana, chorando agarrada  saia da me, que,
inconformada com o abandono do marido, lutava para dissimular sua dor a
fim de poupar a filha.
     -- Me, o pai no volta mais?
     -- No sei filha. Ele levou todas as suas coisas.
     Marina lembrou-se da raiva que sentira ao dizer:
     -- Ele no nos amava. No vai fazer falta. Espero que no volte nunca
mais. Eu estou aqui, me. Eu amo voc e o nosso nen. Juro que vou cuidar
de vocs dois.
     Oflia a abraara:
     -- Voc  ainda criana. Mas no tenha medo, porque eu nunca vou
deix-los. Isso eu garanto.
       Marina lembrou-se da cena como se estivesse acontecendo naquele
momento. Ela erguera a mo para o alto e respondera:
       -- Eu vou crescer me! Eu vou crescer estudar, ser gente. Voc vai
ver.
       Naquele mesmo dia, enquanto Oflia voltava  mquina de costura, ao
sair da escola Marina foi procurar trabalho. Fez o que pde para ajudar.
Tomava conta de crianas para as mes poderem sair, carregava compras,
ajudava na cozinha, estava sempre pronta a fazer alguma tarefa que lhe
rendesse algumas moedas.
       Era com prazer e orgulho que entregava  me o produto de seu
trabalho. Desde ento, seu nico objetivo foi subir na vida e cumprir o que
prometera a si mesma.
       No sentira saudade do pai, que sempre fora ausente, nunca lhe fizera
carinho, reclamando do pouco dinheiro que tinham quase todo conseguido
por Oflia na mquina de costura.
       Ela pensou que houvesse vencido a dor do abandono, mas apesar de
tudo sentia que a raiva ainda estava l. Por qu? Ela no amava o pai.
Nunca sentira carinho por ele como tinha pela me e o irmo.
       Ele t-las deixado havia sido melhor, porque puderam viver em paz,
sem as reclamaes que ele fazia suas exigncias descabidas, seu mau
humor. Indo embora, ele lhes fizera um favor. Ento por que ainda sentia
raiva?
       Isso no era bom. Ela queria ser uma pessoa boa, e esse sentimento
era-lhe penoso. Marina no queria mais esse sentimento.
       Olhando as rosas no vaso, lindas, que espalhavam suave aroma no ar,
ela pensou em Deus, na fora da vida que tudo criou. Esse sentimento foi
mais forte do que tudo e ela pediu:
       -- Deus, me mostre o que preciso saber!
       Uma brisa agradvel a envolveu. Ela no percebeu, porm um vulto
de mulher aproximou-se e disse ao seu ouvido:
       -- Seu pai  um esprito fraco, que ainda no aprendeu a ser melhor.
Por ora s pode dar o que deu.
       Marina lembrou-se de quantas vezes ela notara quanto ele era
ignorante. Ela queria que ele fosse diferente, que houvesse sido um pai
carinhoso, amigo.
       O esprito de Norma continuou falando ao seu ouvido:
       -- Mas ele no . Saia da iluso. Perceba que foi voc quem esperou
dele o que ele nunca poderia lhe dar. Voc criou expectativas impossveis
e, quando a vida lhe mostrou a verdade, voc no aceitou.
       Marina levou a mo aos lbios, surpreendida. O fato de ela querer no
mudava a realidade. No estaria sendo injusta exigindo o que ele no tinha
como fazer? Ela se magoou por ele no ser do jeito que ela queria.
       -- Cada um  s o que  -- tornou Norma.
       Marina pensou nessa frase, embora no soubesse que estava sendo
inspirada. Mas era inegvel. Seu pai era um homem ignorante, fraco,
irresponsvel, leviano, seco.
       Ela estava se esforando para elevar o prprio esprito, estudando as
leis csmicas que regem a vida. Nos ltimos meses havia aprendido a ver a
beleza, o amor, despertara para a necessidade de harmonizar-se, viver no
bem.
       Essa postura lhe dera mais alegria de viver, fazendo-a valorizar as
pequenas coisas, procurando ser melhor.
       Quanto tempo o esprito de seu pai levaria, que desafios  vida lhe
traria a fim de faz-lo amadurecer?
       Ento Marina comeou a sentir por ele um carinho que nunca havia
sentido antes, e todo sentimento de mgoa, de rancor, desapareceu.
     Ela sentia-se revitalizada, fortalecida, e percebeu quanto era bom o
contato com a verdade.
     Deixou a sala depois de agradecer aos amigos espirituais a inspirao
e foi ao encontro de Rafael. A reunio dele havia terminado e ele a estava
procurando. Vendo-a, aproximou-se:
     -- Voc no ficou no trabalho. O que aconteceu?
     -- Eu estava questionando algumas coisas e fui conversar com Dona
Eunice.
     -- A conversa deve ter sido boa, porque voc est radiante.
     -- Foi tima. Vamos tomar alguma coisa?
     Eles foram tomar um lanche, depois voltaram para casa.
     Mais tarde, na cama, Marina, olhando Rafael desfrutando um sono
tranqilo, continuava pensando, relembrando as palavras de Eunice.
     De certa forma, a irresponsabilidade de seu pai, a raiva que sentia por
haver perdido a segurana que a figura dele representava em sua vida, a
impulsionara a estudar, trabalhar, conquistar um lugar melhor.
     Se houvesse tido o pai que ela desejava, teria feito tudo isso? No se
acomodaria nas facilidades sob a proteo dele? Para aprender a usar a
prpria fora e evoluir, no precisaria de um pai como ele?
     Naquele momento ela entendeu por que nascera naquele lar e passara
por todos aqueles desafios. Tudo ficou mais claro em sua mente. A vida lhe
dera o que precisava para aprender a andar com as prprias pernas.
     Ela aprendera a no depender de ningum e a cuidar de si mesma. De
tal sorte que, no casamento, ela, apesar de amar o marido, viver ao lado dos
familiares, continuava sendo ela mesma, mantendo com todos um
relacionamento em que o respeito e o amor harmonizavam a convivncia,
tornando-a natural, agradvel.
     Pensando assim, Marina sentiu-se em paz. Lembrou-se do jantar na
casa de Maria Eugnia e resolveu deixar a soluo para o dia seguinte.
Sabia que uma soluo boa apareceria. Virou para o lado e logo
adormeceu.

     No dia seguinte, no escritrio, j no fim da tarde, Marina lembrou-se
de que Rafael, ao chegar em casa  noite, certamente voltaria a falar
daquele jantar.

     Pensou um pouco e decidiu. Apanhou o telefone e ligou para Adele.
Quando ela atendeu, Marina disse:
     -- Desculpe incomod-la em seu trabalho. Mas aconteceu algo que
preciso contar-lhe.
     Em poucas palavras falou do convite de Henrique para o jantar e
finalizou:
     -- No sei o que fazer. Rafael no sabe nada do nosso acordo e insiste
em ir. Ele aprecia Henrique, que foi seu cliente e deseja estreitar essa
amizade. Eu prometi no me aproximar deles, mas parece que a vida insiste
em nos juntar. Outro dia foi no centro de estudos, onde deparei com Maria
Eugnia. Agora  esse jantar.
     Adele ficou pensativa por alguns instantes, depois perguntou:
     -- Voc gostaria de ir?
     -- Por um lado, sim. Para ver Dionsio, saber como ele vive. Mas por
outro tenho medo. No sei se eles tm alguma informao a meu respeito.
Podero me reconhecer. Antes de me casar, senti vontade de contar tudo a
Rafael. Porm, pensando que esse segredo no  apenas meu, no disse
nada. Agora, ele saber seria uma soluo.
     -- . No sei se seria bom para todos se voc se aproximasse tanto
deles. Tenho medo dos seus sentimentos. Voc pode sofrer vendo Dionsio
de perto sem poder demonstrar seu afeto. Mas vivendo na mesma cidade,
freqentando os mesmos lugares, no sei se conseguiremos evitar que se
relacionem, ainda que seja socialmente.
      -- Tudo isso j me ocorreu. Por isso quero ouvir sua opinio.
      -- Seria bom conversarmos. Voc pode tomar um ch comigo agora?
      -- Posso. Onde?
      Adele indicou uma casa de ch e Marina anotou o endereo. Meia
hora depois, elas se encontraram. Depois dos cumprimentos, sentaram-se e
pediram o ch. Enquanto esperavam, Adele tornou:
      -- O casamento fez-lhe bem. Voc est ainda mais bonita.
      -- Obrigada. De fato, sou uma pessoa privilegiada.
      -- Voc conseguiu tudo: sucesso profissional, dar conforto  famlia,
seu irmo estuda em um timo colgio. Alm disso, tem como marido um
homem adorvel.
      --  verdade. Rafael foi uma luz que apareceu em minha vida. Possui
qualidades raras, e eu agradeo a Deus por mais essa ddiva.
      Adele olhou-a nos olhos e disse:
      -- Outro dia fui conversar com Eunice. Uma pessoa encantadora,
sbia, que me impressionou muito.
      -- Certamente foi Maria Eugnia quem lhe falou dela.
      -- No exatamente. Fiquei sabendo que minha filha est lendo sobre
espiritualidade. Soube que Eunice a estava aconselhando e desejei conhec-
la.
      -- Alm de ser uma pessoa maravilhosa, tem uma sensibilidade
incomum. Fomos procur-la por causa de meu irmo. Ele ficou envolvido
por um esprito e ns nos assustamos, uma vez que no conhecamos nada
sobre isso. Mas a professora dele percebeu o que estava acontecendo e
pediu que o levssemos a Eunice.
      Em poucas palavras, Marina contou o que se passara no primeiro
encontro que tiveram com Eunice. Finalizou:
      -- Tudo que ela nos disse era verdade. Ficamos encantados. Desde
ento, estamos freqentando esse centro de estudos e aprendendo muito. O
conhecimento que adquirimos l nos fez olhar a vida de uma forma muito
diferente. Encontrar respostas positivas para os problemas que vemos no
mundo nos alivia. Saber que no estamos sozinhos, que do nosso lado h
sempre um esprito bom nos inspirando, ajudando,  confortador.
     -- Seus olhos brilham quando fala tudo isso. Sinto que est sendo
sincera. No sou uma pessoa religiosa, embora tenha tica, procure ser
verdadeira, fazer sempre o melhor. Meus contatos com a religio no me
ofereceram as respostas que eu esperava. Ento, tenho f a meu modo.
     -- Pelo que conheo de voc, estou certa de que tem muita ajuda
espiritual. Sua confiana em nosso projeto, desde o incio, foi um exemplo
para mim.
     -- Eu acredito que, quando voc faz o seu melhor, procura o bem e
trabalha em favor da vida, ela responde positivamente. Mas, se em vez de
Dionsio houvesse nascido uma menina, eu entenderia que no era o
momento para conseguir o que desejava. E continuaria tentando alcanar
meus objetivos de outra forma.
     -- Os meses que passei na fazenda ao lado de Clia foram muito
proveitosos. Conheci Isaura, uma pessoa maravilhosa, que me ensinou
muitas coisas. S lamento no poder v-las de novo. Essas duas pessoas eu
guardo no corao e gostaria de v-las outra vez.
     -- Quem sabe, um dia? A vida d muitas voltas. Sempre que vou 
fazenda, elas perguntam de voc.
     -- O que tem dito a elas?
     -- Que seu filho, infelizmente, morreu pequenino. Mas que
certamente voc ter outros.
     -- Tenho pensado nisso ultimamente. Desejo ser me, poder criar meu
filho, usufruir dessa emoo, sem dor, com alegria.
     Adele colocou sua mo sobre a dela com carinho.
     -- Estou certa de que conseguir. Quero que voc saiba a extenso do
bem que causou  minha filha. Vou contar-lhe um segredo.
     O garom chegou, trazendo o ch e as guloseimas. Adele esperou que
ele se fosse. Depois, baixando a voz, falou sobre Maria Eugnia. Contou-
lhe tudo, inclusive seu deslize em Paris.
     Marina ouvia atenta e comentou:
     -- Por isso ela estava chorando naquela noite. Imagino seu
sofrimento. Desde o comeo eu temia que ela no aceitasse o nosso projeto.
Imaginei que no seria fcil para ela saber que o marido estava se
relacionando com outra mulher.
     -- Na ocasio, foi isso mesmo que aconteceu. Mas depois, quando
colocamos Dionsio em seus braos, ela mudou radicalmente. Humanizou-
se, tornou-se mulher, amadureceu. Ama aquela criana como se tivesse
nascido de dentro dela.
     -- Ainda bem. Fico aliviada.
     -- Quando Henrique descobriu o deslize dela, ficou chocado. Foi
dormir no quarto de hspedes, parecia um zumbi. Por causa disso,
Bernardo o convenceu a procurar o Dr. Rafael. Fez terapia e felizmente
entendeu-se com Maria Eugnia. Esto to felizes! Por isso convidou-os
para jantar.
     -- Agora estou entendendo.
     -- Contei-lhe tudo porque acredito que, se no existisse Dionsio, esse
casamento teria se acabado. Ele foi o elo de ligao entre os dois no
momento de crise. Henrique, apesar de chocado, no teve coragem de
separar-se de Maria Eugnia, e, segundo ele mesmo me disse, assim o fez
por causa de Dionsio. Ele  um pai apaixonado e no desejava viver longe
do filho, mas tambm, sabendo quanto o menino  apegado a ela, no podia
separ-los.
     Marina sentiu os olhos midos notando quanto seu menino estava
fazendo bem quele casal.
     -- Quero que saiba que somos extremamente gratos a voc. H
poucos dias, alis, Maria Eugnia disse isso.
     -- Disse?
     -- Sim. Disse que  muito grata a voc por ter lhe dado esse filho. E
que gostaria de agradecer-lhe.
     Marina suspirou pensativa.
     -- Isso me deixa em paz. Mas, quanto ao jantar, o que aconselha?
     -- No sei. Gosto muito de voc, de seu marido. Apreciaria estreitar
nossa amizade, mas tenho medo de que, conhecendo o menino, voc se
apaixone por ele e deseje tom-lo de ns. Ele  to lindo, to amoroso, to
carismtico!  difcil resistir aos seus encantos.
     -- Quanto a isso, no h o que temer. Ele ama Maria Eugnia, ela  a
verdadeira me dele. Eu jamais teria coragem de prejudic-los. Quero que
eles sejam felizes, que se amem e vivam bem.
     -- Sei que meu temor  injustificado. Mas  que s vezes, olhando
para ele, penso no seu gesto nos oferecendo um pedao de voc.
     -- De fato, a separao foi dolorosa. Precisei de toda a minha fora
quando Clia o tirou de meus braos. Mas hoje sei que eu apenas doei um
corpo de carne, porque foi Deus quem destinou a esse corpo um esprito
ligado a Maria Eugnia e Henrique, de tal sorte que eles se amam tanto.
     -- Por que est dizendo isso?
     -- Porque acredito em reencarnao. No tenho dvidas de que o
esprito de Dionsio precisava nascer, mas, como Maria Eugnia no podia
gerar seu corpo, eles usaram o meu. Dionsio pertence mais a vocs do que
a mim. Ele  membro espiritual da sua famlia.
     -- Por que acha isso?
     -- Porque as famlias consangneas no so formadas ao acaso. A
vida, na maioria das vezes, rene no mesmo lar espritos de diferentes
graus de evoluo para que aprendam uns com os outros. Faz o mesmo
com os que se desentenderam em outras vidas, cujo relacionamento mal
acabado precisa ser revisto por eles. s vezes faz mais: rene pessoas com
os mesmos pontos fracos, para que sirvam de espelho uns aos outros e
possam se ver e procurar melhorar.
     Adele olhou-a admirada:
     --  uma explicao interessante. Esclarece as dificuldades de
relacionamento que observamos e que a hereditariedade no consegue
explicar.
     -- Mas a recproca  verdadeira. As pessoas que tm afinidade se
entendem, sentem prazer em estar juntas. A amizade verdadeira transcende
 morte do corpo fsico e cria laos que so eternos e formam as famlias
espirituais. Eu percebo que o amor entre Dionsio e Maria Eugnia faz crer
que entre eles j existia essa ligao de outras vidas.
     -- Bem, de fato,  uma boa explicao, porque eu nunca vi uma
criana ser to apegada  me como ele. Quando ele a v, seu rosto se
ilumina, seus olhos brilham e expressam adorao.
     -- Por isso eu disse que ele  mais filho deles do que meu. Vocs no
precisam se preocupar comigo. Sei o meu papel. Para ele, serei sempre uma
estranha.
     -- Eu sabia que podia confiar em voc.
     -- Pensei em contar tudo a Rafael. Assim ele entender por que no
posso ir a esse jantar.
     Adele ficou pensativa durante alguns instantes, depois disse:
     -- Se puder evitar isso ser melhor. Henrique foi paciente de seu
marido. Ser que no lhe contou tudo?
     -- Essa  uma boa pergunta. No sei. Rafael jamais comenta qualquer
coisa sobre seus pacientes. Pode at ser que seu genro tenha lhe contado.
Mas o que ele no sabe  que fui eu quem deu  luz esse menino. Uma
coisa me ocorre agora... Henrique nunca soube nada a meu respeito?
     -- No. Providenciamos para que no soubesse. Nem ele nem Maria
Eugnia sabem seu nome ou viram qualquer foto sua.
     -- Esse  o receio que eu sentia de ir a esse jantar. No sabia se seria
reconhecida, o que ia ser constrangedor.
     -- Foi muito bom conversar com voc. Sempre que tiver qualquer
novidade, no deixe de informar-me. Quanto ao jantar, pense bem e
resolva. Estou certa de que far o melhor. Se precisar contar a Rafael, faa-
o.
     As duas conversaram durante mais alguns minutos, depois
despediram-se. Marina sentia-se confortada em conhecer o outro lado da
vida de Dionsio.
     Durante o trajeto de volta para casa, no fim da tarde, ela decidiu
estava na hora de ter um filho. Um filho que fosse seu, que pudesse esper-
lo com amor, cuidar do enxoval, arrumar o quarto para receb-lo, poder
amament-lo com amor.
     Lembrou-se de que, nos primeiros dias aps ter dado  luz, seus peitos
se enchiam de leite, vazavam, sendo preciso tirar com a bombinha e jogar
fora. Ficava triste, mas era uma situao sem remdio.
     Agora queria ter o prazer de amamentar seu filho, dar a ele todo o
amor que sentia guardado no corao.
     Naquela noite mesmo conversaria com Rafael a respeito.




     CAPTULO 24
      Dois dias depois, no fim da tarde, Marina estava no escritrio quando
Oflia ligou aflita.
     -- Filha, Ccero no est bem.
     -- O que ele tem, est doente?
     -- Acho que no. Mas est estranho. Foi tirar uma soneca depois do
almoo e de repente apareceu na sala, falando esquisito, andando de um
jeito diferente e brigando comigo. Acho que est recebendo algum esprito.
Eu e Rosa rezamos, pedimos a ele que se acalmasse, mas ele no atendeu.
Liguei para Rute e ela estava na escola, dando aula. Eu no quis chamar.
     -- Continue rezando e fique calma. Estou indo j para a.
     Imediatamente ela chamou a secretria, deu algumas instrues e foi
para casa.
     Assim que chegou, Oflia foi a seu encontro:
     -- Ainda bem que voc veio logo.
     -- Como est ele? No melhorou?
     -- No. No entendo o que ele fala, e ele fica nervoso. Deixei um
recado para Rute, pedindo que ela viesse para c depois da aula. Rafael
ligou e eu contei a ele. Tambm est vindo para c.
     -- Onde ele est?
     -- L em cima. Eu vi voc chegar e desci. Rosa est com ele.
     Marina subiu apressada e ouvi a voz de Ccero falando em um idioma
estranho. Sua voz estava mais grossa e ela no conseguiu entender nada.
     Entrou no quarto e Rosa pediu:
     -- Feche a porta. Ele quer sair, e  melhor no deixar.
     Marina obedeceu e aproximou-se dele.
     -- Fique calmo. Explique-se melhor. No estou entendendo o que
voc diz.
     Ccero andava de um lado para o outro e, irritado, gritou algumas
palavras que elas no entenderam. Oflia entrou no quarto seguida de
Rafael.
     -- Vamos nos unir e pedir ajuda espiritual -- disse ele.
     O telefone tocou e Rosa saiu para atender. Pouco depois, voltou e
informou:
     -- Era Dona Rute. Ela est vindo para c.
     De repente, Ccero comeou a rir. Todos o olharam assustados. Por
fim, ele disse claramente:
     -- Como vocs so tolos! Parecem baratas tontas. Nunca me diverti
tanto!
     Enquanto ele continuava rindo, Rafael tornou:
     -- No se preocupem com ele. Vamos continuar pedindo ajuda aos
espritos de luz.
     Eles continuaram em orao e Ccero se calou, mas continuava
agitado, andando de um lado para o outro.
     Rafael tentou conversar com ele, mas no obteve resposta. A
campainha tocou e Rosa foi abrir. Era Rute.
     -- Como esto as coisas? -- indagou.
     -- Na mesma. Esto todos em prece no quarto de Ccero. A senhora
pode subir.
     -- No. Vamos fazer diferente. Coloque aquele vaso com flores sobre
a mesa de jantar. Ponha sobre ela uma bandeja com uma jarra de gua e
copos.
     Rosa obedeceu. Rute fechou os olhos, concentrou-se por alguns
instantes, depois disse:
     -- Agora vamos cham-los.
     Rute subiu e Rosa acompanhou. No quarto, a cena ainda era a mesma,
porm Ccero havia parado de andar. Em um canto do quarto, parecia
acuado, olhos esbugalhados, seu corpo tremia.
     Rute aproximou-se dele, segurou-lhe a mo e disse:
     -- Venha, vamos descer e conversar.
     Ele a acompanhou sem dizer nada. Ela desceu levando-o pela mo.
Acomodou-o em uma cadeira em volta da mesa de jantar e sentou-se ao
lado dele. Depois fez um sinal para que todos se sentassem tambm.
     Ela continuava segurando a mo de Ccero e fez uma orao, pedindo
a assistncia dos espritos de luz em favor de todos. Quando ela terminou,
levantou-se, colocou a mo direita na testa de Ccero e disse:
     -- Voc no est nada bem. Como podemos ajudar?
     Ele no respondeu. Ela repetiu a pergunta. De repente, Ccero
comeou a chorar. Rute deixou que ele chorasse durante alguns segundos,
depois tornou:
     -- Aproveite este instante em que estamos orando em seu favor e
aceite a ajuda que lhe est sendo oferecida.
     -- Tenho medo -- respondeu ele.
     -- H muito voc tem resistido, mas veja: de que adianta fugir? At
quando voc deseja ficar sem rumo, desorientado, tentando viver uma vida
que no lhe pertence mais? Aceite a orientao desses bondosos amigos.
     -- Eles querem me prender.
     -- No. Eles querem que faa um tratamento e recupere seu
equilbrio.  claro que para isso voc vai precisar aceitar a disciplina
necessria.
     -- No sei se agento isso.
     -- Experimente. Tente, porquanto estou certa de que no se
arrepender.
     -- Por que eles querem me ajudar? Eu no sou bom. Tenho feito
muitas maldades, me aproveitado das pessoas.
     -- Mas voc pode mudar. Sei que dentro de voc h um corao
sofrido, revoltado, mas que ainda guarda um lado bom, que ainda ama
algumas pessoas que deixou no mundo.
     Ccero comeou a chorar de novo. Depois de alguns instantes, disse
baixinho:
     -- Est bem, eu vou.
     -- Deus o abenoe.
     Ccero suspirou, estremeceu e depois olhou em volta, assustado:
     -- Puxa finalmente ele se foi. Ele falava e eu queria que se calasse,
mas no conseguia.
     -- Acalme-se, Ccero -- respondeu Rute. -- Est tudo bem. Vamos
continuar orando em silncio.
     Ela calou-se por alguns instantes, depois suspirou fundo e disse:
     -- Meu nome  Norma. Vim para conversar com vocs.
     Marina abriu os olhos emocionada. Desde que ela comeara a v-la,
da mesma forma que em seus sonhos.
     A voz de Rute tornara-se doce, porm firme. Ela continuou:
     -- Havia muito eu aguardava esta oportunidade. H alguns
esclarecimentos que tenho permisso para lhes contar e que certamente
faro com que possam compreender melhor certos fatos. Para isso, tenho
que voltar no tempo. Mais de um sculo atrs, em um castelo na Frana, eu
vivia com meu marido, Antoine, meu filho Jules e minha filha Marie.
Antoine era um homem duro, cheio de princpios religiosos, mantendo a
famlia em uma disciplina rgida. Jules, por estar na Marinha, gozava mais
de liberdade, mas Marie viveu reclusa at os catorze anos.
     Depois Antoine a casou com Gilbert, um nobre quinze anos mais
velho que ela. Foi um arranjo entre as famlias, que planejaram unir as
fortunas. Marie no queria, mas teve de obedecer. Gilbert possua muitas
terras e costumava viajar pelo mundo, ficando fora durante meses. Marie
ficava no castelo, vigiada pela governanta.
     Gilbert no se casou por amor, mas por necessidade de ter um filho, a
quem sonhava deixar os bens quando morresse. Por isso, a governanta, a
mando dele, submetia Marie a uma vigilncia severa durante suas
ausncias.
     Marie odiava a situao, mas no tinha a quem recorrer para libertar-
se. Ela sentia tanta raiva do marido que decidiu frustrar as pretenses dele.
     Havia uma mulher, Sophie, que era recebida pela governanta no
castelo para providenciar roupas, adereos, tudo que Marie necessitasse
para estar linda quando o marido chegasse.
     Ela por vezes ficava no castelo durante semanas costurando para
Marie. Simptica, ardilosa, conquistou a confiana dela e tornou-se sua
confidente. Ela gostava de Marie, mas odiava Gilbert pela postura
arrogante, pois tratava muito mal tanto ela quanto seu marido, um
comerciante.
     Uma manh, quando ela chegou, encontrou Marie chorando
desesperada. Estava passando mal e, assim que contou seus sintomas,
Sophie percebeu que ela estava grvida.
     Ao saber disso, Marie revoltou-se:
     -- Eu no quero um filho dele. No vou fazer o que ele quer. Eu o
odeio! No vou ter esse filho! Ele pode mandar em mim, mas no  dono
do meu corpo.
     Sophie tentou acalm-la e prometeu ajud-la. No dia seguinte, quando
voltou ao castelo, levou uma bebida e disse:
     -- Trouxe-lhe um remdio. Tome uma xcara antes de dormir e
conseguir o que deseja. Mas ningum pode saber que fui eu quem o deu a
voc. Se a governanta descobrir, poder me mandar prender.
     Marie prometeu ocultar o frasco. Naquela noite, antes de dormir,
ingeriu o abortivo. No dia seguinte, sentiu clicas e acabou abortando. Ela
sentiu-se vingada. Havia conseguido uma vitria contra o marido. Embora
ningum soubesse, ela sentia-se realizada. A partir de ento, cada vez que
ficava grvida, ela recorria ao abortivo. Fez isso durante alguns anos.
     Houve poca em que estava havendo muita pilhagem na regio.
Bandidos assaltavam os castelos, roubando, matando, incendiando.
     Gilbert contratou uma milcia para defesa do castelo. Foi ento que
Marie conheceu Denis, um garboso oficial, elegante, gentil, que comandava
esse grupo. Os dois se apaixonaram perdidamente.
     Gilbert continuava se ausentando. Sua fiel governanta, notando o
interesse deles, aumentou a vigilncia.
     Marie e Denis, no suportando mais, planejaram fugir.
     Uma noite, na vspera de Gilbert chegar de uma viagem, Marie
colocou um sonfero no ch da governanta e eles fugiram. Quando o
marido chegou, descobriu a fuga e teve um acesso de fria. Mandou
espancar a governanta e colocou-a na rua somente com a roupa do corpo.
Depois contratou outros soldados e partiram em busca dos fugitivos.
     Mas eles estavam longe. Denis havia programado tudo e no deixou
pistas. Inconformado, Gilbert os procurou durante cinco anos. At que um
dia finalmente conseguiu encontr-los.
     Eles tentaram fugir, mas foram presos e levados  presena de Gilbert,
que, cego de dio, mandou matar Denis diante dos olhos aterrorizados de
Marie. Depois, prendeu-a em uma dependncia do castelo e disse-lhe que
ela teria o mesmo fim quando ele achasse que estava na hora e que ela
precisava sofrer para pagar pelo mal que lhe fizera.
     Desesperada, Marie sofria pela morte de seu amado. A cena que
presenciara no lhe saa do pensamento. Desde ento, jurou que haveria de
vingar-se de Gilbert.
     Sophie, a mulher que lhe levara o abortivo, acompanhara
discretamente todos os acontecimentos. Querendo ajudar Marie, procurou
os homens da milcia que Denis comandara e contou-lhes como seu chefe e
amigo havia morrido. Revoltados, eles decidiram libertar Marie e vingar-se
de Gilbert.
     Aliaram-se a bandidos e, juntos, uma noite atacaram o castelo,
matando Gilbert e libertando Marie. Mas os bandidos saquearam tudo.
Marie, acolhida na casa de Sophie, havia perdido todos os bens.
     Ela estava livre, porm pobre. Tendo perdido o homem que amava, ela
perdeu o prazer de viver. Sophie tentou ajud-la, fazendo-a colaborar nos
negcios, e ela saiu-se bem. Bonita, revelando bom gosto no vestir,
conseguia atrair homens ricos, com os quais negociava.
     Ela odiava os fidalgos, porque a faziam lembrar-se de Gilbert. Ento,
os atraa e negociava com eles, que, empolgados com sua beleza, faziam
concesses.
     Ela e Sophie comearam a enriquecer e Marie a ser conhecida como
uma mulher sensual. Passou a ser disputada. Fascinada por usar o prprio
poder e vencer com facilidade, Marie atraa os fidalgos ricos para extrair
deles o que podia, abandonando-os depois, quando estavam arruinados.
     Naquele tempo, mergulhada em energias perigosas, afundou na
obsesso, vampirizada por entidades das trevas. Cometeu vrios abortos,
at que acabou morrendo vitimada por um infeco generalizada provocada
um desses abortos.
     Podem imaginar minha situao, acompanhando essa trajetria. Eu
havia desencarnado dois anos depois do casamento dela com Gilbert.
Durante esse tempo, fui auxiliada por amigos espirituais, estudei, aprendi,
mas no pude evitar o que aconteceu com Marie.
     Quando Denis morreu, eu e meus amigos recolhemos seu esprito. Ele
estava to revoltado, querendo defender Marie, que s foi possvel retir-lo
do castelo fazendo-o adormecer.
     Conduzido  nossa comunidade astral, recebeu tratamento. ndole boa,
Denis compreendeu que para ajudar Marie precisava vencer o desejo de
vingana, progredir espiritualmente. Esforou-se, estudou, trabalhou. Com
alegria, acompanhei sua elevao.
     Contudo, no conseguimos ajudar Marie. Seus contnuos abortos
lesaram os rgos da fertilidade no corpo astral, e, apesar de desencarnada,
ela continuava sentindo muitas dores. Alm disso, devido a seu
comportamento, atrara para junto de si espritos revoltados, que a
vampirizavam sem cessar.
     Foi ento que encontrei Sophie. Ela estava bem, mas muito
preocupada com a situao de seus familiares que viviam no mundo.
     Trabalhamos durante muito tempo at que finalmente conseguimos
que Marie pudesse ser recolhida a uma colnia de tratamento. Ela estava
deprimida, sem vontade de viver. At que recebeu a visita de Denis. Para
ela, foi como um renascimento. Chorou muito e, auxiliada por ele, aceitou
o tratamento necessrio  sua recuperao.
     Sophie foi de uma dedicao extrema. Conversava com Marie,
tentando faz-la entender a necessidade de se esforar para conquistar uma
vida melhor.
     Quando chegou o momento de Marie reencarnar, ao saber que Denis
no poderia ir, ela no quis aceitar. Seu estado no era bom. Continuava
sofrendo dores, angstia, mal-estar. Era preciso que ela reencarnasse a fim
de recuperar a sade, restaurando a parte lesada de seu corpo astral.
     Ela queria que Denis reencarnasse e eles pudessem ficar juntos. Foi-
lhe dito que Denis havia progredido e, por estar com uma vibrao mais
rpida, no poderiam viver como marido e mulher. Mesmo que ele
reencarnasse, a vida os afastaria. Por isso, antes que pudessem retomar o
amor que os unia, ela teria que se libertar das energias negativas que
acumulara, melhorando seu padro energtico. S assim teriam chance de
retomar o amor que os unia.
     Denis queria muito ajud-la e recorreu aos seus superiores, que,
estudando o caso, disseram que a nica chance de Denis ficar junto dela na
nova encarnao seria renascer como seu filho. Mas essa hiptese era
difcil, uma vez que ela lesara seus rgos reprodutivos e era quase certo
que no poderia ter filhos.
     Foi ento que eu e Denis pedimos a Sophie que nos ajudasse. Ela
estava se preparando para reencarnar. Ela havia reencontrado Renan, o
grande amor de sua vida, de quem estava separada havia muito tempo.
     Ele morava em uma dimenso superior e conseguira consentimento
para ter um encontro com ela e juntos programarem uma nova vida na
Terra, onde teriam oportunidade de, vencendo alguns desafios, continuarem
juntos para sempre.
     Eu acompanhei a alegria deles. Na noite em que os dois faziam
projetos para o futuro, felizes, Sophie, notando minha tristeza por causa de
Marie, disse:
     -- Eu gostaria de ajudar Marie e Denis. Se eu puder fazer alguma
coisa, pode contar comigo.
     Ela estava feliz, ento fiz o pedido:
     -- Tenho receio de que Marie, vendo-se sozinha, volte a cometer os
mesmos erros. Sinto que, se Denis estiver ao lado dela, tudo sair bem. Ele
quer nascer, no entanto Marie no vai poder ter filhos. Mas voc pode.
     -- O que quer dizer?
     -- Voc pode receb-lo como filho e entreg-lo a ela. Estou certa de
que, se ficaram juntos, ela sair vencedora desta vez.
     Sophie olhou para seu amado e disse:
     -- Eu gostaria muito de fazer isso. Mas no sei se na hora vamos
querer dar um filho nosso pra outra pessoa criar.
     -- Eu seria incapaz de fazer isso -- respondeu Renan.
     Eu no tive coragem de falar mais no assunto. Renan reencarnou
primeiro; Sophie e Marie, trs anos depois.
     Os anos foram passando e Marie, agora com o nome de Maria
Eugnia, tornara-se uma menina introvertida, revoltada, infeliz.
     Tentamos aconselh-la, mas ela recusava-se a nos ouvir. Quando ela
se casou com Henrique, um rapaz bom e honesto melhorou um pouco. Mas
depois, quando descobriu que no poderia ter filhos, ficou pior.
     Por isso eu me lembrei da promessa que Sophie me fizera e de ajud-
la e decidi procur-la. Uma tarde em que ela estava esperando em uma sala
na penumbra eu a tirei do corpo e conversamos.
     Ento eu lhe pedi que nos ajudasse e que, quando chegasse  hora,
aceitasse a proposta que lhe seria feita.
     A vida me concedeu uma oportunidade e, diante das dificuldades de
Adele, eu lhe sugeri um plano de ao, visando a obter o bem de todos, mas
principalmente a juntar Denis e Marie.
     Norma fez uma pausa em sua narrativa e Marina, sem poder conter as
lgrimas, soluava emocionada. Rafael ouvia surpreendido, identificando-
se com a histria que estava sendo contada.
     Norma continuou:
     -- Sophie cumpriu sua promessa. Permitiu que Denis nascesse e fosse
viver ao lado de Marie. A presena dele fez com que Marie percebesse as
qualidades que possua o lado bom que no conseguia enxergar. Tendo
observado seus pensamentos, seu amor pela vida e pelas pessoas,
acreditamos que ela tenha encontrado o caminho da redeno e da
felicidade.
     Devo dizer que os laos de amizade que nos unem consolidaram-se,
tornando-se eternos. Tanto eu quanto os amigos que vocs tm no astral
vibramos de alegria com sua felicidade. Do seu lado est um amigo
querido, que ser o primeiro dos trs filhos que vocs tero. Ser uma
famlia feliz, na qual todos os membros tero abenoada oportunidade de
progredir espiritualmente. Vocs merecem cada momento de felicidade que
conquistaram. Obrigada por terem me ouvido. Que Deus os abenoe.
     Rute calou-se. Ccero olhava em volta surpreendido. Oflia e Marina
tinham o rosto lavado em lgrimas. Rafael a custo dominava a emoo.
     Ficaram em silncio por alguns minutos. Ccero acendeu a luz e serviu
um copo com gua a cada um. Rute abriu os olhos, apanhou o copo e foi
bebendo a gua devagar. Depois olhou em volta e disse admirada:
     -- Que coisa estranha... Eu dormi. Estive em um lugar lindo, cheio de
flores. Mas sinto que aconteceu alguma coisa aqui. O que foi?
     -- Um esprito chamado Norma falou por meio de voc. Contou uma
histria linda, mas no entendi muito bem -- respondeu Ccero.
     Os outros continuavam calados. Por fim, Oflia disse com certa
euforia:
     -- O que aconteceu comigo hoje foi impressionante. Enquanto Norma
falava, eu via todas as cenas como se fosse um filme. E eu tambm estava
l, costurando com Sophie. Eu estava l! Eu era uma delas! Eu vivi aquela
vida!
     Marina levantou-se e abraou-a.
     -- Sim me. Ns estvamos l. Eu tambm vi as cenas. Enquanto eu
vendia as mercadorias, voc costurava. Vi claramente ns duas no castelo,
conversando com Marie, ela nos fazendo confidncias. Foi incrvel.
     Depois, voltando-se para Rafael, que as olhava admirado, ela
continuou:
    -- E voc tambm estava l! Senti toda a emoo quando nos
reencontramos e combinamos viver juntos como estamos agora.
    Rafael passou a mo nos cabelos, respirou fundo e respondeu:
    -- Desde que ela comeou a falar eu senti que conhecia essa histria.
No via as cenas como vocs, mas senti cada emoo. Mesmo antes que ela
dissesse o nome de Henrique, identifiquei quem eram os personagens. S
no sabia que voc estava envolvida.
    Marina aproximou-se dele e abraou-o com carinho.
    -- Me perdoe. Sei que deveria ter lhe contado tudo. Mas no o fiz por
dois motivos: primeiro porque tive medo de que me julgasse interesseira
por receber dinheiro para fazer o que fiz. Segundo, esse segredo no era s
meu, mas envolvia outras pessoas e eu havia jurado nunca contar nada a
ningum. Mas agora, depois do que ouvimos, no h como fugir. Sentem-
se. Chegou  hora da verdade.
    Todos se acomodaram ao redor da mesa e Marina, olhos perdidos nas
lembranas, comeou a falar. No omitiu nada. Contou da revolta com o
abandono do pai, do juramento para mostrar-lhe que poderiam viver bem
sem ele, seu esforo trabalhando, estudando, lutando para conquistar seu
espao. Seu encontro com
    Adele, sua recusa, seus sonhos com Norma e sua estada na fazenda. O
nascimento do menino, suas emoes, o apoio de Adele e o que ela lhe
contara sobre Henrique e Maria Eugnia. E concluiu:
    -- Agora vocs sabem de tudo. No nego que o dinheiro que recebi
contribuiu para apressar os projetos que eu tinha. Confesso que muitas
vezes eu me condenei por haver aceitado esse dinheiro e foi Eunice quem
me fez entender que eu me sentia assim por ser preconceituosa, por achar
que o dinheiro era um mal. Ela me ensinou que ele  um valor necessrio
para quem vive no mundo poder realizar seus projetos. Ele  apenas um
veculo, e depende de ns us-lo para o bem ou para o mal. Sinto-me
aliviada por haver lhes contado tudo.
     Rafael segurou a mo dela e levou-a aos lbios com delicadeza.
Depois, ainda apertando-a com carinho, disse:
     -- A primeira coisa que aprendi, tanto na profisso quanto estudando
a espiritualidade,  a no julgar. Voc fez o que sentiu que devia fazer.
Escolheu esse caminho. Se tivesse recusado essa proposta, no sei como
todos estaramos hoje. Enquanto Norma falava, eu me lembrava das
sesses de terapia com Henrique, quando ele me falava do bem que o
nascimento de Dionsio fizera a toda sua famlia, de como essa criana se
apegara a Maria Eugnia mais do que ao pai, mostrando claramente quanto
eles eram ligados. Disse ainda quanto eram gratos  mulher que ofereceu
seu corpo para que Dionsio pudesse nascer. E eu sinto que o esprito desse
menino  muito elevado, tanto que sua presena, seu amor, trouxe alegria,
equilbrio, paz, felicidade a todos que o cercam.
     -- Voc est certo. Durante o tempo em que vivi na fazenda e ele
estava comigo, dentro de mim, fui muito feliz. Foi um tempo cheio de paz,
de calma, quando aprendi muito. Conheci pessoas maravilhosas. Por certo,
a presena dele tambm me fez bem.
     -- Estou maravilhada -- disse Rute. -- H tanto tempo estudando a
espiritualidade, nunca havia participado de um fenmeno como o desta
noite. Creio que tenha sido extraordinrio, mas no me recordo de nada do
que Norma disse. Gostaria muito de ouvir esse lado da histria.
     Oflia levantou-se e disse:
     -- Enquanto algum conta, vou fazer um caf. Acho que depois de
tudo, todos precisamos de um.
     Elas riram contentes. Enquanto ela foi  cozinha preparar o caf,
Marina, de mos dadas com Rafael, comeou a contar o que Rute queria
saber.
     Momentos havia em que ele interferia, salientando alguns detalhes,
comentando os fatos  luz das leis csmicas que regem a vida.
     Quando Marina terminou, ele complementou:
     -- Esta noite fomos abenoados por revelaes do nosso passado.
Para mim, representaram uma preciosa aula de como a vida reage s nossas
escolhas. Que elas sirvam para que continuemos pautando nossas vidas
procurando fazer nosso melhor, porque assim estaremos garantindo um
futuro de progresso e de felicidade.
     -- Concordo -- tornou Marina. -- s vezes, em minha profisso,
encontro obstculos a essa atitude. As leis humanas tentam proteger os
justos e castigar os corruptos, mas elas so executadas por pessoas, e 
nesse particular que acabam sendo desvirtuadas, acobertando a
desonestidade, disseminando injustias. Embora nunca tenha compactuado
com elas, muitas vezes me senti impotente para garantir que a justia fosse
feita, o que sempre me deprime. Contudo, depois que comecei a estudar a
espiritualidade, descobri que, apesar das aparncias, ningum escapa  ao
das leis divinas. Hoje, quando fao tudo que posso e no ganho a causa
como desejaria, embora tenha dado o meu melhor e utilizado caso nas mos
de Deus. Sei que isso aconteceu porque meu cliente precisava passar por
essa experincia.
     -- Sei o que quer dizer -- respondeu Rafael. -- Eu tambm, diante de
certos casos difceis, quase insolveis aos olhos da psiquiatria, tambm me
senti impotente me perguntando por que esses fatos aconteciam. Ficava
angustiado, nervoso, acabrunhado, estudando mais para ver se encontrava
alguma sada. Hoje sei por que no conseguia. Nesse particular, estou tendo
 mesma atitude que voc. E sabe o que descobri?
     Rafael fez ligeira pausa e, vendo que os outros trs balanaram a
cabea negativamente, ele concluiu:
     -- Que estando em paz, confiante na ajuda espiritual, algumas
solues comearam a aparecer em minha mente. Algumas muito boas que,
quando utilizadas, deram excelente resultados.
     O caso de Henrique foi um deles. Algumas sugestes que lhe dei me
ocorreram em um momento desses, em que estava ligado com a
espiritualidade e em paz.
     Rute considerou:
     -- Tenho aprendido que, para resolver qualquer desafio, o primeiro
passo  tentar manter o equilbrio. Nesses momentos, eu me ligo logo com
Deus, tento relaxar e conversar a paz, pensar no bem. Nosso primeiro
impulso  fazer o contrrio: imaginar todo mal possvel. s vezes temos de
usar toda a nossa fora mental para no dar importncia a esses
pensamentos. Quando conseguimos, os resultados so maravilhosos.
     -- No  fcil conseguir isso -- disse Ccero.
     -- No comeo pode no ser -- respondeu Rute. -- Mas, se voc
continuar tentando, acabar conseguindo. Voc sentir a prpria fora e
isso lhe dar muito prazer e mais confiana em si.
     Oflia voltou  sala com uma bandeja que colocou sobre a mesa.
     -- Ccero, v at a cozinha e pegue o prato com o bolo.
     -- O cheiro do caf est bom demais! -- comentou Rafael.
     -- O bolo de Oflia  imperdvel -- tornou Rute, sorrindo.
     Ccero voltou. Enquanto Marina servia o caf, Oflia distribua
generosos pedaos do bolo.
     No   gostoso   aconchego     daquele   momento,     eles   continuaram
conversando, comentando os fatos inesperados daquela noite.
     Norma, tendo ao lado dois amigos espirituais, sorria contente. Por fim,
disse aos companheiros.
     -- Este  o lar onde vocs vo reencarnar. Nem todos tm a felicidade
de encontrar um ambiente to favorvel.
     Os dois concordaram e depois, abraados, saram e, em poucos
segundos, desapareceram rumo ao infinito.




     CAPTULO 25




      Na noite seguinte, na cama, deitado ao lado de Marina, Rafael voltou
ao assunto.
     -- Henrique me ligou hoje renovando o convite para jantar em sua
casa. Eu disse que voc no poderia ir. Ele transferiu para o sbado
seguinte. O que deseja fazer?
     Marina suspirou pensativa:
     -- No sei. Eu gostaria de ir, ver Dionsio, mas tenho medo.
     -- Do qu?
     -- De me emocionar, ser reconhecida.
     -- Voc disse que Adele nunca revelou sua identidade. Nem sequer
viram seu retrato. Depois do que aconteceu ontem, penso que a vida quer
nos aproximar.
     -- Tambm sinto isso. Mas no ser apenas uma impresso minha, o
desejo inconsciente de ver Dionsio?
     Rafael meneou a cabea negativamente:
     -- No. Se fosse isso, nossos amigos espirituais no teriam se dado ao
trabalho de vir nos falar sobre o passado. Norma disse que pertencemos 
mesma famlia espiritual e que estamos unidos pelos laos do esprito.
     -- Acredita que seria bom irmos?
     -- Tudo leva a crer que sim. Temos aprendido a observar os sinais
que a vida nos d. Eles tm surgido em nosso caminho com insistncia.
     -- Ainda estou insegura. Vamos esperar mais alguns dias e ver o que
acontece.
     -- Est bem.
     -- Norma disse que vamos ter trs filhos. Acho que o primeiro j est
a caminho.
     Rafael sentou-se na cama e abraou-a contente:
     -- Tem certeza?
     -- Ainda no. Mas tudo indica que sim. H quase dois meses minha
menstruao sumiu.
     Rafael beijou-a com carinho.
     -- Temos que ter certeza. Amanh mesmo vamos fazer os exames.
     -- Estou muito feliz. No momento, ter um filho  o que eu mais
quero.
     -- Eu tambm.
     -- No vamos contar a ningum antes de ter certeza. Eu gostaria que
fosse um menino.
     -- Pois eu gostaria que fosse uma menina, linda como voc.
     Abraados, continuaram fazendo planos para o futuro.


     ***

     No dia seguinte, o exame confirmou: Marina estava grvida.
     A notcia foi motivo de alegria para toda a famlia. Marina sentia-se
realizada. Desta vez, ela teria o prazer de preparar todo o enxoval, decorar
o quarto para receber o beb.
     Dois dias depois, Rafael marcou consulta com um obstetra seu amigo,
que a examinou e constatou que tudo estava bem. Parabenizou-os pela
notcia, deu algumas orientaes e pediu alguns exames de praxe.
     Ao sarem do prdio, passava das quatro e Marina disse:
     -- Hoje no vou voltar mais ao escritrio. Voc tem alguma consulta?
     -- Eu tinha, mas desmarquei. Deixei esta tarde livre para cuidar de
voc.
     -- Nesse caso, vamos tomar alguma coisa. Estou com fome.
     -- Percebi que voc quase nem almoou. H uma confeitaria perto
daqui. Vamos tomar um lanche.
     O salo de ch era elegante e estava lotado. Alguns violinos
animavam o ambiente, tocando msica alegre e agradvel.
     Felizmente conseguiram uma mesa e sentaram-se. A garonete
aproximou-se sorridente. Rafael indagou a Marina:
     -- O que voc vai querer?
     -- Hoje quero tudo a que tenho direito. Depois vou seguir as
recomendaes do mdico e manter um regime adequado.
     -- Dois chs completos -- pediu Rafael sorrindo.
     Pouco depois, o ch foi servido e a mesa foi coberta de guloseimas
deliciosas. Marina parecia uma criana. Serviu-se e comeou a comer,
saboreando tudo.
     Rafael olhava-a divertido. Foi nesse momento que uma voz conhecida
disse alegre:
     -- Dr. Rafael!
     Eles olharam para o lado e viram Henrique em p diante deles. Rafael
levantou-se imediatamente. Marina quase se engasgou com o pastelzinho
que comia.
     -- Henrique! Que prazer v-lo! Esta  minha esposa.
     Marina pousou a xcara no pires. Henrique, vendo que ela fazia
meno de levantar-se, disse:
     -- Por favor, no se incomode!
     Estendeu a mo, que ela apertou delicadamente.
     Estou  procura de uma mesa, mas parece que este lugar hoje est
lotado.
     -- Pode sentar-se conosco -- convidou Rafael.
     Henrique hesitou:
     --  que estou com Maria Eugnia e Dionsio. Eles esto esperando
no saguo.
     Marina interveio:
     -- V busc-los. Ser um prazer t-los conosco.
     Ele sorriu:
     -- Vou aceitar porque prometi a Dionsio que o traria aqui hoje. No
quero decepcion-lo.
     -- No se acanhe. Ser um prazer.
     Quando ele se foi, Rafael tornou:
     -- Voc queria um sinal. O que acha deste?
     Marina no teve tempo de responder: Henrique e Maria Eugnia,
trazendo o menino pela mo, aproximaram-se.
     Feitas as apresentaes, eles se acomodaram e pediram o que
desejavam. Marina observava Dionsio, dissimulando a curiosidade. Era
um menino lindo, forte, corado, parecido com o pai, olhos verdes e
brilhantes e um cativante sorriso.
     Maria Eugnia, sentada ao lado de Marina, sorriu para ela.
     -- Obrigada por nos ceder este espao. No pensvamos que estivesse
lotado. Fomos levar Dionsio para conhecer uma escola e havamos
prometido traz-lo aqui. Ele veio uma vez no aniversrio de um amiguinho
e adorou.
     -- Este lugar  muito agradvel.
     Maria Eugnia, sentada ao lado de Dionsio, servia-o com carinho,
atenta a seus mnimos gestos, cuidando para que nada lhe faltasse. Havia
amor em seus olhos quando o fitava.
        Marina observava, comovida, que o menino tinha para com ela gestos
de carinho, segurando sua mo, sorrindo para ela, reclamando sua ateno
quando Maria Eugnia se entretinha conversando com os demais.
        Notou tambm que havia entre eles uma cumplicidade afetiva muito
especial, o que a fazia recordar-se da histria que Norma contara sobre
eles.
        Marina no tinha dvidas de que eles estavam ligados pelo amor. Para
ela, essa realidade era motivo de alegria, uma vez que se sentia feliz por
haver possibilitado que se encontrassem de novo. Rafael trocava idias com
Henrique sobre espiritualidade, contando suas experincias com alguns
casos que observara de perto. Henrique ouvia com interesse, fazendo
algumas perguntas, externando opinies. A conversa flua com naturalidade
e o ambiente era agradvel.
        Marina olhava Dionsio com admirao e interesse. Maria Eugnia
notou e Marina apressou-se a dizer:
        -- Seu filho  muito lindo. -- E, baixando a voz, continuou: --
Estamos voltando do mdico. Acabamos de descobrir que estou grvida.
Estou olhando para ele porque gostaria que meu filho fosse bonito e
saudvel assim.
        Maria Eugnia sorriu e respondeu:
        -- Parabns!  o primeiro?
        -- Sim.
        -- Ser me  uma coisa maravilhosa, voc vai ver. Dionsio nos
trouxe felicidade, deu novo sentido  nossa vida. Para mim, ele  o bem
mais precioso do mundo.
        Dionsio entretinha-se com uma taa de sorvete de creme com
pedacinhos de chocolate, divertindo-se em procurar cada pedacinho,
degustando-os com prazer.
     Enquanto os dois homens falavam sobre espiritualidade, as duas
trocavam idias sobre a maternidade. Marina queria saber tudo sobre os
primeiros cuidados com o recm-nascido e Maria Eugnia explicava com
prazer.
     Em dado momento, ela disse sorrindo:
     -- Dionsio! Voc est melado! Olhe suas mos! Vamos ao toalete.
Com licena.
     Marina levantou-se:
     -- Eu a acompanho.
     Ela queria aproveitar ao mximo aquela chance inesperada de
observar o menino.
     Quando elas foram, Henrique disse:
     -- Que bom encontr-los aqui. Eu e Maria Eugnia temos muitos
conhecidos com os quais convivemos socialmente, mas poucos amigos.
Entretanto, com vocs sinto como se fssemos ntimos de longa data.
Nunca vi Maria Eugnia to  vontade, to falante, como agora com sua
esposa. Parece que se conhecem h muito tempo.
     -- Elas possuem interesses em comum. Marina est grvida.
     -- Parabns! Maria Eugnia  me extremosa. Ela e Dionsio so
muito apegados. Um no fica sem o outro.
     Rafael ficou pensativo por alguns instantes, depois disse:
     -- Pensando em nosso relacionamento, que foi alm do habitual entre
um paciente e seu mdico, e na facilidade com que Marina se entendeu
com sua esposa, acredito que j nos conhecemos de outras vidas.
     -- Pode ser mesmo. Estudando os fenmenos de reencarnao, vrias
vezes pensei que esse apego entre Maria Eugnia e Dionsio revela que eles
no s se conheceram em outras vidas como se gostavam. Desde pequenino
ele demonstrava afeto por ela. Seu rostinho se iluminava quando ela o
tomava no colo ou o acariciava. E, conforme o tempo foi passando, cada
vez mais ele mostrou quanto a amava.
      --  natural o afeto entre me e filho. Mas a recproca tambm 
verdadeira. J tive casos em que o filho, desde bebezinho, chorava quando
a me o pegava no colo. Houve um que me impressionou muito. Quando a
me pegava o menino, ele chorava tanto que o marido brigava, insinuando
que ela o beliscava de propsito.
      -- Nesse caso, o filho teria sido um inimigo dela em outras vidas.
      --  a nica forma de podermos entender um caso assim.
      -- Essa no deve ser uma tarefa fcil para os pais.
      -- No  mesmo. Mas, apesar de tudo, tanto a me quanto o filho,
com o decorrer do tempo, vo se questionar sobre essa animosidade e tentar
melhorar esse relacionamento. Algumas vezes conseguem; outras, no.
      -- Isso vai depender de muitos fatores, alm da boa vontade de cada
um.
      -- Creio que quando a vida une essas pessoas, colocando-as na
mesma famlia, lhes d oportunidade para eliminar assuntos mal resolvidos
de outras vidas. Embora elas no se recordem dos fatos passados, em seu
inconsciente as conseqncias deles esto l, interferindo em sua maneira
de pensar, de agir, dificultando o equilbrio fsico, emocional e espiritual.
      -- Nesse caso, o conhecimento sobre reencarnao poderia ajud-los a
compreender o que facilitaria o processo.
      -- Pelo contrrio. Recordar o passado poderia dificultar a relao.
Mas s vezes, mesmo ignorando o que houve, a rejeio  to forte que
uma vida no  suficiente para acabar com a questo. Em todo caso,
sabendo que a vida no joga para perder, quando ela une essas pessoas, 
porque elas tm condies de vencer.
      -- Esse pensamento ajuda a discernir e a tentar melhorar.
     Marina e Maria Eugnia estavam de volta com Dionsio, rosto lavado,
cabelinho penteado.
     -- Como voc est lindo! --exclamou Henrique sorrindo.
     -- Mame j me disse isso! -- respondeu ele levantando o rosto com
altivez.
     -- Sua me vai deixar voc muito convencido! -- brincou Henrique.
     Dionsio abraou a me, que havia se sentado, dizendo com carinho:
     -- Mame linda!
     Os olhos de Marina brilharam emocionados e ela tentou dissimular.
     -- Est na hora de irmos -- disse Maria Eugnia ao marido.
     Ele chamou a garonete e pediu a conta.
     -- Deixe comigo -- interveio Rafael.
     Henrique, no entanto, fez questo de pagar. Rafael e Marina
agradeceram. Na despedida, Henrique lembrou:
     -- Vamos marcar aquele jantar. Pode ser neste sbado?
     -- Tenho que olhar na agenda -- respondeu Rafael. -- Telefonarei
amanh, est bem?
     -- Quero mostrar-lhe um livro antigo que descobri sobre
materializao -- disse Henrique.
     -- Ser um prazer.
     Despediram-se e saram. Rafael sentou-se novamente e, vendo que
Marina continuava calada, perguntou:
     -- E ento?
     -- Ainda estou perplexa.
     -- Mas foi bom voc poder conhecer Dionsio, ver como ele est bem.
     -- Foi maravilhoso!  surpreendente como ele a ama! Penso que foi
isso que a vida quis me mostrar.
     -- Foi mais do que isso. Este encontro nos trouxe a confirmao de
que tudo quanto Norma nos contou foi verdade.
     --  mesmo. Alis, ns nunca duvidamos, mas estar diante dos fatos 
motivador. Sinaliza que estamos no caminho certo.
     Ele concordou e, em seguida, decidiram ir para casa.


     ***

     Ao sair da casa de ch, enquanto se acomodavam no carro, Henrique
comentou:
     -- Foi bom termos encontrado Rafael e a esposa. Eu me sinto muito
bem ao lado dele. E, pelo que notei sua esposa tambm  muito agradvel.
     -- De fato. Ao v-la, tive impresso de que a conhecia de algum
lugar.
     -- Deve ser do centro de estudos. Ela  voluntria l.
     -- Deve ser isso. Acho mesmo que a vi por l. Ela est esperando o
primeiro filho e muito ansiosa para saber como cuidar dele quando chegar.
     -- Por isso a conversa entre vocs ficou animada.
     -- De fato. A experincia com Dionsio foi to boa que se eu pudesse
teria mais filhos.
     -- Voc diz isso porque Dionsio  um menino adorvel.  muito bom
t-lo conosco.
     Ela sorriu contente. O menino, acomodado no banco traseiro,
adormecera. Ela apanhou uma manta e o cobriu com carinho.
     Eles chegaram em casa e Henrique levou Dionsio para a cama. Maria
Eugnia tirou-lhe os sapatos e cobriu-o. Ele nem acordou.
     -- Ele brincou tanto que est dormindo largado.
     Eles saram do quarto. Enquanto Maria Eugnia ia cuidar de seus
afazeres e programar uma comida leve para o jantar, Henrique foi ao
escritrio apanhar um livro e sentou-se calmamente para ler.
     Estava to relaxado, acomodado em gostosa poltrona, a sala em
penumbra, que acabou adormecendo.
     Sonhou que caminhava por um lugar cheio de flores perfumadas, onde
uma mulher muito bonita sorriu para ele e disse:
     -- Est tudo certo. Confie sempre.
     Ele concordou, mas nesse momento viu-se em outro lugar. Estava
escuro e uma nvoa pesada dificultava a viso. Ele caminhava um pouco
assustado, sem saber onde estava, quando, de repente, uma mulher plida,
rosto encovado, cabelos ao vento, apareceu diante dele:
     -- Era voc mesmo que eu queria ver. Voc vive feliz enquanto eu
estou sofrendo nesta vida miservel. Isso no  justo. Voc  o culpado. Por
sua causa fiquei neste estado. No desisti. Vou cobrar tudo que me deve.
Nunca o deixarei em paz.
     Henrique sentiu uma tontura e um odor desagradvel. Queria fugir
desaparecer, mas no conseguiu.
     -- Voc no vai livrar-se de mim. Desta vez vou conseguir o que
quero.
     Segurou a mo dele e arrastou-o atravs da neblina. Ele estava
apavorado. A mo dela segurava a sua e ele tentava desvencilhar-se, sem
conseguir.
     Chegaram a uma pequena clareira e Henrique viu que estavam diante
de uma tapera. Ela, sem largar a mo dele, empurrou a porta e entraram.
     O lugar era pobre, triste, poucos mveis. Ela o levou at uma cama em
um canto do aposento, onde havia um menino deitado, parecendo morto.
     Henrique lembrou-se do pesadelo; era a mesma mulher, o mesmo
menino.
     -- A culpa  sua -- gritava ela. -- Eu quero meu filho de volta. Voc
o matou e o levou de mim. Mas vai pagar por tudo isso. Eu jurei. Agora
voc d tudo a esse menino que arranjou que roubou o lugar do meu filho.
Mas voc no vai ficar com ele. Vai pagar pelo que me fez. Farei tudo para
tir-lo de voc!
     Henrique pensou em Dionsio e sentiu aumentar seu horror. Aquilo
no podia acontecer. Pensou em Deus, pedindo-lhe que afastasse aquela
mulher de seu caminho. Em seguida acordou.
     Seu corao batia acelerado, suas mos estavam frias, e um medo
horrvel o deixava sem ar.
     Foi um pesadelo! O pesadelo voltou, pensou ele.
     Procurou se acalmar, depois foi  copa procurar um copo com gua.
Maria Eugnia, vendo-o, assustou-se:
     -- O que foi Henrique? Voc est plido. O que aconteceu?
     Ele tomou a gua, depois respondeu:
     -- O pesadelo voltou. Mas desta vez foi mais forte.
     -- Que pesadelo foi esse? Voc nunca me disse nada.
     -- Uma mulher horrorosa que me persegue, tendo ao lado um menino
morto. Ela me odeia.
     -- No penso que seja apenas um pesadelo. Parece mais um esprito
que o est perseguindo.
     --  a segunda vez que sonho com ela. Eu contei deste sonho a Rafael
e ele me aconselhou a procurar ajuda espiritual.
     -- Nesse caso,  melhor irmos falar com Dona Eunice.
     -- Fale com ela, pergunte se pode nos receber. Farei qualquer coisa
para no ter esse sonho de novo.
     Para no deixar Maria Eugnia preocupada, ele no contou que a
mulher ameaara Dionsio.
     -- Vou ligar e saber se ela poder nos atender ainda hoje.
     -- Faa isso.
     Maria Eugnia conversou com Eunice, que concordou em receb-los.
Depois aproximou-se de Henrique, que aguardava sentado na sala.
     -- Ela vai nos atender hoje s oito.
     --Ainda bem. Sinto-me angustiado, nervoso. Tenho a impresso de
que est para acontecer algo muito ruim, uma tragdia.
     -- Voc ficou impressionado. No vai acontecer nada. Somos pessoas
de bem, estamos protegidos. Vamos confiar.
     Henrique lembrou-se da mulher que vira em meio ao jardim florido.
     -- Tem razo. Logo que adormeci, sonhei com uma mulher linda, em
um jardim maravilhoso, que me disse que tudo estava certo e que eu
deveria confiar.
     Maria Eugnia sorriu e disse:
     -- Senti que estamos protegidos e que precisamos confiar. O medo
nos enfraquece. Se queremos evitar as coisas ruins, temos que no lhes dar
fora. Nada de mal vai nos acontecer.
     --  voc est certa. No sei por que este pavor. Nunca fui medroso.
     -- Calma. Est tudo bem.
     Henrique no quis jantar e esperou ansiosamente a hora de ir ao
encontro de Eunice. O tempo custava a passar. Maria Eugnia, notando a
inquietao dele, fez o possvel para entret-lo, dizendo coisas positivas e
alegres.
     Faltavam dez minutos para as oito e eles j estavam na sala esperando
o encontro com Eunice.
     Pouco depois, foram conduzidos  sala dela, que os cumprimentou
com carinho e pediu que se sentassem diante de sua mesa, enquanto ela se
acomodava do outro lado.
     Antes que ele falasse, ela tornou:
     -- O passado nos procura quando surge a oportunidade de
resolvermos velhos problemas inacabados. O ressentimento, a falta de
conhecimento dos fatos criam disputas e o orgulho geralmente acaba por
empurrar-nos para um crculo vicioso que, alimentado, pode nos prejudicar
por muito tempo. Esse  seu caso.
     -- Por que essa mulher me persegue? No a conheo no me lembro
de nada. Mas sinto que ela me odeia.
     -- Digamos que, enquanto voc aprendeu, evoluiu, mudou seu padro
mental, ela se manteve presa ao rancor, alimentando desejo de vingana, e
isso a tem mantido longos anos presa a uma trgica experincia do passado.
     -- Ela me mostra um menino morto e me acusa de assassino. Tenho
estudado os fenmenos espirituais, sei que vivi outras vidas, mas ser que
cometi esse crime? Quando ela me acusa, sinto culpa.
     -- No entre nesse sentimento.  comum espritos desequilibrados se
aproveitarem do fato de que um encarnado esquece o passado para cobrar
culpas inexistentes, tentando assim baixar o padro mental para, a sim,
poder domin-lo.
     -- Poderia estar acontecendo isso?
     -- Poderia. Mas, mesmo que no esteja cultivar a culpa seria baixar
seu padro energtico, o que no seria adequado, de qualquer forma.
     Henrique ficou calado por alguns instantes, depois disse:
     -- Em todo caso, desejo dizer que o problema de uma mulher que
chora o filho morto me sensibiliza muito. Tenho um filho que adoro. Posso
avaliar o que ela sente. Quero dizer que, se eu de fato fiz algum mal a ela
ou a esse menino, lamento muito e estou disposto a fazer o que for possvel
para ajud-los.
     -- Esse  um pensamento bom. Se o caso dela foi trazido a voc, 
porque chegou o momento de essa mulher ser auxiliada.
     -- No sei como fazer isso -- disse Henrique.
     -- Vamos fazer o seguinte: hoje voc vai receber um tratamento
energtico para equilibrar suas energias. A inquietao, o nervosismo, o
mal-estar vo desaparecer. Voc ficar bem.
     -- E quanto ao caso da mulher?
     -- Ela est no limite de suas foras. S o dio a alimenta. Temos que
estudar a melhor forma de ajud-la. Vou consultar nossos guias espirituais
e pedir orientao. Assim que tiver uma resposta, eu os avisarei.
     -- Durante esse tempo, o pesadelo no vai se repetir?
     -- Penso que no. A mulher que voc viu no jardim era um esprito
bom. Ela permitiu seu encontro com aquela mulher para chamar sua
ateno a fim de que nos procurasse. J que conseguiu o que pretendia,
ficar aguardando nossas providncias a respeito. Durante esse tempo voc
estar protegido.
     -- Ainda bem. No gostaria de passar por aquilo de novo.
     Eunice chamou uma assistente e pediu que os conduzisse ao
tratamento. Depois que eles saram, Eunice pensou:
     Vou consultar, mas minha parte j sei como fazer.
     Depois, elevou seu pensamento e agradeceu a Deus pela oportunidade
de poder ajudar.




     CAPTULO 26




      Dois dias depois, Eunice ligou para Henrique. Aps os
cumprimentos, ele perguntou:
     -- Ento, tem uma resposta?
     -- Sim. Meus amigos espirituais os convidaram para uma reunio
especial para o caso.
     -- Quando?
       -- Hoje, s oito da noite, aqui no centro de estudos. Vocs podero
vir?
       -- Estaremos a.
       Assim que Henrique desligou, lembrou-se do pesadelo e sentiu um
aperto no peito. Uma sensao de medo o invadiu.
       Fazer uma sesso especial no iria atrair aquela mulher de novo?
Agora que ele se sentia bem, talvez fosse prudente no mexer com ela. E se
ela voltasse a persegui-lo?
       Henrique sentiu alguns arrepios e, nervoso, foi tomar um copo de
gua. Depois respirou fundo. Sentia-se inseguro, com medo. Comeou a
pensar que talvez fosse melhor no ir.
       Passou o dia agitado, sem conseguir colocar ateno no trabalho. No
fim da tarde, ligou para o Rafael.
       -- Dona Eunice marcou uma sesso para hoje  noite. Eu estava to
bem, mas depois disso fiquei indisposto. Sinto arrepios, no consigo me
concentrar no trabalho. Talvez fosse melhor no ir. O que acha?
       -- Ao contrrio. Agora  que voc precisa ir.
       -- Como assim?
       -- O que voc est sentindo no  seu. So eles, os espritos que o
esto envolvendo, que reagem e no querem ir a essa reunio. Tm medo
de serem responsabilizados por seus atos e serem obrigados a deix-lo em
paz.
       -- Mas sou eu que estou sentindo.
       -- Eu sei, mas voc est captando a energia deles.
       -- Tem certeza?
       -- Sim. Quando isso acontece, parece que  voc quem tem esses
sentimentos.
       -- Quisera ter essa certeza.
       -- Se isso serve para acalm-lo, digo que eu e Marina tambm fomos
chamados a participar dessa reunio. Estaremos l.
       Henrique suspirou aliviado:
       -- Nesse caso, fico mais calmo mesmo. Certamente, Dona Eunice o
chamou porque sabe que  meu mdico e ficarei mais seguro se estiver
conosco.
       -- Pode ser -- disse Rafael, pensativo. -- No se preocupe.
Estaremos l dez minutos antes. Em todo caso, ao ir se aproximando a hora
da reunio, voc poder sentir aumentar sua inquietao, mas fique firme.
 uma reao natural, e eu at a considero promissora. Quando eles
demonstram medo,  porque sentem que no vo poder resistir  fora da
luz.
       -- Farei o possvel. Foi bom falar com voc.
       -- Voc no est em condies de trabalhar. V para casa, relaxe.
Confie na ajuda espiritual e no se deixe envolver pelo medo. Tudo vai dar
certo.
       --  o que vou fazer. Obrigado e at a noite.
       Henrique desligou o telefone e foi para casa. As palavras de Rafael o
acalmaram, mas apesar disso ele sentia que o medo, a inquietao, o
nervosismo ainda o estavam rondando. Esforou-se para reagir.
       Ele no estava s. Dedicados amigos espirituais zelavam pela sua paz,
ainda que ele no os pudesse ver. Quando um pensamento de medo o
acometia, ele pensava que estava protegido e que nada de mau lhe
acontecia.
       Faltavam quinze para as oito quando Henrique e Maria Eugnia
chegaram ao centro de estudos espirituais. Uma assistente conduziu-os a
uma sala, onde havia uma mesa, algumas cadeiras, um aparador com um
vaso de flores e bandeja com jarra de gua e copos.
     A sala em penumbra estava iluminada por uma luz azul. Eunice os
esperava e, para surpresa deles, l tambm estavam Adele e Bernardo.
     Uma msica suave enlevava o ambiente. Apesar de inesperada
presena de Adele, eles permaneceram em silncio.
     Eunice pediu-lhes que se sentassem ao redor da mesa, onde j estavam
uma moa e um rapaz. Rafael e Marina entraram e foram acomodados
tambm.
     Marina olhava em volta surpreendida, emocionada, perguntando-se:
     Por que ser que nos reuniram aqui?
     Rafael notou que ela estava nervosa. Segurou sua mo para mostrar
seu apoio.
     Eunice sentou-se  cabeceira da mesa e fez uma prece pedindo a
assistncia dos amigos espirituais. Depois disse:
     -- Vamos continuar orando em silncio.
     Henrique sentia as mos frias e a custo dominava o nervosismo. Maria
Eugnia, mais calma, sentia que alguma coisa muito importante ia
acontecer ali.
     Adele tambm se perguntava por que todos os participantes de seu
segredo, que haviam prometido no se aproximarem uns dos outros,
estavam reunidos, quase sem querer, por uma fora maior, que ela sentia,
mas no saberia explicar.
     Rafael, reverente, elevava o pensamento, sentindo que um calor
brando e agradvel o invadia, fazendo-o sentir uma sensao de alegria e de
amor.
     Pouco depois, a moa comeou a chorar, dizendo aflita:
     -- O que ainda querem? Por que esto todos contra mim? J no
chega o que me fizeram, e ainda me perseguem? No  justo. No posso
aceitar.
     Eunice levantou-se e aproximou-se da mdium:
     -- At quando voc vai continuar se colocando na posio de vtima?
No est cansada de chorar e alimentar seu sofrimento?
     -- Voc diz isso porque no foi o seu filho que ele matou cruelmente.
     -- Voc sabe que no  verdade.
     -- Claro que ! Acha que estou mentindo? No est vendo-o aqui, em
meus braos?
     -- Essa  uma iluso que voc alimenta porque se recusa a aceitar os
fatos. Faz tempo que seu filho no est mais em seus braos. Voc carrega
uma imagem que cristalizou e pretende com ela manipular as pessoas. Veja
o que eu fao com ela.
     Eunice passou as mos vrias vezes ao redor da mdium, que gritou:
     -- No! Voc no vai destruir minhas recordaes! Isso  tudo que me
restou. No pode fazer isso comigo.
     -- Voc se aprisionou na revolta e se recusou a continuar seu
caminho. Todos que viveram com voc naquele tempo progrediram,
evoluram, conquistaram uma vida melhor. O menino que foi seu filho hoje
 um esprito lcido, amoroso, feliz.
     -- Isso no  verdade. Ele continua comigo, em meus braos. Eu
nunca o libertei.
     -- Iluso. S iluso. H muito que ele foi embora. Veja o que fao
com esse boneco que voc carrega.
     Eunice continuou passando as mos ao redor da mdium, enquanto ela
gritava:
     -- No! No vou deixar. Por favor, no tirem o meu filho. No! Onde
est ele? Para onde o levaram?
     -- O fardo que voc carregava no tinha vida. No era ele.
     -- Vocs o levaram. Para onde? Eu j sei quem  o culpado. Ele foi o
assassino. Agora quer tir-lo de mim. Mas isso no vai ficar assim. Eu vou
tirar o filho dele. Agora esto felizes, mas eles tm que pagar o que me
fizeram. Vou levar o menino deles para que possam sentir o mesmo que eu
quando perdi meu filho.
     Henrique tremia apavorado, sentindo que ela se referia a Dionsio. Os
demais sentiam a mesma coisa. Todos, emocionados, oravam em silncio.
     -- Ameaar agora no vai ajudar. Apesar da sua atitude hostil, todos
esto desejando seu bem, orando em seu favor.
     -- No creio. Eles me odeiam.
     -- No, h muito a perdoaram.  hora de voc enxergar a verdade.
     -- Eu no vou esquecer. Eles vo pagar.
     -- Voc est cansada. Reconhea que deseja paz.
     -- No posso ter paz.
     -- Se voc aceitar a ajuda que lhe est sendo oferecida, eu lhe
mostrarei onde seu filho est.
     -- No acredito. Ele est morto.
     -- Voc tambm morreu na Terra, mas continua viva.
     -- No vai me convencer. Jurei vingana e vou acabar com aquele
intruso.
     -- Peo a todos que mentalizem a luz.
     A mdium calou-se durante alguns segundos. Depois gritou:
     -- Vocs o trouxeram para desafiar-me. Vou acabar com esse
menino! Quem o mandou se intrometer?
     Eunice viu que Dionsio em esprito entrou na sala, trazido por dois
amigos espirituais, e parou diante da queixosa mulher, olhando-a com amor
e estendendo-lhe os braos.
     Aos poucos, a fisionomia dele foi se transformando.
     -- Veja -- tornou Eunice. -- Voc no o reconhece?
     --  meu filho! Ele  meu filho! -- gritou ela, chorando
compulsivamente.
     Todos continuavam orando, e aos poucos ela foi se acalmando:
     -- Meu Deus! Eu no sabia! Por que ele se escondeu em um corpo
diferente?
     -- Ele reencarnou. Veja como est bem.
     -- Meu filho! Quanto tempo! Ser que pode me perdoar?
     Eunice viu quando o menino se aproximou e abraou a me, que
chorava emocionada.
     Os presentes, tomados de emoo, no continham as lgrimas. Depois
de alguns instantes, Eunice tornou:
     -- Anne, despea-se dele. Ele precisa ir embora. Agradea a Deus
pela ajuda que recebeu.
     -- No. Eu no quero que ele v. Quero ficar ao lado dele para
sempre.
     -- Por ora  impossvel. Mas, se concordar em fazer um tratamento,
esforar-se para melhorar, um dia poder ficar ao lado dele.
     Eunice viu que Dionsio foi levado e Anne pediu:
     -- Deixe-me v-lo um pouco mais. Farei o que me pedirem.
     -- Ele no pode ficar. Acalme-se, tudo vai ficar bem. Veja: a
enfermeira veio busc-la. V com ela.
     A mdium respirou fundo, estremeceu levemente e no disse mais
nada.
     Eunice sentou-se novamente e pediu:
     -- Continuemos em prece.
     O silncio se fez. Pouco depois, o rapaz ao lado de Eunice comeou a
falar:
     -- Eu sou Norma. Hoje conseguimos realizar um dos nossos projetos.
Vocs conseguiram vencer alguns assuntos mal resolvidos do passado e
daqui para frente podero desfrutar de um tempo melhor.
     Esto dispostos a seguir pela inteligncia ao invs de ir pela dor, e isso
nos alegra muito. Outro dia relatei a um dos casais aqui presentes fatos do
passado que deram origem aos acontecimentos de agora. Se eles assim o
desejarem, quando eu me for, podero contar aos demais.
     Falei sobre minha filha Marie; minha amiga Sophie; Denis, o amor de
Marie; mas faltava falar sobre Gerard. O que ainda no contei foi que
depois de haver sido assassinado cruelmente por Gilbert, Denis tornou-se
revoltado. No se conformava de haver sido arrancado dos braos de Marie
e planejava vingar-se.
     Tentamos convenc-lo a seguir conosco para tratamento, porm ele
no quis. Enquanto planejava vingar-se, acompanhava os passos de Marie,
desesperando-se ao assistir a suas relaes com outros homens.
     Cego pelo cime, juntou-se a um bando de vingadores com os quais
fez pacto. Durante anos, no conseguimos fazer nada em seu favor. Porm,
chegou o dia em que Marie regressou ao astral. Era a oportunidade que ele
esperava para ficarem juntos. Foi esper-la ansioso.
     Vendo-o, ela atirou-se em seus braos, dizendo que nunca mais se
separariam. Porm o passado havia deixado suas marcas em cada um, e o
cime de Denis, recordando a vida devassa que ela levara, provocava
contnuas discusses e cobranas, infernizando-os. Alm do mais, havia os
compromissos que ambos haviam feito com grupos de espritos que lhes
cobravam sem cessar os favores que diziam haver-lhes feito.
     Por fim, Marie, cansada das desconfianas de Denis, fugiu em
companhia de um grupo de espritos que a assediavam acenando com
vantagens e promessas, alimentando sua ambio.
     Depois que Marie o abandonou, Denis entregou-se  depresso e foi
ento que conseguimos lev-lo para um local de tratamento.
     Enquanto Marie continuava sem nos ouvir, Denis reconheceu seus
erros e decidiu mudar suas atitudes. Foi muito auxiliado por Adele e
Bernardo, um casal que residia em nossa cidade astral e que o amava
muito, pois, embora ele no se lembrasse, fora ligado a eles em outras
vidas. Ambos queriam muito que Denis se elevasse.
     A partir da, Denis dedicou-se ao trabalho espiritual, estudou,
aprendeu, tornou-se melhor. Ento passou a fazer parte do nosso grupo,
indo viver em nossa cidade.
     Apesar do seu progresso, ou at por isso mesmo, sua conscincia o
acusava pelas violncias que cometera. Reconheceu que dera motivos para
que Gilbert lhe tirasse a vida quando lhe roubou o amor da esposa, e que
ele por sua vez fizera pior, porque se voltara contra pessoas que no lhe
haviam feito nada.
     Ento pediu a Deus oportunidade de curar-se. Estava disposto a fazer
o que fosse preciso para libertar-se desse suplcio.
     Foi-lhe permitido reencarnar na mais completa pobreza, tendo como
me Anne, uma mulher que em sua juventude fora muito apaixonada por
ele e com a qual tivera um relacionamento antes de conhecer Marie.
     Anne no era uma pessoa equilibrada. Emocionalmente instvel, no
confiava em si mesma e usava a arrogncia para encobrir os defeitos que
julgava ter. Ia da euforia  depresso com extrema facilidade. Assim, seus
relacionamentos afetivos duravam pouco.
     Em um deles, Denis nasceu. Seu pai logo os abandonou e Anne, na
esperana de encontrar um amor duradouro, passava um para outro
culpando todos os homens, sem perceber que a causa do que lhe acontecia
estava na maneira como ela via sua vida.
     Ento, ela conheceu Gerard, um homem bonito, rico, paparicado pelas
mulheres. Apaixonou-se. Empregou-se como arrumadeira na casa dele,
pensando em conquist-lo. Ele, porm, no se interessou por ela. Anne fez
o que pde para chamar sua ateno, mas ele no a levava a srio. At que
a insistncia dela o aborreceu e ele a despediu.
     Deprimida, sem vontade de reagir, no procurou outro emprego. Para
ela, sua vida era uma desgraa e o culpado era Gerard, que lhe tirara o
emprego.
     Denis havia se tornado um menino triste, calado, mas esforado. No
gostava da vida que Anne levava, procurava estudar, sonhava ganhar
dinheiro para tirar a me daquela misria.
     Quando ficavam sem nada para comer, ele saa e procurava ganhar
algumas moedas ajudando as pessoas. Com o que conseguia, comprava
comida, mas, como a quantidade era pouca, deixava tudo para a me,
dizendo que j havia se alimentado.
     Anne o admirava. Para ela, o filho era o nico homem bom do mundo.
Ela sonhava para ele toda a felicidade. Apesar disso, no percebia os
sacrifcios que o menino fazia para que ela ficasse bem.
     Mal alimentado, subnutrido, ele foi enfraquecendo. Quando ele
adoeceu, Anne procurou Gerard. Entrou em sua casa utilizando-se de uma
distrao de um empregado e encontrou-o lendo em seu gabinete.
     Vendo-a, ele irritou-se:
     -- Como foi que entrou?
     -- A porta estava aberta... Vim porque estou desesperada. Meu filho
est doente e no tenho dinheiro para cur-lo.
     -- Foi voc quem arrumou esse filho. O problema  seu.
     -- Me ajude. Preciso trabalhar.
     -- No aqui. Voc no tem responsabilidade. V embora. Me deixe
em paz.
     -- Ele est doente por sua culpa. Voc me despediu sem nenhum
motivo. Eu, que sempre lhe fui dedicada!
     Ela chorou, pediu, brigou, mas ele no se comoveu. Mandou expuls-
la. Cheia de dio, ela voltou para casa. O estado de seu filho foi piorando,
at que ele acabou vitimado pela tuberculose.
     Ela, desesperada, culpou Gerard pela morte dele. Em sua mente,
inconformada com a perda, plasmou uma imagem do filho que carregava
nos braos, acreditando que fosse seu corpo morto.
     Denis, contudo, havia regressado ao astral, tendo deixado naquele
pequeno corpo doente todas as energias que acumulara em seu corpo astral
durante sua vida anterior.
     Ao regressar, sentiu-se melhor. Lembrou-se de algumas vidas
passadas. Ao saber que Marie continuava recusando nossa ajuda, fez o
possvel para que ela se modificasse.
     Na poca, Marie estava deprimida, cansada. Sabendo disso,
organizamos uma equipe socorrista e fomos ao umbral, onde ela residia.
Ns a encontramos aptica, sem reao. Porm, quando viu Denis, mudou
completamente. Assim, conseguimos lev-la para tratamento.
     Ela desejava viver ao lado dele, o que no era possvel porquanto seu
nvel energtico no permitia. Ele a visitava, estimulando-a ao bem,
motivando-a a reagir.
     Foi em uma memorvel reunio em que todos vocs compareceram
que, sob orientao de nosso maiores, estudamos as possibilidades de
melhora de Marie.
     Adele se disps a cooperar recebendo Marie como filha. Denis
desejava nascer e casar-se com ela. Acreditava que sob sua influncia ela
poderia vencer as tentaes do mundo. Porm foi-lhe dito que isso no era
aconselhvel. Seria permitido a ele ficar ao lado dela como filho e s dessa
forma poderia exercer sua influncia sobre ela.
     Gerard, que o tempo transformara em uma pessoa melhor, sentindo-se
culpado pelo descaso com que tratou Anne, concordou em receber Denis
como filho. O problema era que Marie, na nova encarnao, no poderia ter
filhos. Tendo praticado muitos abortos na encarnao anterior, havia lesado
os rgos da reproduo do corpo astral e perdera a fertilidade.
     Foi ento que pedimos a ajuda de Sophie, que a princpio recusou,
mas que acabou nos auxiliando.
     Hoje Marie mudou muito, amadureceu e sei que daqui para frente
continuar progredindo. Quero dizer que estou muito grata por tudo que
fizeram pela minha querida Marie e dizer que ns todos formamos uma
famlia e estamos ligados pelos laos eternos do esprito.
     Que Deus os abenoe.
     O mdium calou-se e o silncio se fez. Todos emocionados, os
presentes no continham as lgrimas.
     Eunice fez uma prece de agradecimento e encerrou a reunio. A luz
foi acesa e a moa ao lado de Eunice levantou-se e distribuiu os copos com
gua.
     Imersos em seus pensamentos ntimos, ningum tinha vontade de
falar, com receio de quebrar a serenidade do ambiente. Foi Adele quem
comeou:
     -- Estou impressionada. O que aconteceu aqui me revelou um mundo
muito maior do que eu pensava. Eu nunca havia participado de uma reunio
como esta. Vim de corao aberto, me perguntando o que isso queria dizer.
S sei que,  medida que Norma falava, comecei a ver cenas, lugares onde
vivi ao lado de Bernardo.
     -- Isso mesmo -- esclareceu Eunice. -- Voc teve lembranas de sua
estada no astral antes de reencarnar.
     -- Isso  extraordinrio. Como pode ser?
     -- Tudo  natural, porquanto em nosso inconsciente ficam gravadas
todas as experincias que vivemos. Tudo est dentro de voc. Em casos
especiais, esses momentos afloram.
     Maria Eugnia, olhos brilhantes de emoo, interveio:
     -- Hoje tive todas as respostas que pedi a Deus. Desde que comecei a
estudar a espiritualidade, tenho me perguntado por que me foi tirada a
chance de gerar filhos. Agora sei. Eu me vi como Marie. Tambm vi
Dionsio como Denis. Tambm sei quem  Sophie, a quem serei agradecida
pelo resto de minha vida por haver me dado  chance de ter Denis ao meu
lado.
        Ela olhava para Marina, que estremeceu sem conseguir responder.
Henrique, olhos midos, tornou com voz que a emoo modificava:
        -- Eu sei que fui Gerard, o homem frio, indiferente. Por isso o
nascimento de Dionsio me trouxe tanta paz. Nada  pior do que o remorso.
E, agora, nunca mais ele me incomodar.
        O silncio se fez durante alguns segundos, depois Rafael disse:
        -- Foi para mim e Marina que Norma contou uma parte dessa histria.
Sei que Marina, to emocionada, no ter condies de cont-la agora. Mas
eu sinto que ela gostaria de fazer isso. Portanto, se quiserem ouvir, posso
relatar o que nos foi revelado.
        Todos se voltaram para ele. Eunice respondeu:
        -- Fale Rafael. Esta noite tudo ser esclarecido. Todos queremos
ouvir.
        Rafael contou como Ccero ficara mediunizado e Rute os ajudara a
atend-lo e depois, para surpresa deles, Norma manifestou-se atravs dela.
Depois ele relatou tudo quanto ela lhes dissera e finalizou:
        -- Devo dizer que ns somos pessoas abenoadas, porque tivemos
acesso a todas essas coisas que nos ofereceram respostas que vm ao
encontro de nossos sentimentos e indagaes. Sou muito grato  fonte da
vida por permitir que eu faa parte deste grupo. Desejo dizer que, diante de
tudo quanto recebemos esta noite, sinto dentro de mim a responsabilidade
no s de me tornar melhor a cada dia, mas tambm de me dedicar ao
estudo da espiritualidade.
        -- Vocs j esto fazendo isso -- tornou Eunice. -- Quando nos
tornamos melhores, estamos melhorando o mundo.
     Conversaram durante mais alguns minutos, depois levantaram-se para
sair. Aps se despedirem de Eunice e dos dois que participaram da reunio,
os trs casais deixaram o prdio.
     Era hora de se despedirem. Adele abraou Marina, dizendo-lhe ao
ouvido:
     -- Obrigada, Sophie querida. Voc soube cumprir sua parte. Deus a
abenoe. Desejo manter nossa amizade.
     -- Obrigada -- respondeu ela. -- Sempre considerei voc uma pessoa
da minha famlia.
     Bernardo a abraou com carinho, dizendo:
     -- Voc merece ser feliz. Eu a admiro muito.
     Maria Eugnia aproximou-se de Marina e abraou-a dizendo baixinho:
     -- Eu sei que foi voc quem me deu o maior presente que j recebi.
Serei eternamente grata.
     Henrique tambm a abraou, dizendo com voz suave:
     -- Voc nos deu a felicidade. Que Deus a proteja e abenoe.
     Eles se foram e Rafael segurou o brao de Marina, dizendo alegre:
     -- Viu? Voc no precisa mais se perguntar o que a vida desejava nos
aproximando. Ela j respondeu.
     -- Sim. Misso cumprida. Agora penso que podemos virar a pgina e
nos preparar para receber nosso filho.
     -- Ou filha. Quem ser que vir juntar-se a ns?
     -- Por enquanto ainda no sabemos. A nica coisa que sei  que neste
mundo nada acontece por acaso.
     Rafael beijou-a com carinho. Abraados e felizes, foram para casa.




     FIM
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